Quinta-feira, 21 de Março, 2019
Opinião

Ironias de uma tragédia

por Francisco Sarsfield Cabral

O horrível assassinato de um jornalista saudita no consulado do seu país em Istambul tem várias e graves implicações políticas. Embaraça Trump, que logo no início do seu mandato decidiu apoiar a Arábia Saudita, contra o seu ódio de estimação, o Irão. Por outro lado, ninguém acredita que o até aqui todo poderoso príncipe herdeiro saudita, M. bin Salman, seja alheio ao crime. Pelo menos, deixa de se esperar dele uma reforma liberalizadora do Estado e da sociedade da Arábia Saudita.

Este caso envolve, também aspetos irónicos. Quem investigou, ou mandou investigar, o assassinato deste jornalista foi o presidente da Turquia, Erdogan, recordista mundial quanto à prisão de jornalistas. A liberdade de expressão, a par de outras liberdades, é cada vez menos respeitada pelo regime autocrático que Erdogan impôs no seu país, depois de quase uma década em que foi primeiro-ministro e parecia um moderado.

Erdogan hoje aposta na afirmação da Turquia no mundo muçulmano, uma vez desfeita a ilusão de uma futura integração na União Europeia. O caso de Khashoggi, o jornalista assassinado, permite-lhe iniciativa e visibilidade no plano internacional. E mostrar que possui uma poderosa e eficaz polícia secreta – que é também uma polícia política.   

Irónico é ainda o facto de este caso atrapalhar Trump – que detesta jornalistas. Há dias, o presidente americano aplaudiu vivamente, em público, um político americano que tinha sido julgado e condenado por ter deitado ao chão um jornalista do britânico The Guardian.

Esperemos que o caso Khashoggi não leve Trump, na sua “pedagógica” cruzada contra os jornalistas, a sugerir métodos mais violentos, como o agora usado pela Arábia Saudita.

 

Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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