Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Media

Novo jornal francês gratuito aposta na reportagem de investigação

“A investigação nunca é rentável. Num contexto de constrangimento orçamental, é cada vez mais posta de lado nos media tradicionais. Torna-se impensável mobilizar um jornalista, ou vários, a tempo inteiro, para uma investigação que leva vários meses.” A reflexão é de Geoffrey Livolsi, que, com Mathias Destal, constitui a dupla fundadora de Disclose, apresentado como o primeiro projecto francês de jornalismo de investigação independente, inteiramente financiado por mecenato.

O novo jornal pretende-se não partidário, independente e sem assinaturas, baseado na filantropia. Os seus fundadores começam por lançar uma campanha de investimento participativo até 17 de Dezembro, dirigida ao site disclose.ngo.

“A informação não é um produto comercial, mas sim um bem público e um direito”  - afirma Geoffrey Livolsi. “Deve ser, portanto, acessível gratuitamente ao maior número possível, e defendida pelos cidadãos. Pelo acto de participação, os doadores fazem a escolha de sustentar a independência dos jornalistas e de encorajar investigações de impacto social.”

E Mathias Destal acrescenta: “Há três anos não faríamos a mesma reflexão. Mas os ataques contra a democracia estão a gerar uma tomada de consciência dos cidadãos.”

Os assuntos a cobrir passam pelos delitos financeiros, crimes ambientais, a indústria agro-alimentar, vigilância e liberdades fundamentais, saúde pública e questões de energia  -  uma recolha de temas possíveis, com o objectivo de denunciar os abusos de poder. Serão decididos por um comité editorial voluntário, composto por 14 jornalistas experimentados, entre eles Jean-Pierre Canet (ex-chefe da redacção de Envoyé Spécial), Benoît Collombat (France Inter), Valentine Oberti (Quotidien) e Anne Poiret (galardoada com o Prémio Albert Londres). 

Mathias Destal explica que, para efeitos de publicação, tencionam, além do site disclose.ngo, apoiar-se em media já existentes, como a Médiapart, Rue 89, o site de vídeos Konbini, a célula de investigação da Radio France ou ainda Marsactu, um jornal digital independente, de Marselha. 

“A ideia não é nova: o jornalismo colaborativo e a pulicação em suportes diversos já tem prestado propvas, nestes últimos anos, com as revelações a nível mundial, feitas pelo consórcio de investigação ICIJ e pelas Forbidden Stories, por exemplo (Panama Papers, Daphne Project).” (...) 

“Mas, para que o modelo seja viável, os fundadores de Disclose contam ainda, para conseguirem chegar ao objectivo dos 400 mil euros no primeiro ano, com o envolvimento de mecenas mais importantes do que a estrita contribuição popular: a de fundações privadas. A aposta é ousada.” Como explica Mathias Destal: 

“De momento, em França, nenhuma fundação apoia projectos mediáticos, estando a filantropia reservada sobretudo ao domínio cultural.” 

A Disclosure inspira-se num modelo de negócio muito corrente nos Estados Unidos, “onde existe uma longa tradição de filantropia por parte de homens de negócios  -  cujos pioneiros foram, nomeadamente, Andrew Carnegie e as famílias Rockfeller e Ford; várias estruturas de investigação são hoje financiadas por fundações privadas, como é o caso da ProPublica”: 

“Lançada em 2008 por Marion e Herbert Sandler, dois mecenas da Califórnia, este meio já não tem que provar a sua força de ataque. Financiado por este casal de milionários democratas, antigos proprietários da Golden West Financial, uma caixa de poupança e crédito, foi galardoado em 2009 com o Prémio Pulitzer por uma investigação com capa da New York Times Magazine.” (...) 

Mas esta filantropia levanta sempre perguntas sobre os conteúdos dos media beneficiados. “Para garantir a independência da sua redacção, a Disclose exige dos doadores (...) que renunciem a todo o poder sobre a linha editorial.” 

Beneficiam, no entanto, de um direito de vistoria sobre a gestão e utilização dos fundos, elegendo dois representantes no conselho de administração.

 

 

O artigo aqui citado, na íntegra, em L’Obs

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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