Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
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Jornalismo de qualidade para contrapor a modelos esgotados

Muitos dos debates que temos hoje sobre os media centram-se frequentemente sobre a questão do que é um jornalismo de qualidade. A resposta pode parecer fácil mas, quanto mais aprofundamos, mais baço se torna o conceito. E isto é importante, porque o jornalismo está em dificuldades.

“Os modelos tradicionais de negócio estão a ser abalados, assim como a confiança, enquanto aumentam os riscos para os jornalistas, mesmo na Europa. Cada vez mais, os jovens talentosos parecem optar pela saída, por estes motivos. Se esta tendência continua, fica em causa a sobrevivência da profissão. É por isto que se multiplicam iniciativas de apoio ao jornalismo de qualidade.”

A reflexão é de Alexandra Borchardt, Directora de Desenvolvimento Estratégico no Reuters Institute, em artigo publicado no site do Observatório Europeu de Jornalismo.

Assim, o Conselho da Europa promoveu a criação de um Conselho de Peritos sobre jornalismo de qualidade na era digital  - a que pertence a autora deste texto -  que prepara regras de conduta para os Estados membros. Outros projectos, como a Journalism Trust Initiative, lançada pelos Repórteres sem Fronteiras, ou The Trust Project, um consórcio de empresas de media, preocupadas com as questões de ética, rigor e imparcialidade, procuram também contribuir neste sentido. 

“É neste ponto que começa o debate sobre a qualidade. Se queremos salvar o jornalismo, não devíamos concentrar toda a nossa energia e recursos no patamar de cima, o de alta qualidade? Talvez  -  mas onde começa ele?”  -  interroga-se Alexandra Borchardt. 

O seu texto vai então a questões concretas, como a do jornalismo “tablóide”, por exemplo. “Qual é o valor acrescentado em reportagens sobre o vestuário de gravidez de Meghan Markel, ou em artigos sobre a possibilidade da visita de um extra-terrestre, vindo do espaço exterior?” 

“Ou a qualidade de um relato escabroso e completamente detalhado de um acidente fatal, quando os próprios entes queridos [da vítima] não tiveram a oportunidade de os conhecer em primeiro lugar? 

Outros opinam que mesmo este tipo de conteúdo pode ser justificado se, pelo menos, contribui para sustentar o “material autêntico”. Mas qual é então esse “material autêntico”? A reportagem de política, de assuntos económicos, ou investigações de outra espécie? Que diremos da reportagem de desporto, ou sobre comida, ou sobre os aspectos mais lúdicos da secção de cultura? 

A autora chama todos estes exemplos para explicitar que a definição de “jornalismo de qualidade” não é só mais complicada do que parecia, mas pode tornar-se escorregadia e levar a muitos abusos. “Os regimes autoritários, por exemplo, não têm dificuldade em explicar o que é a qualidade, do seu ponto de vista: certamente nada que ponha em causa os que estão no poder.” (...) 

A sua proposta é, em primeiro lugar, a de separar o termo “jornalismo de qualidade” de trabalhos concretos vistos como modelo. “Para sermos francos, pode haver muito mau jornalismo em publicações de alta-qualidade.” (...) 

“Em vez de ser associado a peças que ganham prémios, o termo ‘qualidade’ devia ser ligado a processos que conduzem ao mesmo: a reportagem no terreno, a consulta de segundas ou terceiras fontes, ter um segundo ou terceiro par de olhos a rever o texto, o uso de dados relevantes, manter-se independente de interesses de negócio, usar procedimentos de fact-checking à prova de pressão, mostrar transparência em situações de erros factuais e má avaliação jornalística, manter alta a fasquia no recrutamento e treino de [novos] talentos  -  e alimentar uma cultura que está pronta a fazer o escrutínio destes processos.” (...) 

“Em última instância, do que trata o jornalismo é de ajudar os cidadãos a tomarem as suas decisões e formarem as suas opiniões em todas as áreas da vida, não apenas na política ou na economia. Trata de responabilizar os poderes, trata de levantar a cortina, de explicar e retratar o mundo. E trata também da ambição (e obrigação) de tornar estas coisas interessantes. Sem uma audiência, o jornalismo não conseguirá atingir nenhum destes propósitos.” (...)

 

O texto citado, na íntegra, no European Journalism Observatory

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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Francisco Sarsfield Cabral
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