Sábado, 25 de Maio, 2019
Media

Novo jornal francês gratuito aposta na reportagem de investigação

“A investigação nunca é rentável. Num contexto de constrangimento orçamental, é cada vez mais posta de lado nos media tradicionais. Torna-se impensável mobilizar um jornalista, ou vários, a tempo inteiro, para uma investigação que leva vários meses.” A reflexão é de Geoffrey Livolsi, que, com Mathias Destal, constitui a dupla fundadora de Disclose, apresentado como o primeiro projecto francês de jornalismo de investigação independente, inteiramente financiado por mecenato.

O novo jornal pretende-se não partidário, independente e sem assinaturas, baseado na filantropia. Os seus fundadores começam por lançar uma campanha de investimento participativo até 17 de Dezembro, dirigida ao site disclose.ngo.

“A informação não é um produto comercial, mas sim um bem público e um direito”  - afirma Geoffrey Livolsi. “Deve ser, portanto, acessível gratuitamente ao maior número possível, e defendida pelos cidadãos. Pelo acto de participação, os doadores fazem a escolha de sustentar a independência dos jornalistas e de encorajar investigações de impacto social.”

E Mathias Destal acrescenta: “Há três anos não faríamos a mesma reflexão. Mas os ataques contra a democracia estão a gerar uma tomada de consciência dos cidadãos.”

Os assuntos a cobrir passam pelos delitos financeiros, crimes ambientais, a indústria agro-alimentar, vigilância e liberdades fundamentais, saúde pública e questões de energia  -  uma recolha de temas possíveis, com o objectivo de denunciar os abusos de poder. Serão decididos por um comité editorial voluntário, composto por 14 jornalistas experimentados, entre eles Jean-Pierre Canet (ex-chefe da redacção de Envoyé Spécial), Benoît Collombat (France Inter), Valentine Oberti (Quotidien) e Anne Poiret (galardoada com o Prémio Albert Londres). 

Mathias Destal explica que, para efeitos de publicação, tencionam, além do site disclose.ngo, apoiar-se em media já existentes, como a Médiapart, Rue 89, o site de vídeos Konbini, a célula de investigação da Radio France ou ainda Marsactu, um jornal digital independente, de Marselha. 

“A ideia não é nova: o jornalismo colaborativo e a pulicação em suportes diversos já tem prestado propvas, nestes últimos anos, com as revelações a nível mundial, feitas pelo consórcio de investigação ICIJ e pelas Forbidden Stories, por exemplo (Panama Papers, Daphne Project).” (...) 

“Mas, para que o modelo seja viável, os fundadores de Disclose contam ainda, para conseguirem chegar ao objectivo dos 400 mil euros no primeiro ano, com o envolvimento de mecenas mais importantes do que a estrita contribuição popular: a de fundações privadas. A aposta é ousada.” Como explica Mathias Destal: 

“De momento, em França, nenhuma fundação apoia projectos mediáticos, estando a filantropia reservada sobretudo ao domínio cultural.” 

A Disclosure inspira-se num modelo de negócio muito corrente nos Estados Unidos, “onde existe uma longa tradição de filantropia por parte de homens de negócios  -  cujos pioneiros foram, nomeadamente, Andrew Carnegie e as famílias Rockfeller e Ford; várias estruturas de investigação são hoje financiadas por fundações privadas, como é o caso da ProPublica”: 

“Lançada em 2008 por Marion e Herbert Sandler, dois mecenas da Califórnia, este meio já não tem que provar a sua força de ataque. Financiado por este casal de milionários democratas, antigos proprietários da Golden West Financial, uma caixa de poupança e crédito, foi galardoado em 2009 com o Prémio Pulitzer por uma investigação com capa da New York Times Magazine.” (...) 

Mas esta filantropia levanta sempre perguntas sobre os conteúdos dos media beneficiados. “Para garantir a independência da sua redacção, a Disclose exige dos doadores (...) que renunciem a todo o poder sobre a linha editorial.” 

Beneficiam, no entanto, de um direito de vistoria sobre a gestão e utilização dos fundos, elegendo dois representantes no conselho de administração.

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra, em L’Obs

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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