Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Media

Como o jornalismo pode ser afectado pelas mudanças no Facebook

“Vamos proceder a uma mudança de fundo no modo como edificamos o Facebook.” Esta frase, publicada por Mark Zuckerberg a 19 de Janeiro de 2018, na sua página do Facebook, voltou a desencadear pânico entre os media. Mas não era a primeira vez que o plano de dar prioridade, no fluxo noticioso da plataforma, aos “amigos” dos utentes, em detrimento do jornalismo convencional, era anunciado. Este projecto vem, pelo menos, desde o Verão de 2016, e o seu desenvolvimento pode ser verificado em textos que reproduzimos no site do CPI.

De qualquer modo, a nova alteração feita ao algoritmo que governa estas prioridades “é um rude golpe para os meios de comunicação”. Para Zuckerberg, trata-se de devolver o Facebook à sua missão original de contribuir para “nos relacionarmos uns com os outros”. Mas os media, “atingidos pela quebra das vendas dos jornais e revistas nos quiosques, tinham encontrado nos dois mil milhões de utentes do Facebook um viveiro de leitores potenciais, com o objectivo de os atrair aos seus próprios sites e de obter receita desta audiência pela publicidade ou pelas assinaturas”.

Como se interroga o artigo de Le Monde que aqui citamos, “passados quase nove meses depois desta redistribuição das cartas, será justificado o alvoroço dos editores da Imprensa?” 

As conclusões de um trabalho muito recente do Instituto Reuters (Digital News Project, sobre o jornalismo privado, a distribuição pelas redes sociais e a mudança do algoritmo) vão neste sentido. Os investigadores estudaram o tráfego do Facebook em doze meios de comunicação de seis países europeus (Portugal não é mencionado) e concluíram que “a audiência gerada pela rede social baixou em média 9% no decurso dos três meses que se seguiram à mudança no algoritmo”  - embora o seu impacto continue a ficar “longe dos cenários apocalípticos” temidos. 

No caso de Le Monde, no entanto, a queda da página Facebook foi de 30%; a do grande diário finlandês Helsingin Sanomat foi de apenas 11%. E, de modo surpreendente, os conteúdos do site italiano TGCOM24 e do britânico The Times ganharam, respectivamente, mais 10% e 14% de interacções pelo Facebook. 

Segundo Le Monde, “os investigadores do Instituto Reuters têm ainda dificuldade em explicar estas disparidades”. 

“Para reduzirem a sua dependência da maior rede social, a maioria dos media interrogados pelo Reuters investiram noutras plataformas, como Instagram, Twitter ou Snapchat, mas o Facebook continua, de longe, a ser o maior fornecedor de leitores.” (...) 


O artigo aqui citado, na íntegra, em Le Monde
Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
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