Segunda-feira, 23 de Setembro, 2019
Estudo

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O artigo de Le Monde, que aqui citamos, começa pelo exemplo banal de um bloco de publicidade sobre automóveis, viagens, relógios e sapatos, no Santeplusmag.com, muito popular nas redes sociais, com 7,6 milhões de assinantes no Facebook, “mas que é também conhecido por retransmitir um número significativo de falsas informações e artigos sensacionalistas”. Podem ser lá encontradas afirmações fantasiosas, como que “a mistura de bicarbonato de soda com mel pode mudar para sempre a sua vida”. 

“As ligações publicitárias são [eram] propostas aos leitores deste site por Ligatus, uma empresa especializada na venda de anúncios, que colabora com numerosos media (incluindo Le Monde). Concretamente, as empresas pagam para aparecerem nos sites parceiros da Ligatus, e esta última partilha depois as receitas com os media referidos.”

Como foi dito acima, Ligatus e Taboola cortaram esta colaboração, por entenderem que o conteúdo daquele site não era conforme à sua carta de procedimento. Le Monde acrescenta, mais adiante, que a empresa Taboola já tinha tomado posição pública, em 2016, sobre o tema desinformação, tendo adoptado uma política de conteúdos que “interdita as publicações de ódio, as injúrias e as informações enganosas”. 

Uma das explicações da situação actual tem a ver com a mutação do mercado publicitário online

“O modelo herdado da Imprensa escrita consistia em comprar espaços publicitários nos media especializados, sendo os anunciantes a fazer, de certo modo, o seu mercado, em função do tipo de público a que desejam chegar. Este modelo acabou, e a grande fatia do bolo passa agora por aquilo a que se chama a ‘publicidade programática’: já não se compra uma página num jornal, mas a visibilidade junto de um determinado tipo de público.” 

Entra aqui a escolha precisa do público-alvo, em função dos perfis conhecidos, e a distribuição exacta dos anúncios é arbitrada por algoritmos, segundo um sistema de leilão. 

“Este novo mercado publicitário muda completamente a distribuição das cartas. O anunciante já não vai bater à porta dos media, mas sim de empresas publicitárias especializadas, cujos anúncios podem ser despachados para centenas de sites diferentes.” (...) 

À data do estudo feito pela equipa de Le Monde, 11 de Outubro, as mensagens publicitárias vindas da Google AdSense apareciam nas páginas de 24 dos 40 sites pouco fiáveis que tinham referenciado, e as provenientes da Taboola em 12 deles.
“Trata-se aqui tanto de sites sensacionalistas, como Sante-nutrition.org ou Topastuces.net, como de antenas de propaganda da extrema-direita, como Dreuz.info e Europe-israel.org.” (...)

“Se os sites de desinformação têm tão pouca dificuldade em ligar-se a um ou outro dos circuitos publicitários, apesar [das denúncias], é porque a triagem só é frequentemente feita a jusante, isto é, quando um site que já é membro da rede é apanhado com a mão no saco. Por outro lado, os actores do mercado são muito mais reticentes em intervir a montante  - o que significa antes de ligarem um site à sua plataforma.” (...) 

Finalmente, há uma reacção a este problema, vinda do público. “Estão a aparecer iniciativas de cidadãos, sendo mais emblemática, entre elas, o colectivo anónimo Sleeping Giants (os gigantes adormecidos), que visa fazer pressão sobre as empresas cujos anúncios aparecem em sites de propaganda, ou de ódio. Por exemplo, a sua antena francesa interpela regularmente, no Twitter, as marcas que aparecem no site de extrema-direita Boulevard Voltaire.” (...) 

Segundo Le Monde, as campanhas deste tipo, por nomearem os actores envolvidos, “rompem com o silêncio e a hipocrisia que duram há anos, permitindo aos sites duvidosos financiarem [a sua operação] com toda a tranquilidade”. (...) 


O artigo aqui citado, na íntegra em Le Monde

Connosco
Estudo revela cepticismo sobre cobrança generalizada de conteúdos Ver galeria

Num relatório da KMPG intitulado “Presente e futuro do sector intermediário”, os empresários de media concordam que, a transição progressiva para um sistema de pagamento de conteúdos é necessária.

No entanto, apenas 38% desses executivos estão convencidos de que a cobrança pelos conteúdos digitais será generalizada nos próximos três anos. Entretanto, 62% acreditam que o modelo aberto e de pagamento coexistirá nesse período.

O relatório vem publicado no site da APM com quem a CPI tem um acordo de parceria.
Segundo o mesmo relatório, as cinco tendências que marcarão a agenda do sector dos media são as seguintes: a busca de um modelo de negócios rentável e sustentável, o potencial da publicidade digital, o compromisso com a qualidade, a análise de dados e alianças entre empresas jornalísticas.
A necessidade proteger o jornalismo do discurso inflamado Ver galeria

Os media e os jornalistas, parecem ter sido dominados pela energia estonteante dos discursos inflamados, da ofensa ao adversário e da mentira persuasiva que apelam á emoção em vez da razão, defende José Antonio Zarzalejos , nos  Cuadernos de Periodismo  da  APM, com a qual o CPI tem um acordo de parceria.

Especialmente, em período de eleições, a transmissão de mensagens “tornou-se um exercício de impostura e num território onde tudo é permitido, incluindo o insulto e a mentira”.

Nesta lógica comunicacional,  a transformação do estrangeiro em inimigo, e da dissidência em dissidente, são procedimentos  na arena política, segundo  o autor.
A receptividade para acolher  argumentos contrários  ou partilhar pensamentos diversos,  de acordo com   Zarzalejos, passou a ser entendido como uma abordagem fraca, sem convicção.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


ver mais >
Opinião
O chamado “jornalismo de causas “  voltou a estar na moda. E sobram os temas:  a “emergência climática”,   assumida por António Guterres enquanto secretário geral da ONU,  numa capa caricata da “Time”;  o “feito” de uma adolescente nórdica,   que atravessou o Atlântico num veleiro de luxo -  a pretexto de assim  reduzir o impacto ambiental -, para participar...
As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
Uma das coisas em que a informação sobre o mercado publicitário português peca é na análise das contas que são ganhas pelas agências de meios aqui em Portugal. Volta e meia vejo notícias do género a marca X decidiu atribuir a sua conta de publicidade em Portugal à agência Y. Quando se vai a ver, o que aconteceu é que a marca internacional X decidiu num qualquer escritório em Londres, Paris ou Berlim,...
Agenda
24
Set
Radio Show
09:00 @ Hilton Anatole, Dallas, EUA
07
Out
14
Out
Mipcom
09:00 @ Cannes, França
14
Out
17
Out
Broadcast India Show
09:00 @ Mumbai, India