Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Opinião

A indigência mediática

por Dinis de Abreu

Há cerca de um ano, António Barreto  costumava assinar uma assertiva coluna de opinião no Diário de Noticias, entretanto desaparecida como outras, sem deixar rasto.

Numa delas,  reconhecia ser “simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão” . E comentava, a propósito,  que  “a vulgaridade é sinal de verdade. A boçalidade é prova do que é genuíno. A submissão ao poder e aos partidos é democracia. A falta de cultura e de inteligência é isenção profissional”.

A situação mediática, de então para cá, não melhorou. Pelo contrário, conheceu um agravamento que salta à vista do mais desprevenido, afectando a televisão, a Imprensa e a Rádio.

Os “comentadores” encartados saltitam de um estúdio para outro e têm espaços cativos em jornais, desde políticos na reforma ou no activo, a jornalistas que não escondem as suas capelinhas ideológicas, actuando  em função delas.

A preguiça instalou-se nas redacções – incluindo os escassos meios que ainda se reclamam de “referência” - e raras são aquelas onde ainda subsiste agenda, para simular algum esforço de reportagem, de pesquisa e de tratamento qualificado da informação, longe da obsessão das redes sociais..

A situação descrita por Barreto continua, infelizmente, a pontuar  a realidade mediática : “Quem marca a agenda dos noticiários são os partidos, os ministros e os treinadores de futebol. Quem estabelece os horários são as conferências de imprensa, as inaugurações, as visitas de ministros e os jogadores de futebol.”

O seguidismo militante, que tem contaminado o jornalismo português, nota-se pela forma como o primeiro ministro ou o Presidente da República são acompanhados  aonde quer que se desloquem, e abordados sistematicamente,  de uma forma acrítica, como se fossem mais dois comentadores.

A agenda mediática confunde-se com a agenda política. Em vez de se documentarem e reflectirem seriamente sobre os problemas que vicejam no espaço público, sobram os jornalistas que  preferem “surfar” a onda que estiver na moda do “politicamente correcto”.

“A concepção do pluralismo é de uma total indigência (…)”, acusava  ainda Barreto. E com razão.  Quem poderá contestar essa leitura pessimista e sombria , quando se observam múltiplos fenómenos  de  mediocridade impante,  que desfila nos telejornais e nos painéis de pseudo-debates nas televisões ?

A imbecilização do País, através de doses maciças de  futebol  - servidas em estúdio e em “directos” dos relvados -, e de gente promovida a “comentador”  político, sem nada que a recomende para tal,  é assustadora. 

Falta o critério profissional, escasseiam o rigor e a independência, e sobeja o enfeudamento ao poder do dia.

A fragilidade da maior parte das empresas jornalísticas deu nisto. E a democracia ressente-se.

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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