null, 24 de Março, 2019
Media

“Polígrafo” vai fazer “fact checking” em tempo real

Foi anunciado, durante a Web Summit, o lançamento do Polígrafo, um novo jornal digital especializado em verificação de factos. Conforme explica o seu fundador, o jornalista Fernando Esteves, é “imperioso neste momento, porque 60% da informação que as pessoas consomem vem a partir das redes sociais”, sem qualquer triagem jornalística, e “onde corre muita desinformação, alguma por negligência do cidadão comum, outra que é posta a circular por fontes profissionais”.

A prática do fact checking “nasceu há cerca de 12 anos nos EUA, com uma experiência chamada Politifact, neste momento o maior site de fact checking do mundo e uma espécie de farol para todos os outros”. Em Portugal, o novo site Polígrafo “vai classificar a informação dita por políticos e líderes de opinião em cinco categorias:  verdadeira;  verdadeira, mas;  imprecisa;  falsa; e pimenta na língua (quando a mentira é escandalosa)”.

A informação é do próprio Fernando Esteves, em entrevista ao Expresso, que aqui citamos.

Em resposta à pergunta sobre se a função do Polígrafo será “descontruir as fake news”, responde: 

“O termo fake news [notícias falsas] também tem muito que se lhe diga. É uma expressão que está a ser, cada vez mais, banida, porque se é fake [falso] não é new [notícia] e se é new não é fake. Não vamos desconstruir notícias, vamos desconstruir o que está na base das notícias. Não vamos fazer fact checking de notícias, mas de protagonistas. Quero focar-me na mensagem, não no mensageiro.” (...) 

Sobre o que torna diferente este projecto, Fernando Esteves compara-o com “a Imprensa tradicional que tem vindo a ser esvaziada de capacidade nos últimos anos, por não segurar as pessoas com mais experiência”: 

“As redacções perderam também porque encolheram, não têm tantos meios humanos para fazer uma triagem mais séria e mais aguda da informação que chega. Não estou a falar de falta de seriedade, estou a falar de falta de meios. Se à falta de meios da Imprensa tradicional se junta a desinformação que circula nas redes sociais, então temos um fenómeno explosivo para o cidadão deixar de acreditar na informação que lhe chega.” (...) 

“Há um estudo do Poynter Institute, feito depois das eleições americanas, que concluiu que se uma pessoa for impactada três vezes por uma informação falsa, acaba por acreditar nela. Isto se a informação falsa for contra as suas convicções, porque se for ao encontro das suas convicções acredita à primeira. Isto é muito perigoso, pode ser utilizado por candidatos a ditadores.” (...) 

Sobre o modo como vai funcionar o Polígrafo

“Vai ser fact checking puro. Vamos avaliar dezenas de protagonistas em permanência, primeiro-ministro, membros do Governo, líderes da oposição, deputados. Estamos a falar de influenciadores, personagens com capacidade de gerar debate nas redes sociais, como Marques Mendes ou Francisco Louçã. No fundo, todas as pessoas que têm uma voz na sociedade portuguesa.” 

“Imaginemos a cobertura do debate no Parlamento, nós vamos lá estar numa lógica diferente. Fazemos um estudo prévio, vamos já com dados muito concretos, vamos ter um interlocutor especialista dentro de cada bancada parlamentar. Vamos fazer fact checking em tempo real. É colocar exigência em cima das pessoas que se movimentam no espaço público.” (...) 

Sobre as fontes de financiamento do projecto, afirma: 

“A maior parte destes projectos são financiados por fundações e ONG, mas também há projectos comerciais. No caso do Polígrafo, percebi que as fundações privadas não têm capacidade financeira para um projecto destes. Vai ser um projecto comercial, associei-me ao Sapo, a Altice vai tomar conta do departamento comercial do site.” 

“Como nos outros jornais, as receitas vêm da publicidade, patrocínios, conferências, vamos fazer o que qualquer órgão de comunicação social faz. Mas vamos acrescentar uma faceta nova, temos um programa chamado Polígrafo Educação, que consiste em workshops de literacia mediática em escolas do ensino básico e secundário.” 

“O problema das crianças é que acreditam em tudo o que lhes chega através dos youtubers, têm de aprender a duvidar. Estou a preparar uma parceria com o maior site de fact checking do Brasil, a agência Lupa, que tem um programa semelhante. 60% dos lucros vem da realização destes workshops.” (...)

 

Mais informação na entrevista ao Expresso e no ECO - Economia Online

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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