Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Media

Agravam-se as ameaças sobre os jornalistas na Europa

Jornalistas queimados em efígie, insultados e ameaçados, desacreditados pelos dirigentes dos seus próprios países. Processados, assaltados, alvo de ameaças de violação ou de morte, e em vários casos efectivamente assassinados. É este, hoje, o ambiente em que trabalham muitos jornalistas na Europa.

A organização Index on Censorship, com o apoio da Federação Europeia de Jornalistas, reuniu no relatório Mapping Media Freedom mais de três mil episódios de situações deste tipo, registadas desde Maio de 2004. A informação recolhida apresenta os jornalistas e os media onde trabalham como alvos de dirigentes políticos, empresas e mesmo o público em geral  -  mas algumas tendências principais são destacadas e apontadas neste trabalho. O objectivo é fornecer indicações úteis aos legisladores e a quantos desejem continuar a defender o ambiente favorável a uma Imprensa independente e pluralista.

São cinco as tendências-chave assinaladas pelo relatório:

  1.  -  Legislação de segurança anti-terrorista.  Uma legislação bem intencionada, que pretende proteger os cidadãos e instituições de um país, é muitas vezes “cega ao jornalismo de interesse público”. Nos piores casos, é “deliberadamente usada para impedir a divulgação de informação de interesse público”. Em 39 casos referidos, jornalistas foram processados por terem publicado “informação que os governos tinham decidido que não era para debate público”. (...)
  2.   -  Interferência política.  Pode ser interferência directa no trabalho dos media, para alterar ou impedir a divulgação da reportagem indesejada, eventualmente conseguindo a substituição de profissionais. Ou pode ser mais insidiosa, desacreditando os media, os jornalistas e, em alguns casos, toda a “indústria” da Informação, para semear dúvidas sobre a veracidade do seu trabalho. (...)
  3.   -  Assédio pelas redes sociais.  Muitos jornalistas têm aproveitado as novas vias abertas pelas redes sociais, para uma interacção com os seus leitores e debates construtivos sobre temas actuais. Mas o outro lado é uma crescente hostilidade contra os jornalistas, manifestada online por muitas formas de assédio ou ameaça. Os profissionais confrontam-se com ela todos os dias, sabendo que essa agressão é também potenciada pelos dirigentes políticos de muitos Estados. As mulheres são as mais visadas.
  4.   -  Manifestações de rua.  Quando há manifestantes enchendo as ruas, os jornalistas são, necessariamente, dos primeiros a comparecer, como parte do seu dever profissional. Encontram-se também entre os primeiros a serem acossados e insultados. Os incidentes descritos no Mapping Media Freedom dão testemunho das ameaças com que se confrontam em serviço, incluindo falta de compreensão, por parte de algumas forças policiais, sobre o seu papel no local. (...)
  5.   -  Televisão pública.  Uma tendência significativa, mas com menos destaque durante este período, é a ameaça às emissoras de serviço público.  Muitas estações nacionais foram submetidas a um estrito controlo governamental. No seu conjunto, estes relatos sublinham a importância de manter a independência editorial deste serviço público vital.

 

 

Mais informação na Federação Europeia de Jornalistas e no site do Index on Censorship.

O relatório disponível em PDF

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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