Sábado, 25 de Maio, 2019
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Jornalismo de qualidade para contrapor a modelos esgotados

Muitos dos debates que temos hoje sobre os media centram-se frequentemente sobre a questão do que é um jornalismo de qualidade. A resposta pode parecer fácil mas, quanto mais aprofundamos, mais baço se torna o conceito. E isto é importante, porque o jornalismo está em dificuldades.

“Os modelos tradicionais de negócio estão a ser abalados, assim como a confiança, enquanto aumentam os riscos para os jornalistas, mesmo na Europa. Cada vez mais, os jovens talentosos parecem optar pela saída, por estes motivos. Se esta tendência continua, fica em causa a sobrevivência da profissão. É por isto que se multiplicam iniciativas de apoio ao jornalismo de qualidade.”

A reflexão é de Alexandra Borchardt, Directora de Desenvolvimento Estratégico no Reuters Institute, em artigo publicado no site do Observatório Europeu de Jornalismo.

Assim, o Conselho da Europa promoveu a criação de um Conselho de Peritos sobre jornalismo de qualidade na era digital  - a que pertence a autora deste texto -  que prepara regras de conduta para os Estados membros. Outros projectos, como a Journalism Trust Initiative, lançada pelos Repórteres sem Fronteiras, ou The Trust Project, um consórcio de empresas de media, preocupadas com as questões de ética, rigor e imparcialidade, procuram também contribuir neste sentido. 

“É neste ponto que começa o debate sobre a qualidade. Se queremos salvar o jornalismo, não devíamos concentrar toda a nossa energia e recursos no patamar de cima, o de alta qualidade? Talvez  -  mas onde começa ele?”  -  interroga-se Alexandra Borchardt. 

O seu texto vai então a questões concretas, como a do jornalismo “tablóide”, por exemplo. “Qual é o valor acrescentado em reportagens sobre o vestuário de gravidez de Meghan Markel, ou em artigos sobre a possibilidade da visita de um extra-terrestre, vindo do espaço exterior?” 

“Ou a qualidade de um relato escabroso e completamente detalhado de um acidente fatal, quando os próprios entes queridos [da vítima] não tiveram a oportunidade de os conhecer em primeiro lugar? 

Outros opinam que mesmo este tipo de conteúdo pode ser justificado se, pelo menos, contribui para sustentar o “material autêntico”. Mas qual é então esse “material autêntico”? A reportagem de política, de assuntos económicos, ou investigações de outra espécie? Que diremos da reportagem de desporto, ou sobre comida, ou sobre os aspectos mais lúdicos da secção de cultura? 

A autora chama todos estes exemplos para explicitar que a definição de “jornalismo de qualidade” não é só mais complicada do que parecia, mas pode tornar-se escorregadia e levar a muitos abusos. “Os regimes autoritários, por exemplo, não têm dificuldade em explicar o que é a qualidade, do seu ponto de vista: certamente nada que ponha em causa os que estão no poder.” (...) 

A sua proposta é, em primeiro lugar, a de separar o termo “jornalismo de qualidade” de trabalhos concretos vistos como modelo. “Para sermos francos, pode haver muito mau jornalismo em publicações de alta-qualidade.” (...) 

“Em vez de ser associado a peças que ganham prémios, o termo ‘qualidade’ devia ser ligado a processos que conduzem ao mesmo: a reportagem no terreno, a consulta de segundas ou terceiras fontes, ter um segundo ou terceiro par de olhos a rever o texto, o uso de dados relevantes, manter-se independente de interesses de negócio, usar procedimentos de fact-checking à prova de pressão, mostrar transparência em situações de erros factuais e má avaliação jornalística, manter alta a fasquia no recrutamento e treino de [novos] talentos  -  e alimentar uma cultura que está pronta a fazer o escrutínio destes processos.” (...) 

“Em última instância, do que trata o jornalismo é de ajudar os cidadãos a tomarem as suas decisões e formarem as suas opiniões em todas as áreas da vida, não apenas na política ou na economia. Trata de responabilizar os poderes, trata de levantar a cortina, de explicar e retratar o mundo. E trata também da ambição (e obrigação) de tornar estas coisas interessantes. Sem uma audiência, o jornalismo não conseguirá atingir nenhum destes propósitos.” (...)

 

O texto citado, na íntegra, no European Journalism Observatory

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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