Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Opinião

O Expresso diz que errou

por Dinis de Abreu

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Uma nota editorial, contudo, nem sequer assinada pela direcção do jornal. O director, Pedro Santos Guerreiro, a quem competiria explicar e assumir a noticia, afinal falsa, que abalou de novo a credibilidade do jornal, limitou-se, pudicamente, na sua coluna da página dois, a remeter os leitores para a tal nota, como se não fosse nada com ele.

Ora a derrapagem do Expresso, como jornal de referência que se considera, exigiria que a sua direcção - e o seu director em particular - fossem claros quanto à natureza do engano em que caíram.

Afinal, foram enganados ou instrumentalizados pelas fontes consultadas?  Ou foram simplesmente incompetentes, ao não cruzarem suficientemente essas mesmas fontes, durante a investigação jornalística sobre a PGR, que durou meses, como se escreve na nota editorial?

É certo que admitem que “os mecanismos de investigação jornalística falharam e fomos induzidos em erro nas informações recolhidas”. Mas foram “induzidos em erro” por quem? Silêncio absoluto, talvez com receio que sequem as fontes que os manipularam e que mereciam ser denunciadas publicamente, em defesa da honra e do bom nome do Expresso.

Não adianta escreverem, também, piedosamente, na mesma nota, que “neste caso, foi averiguado internamente o processo editorial que levou à publicação da noticia “. E a que conclusões chegaram? Nada se diz. Lembra os inquéritos de Tancos ou de Pedrogão. 

O Expresso errou desta vez como noutras, que têm questionado a respeitabilidade do jornal e a fiabilidade das fontes que utiliza. O jornalismo preguiçoso -  ou comprometido - nunca deu bons resultados…

 

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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