Quinta-feira, 22 de Agosto, 2019
Fórum

Jornalismo de qualidade para contrapor a modelos esgotados

Muitos dos debates que temos hoje sobre os media centram-se frequentemente sobre a questão do que é um jornalismo de qualidade. A resposta pode parecer fácil mas, quanto mais aprofundamos, mais baço se torna o conceito. E isto é importante, porque o jornalismo está em dificuldades.

“Os modelos tradicionais de negócio estão a ser abalados, assim como a confiança, enquanto aumentam os riscos para os jornalistas, mesmo na Europa. Cada vez mais, os jovens talentosos parecem optar pela saída, por estes motivos. Se esta tendência continua, fica em causa a sobrevivência da profissão. É por isto que se multiplicam iniciativas de apoio ao jornalismo de qualidade.”

A reflexão é de Alexandra Borchardt, Directora de Desenvolvimento Estratégico no Reuters Institute, em artigo publicado no site do Observatório Europeu de Jornalismo.

Assim, o Conselho da Europa promoveu a criação de um Conselho de Peritos sobre jornalismo de qualidade na era digital  - a que pertence a autora deste texto -  que prepara regras de conduta para os Estados membros. Outros projectos, como a Journalism Trust Initiative, lançada pelos Repórteres sem Fronteiras, ou The Trust Project, um consórcio de empresas de media, preocupadas com as questões de ética, rigor e imparcialidade, procuram também contribuir neste sentido. 

“É neste ponto que começa o debate sobre a qualidade. Se queremos salvar o jornalismo, não devíamos concentrar toda a nossa energia e recursos no patamar de cima, o de alta qualidade? Talvez  -  mas onde começa ele?”  -  interroga-se Alexandra Borchardt. 

O seu texto vai então a questões concretas, como a do jornalismo “tablóide”, por exemplo. “Qual é o valor acrescentado em reportagens sobre o vestuário de gravidez de Meghan Markel, ou em artigos sobre a possibilidade da visita de um extra-terrestre, vindo do espaço exterior?” 

“Ou a qualidade de um relato escabroso e completamente detalhado de um acidente fatal, quando os próprios entes queridos [da vítima] não tiveram a oportunidade de os conhecer em primeiro lugar? 

Outros opinam que mesmo este tipo de conteúdo pode ser justificado se, pelo menos, contribui para sustentar o “material autêntico”. Mas qual é então esse “material autêntico”? A reportagem de política, de assuntos económicos, ou investigações de outra espécie? Que diremos da reportagem de desporto, ou sobre comida, ou sobre os aspectos mais lúdicos da secção de cultura? 

A autora chama todos estes exemplos para explicitar que a definição de “jornalismo de qualidade” não é só mais complicada do que parecia, mas pode tornar-se escorregadia e levar a muitos abusos. “Os regimes autoritários, por exemplo, não têm dificuldade em explicar o que é a qualidade, do seu ponto de vista: certamente nada que ponha em causa os que estão no poder.” (...) 

A sua proposta é, em primeiro lugar, a de separar o termo “jornalismo de qualidade” de trabalhos concretos vistos como modelo. “Para sermos francos, pode haver muito mau jornalismo em publicações de alta-qualidade.” (...) 

“Em vez de ser associado a peças que ganham prémios, o termo ‘qualidade’ devia ser ligado a processos que conduzem ao mesmo: a reportagem no terreno, a consulta de segundas ou terceiras fontes, ter um segundo ou terceiro par de olhos a rever o texto, o uso de dados relevantes, manter-se independente de interesses de negócio, usar procedimentos de fact-checking à prova de pressão, mostrar transparência em situações de erros factuais e má avaliação jornalística, manter alta a fasquia no recrutamento e treino de [novos] talentos  -  e alimentar uma cultura que está pronta a fazer o escrutínio destes processos.” (...) 

“Em última instância, do que trata o jornalismo é de ajudar os cidadãos a tomarem as suas decisões e formarem as suas opiniões em todas as áreas da vida, não apenas na política ou na economia. Trata de responabilizar os poderes, trata de levantar a cortina, de explicar e retratar o mundo. E trata também da ambição (e obrigação) de tornar estas coisas interessantes. Sem uma audiência, o jornalismo não conseguirá atingir nenhum destes propósitos.” (...)

 

O texto citado, na íntegra, no European Journalism Observatory

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

É tempo de férias. E este site do Clube Português de Imprensa (CPI) não foge à regra e volta a respeitar Agosto,  como o mês mais procurado pelos seus visitantes para uma pausa nos afazeres. Suspendemos, por isso,  a  actualização diária,  a partir do  fim de semana. 

Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


ver mais >
Opinião
Os jornalistas e os incêndios
Francisco Sarsfield Cabral
Nos terríveis incêndios florestais de 2017 ouviram-se críticas à maneira sensacionalista como a comunicação social, ou parte dela, havia tratado essa tragédia. Julgo que, de facto, demasiadas vezes houve, então, uma exploração algo abusiva do que se estava a passar. As imagens televisivas de grandes fogos, sobretudo de noite, são muito atractivas. Mas podem induzir potenciais pirómanos a passarem à...
O descalabro do Grupo Global Media era uma questão de tempo. Alienada a sede patrimonial do Diário de Notícias  - o histórico edifício projectado por Pardal Monteiro, no topo da avenida da Liberdade, entregue sem preconceitos à gula imobiliária, perante a indiferença do Municipio e do Governo  - o plano inclinado ficou à vista.Se ao centenário DN foi destinado um comodato  nas Torres Lisboa,  ao Jornal de...
Um relatório recente sobre os princípios de actuação mais frequentes dos maiores publishers digitais dá algumas indicações que vale a pena ter em conta. O estudo “Digital Publishers Report”, divulgado pelo site Digiday, analisa as práticas de uma centena de editores e destaca alguns factores que, na sua opinião, permitem obter os melhores resultados. O estudo estima que as receitas provenientes de conteúdo digital...
Agenda
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigéria
04
Set
Infocomm China
09:00 @ Chengdu, Sichuan Province, China
09
Set
Facebook Ads Summit 2019
09:00 @ Online
16
Set
23
Set
Radio Broadcasters Convention of Southern Africa
09:00 @ Johannesburg, África do Sul