Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Estudo

A ética como futuro do jornalismo e fonte de novas receitas

Se o ano de 2017 foi aquele em que o mundo acordou para a ameaça da desinformação e o modo como as tecnologias da Internet são subtilmente utilizadas para demolir a democracia, 2018 está a tornar-se o ano em que um jornalismo ético recebe, finalmente, a atenção que merece. É esta a reflexão introdutória de Aidan White, fundador da Ethical Journalism Network, no seu texto de apresentação do estudo Trust in Ethical Journalism (Confiança no Jornalismo Ético), agora disponível.

O trabalho faz um balanço dos mais recentes e bem conhecidos efeitos perversos da revolução digital sobre o jornalismo: “de que modo os algoritmos e a inteligência artificial estão a instalar uma nova agenda, potencialmente perturbadora; como as plataformas de publicidade e o negócio das redes sociais estão a minar a confiança pública; e de que modo a democracia e as escolhas políticas estão abertas a interferências indevidas.”

Mas Aidan White acrescenta às “más notícias” uma série de bons exemplos, relatados de situações no Médio Oriente, nos Balcãs, na Turquia e em vários países africanos, em que jornalistas e jornais “trabalham juntos, mesmo ultrapassando barreiras políticas”, para combater os promotores do ódio e para mostrar solidariedade com os media.

O autor começa pelas perguntas difíceis:

“Como podemos construir confiança no jornalismo e nos media? Temos de sacrificar os direitos humanos e o pluralismo em troca de serviços digitais grátis? Como podemos deter o sofrimento causado pelo discurso de ódio, propaganda e mentiras maliciosas sem pormos em causa a liberdade de expressão? De que modo vamos sustentar o jornalismo de que a democracia necessita para sobreviver?” (...) 

Aidan White destaca o facto de, tanto o Facebook como as outras grandes empresas tecnológicas, terem sido confrontadas por funcionários seus em revolta, e denúncias por parte de antigos dirigentes; também por governos cada vez mais preocupados pelo uso das plataformas para causar interferências em eleições democráticas; bem como por anunciantes fartos de verem os seus produtos [paginados] ao lado de opiniões anti-sociais e mesmo racistas. E, por último, pelos seus próprios utentes, a respeito das questões da privacidade e abusos. 

O incidente ocorrido com o Facebook na Noruega, em que a famosa fotografia da menina vietnamita ferida com napalm foi apagada do jornal Aftenposten, ilustra como “a codificação e a inteligência artificial não podem garantir uma comunicação bem informada, contrastada e ética”: 

“Dirigentes dos media, em todo o mundo, estão a dizer que precisamos de menos edição robótica e automatizada e mais de jornalistas e editores informados, competentes e bem treinados.” (...) 

“Infelizmente, tornou-se evidente que as redes sociais, e os modelos de negócio à volta delas, não foram projectados para promover ou pôr em destaque correntes de informação confiável, digna de crédito. Aquilo que conta nesse mundo são os clicks e os conteúdos que agarram a atenção, para atraírem anúncios, e não o propósito público da informação.” 

O autor chama ainda a atenção para o facto de muitos editores, embora tentados a cortar relações com o Facebook, estarem em dificuldade para encontrar alternativas convincentes. Para a Ethical Journalism Network, segundo afirma, as prioridades são cinco:

  1. Ética – Fortalecer no jornalismo a adesão aos valores fundamentais de rigor, independência, imparcialidade, humanidade, transparência e responsabilização, eliminando o discurso de ódio. (...)
  2. -  Conhecimento digital – Ajudar uma nova geração de jornalistas e editores a compreenderem a era digital, a adquirirem as competências de que precisam e a colocarem jornalismo de dados a todos os níveis.
  3. -   Sustentabilidade – Desenvolver apoio público a modos novos e criativos de financiamento de um jornalismo de interesse público, mantendo a independência editorial que garante a confiança pública. (...)
  4. Envolvimento  -  Garantir que o jornalismo colabora com a sua audiência para aumentar a compreensão do seu papel no novo ambiente da informação, promovendo respeito pela democracia e pelos direitos humanos. (...)
  5. Responsabilidade  -  Os media e o jornalismo têm de ser dignos de confiança, avessos a conflitos de interesse, transparentes a respeito do seu trabalho e sempre dispostos a ouvir as queixas e pontos de vista de outros.

“As novas iniciativas digitais e os actores tradicionais estão a reinventar-se na Net com sucesso, com apoio de doadores, fundações, a audiência e fontes públicas. O futuro do jornalismo não será determinado pela fixação numa única fonte de receitas, mas sim com base em soluções criativas para a crise de financiamento, e pode incluir uma mistura de apoios cívicos, de mercado e públicos.” (...)

 

O estudo Trust in Ethical Journalism  - The Key to Media Futures, em PDF

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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