Sexta-feira, 16 de Novembro, 2018
Estudo

Jornalistas e “bloggers”: as diferenças que contam

Podem os blogs ser considerados meios de comunicação? E os que escrevem neles regularmente, com propósito informativo, podem ser chamados jornalistas? Em última instância: até que ponto são, realmente, diferentes uns dos outros?

Entre todas as questões colocadas ao jornalismo pela Internet, e dada a crescente popularidade das redes sociais, estas foram consideradas suficientemente importantes para merecerem uma observação mais rigorosa. Dois investigadores da Universidade de Ciências Aplicadas Ostfalia, na Alemanha, fizeram um inquérito junto de 936 jornalistas profissionais e de 463 bloggers fazendo trabalho noticioso, incluindo ainda 156 utentes da Net.

As diferenças entre uns e outros ficaram mais claras, mas as semelhanças também. E ficou a conclusão de que os bloggers não são, no futuro próximo, verdadeiramente rivais dos jornalistas  - a não ser em determinados campos de reportagem, como a moda, viagens, ou a tecnologia.

Os dois autores deste estudo, Olaf Hoffjann e Oliver Haidukiewicz, abordaram tanto os que trabalham para os media como os que escrevem em blogs como jornalistas, mas, para melhor definição, chamaram-lhes bloggers ou jornalistas profissionais, no trabalho publicado. O Observatório Europeu de Jornalismo, que aqui citamos, sintetiza as conclusões principais em sete pontos:

  1.  -  Relevância  -  Os jornalistas pensam que os bloggers não têm relevância jornalística. Um terço dos que participaram no estudo acham que os blogs não difundem informação relevante. Mas os bloggers valorizam mais os jornalistas. (...) “Ambos os lados reconhecem que o sucesso crescente dos blogs revela que as audiências estão insatisfeitas com o trabalho dos media tradicionais.”
  2.   -  Preparação profissional  -  Os bloggers são geralmente menos preparados, em termos de técnicas e teorias de jornalismo, do que os jornalistas profissionais. Mas um em cada sete estudou ciências da comunicação. Para os autores, um blogger que trabalha vinte horas por semana, ou mais, e recebe pelo seu trabalho, pode ser considerado profissional. Mas estes bloggers profissionais geralmente ganham pouco, e a sua investigação limita-se à Internet.
  3.   -  Objectivos  -  Tanto uns como os outros desejam, em primeiro lugar, divulgar informação. Mas os bloggers estão mais focados no entretenimento das suas audiências, enquanto os jornalistas desejam mais ‘controlar’ e criticar. Ambos os lados parecem estar de acordo em critérios básicos de qualidade: exactidão, credibilidade, independência e a competência para explicar temas complexos. (...)
  4.   -  Participação  -  Os bloggers investem mais em interacção pela Net com a sua audiência, por exemplo nas caixas de comentário dos seus blogs. Estar perto dos leitores chega a ser mais importante para eles do que para os jornalistas profissionais.
  5.   -  Sobre os press-releases  -  Tanto uns como outros deploram a má qualidade dos press-releases de instituições e organismos oficiais. Os bloggers queixam-se de nem sempre terem acesso a conferências de Imprensa, embora pareça que está a crescer a sua aceitação.
  6.   -  Publicidade encoberta  -  Os bloggers são muitas vezes acusados de publicidade encoberta. Mas o estudo revela que eles marcam os seus conteúdos pagos com a mesma frequência com que o fazem os jornalistas (mais de 91%). Os autores admitem que a sua consciência do que se espera deles pode ter alterado o comportamento dos bloggers na resposta às perguntas. Principalmente os conteúdos no YouTube e no Instagram podem incluir mais publicidade encoberta do que os números sugerem. (...) Mas 93% dos bloggers abordados declaram não aceitar publicidade que não se conforme à sua linha editorial.
  7.   -  Semelhanças e rivalidades  -  O estudo revela que, em muitos aspectos, jornalistas profissionais e bloggers são mais semelhantes do que se podia pensar. “Membros de ambos os grupos que vão fazer a cobertura do mesmo assunto mostram frequentemente mais semelhanças um com o outro do que com outros membros do respectivo grupo.” Segundo os autores, os bloggers não são concorrentes sérios dos jornalistas profissionais. O maior site profissional de noticiário político na Alemanha (faz.net) chega a uma audiência 50 vezes maior que a do maior blog político (netzpolitik.org). Só no que toca à reportagem de moda os blogs têm vantagem. Os jovens parecem [neste caso] preferir os blogs à oferta do jornalismo tradicional. (...)

“Os autores notam que, dada a crescente popularidade das redes sociais e da Internet, um estudo semelhante, no futuro, pode recolher resultados muito diferentes. Por enquanto, os bloggers estão em desvantagem económica, já que muitos ainda não encontraram um modelo de negócio sustentável.” (...)

 

O artigo citado, no European Journalism Observatory, e o estudo original, na língua alemã

 

Connosco
Bettany Hugues defendeu a importância da memória na construção do futuro e da paz Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hugues, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hugues como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Para Alberto Dines, “o jornalismo era o próprio sentido da vida” Ver galeria

Cada história é uma vida, e algumas delas são muito especiais. “Alberto Dines foi autor e protagonista de uma dessas trajectórias incomuns: um intelectual visceral, que usou a sua inteligência e lucidez não para disputar uma partida, mas para mudar o jogo.” Sob o título “Uma vida sem ponto final”, um dos seus numerosos discípulos, Bruno Thys, evoca com a saudade de uma relação muito pessoal o percurso e obra de Alberto Dines, falecido em São Paulo em Maio deste ano.

O autor do texto que citamos valoriza uma parte da biografia menos mencionada de Alberto Dines, a que o coloca numa linhagem de judeus emigrados de uma Europa em várias convulsões:

“Dines tornou-se uma das mais cintilantes estrelas de sua geração, a primeira de judeus nascidos no Brasil. (...) Da geração de seus pais, herdou a cultura ancestral. Dines tinha sólida formação humanística e as suas raízes remontam à Haskalá, o iluminismo judaico que floresceu na Europa Ocidental nos séculos XVIII e XIX. Este movimento pregava a interacção da sabedoria judaica com a cultura europeia e produziu nomes como Einstein, Freud, Herzel e Stefan Zweig, o grande biógrafo austríaco, que, muitos anos depois, seria biografado por Dines.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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