Quarta-feira, 13 de Novembro, 2019
Estudo

Jornalistas e “bloggers”: as diferenças que contam

Podem os blogs ser considerados meios de comunicação? E os que escrevem neles regularmente, com propósito informativo, podem ser chamados jornalistas? Em última instância: até que ponto são, realmente, diferentes uns dos outros?

Entre todas as questões colocadas ao jornalismo pela Internet, e dada a crescente popularidade das redes sociais, estas foram consideradas suficientemente importantes para merecerem uma observação mais rigorosa. Dois investigadores da Universidade de Ciências Aplicadas Ostfalia, na Alemanha, fizeram um inquérito junto de 936 jornalistas profissionais e de 463 bloggers fazendo trabalho noticioso, incluindo ainda 156 utentes da Net.

As diferenças entre uns e outros ficaram mais claras, mas as semelhanças também. E ficou a conclusão de que os bloggers não são, no futuro próximo, verdadeiramente rivais dos jornalistas  - a não ser em determinados campos de reportagem, como a moda, viagens, ou a tecnologia.

Os dois autores deste estudo, Olaf Hoffjann e Oliver Haidukiewicz, abordaram tanto os que trabalham para os media como os que escrevem em blogs como jornalistas, mas, para melhor definição, chamaram-lhes bloggers ou jornalistas profissionais, no trabalho publicado. O Observatório Europeu de Jornalismo, que aqui citamos, sintetiza as conclusões principais em sete pontos:

  1.  -  Relevância  -  Os jornalistas pensam que os bloggers não têm relevância jornalística. Um terço dos que participaram no estudo acham que os blogs não difundem informação relevante. Mas os bloggers valorizam mais os jornalistas. (...) “Ambos os lados reconhecem que o sucesso crescente dos blogs revela que as audiências estão insatisfeitas com o trabalho dos media tradicionais.”
  2.   -  Preparação profissional  -  Os bloggers são geralmente menos preparados, em termos de técnicas e teorias de jornalismo, do que os jornalistas profissionais. Mas um em cada sete estudou ciências da comunicação. Para os autores, um blogger que trabalha vinte horas por semana, ou mais, e recebe pelo seu trabalho, pode ser considerado profissional. Mas estes bloggers profissionais geralmente ganham pouco, e a sua investigação limita-se à Internet.
  3.   -  Objectivos  -  Tanto uns como os outros desejam, em primeiro lugar, divulgar informação. Mas os bloggers estão mais focados no entretenimento das suas audiências, enquanto os jornalistas desejam mais ‘controlar’ e criticar. Ambos os lados parecem estar de acordo em critérios básicos de qualidade: exactidão, credibilidade, independência e a competência para explicar temas complexos. (...)
  4.   -  Participação  -  Os bloggers investem mais em interacção pela Net com a sua audiência, por exemplo nas caixas de comentário dos seus blogs. Estar perto dos leitores chega a ser mais importante para eles do que para os jornalistas profissionais.
  5.   -  Sobre os press-releases  -  Tanto uns como outros deploram a má qualidade dos press-releases de instituições e organismos oficiais. Os bloggers queixam-se de nem sempre terem acesso a conferências de Imprensa, embora pareça que está a crescer a sua aceitação.
  6.   -  Publicidade encoberta  -  Os bloggers são muitas vezes acusados de publicidade encoberta. Mas o estudo revela que eles marcam os seus conteúdos pagos com a mesma frequência com que o fazem os jornalistas (mais de 91%). Os autores admitem que a sua consciência do que se espera deles pode ter alterado o comportamento dos bloggers na resposta às perguntas. Principalmente os conteúdos no YouTube e no Instagram podem incluir mais publicidade encoberta do que os números sugerem. (...) Mas 93% dos bloggers abordados declaram não aceitar publicidade que não se conforme à sua linha editorial.
  7.   -  Semelhanças e rivalidades  -  O estudo revela que, em muitos aspectos, jornalistas profissionais e bloggers são mais semelhantes do que se podia pensar. “Membros de ambos os grupos que vão fazer a cobertura do mesmo assunto mostram frequentemente mais semelhanças um com o outro do que com outros membros do respectivo grupo.” Segundo os autores, os bloggers não são concorrentes sérios dos jornalistas profissionais. O maior site profissional de noticiário político na Alemanha (faz.net) chega a uma audiência 50 vezes maior que a do maior blog político (netzpolitik.org). Só no que toca à reportagem de moda os blogs têm vantagem. Os jovens parecem [neste caso] preferir os blogs à oferta do jornalismo tradicional. (...)

“Os autores notam que, dada a crescente popularidade das redes sociais e da Internet, um estudo semelhante, no futuro, pode recolher resultados muito diferentes. Por enquanto, os bloggers estão em desvantagem económica, já que muitos ainda não encontraram um modelo de negócio sustentável.” (...)

 

O artigo citado, no European Journalism Observatory, e o estudo original, na língua alemã

 

Connosco
Onde se fala de jornalismo mais factual e menos negativo Ver galeria

Os meios de comunicação social exibem um enviesamento em relação a tudo aquilo que é negativo, seja nas notícias, seja no comentário. 

O jornalismo parece ter uma tendência para o negativo. Aparentemente, só o que é repentino e mau é digno de notícia, verificando-se que as coisas positivas são vistas como uma maçada.

O jornalismo acaba por ampliar a negatividade sempre que opta por não considerar os acontecimentos positivos.

A opinião é de Steven Pinker, professor de psicologia em Harvard e autor, numa crónica na revista POLITICO Magazine, do livro “Enlightenment Now: The Case for Reason, Science, Humanism, and Progress”. 

O autor apela a um jornalismo mais factual e considera que a governação democrática não pode funcionar se ninguém acreditar nisso, e o pessimismo jornalístico semeou o fatalismo e o radicalismo nas nossas instituições.

Jovens privilegiam “infotainment” em vez de notícias Ver galeria

Um estudo encomendado pelo Reuters Institute for the Study of Journalism (RISJ) à agência Flamingo – especializada na concepção de estratégias culturais –, revela que a forma como as audiências mais jovens nos Estados Unidos e no Reino Unido abordam as notícias é diferente das gerações anteriores. 

Os jovens procuram, principalmente, o progresso, o que influencia a forma como pesquisam e recebem notícias.

As audiências mais jovens, por norma, não procuram notícias e não se informam de forma proactiva, são indiretamente expostas à informação através de redes sociais, conteúdos digitais, programas de televisão e conversas online

Ao mesmo tempo, focam-se noutros tipos de conteúdos, como a combinação de informação e entretenimento (infotainment), histórias de lifestyle ou conteúdos de bloggers.

Em suma, as gerações mais jovens estão cada vez mais desconectadas das formas tradicionais de consumo de notícias, por considerarem que são menos relevantes para si.

APM, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria, publicou no seu site um artigo no qual realiza a análise do estudo.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
O caso do novo secretário de Estado com a tutela da comunicação social é assaz curioso. Nuno Artur Silva foi dono, até há dias, das Produções Fictícias, empresa que incluía a RTP no seu portfólio de clientes, facto que não o inibiu de aceitar  ser administrador daquele operador público, com a responsabilidade dos conteúdos. Cumprido o primeiro mandato, sem abdicar da...
Ainda a nova legislatura não começou e já surgiu o primeiro caso político em torno da RTP. Infelizmente foi causado pelo comportamento recente da Direcção de Informação da estação em relação a um dos programas dessa área com maior audiência, o “Sexta às 9”, de Sandra Felgueiras, que regularmente apresenta investigações sobre casos da actualidade nacional.   O...
As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
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