Sexta-feira, 16 de Novembro, 2018
Media

A reportagem que os jornalistas não puderam publicar em vida

Um repórter do jornal equatoriano El Comercio, o fotógrafo e o condutor que os levou à fronteira com a Colômbia, foram mortos, em Março de 2018, quando faziam investigação sobre ligações entre as autoridades e os cartéis de droga. Agora, 19 repórteres independentes de ambos os países investigam, a coberto de anonimato, para saber o que aconteceu e de que modo. São apoiados pela organização Forbidden Stories (Histórias Proibidas), que procura continuar o trabalho dos jornalistas que já não o podem fazer.

Por coincidência trágica, o primeiro trabalho empreendido sob os auspícios do movimento de solidariedade Forbidden Stories, faz agora um ano, era precisamente para prosseguir a investigação de outros três jornalistas mortos pelos cartéis de droga, neste caso mexicanos. Outra equipa trabalha sobre a reportagem interrompida de Caruana Galizia, morta em atentado à bomba na ilha de Malta.

Javier Ortega, de 32 anos, procurava desenredar a meada do “novelo de relações criminosas, comunidades pobres e o Estado, como factor desequilibrante numa guerra que parece uma espiral sem fim”. 

O condutor Efraín Segarra, de 60 anos, era um veterano de El Comercio. Já não estava empregado no jornal, desde 2013, mas tinha tanto apego ao trabalho de reportagem que trazia consigo, ele mesmo, uma máquina fotográfica, que gostava de usar em viagens deste tipo. 

O fotógrafo Paúl Rivas, de 45 anos, outro “veterano” do jornal, tinha-se especializado na região de fronteira e gostava muito do que fazia. O objectivo, desta vez, era chegar a Mataje, uma localidade minúscula a 100 passos da Colômbia. Tinha havido um atentado com explosivos artesanais, a 20 de Março, que matou quatro militares, e muitos jornalistas estavam a tentar chegar ao local exacto do crime, procurar testemunhas, ver como vive a população. 

A sua companheira, Yadira Aguagallo, tinha-lhe dito: “Por favor, não vás desta vez. Sinto que é muito perigoso.” 

A última imagem dos três homens, em liberdade, é das videocâmaras do Hotel El Pedregal, em San Lorenzo, quando saíam para viajar na direcção de Mataje. Os seus corpos, crivados de balas, foram encontrados três meses mais tarde, na região de Nariño, já do lado colombiano, onde operam vários grupos de narcotraficantes. 

A imagem que aqui reproduzimos, da reportagem de Le Monde, é colhida de um vídeo divulgado pelos sequestradores, quando pretendiam negociar com as autoridades do Equador os termos da entrega dos três homens. 

Basicamente, a Frente Oliver Sinisterra, grupo dissidente das FARC, exigia uma troca de prisioneiros (três dos seus membros estavam detidos em Latacunga, no Equador, bem como o cancelamento do acordo de luta contra o narcotráfico entre os dois países. 

Havia um canal de comunicação estabelecido entre a polícia do Equador e grupos dissidentes das FARC, Javier Ortega sabia disso e era este um dos objectivos da sua investigação  - para além do atentado à bomba que matara os quatro militares. Era a reportagem exclusiva que nunca pôde terminar.

 

Mais informação em Le Monde e no site de Forbidden Stories

Connosco
Bettany Hugues, Prémio Europeu Helena Vaz da Silva a comunicar história e património cultural Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hugues, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hugues como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Marçal Grilo abre novo ciclo de jantares-debate em Novembro Ver galeria

O Clube Português de Imprensa, o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário juntam-se, novamente,para promover um novo ciclo de jantares-debate, desta vez subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?

Será orador convidado, no próximo dia 22 de Novembro, Eduardo Marçal Grilo, antigo ministro da Educação e administrador da Fundação Gulbenkian, que tem dedicado à problemática do ensino e às causas da cultura e da ciência o essencial da sua actividade de intelectual, de homem político e enquanto docente.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
As notícias falsas e a internet
Francisco Sarsfield Cabral
As redes sociais são, hoje, a principal fonte de informação, se não mesmo a única, para imensa gente. O combate às “fake news” tem que ser feito, não pela censura, mas pela consciencialização dos utilizadores da net. Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil graças à utilização maciça das redes sociais. A maioria dos jornais brasileiros de referência não o apoiou, o...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...
Há cerca de um ano, António Barreto  costumava assinar uma assertiva coluna de opinião no Diário de Noticias, entretanto desaparecida como outras, sem deixar rasto. Numa delas,  reconhecia ser “simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão” . E comentava, a propósito,  que  “a vulgaridade é sinal de verdade. A...