Quinta-feira, 18 de Julho, 2019
Opinião

A indigência mediática

por Dinis de Abreu

Há cerca de um ano, António Barreto  costumava assinar uma assertiva coluna de opinião no Diário de Noticias, entretanto desaparecida como outras, sem deixar rasto.

Numa delas,  reconhecia ser “simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão” . E comentava, a propósito,  que  “a vulgaridade é sinal de verdade. A boçalidade é prova do que é genuíno. A submissão ao poder e aos partidos é democracia. A falta de cultura e de inteligência é isenção profissional”.

A situação mediática, de então para cá, não melhorou. Pelo contrário, conheceu um agravamento que salta à vista do mais desprevenido, afectando a televisão, a Imprensa e a Rádio.

Os “comentadores” encartados saltitam de um estúdio para outro e têm espaços cativos em jornais, desde políticos na reforma ou no activo, a jornalistas que não escondem as suas capelinhas ideológicas, actuando  em função delas.

A preguiça instalou-se nas redacções – incluindo os escassos meios que ainda se reclamam de “referência” - e raras são aquelas onde ainda subsiste agenda, para simular algum esforço de reportagem, de pesquisa e de tratamento qualificado da informação, longe da obsessão das redes sociais..

A situação descrita por Barreto continua, infelizmente, a pontuar  a realidade mediática : “Quem marca a agenda dos noticiários são os partidos, os ministros e os treinadores de futebol. Quem estabelece os horários são as conferências de imprensa, as inaugurações, as visitas de ministros e os jogadores de futebol.”

O seguidismo militante, que tem contaminado o jornalismo português, nota-se pela forma como o primeiro ministro ou o Presidente da República são acompanhados  aonde quer que se desloquem, e abordados sistematicamente,  de uma forma acrítica, como se fossem mais dois comentadores.

A agenda mediática confunde-se com a agenda política. Em vez de se documentarem e reflectirem seriamente sobre os problemas que vicejam no espaço público, sobram os jornalistas que  preferem “surfar” a onda que estiver na moda do “politicamente correcto”.

“A concepção do pluralismo é de uma total indigência (…)”, acusava  ainda Barreto. E com razão.  Quem poderá contestar essa leitura pessimista e sombria , quando se observam múltiplos fenómenos  de  mediocridade impante,  que desfila nos telejornais e nos painéis de pseudo-debates nas televisões ?

A imbecilização do País, através de doses maciças de  futebol  - servidas em estúdio e em “directos” dos relvados -, e de gente promovida a “comentador”  político, sem nada que a recomende para tal,  é assustadora. 

Falta o critério profissional, escasseiam o rigor e a independência, e sobeja o enfeudamento ao poder do dia.

A fragilidade da maior parte das empresas jornalísticas deu nisto. E a democracia ressente-se.

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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