Quinta-feira, 18 de Julho, 2019
Estudo

A ética como futuro do jornalismo e fonte de novas receitas

Se o ano de 2017 foi aquele em que o mundo acordou para a ameaça da desinformação e o modo como as tecnologias da Internet são subtilmente utilizadas para demolir a democracia, 2018 está a tornar-se o ano em que um jornalismo ético recebe, finalmente, a atenção que merece. É esta a reflexão introdutória de Aidan White, fundador da Ethical Journalism Network, no seu texto de apresentação do estudo Trust in Ethical Journalism (Confiança no Jornalismo Ético), agora disponível.

O trabalho faz um balanço dos mais recentes e bem conhecidos efeitos perversos da revolução digital sobre o jornalismo: “de que modo os algoritmos e a inteligência artificial estão a instalar uma nova agenda, potencialmente perturbadora; como as plataformas de publicidade e o negócio das redes sociais estão a minar a confiança pública; e de que modo a democracia e as escolhas políticas estão abertas a interferências indevidas.”

Mas Aidan White acrescenta às “más notícias” uma série de bons exemplos, relatados de situações no Médio Oriente, nos Balcãs, na Turquia e em vários países africanos, em que jornalistas e jornais “trabalham juntos, mesmo ultrapassando barreiras políticas”, para combater os promotores do ódio e para mostrar solidariedade com os media.

O autor começa pelas perguntas difíceis:

“Como podemos construir confiança no jornalismo e nos media? Temos de sacrificar os direitos humanos e o pluralismo em troca de serviços digitais grátis? Como podemos deter o sofrimento causado pelo discurso de ódio, propaganda e mentiras maliciosas sem pormos em causa a liberdade de expressão? De que modo vamos sustentar o jornalismo de que a democracia necessita para sobreviver?” (...) 

Aidan White destaca o facto de, tanto o Facebook como as outras grandes empresas tecnológicas, terem sido confrontadas por funcionários seus em revolta, e denúncias por parte de antigos dirigentes; também por governos cada vez mais preocupados pelo uso das plataformas para causar interferências em eleições democráticas; bem como por anunciantes fartos de verem os seus produtos [paginados] ao lado de opiniões anti-sociais e mesmo racistas. E, por último, pelos seus próprios utentes, a respeito das questões da privacidade e abusos. 

O incidente ocorrido com o Facebook na Noruega, em que a famosa fotografia da menina vietnamita ferida com napalm foi apagada do jornal Aftenposten, ilustra como “a codificação e a inteligência artificial não podem garantir uma comunicação bem informada, contrastada e ética”: 

“Dirigentes dos media, em todo o mundo, estão a dizer que precisamos de menos edição robótica e automatizada e mais de jornalistas e editores informados, competentes e bem treinados.” (...) 

“Infelizmente, tornou-se evidente que as redes sociais, e os modelos de negócio à volta delas, não foram projectados para promover ou pôr em destaque correntes de informação confiável, digna de crédito. Aquilo que conta nesse mundo são os clicks e os conteúdos que agarram a atenção, para atraírem anúncios, e não o propósito público da informação.” 

O autor chama ainda a atenção para o facto de muitos editores, embora tentados a cortar relações com o Facebook, estarem em dificuldade para encontrar alternativas convincentes. Para a Ethical Journalism Network, segundo afirma, as prioridades são cinco:

  1. Ética – Fortalecer no jornalismo a adesão aos valores fundamentais de rigor, independência, imparcialidade, humanidade, transparência e responsabilização, eliminando o discurso de ódio. (...)
  2. -  Conhecimento digital – Ajudar uma nova geração de jornalistas e editores a compreenderem a era digital, a adquirirem as competências de que precisam e a colocarem jornalismo de dados a todos os níveis.
  3. -   Sustentabilidade – Desenvolver apoio público a modos novos e criativos de financiamento de um jornalismo de interesse público, mantendo a independência editorial que garante a confiança pública. (...)
  4. Envolvimento  -  Garantir que o jornalismo colabora com a sua audiência para aumentar a compreensão do seu papel no novo ambiente da informação, promovendo respeito pela democracia e pelos direitos humanos. (...)
  5. Responsabilidade  -  Os media e o jornalismo têm de ser dignos de confiança, avessos a conflitos de interesse, transparentes a respeito do seu trabalho e sempre dispostos a ouvir as queixas e pontos de vista de outros.

“As novas iniciativas digitais e os actores tradicionais estão a reinventar-se na Net com sucesso, com apoio de doadores, fundações, a audiência e fontes públicas. O futuro do jornalismo não será determinado pela fixação numa única fonte de receitas, mas sim com base em soluções criativas para a crise de financiamento, e pode incluir uma mistura de apoios cívicos, de mercado e públicos.” (...)

 

O estudo Trust in Ethical Journalism  - The Key to Media Futures, em PDF

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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“Fake news”, ontem e hoje
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Agenda
01
Ago
Composição Fotográfica
09:00 @ Cenjor,Lisboa
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigéria
16
Set