Sexta-feira, 16 de Novembro, 2018
Estudo

A ética como futuro do jornalismo e fonte de novas receitas

Se o ano de 2017 foi aquele em que o mundo acordou para a ameaça da desinformação e o modo como as tecnologias da Internet são subtilmente utilizadas para demolir a democracia, 2018 está a tornar-se o ano em que um jornalismo ético recebe, finalmente, a atenção que merece. É esta a reflexão introdutória de Aidan White, fundador da Ethical Journalism Network, no seu texto de apresentação do estudo Trust in Ethical Journalism (Confiança no Jornalismo Ético), agora disponível.

O trabalho faz um balanço dos mais recentes e bem conhecidos efeitos perversos da revolução digital sobre o jornalismo: “de que modo os algoritmos e a inteligência artificial estão a instalar uma nova agenda, potencialmente perturbadora; como as plataformas de publicidade e o negócio das redes sociais estão a minar a confiança pública; e de que modo a democracia e as escolhas políticas estão abertas a interferências indevidas.”

Mas Aidan White acrescenta às “más notícias” uma série de bons exemplos, relatados de situações no Médio Oriente, nos Balcãs, na Turquia e em vários países africanos, em que jornalistas e jornais “trabalham juntos, mesmo ultrapassando barreiras políticas”, para combater os promotores do ódio e para mostrar solidariedade com os media.

O autor começa pelas perguntas difíceis:

“Como podemos construir confiança no jornalismo e nos media? Temos de sacrificar os direitos humanos e o pluralismo em troca de serviços digitais grátis? Como podemos deter o sofrimento causado pelo discurso de ódio, propaganda e mentiras maliciosas sem pormos em causa a liberdade de expressão? De que modo vamos sustentar o jornalismo de que a democracia necessita para sobreviver?” (...) 

Aidan White destaca o facto de, tanto o Facebook como as outras grandes empresas tecnológicas, terem sido confrontadas por funcionários seus em revolta, e denúncias por parte de antigos dirigentes; também por governos cada vez mais preocupados pelo uso das plataformas para causar interferências em eleições democráticas; bem como por anunciantes fartos de verem os seus produtos [paginados] ao lado de opiniões anti-sociais e mesmo racistas. E, por último, pelos seus próprios utentes, a respeito das questões da privacidade e abusos. 

O incidente ocorrido com o Facebook na Noruega, em que a famosa fotografia da menina vietnamita ferida com napalm foi apagada do jornal Aftenposten, ilustra como “a codificação e a inteligência artificial não podem garantir uma comunicação bem informada, contrastada e ética”: 

“Dirigentes dos media, em todo o mundo, estão a dizer que precisamos de menos edição robótica e automatizada e mais de jornalistas e editores informados, competentes e bem treinados.” (...) 

“Infelizmente, tornou-se evidente que as redes sociais, e os modelos de negócio à volta delas, não foram projectados para promover ou pôr em destaque correntes de informação confiável, digna de crédito. Aquilo que conta nesse mundo são os clicks e os conteúdos que agarram a atenção, para atraírem anúncios, e não o propósito público da informação.” 

O autor chama ainda a atenção para o facto de muitos editores, embora tentados a cortar relações com o Facebook, estarem em dificuldade para encontrar alternativas convincentes. Para a Ethical Journalism Network, segundo afirma, as prioridades são cinco:

  1. Ética – Fortalecer no jornalismo a adesão aos valores fundamentais de rigor, independência, imparcialidade, humanidade, transparência e responsabilização, eliminando o discurso de ódio. (...)
  2. -  Conhecimento digital – Ajudar uma nova geração de jornalistas e editores a compreenderem a era digital, a adquirirem as competências de que precisam e a colocarem jornalismo de dados a todos os níveis.
  3. -   Sustentabilidade – Desenvolver apoio público a modos novos e criativos de financiamento de um jornalismo de interesse público, mantendo a independência editorial que garante a confiança pública. (...)
  4. Envolvimento  -  Garantir que o jornalismo colabora com a sua audiência para aumentar a compreensão do seu papel no novo ambiente da informação, promovendo respeito pela democracia e pelos direitos humanos. (...)
  5. Responsabilidade  -  Os media e o jornalismo têm de ser dignos de confiança, avessos a conflitos de interesse, transparentes a respeito do seu trabalho e sempre dispostos a ouvir as queixas e pontos de vista de outros.

“As novas iniciativas digitais e os actores tradicionais estão a reinventar-se na Net com sucesso, com apoio de doadores, fundações, a audiência e fontes públicas. O futuro do jornalismo não será determinado pela fixação numa única fonte de receitas, mas sim com base em soluções criativas para a crise de financiamento, e pode incluir uma mistura de apoios cívicos, de mercado e públicos.” (...)

 

O estudo Trust in Ethical Journalism  - The Key to Media Futures, em PDF

Connosco
Bettany Hugues, Prémio Europeu Helena Vaz da Silva a comunicar história e património cultural Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hugues, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hugues como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Marçal Grilo abre novo ciclo de jantares-debate em Novembro Ver galeria

O Clube Português de Imprensa, o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário juntam-se, novamente,para promover um novo ciclo de jantares-debate, desta vez subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?

Será orador convidado, no próximo dia 22 de Novembro, Eduardo Marçal Grilo, antigo ministro da Educação e administrador da Fundação Gulbenkian, que tem dedicado à problemática do ensino e às causas da cultura e da ciência o essencial da sua actividade de intelectual, de homem político e enquanto docente.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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As notícias falsas e a internet
Francisco Sarsfield Cabral
As redes sociais são, hoje, a principal fonte de informação, se não mesmo a única, para imensa gente. O combate às “fake news” tem que ser feito, não pela censura, mas pela consciencialização dos utilizadores da net. Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil graças à utilização maciça das redes sociais. A maioria dos jornais brasileiros de referência não o apoiou, o...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...
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