Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
Estudo

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O artigo de Le Monde, que aqui citamos, começa pelo exemplo banal de um bloco de publicidade sobre automóveis, viagens, relógios e sapatos, no Santeplusmag.com, muito popular nas redes sociais, com 7,6 milhões de assinantes no Facebook, “mas que é também conhecido por retransmitir um número significativo de falsas informações e artigos sensacionalistas”. Podem ser lá encontradas afirmações fantasiosas, como que “a mistura de bicarbonato de soda com mel pode mudar para sempre a sua vida”. 

“As ligações publicitárias são [eram] propostas aos leitores deste site por Ligatus, uma empresa especializada na venda de anúncios, que colabora com numerosos media (incluindo Le Monde). Concretamente, as empresas pagam para aparecerem nos sites parceiros da Ligatus, e esta última partilha depois as receitas com os media referidos.”

Como foi dito acima, Ligatus e Taboola cortaram esta colaboração, por entenderem que o conteúdo daquele site não era conforme à sua carta de procedimento. Le Monde acrescenta, mais adiante, que a empresa Taboola já tinha tomado posição pública, em 2016, sobre o tema desinformação, tendo adoptado uma política de conteúdos que “interdita as publicações de ódio, as injúrias e as informações enganosas”. 

Uma das explicações da situação actual tem a ver com a mutação do mercado publicitário online

“O modelo herdado da Imprensa escrita consistia em comprar espaços publicitários nos media especializados, sendo os anunciantes a fazer, de certo modo, o seu mercado, em função do tipo de público a que desejam chegar. Este modelo acabou, e a grande fatia do bolo passa agora por aquilo a que se chama a ‘publicidade programática’: já não se compra uma página num jornal, mas a visibilidade junto de um determinado tipo de público.” 

Entra aqui a escolha precisa do público-alvo, em função dos perfis conhecidos, e a distribuição exacta dos anúncios é arbitrada por algoritmos, segundo um sistema de leilão. 

“Este novo mercado publicitário muda completamente a distribuição das cartas. O anunciante já não vai bater à porta dos media, mas sim de empresas publicitárias especializadas, cujos anúncios podem ser despachados para centenas de sites diferentes.” (...) 

À data do estudo feito pela equipa de Le Monde, 11 de Outubro, as mensagens publicitárias vindas da Google AdSense apareciam nas páginas de 24 dos 40 sites pouco fiáveis que tinham referenciado, e as provenientes da Taboola em 12 deles.
“Trata-se aqui tanto de sites sensacionalistas, como Sante-nutrition.org ou Topastuces.net, como de antenas de propaganda da extrema-direita, como Dreuz.info e Europe-israel.org.” (...)

“Se os sites de desinformação têm tão pouca dificuldade em ligar-se a um ou outro dos circuitos publicitários, apesar [das denúncias], é porque a triagem só é frequentemente feita a jusante, isto é, quando um site que já é membro da rede é apanhado com a mão no saco. Por outro lado, os actores do mercado são muito mais reticentes em intervir a montante  - o que significa antes de ligarem um site à sua plataforma.” (...) 

Finalmente, há uma reacção a este problema, vinda do público. “Estão a aparecer iniciativas de cidadãos, sendo mais emblemática, entre elas, o colectivo anónimo Sleeping Giants (os gigantes adormecidos), que visa fazer pressão sobre as empresas cujos anúncios aparecem em sites de propaganda, ou de ódio. Por exemplo, a sua antena francesa interpela regularmente, no Twitter, as marcas que aparecem no site de extrema-direita Boulevard Voltaire.” (...) 

Segundo Le Monde, as campanhas deste tipo, por nomearem os actores envolvidos, “rompem com o silêncio e a hipocrisia que duram há anos, permitindo aos sites duvidosos financiarem [a sua operação] com toda a tranquilidade”. (...) 


O artigo aqui citado, na íntegra em Le Monde

Connosco
Prémio Europeu Helena Vaz da Silva atribuído à Directora do CERN Ver galeria

A cientista italiana Fabiola Gianotti, especializada em física de partículas e, desde 2016, Directora-Geral do CERN (acrónimo da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), foi distinguida com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2019.

“O conhecimento é como uma arte”  - afirmou Fabiola Gianotti ao agradecer a nomeação. “Ambos são as mais altas expressões da mente humana e o CERN é o lugar perfeito para as alcançar.”

“O conhecimento científico pertence a todos”  - disse ainda. “Como cientistas, devemos fazer os maiores esforços para compartilhar com a sociedade em geral as nossas descobertas e promover uma ciência aberta, acessível a todos. Ao longo das décadas, o CERN tem defendido os valores da excelência científica, ciência aberta e colaboração entre os países europeus e do resto do mundo.”

O Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural foi instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura, em cooperação com a Europa Nostra, que representa em Portugal, e também com o Clube Português de Imprensa.

O Júri do Prémio deste ano atribuíu Menções Especiais a duas outras personalidades: o Director do Royal Danish Theatre,  Kasper Holten, pelo seu esforço em prol da compreensão do património cultural, e o italiano Angelo Castiglioni, que dedicou a sua vida a explorações arqueológicas e etnográficas.

A cerimónia de entrega do Prémio terá lugar no dia 25 de Novembro na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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Composição Fotográfica
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Set