Sábado, 20 de Outubro, 2018
Estudo

Abranda a confiança dos portugueses nas notícias e conteúdos

Há sinais de esperança para a chamada indústria do jornalismo, com muitas empresas a apostarem em conteúdos de melhor qualidade e nas assinaturas como fonte de sustento económico. Mas estas mudanças continuam a ser “frágeis, distribuídas de modo desigual, e chegam por cima de muitos anos de disrupção digital, que degradou a confiança tanto dos editores como dos consumidores”.

É este o diagnóstico inicial do Digital News Report 2018, do Reuters Institute, já divulgado (e com um vídeo de apresentação de três minutos), onde se afirma também:

“Com dados cobrindo quase 40 países em cinco continentes, esta investigação é um aviso de que a revolução digital está cheia de contradições e excepções. Os países partiram de diferentes pontos, e a velocidade e extensão desta disrupção digital depende parcialmente da história, da geografia, da política e da regulação.”
O capítulo referente a Portugal reconhece que a confiança dos portugueses nas notícias em geral tem sido consistentemente elevada. Reconhece também, no entanto, que houve uma quebra significativa da confiança, quer ao nível das notícias mas, principalmente, ao nível dos conteúdos consumidos.

Uma das boas notícias é a de que o recurso às redes sociais como fonte noticiosa começa a decair em vários mercados importantes, depois de anos de crescimento contínuo. Esta queda é de seis pontos percentuais nos Estados Unidos, e está a acontecer também no Reino Unido e na França. Há um declínio específico no que se refere à pesquisa e partilha de notícias pelo Facebook (menos nove pontos nos EUA).  

 

Ao mesmo tempo, verifica-se uma subida no uso das aplicações de mensagens para este fim, à medida que os consumidores “procuram espaços de comunicação mais privados (e de menos confronto)”. O WhatsApp é usado para recolha de notícias “por cerca de metade da nossa representação de utentes digitais na Malásia (54%), no Brasil (48%) e por cerca de um terço na Espanha (36%) e na Turquia (30%)”.

 

Em todos os países, “o nível médio de confiança nas notícias mantém-se relativamente estável nos 44%, com uma percentagem pouco acima da metade (51%) afirmando que confia nos meios noticiosos que usa regularmente”.

 

“Por contraste, 34% dos inquiridos dizem confiar nas notícias que encontram por meio de pesquisa e menos de um quarto (23%) confiam nas que encontram nas redes sociais”. 

 

“Acima de metade (54%) manifestam-se preocupados (ou muito preocupados) a respeito do que é real ou falso na Internet. Isto atinge o ponto máximo em países como o Brasil (85%), Espanha (69%) e os EUA (64%), onde situações políticas polarizadas se combinam com elevados níveis de utilização das redes sociais. É mais baixo na Alemanha (37%) e na Holanda (30%), onde as eleições recentes foram menos perturbadas por preocupações a respeito de conteúdos falsos.” (...)

 

“Existe algum apetite público por intervenção governamental na repressão das fake news, principalmente na Europa (60%) e na Ásia (63%). Por contraste, só quatro em cada dez americanos (41%) acham que o governo devia fazer mais.” (...)

 

“O número médio de pessoas que pagam pelas notícias online subiu em muitos países, com aumentos significativos na Noruega (mais quatro pontos percentuais), Suécia (mais seis) e Finlândia (mais quatro). Todos estes países têm um número reduzido de publishers, que na sua maioria continuam a promover uma variedade de estratégias de paywall. Mas, em mercados mais complexos e fragmentados, há ainda muitos que editam jornais digitais de acesso gratuito.” (...)

 

Na classificação por países, o capítulo referente a Portugal reconhece que a confiança dos portugueses nas notícias em geral tem sido consistentemente elevada, mas este ano fica a par dos que se encontram no primeiro lugar do inquérito, com 62%.

Ainda assim, e “apesar dos elevados níveis de confiança, observa-se, entre 2015 e 2018, uma quebra significativa da confiança”, realçam Gustavo Cardoso, Miguel Paisana e Ana Pinto Martinho, investigadores do OberCom e do ISCTE, em comunicado  - que aqui citamos da agência Lusa.

“A confiança geral nas notícias passou, assim, de 65,6% em 2015 para 62,1% este ano, enquanto a confiança nos conteúdos consumidos baixou de 71,3% para 62,3% em 2018. Portugal é também o segundo país onde a população mais se preocupa sobre o que é real ou falso na Internet, segundo indicaram 71% dos inquiridos, logo a seguir aos do Brasil urbano.”

Como relata o Expresso, “afirmar que se tem, regra geral, confiança nas notícias não é o mesmo que confiar numa determinada marca ou produtor. ‘Os portugueses podem consumir notícias, ter confiança genérica nelas e, simultaneamente, ter opinião negativa face às marcas que as divulgam’, lê-se no comunicado de Imprensa”.

“A forma como acedem a estas também tem impacto, com os motores de busca a oferecerem maior segurança aos consumidores do que as redes sociais. Quase metade (48,2%) dos portugueses afirma confiar em notícias acedidas através de motores de busca, mas apenas 28,9% diz confiar nelas se forem obtidas através de redes sociais.” (...)  

E cerca de metade dos inquiridos declara ter encontrado exemplos de mau jornalismo na semana anterior; 38% afirmam mesmo ter visto conteúdos que consideram “manipulados para seguirem uma agenda específica”.

“A televisão e a Internet são as principais fontes noticiosas, mas a primeira continua a conquistar 55% dos portugueses inquiridos no estudo (e a Internet, incluindo redes sociais, apenas 34%). O domínio da televisão é também evidente ao verificar-se que as marcas mais utilizadas pelos portugueses são todas estações televisivas: SIC Notícias e SIC estão na liderança, seguidas pela TVI24, TVI e RTP.

“Se analisarmos apenas o universo online, é o portal Sapo que está na linha da frente, seguido pela SIC Notícias, Notícias ao Minuto, Jornal de Notícias e Público. E no caso dos jornais em papel, os diários Jornal de Notícias e Correio da Manhã foram os mais lidos na semana anterior à resposta do inquérito.” (...) 


Mais informação em sapo.pt e no ExpressoO relatório no site do Reuters Institute

Connosco
Editorial de Khashoggi defende liberdade de expressão no mundo árabe Ver galeria

O mundo árabe “encheu-se de esperança durante a Primavera de 2011; jornalistas, académicos e a população estavam cheios de entusiasmo por uma sociedade árabe livre nos seus países”, mas as expectativas foram frustradas e “estas sociedades voltaram ao antigo status quo, ou tiveram que enfrentar condições ainda mais duras do que tinham antes”.

É esta a reflexão do último editorial de Jamal Khashoggi, o jornalista saudita interrogado e morto no consulado do seu país em Istambul, segundo apontam cada vez mais as informações que vão chegando. A editora de opinião do jornal The Washington Post, do qual era colaborador regular há um ano, conta que recebeu o texto do seu tradutor e ajudante, um dia depois do desaparecimento. Foi decidido adiar a publicação, na esperança de que ele voltasse e a edição final fosse feita por ambos. Segundo Karen Attiah, o texto “capta na perfeição a sua dedicação e paixão pela liberdade no mundo árabe, uma liberdade pela qual, aparentemente, deu a sua vida”.

Como vivem (e bem) da publicidade os “sites” de desinformação Ver galeria

Os sites que usam e abusam da desinformação são sustentados, em última instância, pela mesma publicidade que todos desejam conservar, incluindo os media tradicionais. Postas as coisas nestes termos, a situação parece paradoxal. Mas uma investigação feita pela equipa Décodex, do diário francês Le Monde, revela que, “mesmo sendo apontados a dedo como nocivos ao debate público, os sites de desinformação não têm dificuldades em encontrar parceiros comerciais”.

Em consequência das mutações ocorridas no funcionamento do mercado digital, “em França há centenas de anunciantes que ainda pagam para aparecerem em sites de desinformação”  - sem necessariamente terem consciência disso, como explica Pierre-Albert Ruquier, da empresa Storyzy. Alertadas por Le Monde, pelo menos duas redes publicitárias, Ligatus e Taboola, declararam ter cortado colaboração com um dos mais populares sites desta natureza, o Santeplusmag.com.

Mas há muito trabalho a fazer, porque os actores do mercado têm relutância em intervir a montante do problema  - fazendo-o, sobretudo, quando são apanhados.

O Clube

Terminou o prazo de recepção dos trabalhos concorrentes ao  Prémio de Jornalismo da Lusofonia, instituído há um ano por iniciativa do jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, com o patrocínio da Fundação Jorge Álvares e o apoio do JL – Jornal de Artes, Letras e Ideias.

Nesta segunda edição, o Prémio foi desdobrado em duas modalidades:  uma  aberta a textos originais, que passou a designar-se o Prémio Ensaio da Lusofonia; e outra que manteve  o título de Prémio de Jornalismo da Lusofonia, destinado a textos já publicados, em suporte papel ou digital.


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