Segunda-feira, 30 de Novembro, 2020
Media

A reportagem que os jornalistas não puderam publicar em vida

Um repórter do jornal equatoriano El Comercio, o fotógrafo e o condutor que os levou à fronteira com a Colômbia, foram mortos, em Março de 2018, quando faziam investigação sobre ligações entre as autoridades e os cartéis de droga. Agora, 19 repórteres independentes de ambos os países investigam, a coberto de anonimato, para saber o que aconteceu e de que modo. São apoiados pela organização Forbidden Stories (Histórias Proibidas), que procura continuar o trabalho dos jornalistas que já não o podem fazer.

Por coincidência trágica, o primeiro trabalho empreendido sob os auspícios do movimento de solidariedade Forbidden Stories, faz agora um ano, era precisamente para prosseguir a investigação de outros três jornalistas mortos pelos cartéis de droga, neste caso mexicanos. Outra equipa trabalha sobre a reportagem interrompida de Caruana Galizia, morta em atentado à bomba na ilha de Malta.

Javier Ortega, de 32 anos, procurava desenredar a meada do “novelo de relações criminosas, comunidades pobres e o Estado, como factor desequilibrante numa guerra que parece uma espiral sem fim”. 

O condutor Efraín Segarra, de 60 anos, era um veterano de El Comercio. Já não estava empregado no jornal, desde 2013, mas tinha tanto apego ao trabalho de reportagem que trazia consigo, ele mesmo, uma máquina fotográfica, que gostava de usar em viagens deste tipo. 

O fotógrafo Paúl Rivas, de 45 anos, outro “veterano” do jornal, tinha-se especializado na região de fronteira e gostava muito do que fazia. O objectivo, desta vez, era chegar a Mataje, uma localidade minúscula a 100 passos da Colômbia. Tinha havido um atentado com explosivos artesanais, a 20 de Março, que matou quatro militares, e muitos jornalistas estavam a tentar chegar ao local exacto do crime, procurar testemunhas, ver como vive a população. 

A sua companheira, Yadira Aguagallo, tinha-lhe dito: “Por favor, não vás desta vez. Sinto que é muito perigoso.” 

A última imagem dos três homens, em liberdade, é das videocâmaras do Hotel El Pedregal, em San Lorenzo, quando saíam para viajar na direcção de Mataje. Os seus corpos, crivados de balas, foram encontrados três meses mais tarde, na região de Nariño, já do lado colombiano, onde operam vários grupos de narcotraficantes. 

A imagem que aqui reproduzimos, da reportagem de Le Monde, é colhida de um vídeo divulgado pelos sequestradores, quando pretendiam negociar com as autoridades do Equador os termos da entrega dos três homens. 

Basicamente, a Frente Oliver Sinisterra, grupo dissidente das FARC, exigia uma troca de prisioneiros (três dos seus membros estavam detidos em Latacunga, no Equador, bem como o cancelamento do acordo de luta contra o narcotráfico entre os dois países. 

Havia um canal de comunicação estabelecido entre a polícia do Equador e grupos dissidentes das FARC, Javier Ortega sabia disso e era este um dos objectivos da sua investigação  - para além do atentado à bomba que matara os quatro militares. Era a reportagem exclusiva que nunca pôde terminar.

 

Mais informação em Le Monde e no site de Forbidden Stories

Connosco
França e Reino Unido juntam-se para limitar o poder das tecnológicas Ver galeria

Alguns países europeus -- como é o caso da França e do Reino Unido -- estão a começar a limitar o poder exercido pelas empresas tecnológicas norte-americanas.

Em França, as autoridades francesas já começaram a cobrar um imposto sobre os serviços digitais às “gigantes” tecnológicas, noticiou o “Financial Times”. As empresas sujeitas “receberam a notificação de imposto referente a 2020”, confirmou uma fonte do governo, em comunicado.

Em declarações ao jornal “Público”, o Facebook afirmou que vai pagar os impostos exigidos por França. Segundo um porta-voz da empresa, a tecnológica norte-americana vai “[continuar] a incentivar um foco global por parte dos governos, para se chegar a uma reforma tributária nacional”.

Por outro lado, no Reino Unido está a ser criado um novo departamento para regular as plataformas “online”, com o objectivo de garantir a competição no sector tecnológico.

De acordo com o jornal “Guardian”, o Competitions and Markets Authority (CMA) ficará, assim, habilitado para aplicar um novo código de conduta às empresas, que deverão seguir um “comportamento aceitável”.

Regulador russo quer substituir redes sociais americanas Ver galeria

O regulador das comunicações russo, Roskomnadzor, propôs a criação de plataformas de vídeo nacionais para substituir o YouTube, devido à alegada “censura” praticada pelo “site” norte-americano.

A proposta foi apresentada depois de o regulador das comunicações russo ter acusado o YouTube de aplicar “um veto total” à criação de canais pela agência noticiosa ANNA News.

“Uma política específica de censura em relação aos meios russos é inaceitável e viola os princípios fundamentais de uma disseminação livre de informação e de acesso desimpedido à mesma”, considerou, em comunicado, o Roskomnadzor, citado pela agência EFE.

Esta não é a primeira vez que o regulador acusa as grandes multinacionais americanas de dificultarem o acesso dos “media” russos às suas plataformas.

Em Outubro, aquela entidade alegou que o Google, o Facebook e o Twitter “restringem o acesso a materiais de cerca de 20 meios de comunicação russos”, incluindo a agência estatal RIA Novosti.

O Clube


Faz cinco anos que começámos este
site, desenhado por Nuno Palma, webdesigner e docente universitário, que desde então colabora connosco.

O projecto foi lançado com uma modéstia de recursos que não mudou entretanto, porque escasseiam os mecenas e os poucos que se nos juntaram também se defrontaram com orçamentos penalizados, seja pela conjuntura económica, seja, mais recentemente, pela crise sanitária. 

Neste contexto, a sobrevivência é um desafio diário, e um lustre de existência deste site é uma profissão de fé e uma teimosia.

O site constitui a respiração do CPI, fora de portas, e a nível global. Os primeiros passos foram dados sem qualquer publicidade. Aparecemos online e por aqui ficámos, procurando habilitar diariamente quem nos visita com a melhor informação sobre as actividades do Clube e o pulsar dos media e do jornalismo, sem restrições de credo, nem obediências de capela. Com rigor e independência.

Fomos recompensados. Só no último ano, de acordo com medições de audiência da Google Analytics, crescemos mais de 50% em sessões efectuadas e mais de 60% em utilizadores regulares. É algo de que nos orgulhamos.



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