null, 26 de Maio, 2019
Estudo

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O artigo de Le Monde, que aqui citamos, começa pelo exemplo banal de um bloco de publicidade sobre automóveis, viagens, relógios e sapatos, no Santeplusmag.com, muito popular nas redes sociais, com 7,6 milhões de assinantes no Facebook, “mas que é também conhecido por retransmitir um número significativo de falsas informações e artigos sensacionalistas”. Podem ser lá encontradas afirmações fantasiosas, como que “a mistura de bicarbonato de soda com mel pode mudar para sempre a sua vida”. 

“As ligações publicitárias são [eram] propostas aos leitores deste site por Ligatus, uma empresa especializada na venda de anúncios, que colabora com numerosos media (incluindo Le Monde). Concretamente, as empresas pagam para aparecerem nos sites parceiros da Ligatus, e esta última partilha depois as receitas com os media referidos.”

Como foi dito acima, Ligatus e Taboola cortaram esta colaboração, por entenderem que o conteúdo daquele site não era conforme à sua carta de procedimento. Le Monde acrescenta, mais adiante, que a empresa Taboola já tinha tomado posição pública, em 2016, sobre o tema desinformação, tendo adoptado uma política de conteúdos que “interdita as publicações de ódio, as injúrias e as informações enganosas”. 

Uma das explicações da situação actual tem a ver com a mutação do mercado publicitário online

“O modelo herdado da Imprensa escrita consistia em comprar espaços publicitários nos media especializados, sendo os anunciantes a fazer, de certo modo, o seu mercado, em função do tipo de público a que desejam chegar. Este modelo acabou, e a grande fatia do bolo passa agora por aquilo a que se chama a ‘publicidade programática’: já não se compra uma página num jornal, mas a visibilidade junto de um determinado tipo de público.” 

Entra aqui a escolha precisa do público-alvo, em função dos perfis conhecidos, e a distribuição exacta dos anúncios é arbitrada por algoritmos, segundo um sistema de leilão. 

“Este novo mercado publicitário muda completamente a distribuição das cartas. O anunciante já não vai bater à porta dos media, mas sim de empresas publicitárias especializadas, cujos anúncios podem ser despachados para centenas de sites diferentes.” (...) 

À data do estudo feito pela equipa de Le Monde, 11 de Outubro, as mensagens publicitárias vindas da Google AdSense apareciam nas páginas de 24 dos 40 sites pouco fiáveis que tinham referenciado, e as provenientes da Taboola em 12 deles.
“Trata-se aqui tanto de sites sensacionalistas, como Sante-nutrition.org ou Topastuces.net, como de antenas de propaganda da extrema-direita, como Dreuz.info e Europe-israel.org.” (...)

“Se os sites de desinformação têm tão pouca dificuldade em ligar-se a um ou outro dos circuitos publicitários, apesar [das denúncias], é porque a triagem só é frequentemente feita a jusante, isto é, quando um site que já é membro da rede é apanhado com a mão no saco. Por outro lado, os actores do mercado são muito mais reticentes em intervir a montante  - o que significa antes de ligarem um site à sua plataforma.” (...) 

Finalmente, há uma reacção a este problema, vinda do público. “Estão a aparecer iniciativas de cidadãos, sendo mais emblemática, entre elas, o colectivo anónimo Sleeping Giants (os gigantes adormecidos), que visa fazer pressão sobre as empresas cujos anúncios aparecem em sites de propaganda, ou de ódio. Por exemplo, a sua antena francesa interpela regularmente, no Twitter, as marcas que aparecem no site de extrema-direita Boulevard Voltaire.” (...) 

Segundo Le Monde, as campanhas deste tipo, por nomearem os actores envolvidos, “rompem com o silêncio e a hipocrisia que duram há anos, permitindo aos sites duvidosos financiarem [a sua operação] com toda a tranquilidade”. (...) 


O artigo aqui citado, na íntegra em Le Monde

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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