Sábado, 17 de Agosto, 2019
Mundo

Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Jamal Kashoggi parte do mais recente relatório sobre a liberdade no mundo, publicado pela Freedom House, para manifestar o seu choque por ter encontrado apenas um país árabe na categoria de “livre”: a Tunísia. A Jordânia, Marrocos e o Kuwait vêm na segunda posição, como “parcialmente livres”, e os restantes países árabes como “não livres”. 

Menciona depois o caso de um seu amigo saudita, o escritor Saleh al-Shehi, que redigiu uma das colunas de opinião mais famosas jamais publicadas na imprensa saudita. “Infelizmente, hoje cumpre uma pena de cinco anos de prisão por supostos comentários contra o establishment saudita.” 

Segundo o autor, o silêncio da comunidade internacional está a dar aos governos árabes “carta branca para continuarem a silenciar os meios de comunicação a um ritmo cada vez mais rápido”: 

“Houve um tempo em que os jornalistas pensaram que a Internet libertaria a informação da censura e do controlo que se exerciam sobre os media impressos, Mas estes governos, cuja própria existência depende do controlo da informação, bloquearam agressivamente a Internet e detiveram jornalistas locais, pressionando os anunciantes a reduzirem as receitas de determinadas publicações.” (...) 

Khashoggi aponta como oásis onde ainda se vive o espírito da Primavera árabe o caso do Qatar, que continua a apoiar a cobertura de notícias internacionais. Mesmo na Tunísia e no Kuweit, como afirma, “os media centram-se em temas locais, não em temas que digam respeito ao conjunto do mundo árabe, e são avessos a proporcionar uma plataforma para os jornalistas da Arábia Saudita, Egipto e Iémen.” 

“Mesmo o Líbano, a jóia da coroa do mundo árabe no que se refere à liberdade de Imprensa, caíu vítima da polarização e da influência do Hezbolah pró-iraniano.” (...) 

A terminar, Khashoggi salienta a importância de os seus artigos serem traduzidos do inglês para o árabe e agradece ao Washington Post por isso. 

“O mundo árabe precisa de uma versão moderna dos antigos meios de comunicação transnacionais, para que os cidadãos possam ser informados sobre acontecimentos mundiais. E, o que é mais importante, temos de proporcionar uma plataforma às vozes árabes.” 

“Sofremos de pobreza, má gestão e educação deficiente. Por meio da criação de um fórum internacional independente, protegido da influência de governos nacionalistas que espalham o ódio pela propaganda, as pessoas normais e correntes do mundo árabe poderiam abordar os problemas estruturais com que se debatem as suas sociedades.”


O último editorial de Jamal Khashoggi, aqui traduzido por El País

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História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

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Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

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Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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