Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Opinião

Ironias de uma tragédia

por Francisco Sarsfield Cabral

O horrível assassinato de um jornalista saudita no consulado do seu país em Istambul tem várias e graves implicações políticas. Embaraça Trump, que logo no início do seu mandato decidiu apoiar a Arábia Saudita, contra o seu ódio de estimação, o Irão. Por outro lado, ninguém acredita que o até aqui todo poderoso príncipe herdeiro saudita, M. bin Salman, seja alheio ao crime. Pelo menos, deixa de se esperar dele uma reforma liberalizadora do Estado e da sociedade da Arábia Saudita.

Este caso envolve, também aspetos irónicos. Quem investigou, ou mandou investigar, o assassinato deste jornalista foi o presidente da Turquia, Erdogan, recordista mundial quanto à prisão de jornalistas. A liberdade de expressão, a par de outras liberdades, é cada vez menos respeitada pelo regime autocrático que Erdogan impôs no seu país, depois de quase uma década em que foi primeiro-ministro e parecia um moderado.

Erdogan hoje aposta na afirmação da Turquia no mundo muçulmano, uma vez desfeita a ilusão de uma futura integração na União Europeia. O caso de Khashoggi, o jornalista assassinado, permite-lhe iniciativa e visibilidade no plano internacional. E mostrar que possui uma poderosa e eficaz polícia secreta – que é também uma polícia política.   

Irónico é ainda o facto de este caso atrapalhar Trump – que detesta jornalistas. Há dias, o presidente americano aplaudiu vivamente, em público, um político americano que tinha sido julgado e condenado por ter deitado ao chão um jornalista do britânico The Guardian.

Esperemos que o caso Khashoggi não leve Trump, na sua “pedagógica” cruzada contra os jornalistas, a sugerir métodos mais violentos, como o agora usado pela Arábia Saudita.

 

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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