Segunda-feira, 20 de Janeiro, 2020
Estudo

Abranda a confiança dos portugueses nas notícias e conteúdos

Há sinais de esperança para a chamada indústria do jornalismo, com muitas empresas a apostarem em conteúdos de melhor qualidade e nas assinaturas como fonte de sustento económico. Mas estas mudanças continuam a ser “frágeis, distribuídas de modo desigual, e chegam por cima de muitos anos de disrupção digital, que degradou a confiança tanto dos editores como dos consumidores”.

É este o diagnóstico inicial do Digital News Report 2018, do Reuters Institute, já divulgado (e com um vídeo de apresentação de três minutos), onde se afirma também:

“Com dados cobrindo quase 40 países em cinco continentes, esta investigação é um aviso de que a revolução digital está cheia de contradições e excepções. Os países partiram de diferentes pontos, e a velocidade e extensão desta disrupção digital depende parcialmente da história, da geografia, da política e da regulação.”
O capítulo referente a Portugal reconhece que a confiança dos portugueses nas notícias em geral tem sido consistentemente elevada. Reconhece também, no entanto, que houve uma quebra significativa da confiança, quer ao nível das notícias mas, principalmente, ao nível dos conteúdos consumidos.

Uma das boas notícias é a de que o recurso às redes sociais como fonte noticiosa começa a decair em vários mercados importantes, depois de anos de crescimento contínuo. Esta queda é de seis pontos percentuais nos Estados Unidos, e está a acontecer também no Reino Unido e na França. Há um declínio específico no que se refere à pesquisa e partilha de notícias pelo Facebook (menos nove pontos nos EUA).  

 

Ao mesmo tempo, verifica-se uma subida no uso das aplicações de mensagens para este fim, à medida que os consumidores “procuram espaços de comunicação mais privados (e de menos confronto)”. O WhatsApp é usado para recolha de notícias “por cerca de metade da nossa representação de utentes digitais na Malásia (54%), no Brasil (48%) e por cerca de um terço na Espanha (36%) e na Turquia (30%)”.

 

Em todos os países, “o nível médio de confiança nas notícias mantém-se relativamente estável nos 44%, com uma percentagem pouco acima da metade (51%) afirmando que confia nos meios noticiosos que usa regularmente”.

 

“Por contraste, 34% dos inquiridos dizem confiar nas notícias que encontram por meio de pesquisa e menos de um quarto (23%) confiam nas que encontram nas redes sociais”. 

 

“Acima de metade (54%) manifestam-se preocupados (ou muito preocupados) a respeito do que é real ou falso na Internet. Isto atinge o ponto máximo em países como o Brasil (85%), Espanha (69%) e os EUA (64%), onde situações políticas polarizadas se combinam com elevados níveis de utilização das redes sociais. É mais baixo na Alemanha (37%) e na Holanda (30%), onde as eleições recentes foram menos perturbadas por preocupações a respeito de conteúdos falsos.” (...)

 

“Existe algum apetite público por intervenção governamental na repressão das fake news, principalmente na Europa (60%) e na Ásia (63%). Por contraste, só quatro em cada dez americanos (41%) acham que o governo devia fazer mais.” (...)

 

“O número médio de pessoas que pagam pelas notícias online subiu em muitos países, com aumentos significativos na Noruega (mais quatro pontos percentuais), Suécia (mais seis) e Finlândia (mais quatro). Todos estes países têm um número reduzido de publishers, que na sua maioria continuam a promover uma variedade de estratégias de paywall. Mas, em mercados mais complexos e fragmentados, há ainda muitos que editam jornais digitais de acesso gratuito.” (...)

 

Na classificação por países, o capítulo referente a Portugal reconhece que a confiança dos portugueses nas notícias em geral tem sido consistentemente elevada, mas este ano fica a par dos que se encontram no primeiro lugar do inquérito, com 62%.

Ainda assim, e “apesar dos elevados níveis de confiança, observa-se, entre 2015 e 2018, uma quebra significativa da confiança”, realçam Gustavo Cardoso, Miguel Paisana e Ana Pinto Martinho, investigadores do OberCom e do ISCTE, em comunicado  - que aqui citamos da agência Lusa.

“A confiança geral nas notícias passou, assim, de 65,6% em 2015 para 62,1% este ano, enquanto a confiança nos conteúdos consumidos baixou de 71,3% para 62,3% em 2018. Portugal é também o segundo país onde a população mais se preocupa sobre o que é real ou falso na Internet, segundo indicaram 71% dos inquiridos, logo a seguir aos do Brasil urbano.”

Como relata o Expresso, “afirmar que se tem, regra geral, confiança nas notícias não é o mesmo que confiar numa determinada marca ou produtor. ‘Os portugueses podem consumir notícias, ter confiança genérica nelas e, simultaneamente, ter opinião negativa face às marcas que as divulgam’, lê-se no comunicado de Imprensa”.

“A forma como acedem a estas também tem impacto, com os motores de busca a oferecerem maior segurança aos consumidores do que as redes sociais. Quase metade (48,2%) dos portugueses afirma confiar em notícias acedidas através de motores de busca, mas apenas 28,9% diz confiar nelas se forem obtidas através de redes sociais.” (...)  

E cerca de metade dos inquiridos declara ter encontrado exemplos de mau jornalismo na semana anterior; 38% afirmam mesmo ter visto conteúdos que consideram “manipulados para seguirem uma agenda específica”.

“A televisão e a Internet são as principais fontes noticiosas, mas a primeira continua a conquistar 55% dos portugueses inquiridos no estudo (e a Internet, incluindo redes sociais, apenas 34%). O domínio da televisão é também evidente ao verificar-se que as marcas mais utilizadas pelos portugueses são todas estações televisivas: SIC Notícias e SIC estão na liderança, seguidas pela TVI24, TVI e RTP.

“Se analisarmos apenas o universo online, é o portal Sapo que está na linha da frente, seguido pela SIC Notícias, Notícias ao Minuto, Jornal de Notícias e Público. E no caso dos jornais em papel, os diários Jornal de Notícias e Correio da Manhã foram os mais lidos na semana anterior à resposta do inquérito.” (...) 


Mais informação em sapo.pt e no ExpressoO relatório no site do Reuters Institute

Connosco
Novas ferramentas para gerir os "media online" Ver galeria

O Instituto Internacional de Imprensa (IPI) divulgou uma nova ferramenta para moderadores online dos media lidarem com situações de abuso que ocorrem nas redes sociais. 

As ferramentas e estratégias para gerir os debates no Facebook e no Twitter fazem parte da plataforma do IPI Newsrooms Ontheline, que reúne várias sugestões sobre como combater o assédio online contra jornalistas.

O objectivo é explicar de que forma os moderadores podem gerir as redes sociais e como devem aplicar essas ferramentas, bem como as opções disponíveis pelas próprias plataformas das redes, de forma a conseguirem dar resposta ao abuso online e às ameaças contra os media e jornalistas individuais.
As medidas definidas são o resultado de várias entrevistas com peritos em audiências dos principais media da Europa. Devido à constante evolução, estas estratégias estão sujeitas a revisão e actualização constantes.

A maioria dos peritos, consultados pela IPI, salienta que existem várias ferramentas que podem ser utilizadas para a moderação de mensagens abusivas no Twitter, entre as quais o muting e o bloqueio. 

Em relação ao Facebook, os moderadores podem apagar os comentários, esconder comentários com conteúdo abusivo, banir um utilizador das páginas do medium, remover o utilizador de uma página, desactivar os comentários, bloquear determinadas palavras ou, ainda, reportar uma página ou um post.

Crise gera em Espanha modelos jornalísticos inovadores Ver galeria

A indústria do jornalismo em Espanha está em crise há mais de uma década. O colapso do crescimento económico afectou todas as áreas. Os fabricantes reduziram orçamentos de publicidade, o desemprego reduziu o poder de compra das famílias, que, por sua vez,  diminuíram as suas despesas, incluindo as dos meios de comunicação social.
O autor analisa os novos modelos de projetos que procuram responder aos desafios informativos actuais,  com apostas diferentes dos convencionais, baseados na verificação informativa, no uso dos mecanismos de transparência, na contextualização informativa, no jornalismo de dados ou na visualização.

Os meios de comunicação social também reduziram as suas despesas, entre 2005 e 2008, pelo menos 12 200 empregos foram suprimidos, segundo dados do Relatório da Profissão Jornalística de 2015. E em 2018, o investimento em publicidade ainda era 30% inferior ao de 2008.

O Clube

Ao retomar a regularidade de actualização deste site, no inicio de outra década, achámos oportuno proceder ao  balanço do vasto material arquivado, designadamente, em textos de reflexão sobre a forma como está a ser exercido o jornalismo,  no contexto de um período extremamente exigente  para os novos e velhos  “media”.

O resultado dessa pesquisa retrospectiva foi muito estimulante, a ponto de termos sentido  ser um imperativo partilhá-la, no essencial,  com quem nos acompanha mais de perto, sendo, no entanto,  recém-chegados. 


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Opinião
Apoiar a comunicação social
Francisco Sarsfield Cabral
O Presidente da República voltou a falar na necessidade de o Estado tomar medidas de apoio à comunicação social. Marcelo Rebelo de Sousa discursava na apresentação de um programa do “Público” para dar a estudantes universitários acesso gratuito a assinaturas daquele jornal, com o apoio de entidades privadas que pagam metade dos custos envolvidos. O Presidente entende, e bem, que o Estado tem responsabilidades neste campo e...
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