Sábado, 25 de Maio, 2019
Media

“Polígrafo” vai fazer “fact checking” em tempo real

Foi anunciado, durante a Web Summit, o lançamento do Polígrafo, um novo jornal digital especializado em verificação de factos. Conforme explica o seu fundador, o jornalista Fernando Esteves, é “imperioso neste momento, porque 60% da informação que as pessoas consomem vem a partir das redes sociais”, sem qualquer triagem jornalística, e “onde corre muita desinformação, alguma por negligência do cidadão comum, outra que é posta a circular por fontes profissionais”.

A prática do fact checking “nasceu há cerca de 12 anos nos EUA, com uma experiência chamada Politifact, neste momento o maior site de fact checking do mundo e uma espécie de farol para todos os outros”. Em Portugal, o novo site Polígrafo “vai classificar a informação dita por políticos e líderes de opinião em cinco categorias:  verdadeira;  verdadeira, mas;  imprecisa;  falsa; e pimenta na língua (quando a mentira é escandalosa)”.

A informação é do próprio Fernando Esteves, em entrevista ao Expresso, que aqui citamos.

Em resposta à pergunta sobre se a função do Polígrafo será “descontruir as fake news”, responde: 

“O termo fake news [notícias falsas] também tem muito que se lhe diga. É uma expressão que está a ser, cada vez mais, banida, porque se é fake [falso] não é new [notícia] e se é new não é fake. Não vamos desconstruir notícias, vamos desconstruir o que está na base das notícias. Não vamos fazer fact checking de notícias, mas de protagonistas. Quero focar-me na mensagem, não no mensageiro.” (...) 

Sobre o que torna diferente este projecto, Fernando Esteves compara-o com “a Imprensa tradicional que tem vindo a ser esvaziada de capacidade nos últimos anos, por não segurar as pessoas com mais experiência”: 

“As redacções perderam também porque encolheram, não têm tantos meios humanos para fazer uma triagem mais séria e mais aguda da informação que chega. Não estou a falar de falta de seriedade, estou a falar de falta de meios. Se à falta de meios da Imprensa tradicional se junta a desinformação que circula nas redes sociais, então temos um fenómeno explosivo para o cidadão deixar de acreditar na informação que lhe chega.” (...) 

“Há um estudo do Poynter Institute, feito depois das eleições americanas, que concluiu que se uma pessoa for impactada três vezes por uma informação falsa, acaba por acreditar nela. Isto se a informação falsa for contra as suas convicções, porque se for ao encontro das suas convicções acredita à primeira. Isto é muito perigoso, pode ser utilizado por candidatos a ditadores.” (...) 

Sobre o modo como vai funcionar o Polígrafo

“Vai ser fact checking puro. Vamos avaliar dezenas de protagonistas em permanência, primeiro-ministro, membros do Governo, líderes da oposição, deputados. Estamos a falar de influenciadores, personagens com capacidade de gerar debate nas redes sociais, como Marques Mendes ou Francisco Louçã. No fundo, todas as pessoas que têm uma voz na sociedade portuguesa.” 

“Imaginemos a cobertura do debate no Parlamento, nós vamos lá estar numa lógica diferente. Fazemos um estudo prévio, vamos já com dados muito concretos, vamos ter um interlocutor especialista dentro de cada bancada parlamentar. Vamos fazer fact checking em tempo real. É colocar exigência em cima das pessoas que se movimentam no espaço público.” (...) 

Sobre as fontes de financiamento do projecto, afirma: 

“A maior parte destes projectos são financiados por fundações e ONG, mas também há projectos comerciais. No caso do Polígrafo, percebi que as fundações privadas não têm capacidade financeira para um projecto destes. Vai ser um projecto comercial, associei-me ao Sapo, a Altice vai tomar conta do departamento comercial do site.” 

“Como nos outros jornais, as receitas vêm da publicidade, patrocínios, conferências, vamos fazer o que qualquer órgão de comunicação social faz. Mas vamos acrescentar uma faceta nova, temos um programa chamado Polígrafo Educação, que consiste em workshops de literacia mediática em escolas do ensino básico e secundário.” 

“O problema das crianças é que acreditam em tudo o que lhes chega através dos youtubers, têm de aprender a duvidar. Estou a preparar uma parceria com o maior site de fact checking do Brasil, a agência Lupa, que tem um programa semelhante. 60% dos lucros vem da realização destes workshops.” (...)

 

Mais informação na entrevista ao Expresso e no ECO - Economia Online

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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