Segunda-feira, 24 de Fevereiro, 2020
Estudo

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O artigo de Le Monde, que aqui citamos, começa pelo exemplo banal de um bloco de publicidade sobre automóveis, viagens, relógios e sapatos, no Santeplusmag.com, muito popular nas redes sociais, com 7,6 milhões de assinantes no Facebook, “mas que é também conhecido por retransmitir um número significativo de falsas informações e artigos sensacionalistas”. Podem ser lá encontradas afirmações fantasiosas, como que “a mistura de bicarbonato de soda com mel pode mudar para sempre a sua vida”. 

“As ligações publicitárias são [eram] propostas aos leitores deste site por Ligatus, uma empresa especializada na venda de anúncios, que colabora com numerosos media (incluindo Le Monde). Concretamente, as empresas pagam para aparecerem nos sites parceiros da Ligatus, e esta última partilha depois as receitas com os media referidos.”

Como foi dito acima, Ligatus e Taboola cortaram esta colaboração, por entenderem que o conteúdo daquele site não era conforme à sua carta de procedimento. Le Monde acrescenta, mais adiante, que a empresa Taboola já tinha tomado posição pública, em 2016, sobre o tema desinformação, tendo adoptado uma política de conteúdos que “interdita as publicações de ódio, as injúrias e as informações enganosas”. 

Uma das explicações da situação actual tem a ver com a mutação do mercado publicitário online

“O modelo herdado da Imprensa escrita consistia em comprar espaços publicitários nos media especializados, sendo os anunciantes a fazer, de certo modo, o seu mercado, em função do tipo de público a que desejam chegar. Este modelo acabou, e a grande fatia do bolo passa agora por aquilo a que se chama a ‘publicidade programática’: já não se compra uma página num jornal, mas a visibilidade junto de um determinado tipo de público.” 

Entra aqui a escolha precisa do público-alvo, em função dos perfis conhecidos, e a distribuição exacta dos anúncios é arbitrada por algoritmos, segundo um sistema de leilão. 

“Este novo mercado publicitário muda completamente a distribuição das cartas. O anunciante já não vai bater à porta dos media, mas sim de empresas publicitárias especializadas, cujos anúncios podem ser despachados para centenas de sites diferentes.” (...) 

À data do estudo feito pela equipa de Le Monde, 11 de Outubro, as mensagens publicitárias vindas da Google AdSense apareciam nas páginas de 24 dos 40 sites pouco fiáveis que tinham referenciado, e as provenientes da Taboola em 12 deles.
“Trata-se aqui tanto de sites sensacionalistas, como Sante-nutrition.org ou Topastuces.net, como de antenas de propaganda da extrema-direita, como Dreuz.info e Europe-israel.org.” (...)

“Se os sites de desinformação têm tão pouca dificuldade em ligar-se a um ou outro dos circuitos publicitários, apesar [das denúncias], é porque a triagem só é frequentemente feita a jusante, isto é, quando um site que já é membro da rede é apanhado com a mão no saco. Por outro lado, os actores do mercado são muito mais reticentes em intervir a montante  - o que significa antes de ligarem um site à sua plataforma.” (...) 

Finalmente, há uma reacção a este problema, vinda do público. “Estão a aparecer iniciativas de cidadãos, sendo mais emblemática, entre elas, o colectivo anónimo Sleeping Giants (os gigantes adormecidos), que visa fazer pressão sobre as empresas cujos anúncios aparecem em sites de propaganda, ou de ódio. Por exemplo, a sua antena francesa interpela regularmente, no Twitter, as marcas que aparecem no site de extrema-direita Boulevard Voltaire.” (...) 

Segundo Le Monde, as campanhas deste tipo, por nomearem os actores envolvidos, “rompem com o silêncio e a hipocrisia que duram há anos, permitindo aos sites duvidosos financiarem [a sua operação] com toda a tranquilidade”. (...) 


O artigo aqui citado, na íntegra em Le Monde

Connosco
Faleceu Vasco Pulido Valente cronista singular de imprensa Ver galeria

Faleceu o historiador, escritor, ensaísta e  cronista de imprensa, enquanto comentador político, Vasco Pulido Valente. A informação foi confirmada ao jornal “Público” e ao “Observador” por fonte familiar. 

 Vasco Pulido Valente, distinguiu-se como colunista com textos repartidos por vários jornais, e pela acidez irónica que cultivava nos seus comentários, invariavelmente cáusticos e certeiros em relação a não poucos actores do espaço político-partidário.

 O nome que o tornou célebre (e temido), era o pseudónimo de Vasco Valente Correia Guedes, que nasceu em Lisboa a 21 de Novembro de 1941. Licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa e tirou um doutoramento em História pela Universidade de Oxford. No final da década de 60, uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian permitiu-lhe estudar em Inglaterra, onde se doutorou, sendo um devoto de uma certa cultura académica, típica de Oxford.


Guia para um discurso jornalístico simplificado... Ver galeria

As “hard news” podem tornar-se pouco atractivas para os leitores, devido à linguagem formal e à utilização de conceitos desconhecidos pela maioria do “comum dos mortais”. 

Por muito que os jornalistas se esforcem para fazer passar a mensagem de forma clara, muitas vezes trabalham em “contra-relógio”, o que torna difícil a tarefa de escrever de maneira apelativa. Foi a pensar nesses profissionais que a jornalista Roy Peter Clark elaborou um pequeno guia, publicado na revista “Poynter”. 

Para a autora, o mais importante é escrever como quem conversa com um amigo num bar. É crucial utilizar linguagem simplificada, dar exemplos e explicar conceitos. Assim, poderá ser útil falar sobre o conteúdo, ainda que em monólogo, e só depois escrevê-lo.

O Clube


Três jornais açorianos celebram este ano aniversários redondos. O Diário dos Açores completa século e meio de existência , o que é marcante. O Jornal dos Açores perfaz cem anos, outra vitória sobre o tempo. E o Açoriano Oriental , chega aos 185 anos , uma longevidade qualificada , que o coloca entre os diários mais antigos em publicação. A todos o Clube Português de Imprensa felicita , pela resistência e pelo mérito , numa época em que floresce a falta de memória nas redações. E associa-se neste site às respectivas efemérides.
Houve tempo em que os jornais se felicitavam com júbilo, e parabenizavam os concorrentes aniversariantes. Tempos idos. Agora , ignoram-se como se houvesse um deserto à volta de cada um.
Ser diário centenário num arquipélago de pouca gente, de onde tantos emigraram, e sobreviver em confronto com a agressividade da Internet e dos audiovisuais , é proeza de vulto.
São uma lição que merece relevo, cheia de ensinamentos para outros que desistiram antes de tempo.

ver mais >
Opinião
Neste primeiro semestre, três jornais açorianos comemoram uma longevidade assinalável. Conforme se regista noutros espaços deste site, o Diário dos Açores acabou de completar século e meio de existência;  em Abril, será a vez do Açoriano Oriental,  o mais antigo, soprar 185 velas; e, finalmente em Maio, o Correio dos Açores alcança o seu primeiro centenário. Em tempo de crise na Imprensa,...
O volume de investimento publicitário na imprensa tem estado em queda, mas vários estudos indicam que os leitores de jornais e revistas continuam a ser influenciados pela publicidade que encontram nas páginas das publicações que consomem regularmente. Por outro lado a análise dos dados do mais recente estudo Bareme Impresa, da Marktest, revela que os indivíduos da classe alta têm níveis de audiência de imprensa 40% acima dos...
Graves ameaças à BBC News
Francisco Sarsfield Cabral
A BBC é, provavelmente, a referência mundial mais importante do jornalismo. Foi uma rádio muito ouvida em Portugal no tempo da ditadura, para conhecer notícias que a censura não deixava publicar. E mesmo depois do 25 de Abril, durante o chamado PREC (processo revolucionário em curso) também o recurso à BBC News por vezes dava jeito para obter uma informação não distorcida por ideologias políticas.Ora a BBC News...