Quinta-feira, 4 de Junho, 2020
Estudo

Jornalistas e “bloggers”: as diferenças que contam

Podem os blogs ser considerados meios de comunicação? E os que escrevem neles regularmente, com propósito informativo, podem ser chamados jornalistas? Em última instância: até que ponto são, realmente, diferentes uns dos outros?

Entre todas as questões colocadas ao jornalismo pela Internet, e dada a crescente popularidade das redes sociais, estas foram consideradas suficientemente importantes para merecerem uma observação mais rigorosa. Dois investigadores da Universidade de Ciências Aplicadas Ostfalia, na Alemanha, fizeram um inquérito junto de 936 jornalistas profissionais e de 463 bloggers fazendo trabalho noticioso, incluindo ainda 156 utentes da Net.

As diferenças entre uns e outros ficaram mais claras, mas as semelhanças também. E ficou a conclusão de que os bloggers não são, no futuro próximo, verdadeiramente rivais dos jornalistas  - a não ser em determinados campos de reportagem, como a moda, viagens, ou a tecnologia.

Os dois autores deste estudo, Olaf Hoffjann e Oliver Haidukiewicz, abordaram tanto os que trabalham para os media como os que escrevem em blogs como jornalistas, mas, para melhor definição, chamaram-lhes bloggers ou jornalistas profissionais, no trabalho publicado. O Observatório Europeu de Jornalismo, que aqui citamos, sintetiza as conclusões principais em sete pontos:

  1.  -  Relevância  -  Os jornalistas pensam que os bloggers não têm relevância jornalística. Um terço dos que participaram no estudo acham que os blogs não difundem informação relevante. Mas os bloggers valorizam mais os jornalistas. (...) “Ambos os lados reconhecem que o sucesso crescente dos blogs revela que as audiências estão insatisfeitas com o trabalho dos media tradicionais.”
  2.   -  Preparação profissional  -  Os bloggers são geralmente menos preparados, em termos de técnicas e teorias de jornalismo, do que os jornalistas profissionais. Mas um em cada sete estudou ciências da comunicação. Para os autores, um blogger que trabalha vinte horas por semana, ou mais, e recebe pelo seu trabalho, pode ser considerado profissional. Mas estes bloggers profissionais geralmente ganham pouco, e a sua investigação limita-se à Internet.
  3.   -  Objectivos  -  Tanto uns como os outros desejam, em primeiro lugar, divulgar informação. Mas os bloggers estão mais focados no entretenimento das suas audiências, enquanto os jornalistas desejam mais ‘controlar’ e criticar. Ambos os lados parecem estar de acordo em critérios básicos de qualidade: exactidão, credibilidade, independência e a competência para explicar temas complexos. (...)
  4.   -  Participação  -  Os bloggers investem mais em interacção pela Net com a sua audiência, por exemplo nas caixas de comentário dos seus blogs. Estar perto dos leitores chega a ser mais importante para eles do que para os jornalistas profissionais.
  5.   -  Sobre os press-releases  -  Tanto uns como outros deploram a má qualidade dos press-releases de instituições e organismos oficiais. Os bloggers queixam-se de nem sempre terem acesso a conferências de Imprensa, embora pareça que está a crescer a sua aceitação.
  6.   -  Publicidade encoberta  -  Os bloggers são muitas vezes acusados de publicidade encoberta. Mas o estudo revela que eles marcam os seus conteúdos pagos com a mesma frequência com que o fazem os jornalistas (mais de 91%). Os autores admitem que a sua consciência do que se espera deles pode ter alterado o comportamento dos bloggers na resposta às perguntas. Principalmente os conteúdos no YouTube e no Instagram podem incluir mais publicidade encoberta do que os números sugerem. (...) Mas 93% dos bloggers abordados declaram não aceitar publicidade que não se conforme à sua linha editorial.
  7.   -  Semelhanças e rivalidades  -  O estudo revela que, em muitos aspectos, jornalistas profissionais e bloggers são mais semelhantes do que se podia pensar. “Membros de ambos os grupos que vão fazer a cobertura do mesmo assunto mostram frequentemente mais semelhanças um com o outro do que com outros membros do respectivo grupo.” Segundo os autores, os bloggers não são concorrentes sérios dos jornalistas profissionais. O maior site profissional de noticiário político na Alemanha (faz.net) chega a uma audiência 50 vezes maior que a do maior blog político (netzpolitik.org). Só no que toca à reportagem de moda os blogs têm vantagem. Os jovens parecem [neste caso] preferir os blogs à oferta do jornalismo tradicional. (...)

“Os autores notam que, dada a crescente popularidade das redes sociais e da Internet, um estudo semelhante, no futuro, pode recolher resultados muito diferentes. Por enquanto, os bloggers estão em desvantagem económica, já que muitos ainda não encontraram um modelo de negócio sustentável.” (...)

 

O artigo citado, no European Journalism Observatory, e o estudo original, na língua alemã

 

Connosco
O paradoxo no Brasil entre a ética jornalística e a ética empresarial Ver galeria

Os jornalistas brasileiros estão a ser confrontados com novos obstáculos, impostos à profissão pela Covid-19. É o caso teletrabalho,  que veio alterar, profundamente, o “modus operandi” das redacções e da investigação jornalística. 

Há, contudo, outras questões, ainda mais preocupantes, a serem discutidas por estes profissionais, como é o caso da ética jornalística, reiterou Silvia Meirelles Leite num artigo publicado na revista “objETHOS” e reproduzido no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

De acordo com a autora, enquanto os jornalistas continuam a desempenhar as suas funções e a manter a população informada, as empresas detentoras dos “media” têm de garantir apoios financeiros.

Isto leva a que, não raramente, a televisão pública seja obrigada a suprimir certas peças jornalísticas. Caso contrário, este serviço deixaria de receber financiamento governamental.

A cobertura do coronavírus reforçou a credibilidade jornalística Ver galeria

A pandemia de Covid-19 afectou praticamente todos os sectores da sociedade e influenciou a vida dos cidadãos, um pouco por todo o mundo.

Assim, os jornalistas têm vindo a assumir um papel essencial, mantendo a  população informada sobre os impactos da doença, bem como sobre as suas mutações.

Desta forma, os “media” tradicionais voltaram a merecer a atenção e “lealdade” do público, que deixou de informar-se através das redes sociais que são, tendencialmente, uma plataforma de desinformação,

considerou o jornalista Michel Ribeiro num artigo publicado no “Observatório da Imprensa”, associação com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

Perante a actual crise sanitária, recorda o autor, o jornalismo televisivo conquistou uma audiência significativa e os jornais “online” registaram um tráfego sem precedentes. Da mesma forma, mais consumidores decidiram assinar fontes de informação fidedignas e ouvir rádio para se manterem informados.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Opinião
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Agenda
15
Jun
Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun
15
Out
II Conferência Internacional - História do Jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas