Quinta-feira, 22 de Agosto, 2019
Media

Novo jornal francês gratuito aposta na reportagem de investigação

“A investigação nunca é rentável. Num contexto de constrangimento orçamental, é cada vez mais posta de lado nos media tradicionais. Torna-se impensável mobilizar um jornalista, ou vários, a tempo inteiro, para uma investigação que leva vários meses.” A reflexão é de Geoffrey Livolsi, que, com Mathias Destal, constitui a dupla fundadora de Disclose, apresentado como o primeiro projecto francês de jornalismo de investigação independente, inteiramente financiado por mecenato.

O novo jornal pretende-se não partidário, independente e sem assinaturas, baseado na filantropia. Os seus fundadores começam por lançar uma campanha de investimento participativo até 17 de Dezembro, dirigida ao site disclose.ngo.

“A informação não é um produto comercial, mas sim um bem público e um direito”  - afirma Geoffrey Livolsi. “Deve ser, portanto, acessível gratuitamente ao maior número possível, e defendida pelos cidadãos. Pelo acto de participação, os doadores fazem a escolha de sustentar a independência dos jornalistas e de encorajar investigações de impacto social.”

E Mathias Destal acrescenta: “Há três anos não faríamos a mesma reflexão. Mas os ataques contra a democracia estão a gerar uma tomada de consciência dos cidadãos.”

Os assuntos a cobrir passam pelos delitos financeiros, crimes ambientais, a indústria agro-alimentar, vigilância e liberdades fundamentais, saúde pública e questões de energia  -  uma recolha de temas possíveis, com o objectivo de denunciar os abusos de poder. Serão decididos por um comité editorial voluntário, composto por 14 jornalistas experimentados, entre eles Jean-Pierre Canet (ex-chefe da redacção de Envoyé Spécial), Benoît Collombat (France Inter), Valentine Oberti (Quotidien) e Anne Poiret (galardoada com o Prémio Albert Londres). 

Mathias Destal explica que, para efeitos de publicação, tencionam, além do site disclose.ngo, apoiar-se em media já existentes, como a Médiapart, Rue 89, o site de vídeos Konbini, a célula de investigação da Radio France ou ainda Marsactu, um jornal digital independente, de Marselha. 

“A ideia não é nova: o jornalismo colaborativo e a pulicação em suportes diversos já tem prestado propvas, nestes últimos anos, com as revelações a nível mundial, feitas pelo consórcio de investigação ICIJ e pelas Forbidden Stories, por exemplo (Panama Papers, Daphne Project).” (...) 

“Mas, para que o modelo seja viável, os fundadores de Disclose contam ainda, para conseguirem chegar ao objectivo dos 400 mil euros no primeiro ano, com o envolvimento de mecenas mais importantes do que a estrita contribuição popular: a de fundações privadas. A aposta é ousada.” Como explica Mathias Destal: 

“De momento, em França, nenhuma fundação apoia projectos mediáticos, estando a filantropia reservada sobretudo ao domínio cultural.” 

A Disclosure inspira-se num modelo de negócio muito corrente nos Estados Unidos, “onde existe uma longa tradição de filantropia por parte de homens de negócios  -  cujos pioneiros foram, nomeadamente, Andrew Carnegie e as famílias Rockfeller e Ford; várias estruturas de investigação são hoje financiadas por fundações privadas, como é o caso da ProPublica”: 

“Lançada em 2008 por Marion e Herbert Sandler, dois mecenas da Califórnia, este meio já não tem que provar a sua força de ataque. Financiado por este casal de milionários democratas, antigos proprietários da Golden West Financial, uma caixa de poupança e crédito, foi galardoado em 2009 com o Prémio Pulitzer por uma investigação com capa da New York Times Magazine.” (...) 

Mas esta filantropia levanta sempre perguntas sobre os conteúdos dos media beneficiados. “Para garantir a independência da sua redacção, a Disclose exige dos doadores (...) que renunciem a todo o poder sobre a linha editorial.” 

Beneficiam, no entanto, de um direito de vistoria sobre a gestão e utilização dos fundos, elegendo dois representantes no conselho de administração.

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra, em L’Obs

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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