Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Mundo

Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Jamal Kashoggi parte do mais recente relatório sobre a liberdade no mundo, publicado pela Freedom House, para manifestar o seu choque por ter encontrado apenas um país árabe na categoria de “livre”: a Tunísia. A Jordânia, Marrocos e o Kuwait vêm na segunda posição, como “parcialmente livres”, e os restantes países árabes como “não livres”. 

Menciona depois o caso de um seu amigo saudita, o escritor Saleh al-Shehi, que redigiu uma das colunas de opinião mais famosas jamais publicadas na imprensa saudita. “Infelizmente, hoje cumpre uma pena de cinco anos de prisão por supostos comentários contra o establishment saudita.” 

Segundo o autor, o silêncio da comunidade internacional está a dar aos governos árabes “carta branca para continuarem a silenciar os meios de comunicação a um ritmo cada vez mais rápido”: 

“Houve um tempo em que os jornalistas pensaram que a Internet libertaria a informação da censura e do controlo que se exerciam sobre os media impressos, Mas estes governos, cuja própria existência depende do controlo da informação, bloquearam agressivamente a Internet e detiveram jornalistas locais, pressionando os anunciantes a reduzirem as receitas de determinadas publicações.” (...) 

Khashoggi aponta como oásis onde ainda se vive o espírito da Primavera árabe o caso do Qatar, que continua a apoiar a cobertura de notícias internacionais. Mesmo na Tunísia e no Kuweit, como afirma, “os media centram-se em temas locais, não em temas que digam respeito ao conjunto do mundo árabe, e são avessos a proporcionar uma plataforma para os jornalistas da Arábia Saudita, Egipto e Iémen.” 

“Mesmo o Líbano, a jóia da coroa do mundo árabe no que se refere à liberdade de Imprensa, caíu vítima da polarização e da influência do Hezbolah pró-iraniano.” (...) 

A terminar, Khashoggi salienta a importância de os seus artigos serem traduzidos do inglês para o árabe e agradece ao Washington Post por isso. 

“O mundo árabe precisa de uma versão moderna dos antigos meios de comunicação transnacionais, para que os cidadãos possam ser informados sobre acontecimentos mundiais. E, o que é mais importante, temos de proporcionar uma plataforma às vozes árabes.” 

“Sofremos de pobreza, má gestão e educação deficiente. Por meio da criação de um fórum internacional independente, protegido da influência de governos nacionalistas que espalham o ódio pela propaganda, as pessoas normais e correntes do mundo árabe poderiam abordar os problemas estruturais com que se debatem as suas sociedades.”


O último editorial de Jamal Khashoggi, aqui traduzido por El País

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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