Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Media

Jornalista saudita desaparecido no seu consulado em Istambul

O jornalista da Arábia Saudita Jamal Khashoggi, que se tinha exilado nos EUA em Junho de 2017, depois de ser intimado pelas autoridades a deixar de escrever, desapareceu durante uma ida ao consulado do seu país em Istambul. As primeiras notícias, vindas da própria polícia turca, admitiam que teria sido morto lá dentro, por um grupo de sauditas vindo ao local para esse efeito.

A Arábia Saudita desmente esta alegação e o Presidente Erdogan diz que o consulado terá de provar, com imagens, que o jornalista saiu de facto das instalações, como afirmou. Alastra entre os jornalistas que o conhecem o receio de que tenha sucedido o pior.
Jamal Khashoggi, que escrevia ultimamente para The Washington Post e The Guardian, tinha ido ao consulado, no dia 2 deste mês, tratar dos documentos pessoais necessários para o seu próximo casamento com uma cidadã turca. Segundo este diário britânico, as autoridades locais procuram identificar uma carrinha preta, de um conjunto de viaturas utilizadas pelo grupo saudita, na suspeita de que tenha transportado o corpo do jornalista.  

O embaixador saudita em Ankara foi chamado por duas vezes ao ministério turco dos Negócios Estrangeiros, sendo-lhe requerida a total cooperação com a investigação em curso. 

Segundo a revista L’Obs, Jamal Khashoggi é um jornalista de renome, conhecido pela sua franqueza de escrita e, nos últimos tempos, pela sua atitude crítica em relação ao regime saudita, apesar do programa de reformas em curso pelo príncipe Mohammed bin Salman. 

Numa entrevista concedida, em Março, à Columbia Journalism Review, afirmou que ele próprio tinha lutado por essas reformas, mas que a política mais recente agravou a intimidação, a concentração do poder e as restrições à liberdade de expressão, incluindo prisão de jornalistas e intelectuais. 

Ainda segundo L’Obs, Jamal Khashoggi “teve uma carreira movimentada. Cobriu vários conflitos e entrevistou várias vezes, no Afeganistão e no Sudão, o antigo dirigente da Al-Qaida, Osama Bin Laden”. 

“Considerado demasiado progressista, tinha sido forçado à demissão, em 2003, das funções de chefe de redacção do diário saudita Al-Watan. Voltou em 2007, mas teve de sair outra vez em 2010, depois de um editorial considerado ofensivo para os salafistas, corrente rigorista do Islão que preconiza uma obediência total ao governante.” 

“Manteve durante muito tempo relações ambíguas com o poder saudita, tendo ocupado postos de conselheiro, nomeadamente junto do antigo embaixador em Washington, o príncipe Turki al-Faiçal, que dirigiu também os serviços de informações sauditas.” (...) 

O próprio Khashoggi descreve a sua experiência na referida entrevista à CJR

“Fui repórter de uma quantidade de jornais, cobrindo a guerra no Afeganistão e a guerra do Golfo. Especializei-me no Islão político e consegui muitos exclusivos. Mais tarde fui editor do jornal Al-Watan. Também trabalhei nos meios diplomáticos, como conselheiro do embaixador no Reino Unido e nos Estados Unidos. Tentei fundar um canal noticioso. Falhei. Tive-o a transmitir durante onze horas, e chegou uma ordem para o fechar. Acredito no jornalismo livre, apesar de todas as limitações que tivémos. Sempre procurei forçar os limites. Sempre desejei ter mais espaço.” (...)

 

Mais informação em L’Obs,  na CJR  e em The Guardian

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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