Sábado, 20 de Abril, 2019
Estudo

Abranda a confiança dos portugueses nas notícias e conteúdos

Há sinais de esperança para a chamada indústria do jornalismo, com muitas empresas a apostarem em conteúdos de melhor qualidade e nas assinaturas como fonte de sustento económico. Mas estas mudanças continuam a ser “frágeis, distribuídas de modo desigual, e chegam por cima de muitos anos de disrupção digital, que degradou a confiança tanto dos editores como dos consumidores”.

É este o diagnóstico inicial do Digital News Report 2018, do Reuters Institute, já divulgado (e com um vídeo de apresentação de três minutos), onde se afirma também:

“Com dados cobrindo quase 40 países em cinco continentes, esta investigação é um aviso de que a revolução digital está cheia de contradições e excepções. Os países partiram de diferentes pontos, e a velocidade e extensão desta disrupção digital depende parcialmente da história, da geografia, da política e da regulação.”
O capítulo referente a Portugal reconhece que a confiança dos portugueses nas notícias em geral tem sido consistentemente elevada. Reconhece também, no entanto, que houve uma quebra significativa da confiança, quer ao nível das notícias mas, principalmente, ao nível dos conteúdos consumidos.

Uma das boas notícias é a de que o recurso às redes sociais como fonte noticiosa começa a decair em vários mercados importantes, depois de anos de crescimento contínuo. Esta queda é de seis pontos percentuais nos Estados Unidos, e está a acontecer também no Reino Unido e na França. Há um declínio específico no que se refere à pesquisa e partilha de notícias pelo Facebook (menos nove pontos nos EUA).  

 

Ao mesmo tempo, verifica-se uma subida no uso das aplicações de mensagens para este fim, à medida que os consumidores “procuram espaços de comunicação mais privados (e de menos confronto)”. O WhatsApp é usado para recolha de notícias “por cerca de metade da nossa representação de utentes digitais na Malásia (54%), no Brasil (48%) e por cerca de um terço na Espanha (36%) e na Turquia (30%)”.

 

Em todos os países, “o nível médio de confiança nas notícias mantém-se relativamente estável nos 44%, com uma percentagem pouco acima da metade (51%) afirmando que confia nos meios noticiosos que usa regularmente”.

 

“Por contraste, 34% dos inquiridos dizem confiar nas notícias que encontram por meio de pesquisa e menos de um quarto (23%) confiam nas que encontram nas redes sociais”. 

 

“Acima de metade (54%) manifestam-se preocupados (ou muito preocupados) a respeito do que é real ou falso na Internet. Isto atinge o ponto máximo em países como o Brasil (85%), Espanha (69%) e os EUA (64%), onde situações políticas polarizadas se combinam com elevados níveis de utilização das redes sociais. É mais baixo na Alemanha (37%) e na Holanda (30%), onde as eleições recentes foram menos perturbadas por preocupações a respeito de conteúdos falsos.” (...)

 

“Existe algum apetite público por intervenção governamental na repressão das fake news, principalmente na Europa (60%) e na Ásia (63%). Por contraste, só quatro em cada dez americanos (41%) acham que o governo devia fazer mais.” (...)

 

“O número médio de pessoas que pagam pelas notícias online subiu em muitos países, com aumentos significativos na Noruega (mais quatro pontos percentuais), Suécia (mais seis) e Finlândia (mais quatro). Todos estes países têm um número reduzido de publishers, que na sua maioria continuam a promover uma variedade de estratégias de paywall. Mas, em mercados mais complexos e fragmentados, há ainda muitos que editam jornais digitais de acesso gratuito.” (...)

 

Na classificação por países, o capítulo referente a Portugal reconhece que a confiança dos portugueses nas notícias em geral tem sido consistentemente elevada, mas este ano fica a par dos que se encontram no primeiro lugar do inquérito, com 62%.

Ainda assim, e “apesar dos elevados níveis de confiança, observa-se, entre 2015 e 2018, uma quebra significativa da confiança”, realçam Gustavo Cardoso, Miguel Paisana e Ana Pinto Martinho, investigadores do OberCom e do ISCTE, em comunicado  - que aqui citamos da agência Lusa.

“A confiança geral nas notícias passou, assim, de 65,6% em 2015 para 62,1% este ano, enquanto a confiança nos conteúdos consumidos baixou de 71,3% para 62,3% em 2018. Portugal é também o segundo país onde a população mais se preocupa sobre o que é real ou falso na Internet, segundo indicaram 71% dos inquiridos, logo a seguir aos do Brasil urbano.”

Como relata o Expresso, “afirmar que se tem, regra geral, confiança nas notícias não é o mesmo que confiar numa determinada marca ou produtor. ‘Os portugueses podem consumir notícias, ter confiança genérica nelas e, simultaneamente, ter opinião negativa face às marcas que as divulgam’, lê-se no comunicado de Imprensa”.

“A forma como acedem a estas também tem impacto, com os motores de busca a oferecerem maior segurança aos consumidores do que as redes sociais. Quase metade (48,2%) dos portugueses afirma confiar em notícias acedidas através de motores de busca, mas apenas 28,9% diz confiar nelas se forem obtidas através de redes sociais.” (...)  

E cerca de metade dos inquiridos declara ter encontrado exemplos de mau jornalismo na semana anterior; 38% afirmam mesmo ter visto conteúdos que consideram “manipulados para seguirem uma agenda específica”.

“A televisão e a Internet são as principais fontes noticiosas, mas a primeira continua a conquistar 55% dos portugueses inquiridos no estudo (e a Internet, incluindo redes sociais, apenas 34%). O domínio da televisão é também evidente ao verificar-se que as marcas mais utilizadas pelos portugueses são todas estações televisivas: SIC Notícias e SIC estão na liderança, seguidas pela TVI24, TVI e RTP.

“Se analisarmos apenas o universo online, é o portal Sapo que está na linha da frente, seguido pela SIC Notícias, Notícias ao Minuto, Jornal de Notícias e Público. E no caso dos jornais em papel, os diários Jornal de Notícias e Correio da Manhã foram os mais lidos na semana anterior à resposta do inquérito.” (...) 


Mais informação em sapo.pt e no ExpressoO relatório no site do Reuters Institute

Connosco
Agravam-se as restrições à liberdade de Imprensa - segundo os RSF Ver galeria

A situação da liberdade de Imprensa continua a degradar-se em muitos países, por todo o mundo. O ódio aos jornalistas degenerou em violência, o que leva a um aumento do medo na profissão.
É esta a síntese inicial da edição de 2019 do Ranking Mundial da Liberdade da Imprensa, dos Repórteres sem Fronteiras, agora divulgada.

“Se o debate político desliza, de forma discreta ou evidente, para uma atmosfera de guerra civil, onde os jornalistas se tornam bodes expiatórios, os modelos democráticos passam a estar em grande perigo”  - afirma Christophe Deloire, secretário-geral da referida ONG.

“O número de países onde os jornalistas podem exercer com total segurança a actividade profissional continua a diminuir, enquanto os regimes autoritários reforçam o controlo sobre os meios de comunicação.” De acordo com este relatório, apenas 24% dos 180 países e territórios analisados apresentam uma situação considerada “boa” ou “relativamente boa”.

A Noruega mantém, pelo terceiro ano consecutivo, o primeiro lugar no ranking, com a Finlândia na segunda posição e a Suécia na terceira. Portugal subiu para o 12º lugar, ficando imediatamente acima da Alemanha, da Islândia e da Irlanda.
José Ribeiro e Castro: "Sofremos de uma periferia mental" Ver galeria

Portugal precisa de fazer três reformas atrasadas, e a primeira é a reforma eleitoral, para “devolver a democracia à cidadania, resgatar e salvar a democracia do declínio em que está e que nós sentimos, eleição após eleição”  -  afirmou José Ribeiro e Castro no ciclo de jantares-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema “Portugal: Que País vai a votos?”.

As outras duas são a do território, num País que é “um deserto administrativo”, e a do Estado, para o tornar “mais barato e eficiente” e realmente “dimensionado às capacidades do País”.

Segundo o nosso convidado, Portugal precisa ainda de dois propósitos, o mais urgente do combate à pobreza, o mais ambicioso de “atingir a média europeia em vinte anos”.

Finalmente, precisamos de realizar estes projectos assumindo a nossa condição europeia, em relação à qual continuamos a sofrer de uma “periferia mental”, que "é pior do que a geográfica, porque aqui não há auto-estrada que valha".
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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