Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
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"Deep Fakes", uma nova ameaça para o jornalismo "online"

A comunicação entre pessoas não se esgota na palavra (que pode ser usada para mentir), nem no tom de voz, nem na postura geral de quem fala  - embora todos estes elementos sejam úteis para detectar a falsidade intencional de alguém. Em qualquer diálogo, como nos interrogatórios de investigação judicial, ou psicológica, os olhos são especialmente reveladores. A partir destas evidências, e da natureza tecnológica da inteligência artificial, investigadores ao serviço do Departamento de Defesa dos EUA estão a desenvolver ferramentas capazes de detectar os chamados DeepFakes  - vídeos que retratam a imagem verdadeira de alguém, mas a fazer ou a dizer coisas que de facto não são autênticas.

Um exemplo conhecido é o que foi feito pelo humorista e cineasta Gordon Peele, que criou para o BuzzFeed um vídeo que, entre outras coisas, chama “completo idiota” a Donald Trump. Outros, mais correntes, apropriam-se do rosto de actrizes famosas de Hollywood e conseguem colocá-lo nos corpos de protagonistas de filmes pornográficos, realizando deste modo imitações muito realistas e, naturalmente, lesivas de quem teve a sua imagem usurpada para tais fins. 

Segundo o artigo que citamos, da Media-tics, os investigadores ao serviço da DARPA - Defense Advanced Research Projects Agency procuraram e aproveitaram uma brecha na tecnologia usada para a criação destas falsificações, a saber: os DeepFakes “nunca mostram a pessoa que foi manipulada a pestanejar, porque a inteligência artificial que os cria é baseada em imagens estáticas”. 

Ou, em casos em que haja pestanejar, “os movimentos oculares não imitam com exactidão os que são naturalmente efectuados por qualquer ser humano”. É então possível identificar “a exploração de sinais fisiológicos deste tipo, os quais – pelo menos por enquanto -  são difíceis de imitar para fazer DeepFakes”. 

“Para desmontar um DeepFake é preciso, em primeiro lugar, examinar o arquivo digital em busca de indícios que sugiram uma montagem de imagens, analisando cortes ou pequenos erros de edição. Depois, é preciso prestar atenção às distintas propriedades físicas das imagens, na busca de possíveis incongruências ou erros de junção. Neste sentido, é possível ainda verificar se o vídeo mostra características climáticas incompatíveis com a sua suposta data de realização, ou um fundo que não encaixa com a sua teórica localização de filmagem.” 

“Treinar uma ferramenta de inteligência artificial para detectar estas falhas é a tarefa que tem em mãos o projecto da agência DARPA, embora seja necessário tempo para o conseguir  -  e, de qualquer modo, o mundo digital já demonstrou que a detecção das mentiras costuma chegar depois de se terem tornado ‘virais’ e feito o seu trabalho.” 

“Esperam-nos muitas aventuras...”  - conclui o autor. 

Podemos acrescentar outro exemplo recente das possibilidades assustadoras da tecnologia digital usada por estes maus caminhos. Charlie Warzel, um jornalista do BuzzFeed, preocupado com a predição de um futuro em que essa tecnologia pode estar perto de “democratizar a capacidade de manipular a percepção e falsificar a realidade”, chegando a uma espécie de “Infocalipse”, resolveu testar as suas próprias competências neste terreno. 

Procedeu a uma recriação digital da sua voz e foi melhorando até chegar ao ponto de a tornar tão convincente que podia “enganar a pessoa que claramente conhece a minha voz melhor do que ninguém: a minha mãe”. 

Os passos técnicos seguidos estão descritos no artigo de que incluímos aqui o link, em BuzzFeedNews. O engano resultou, e ela levou tempo até aceitar que aquilo que escutou tinha sido criado por inteligência artificial: 

“Eu não sabia que uma coisa como esta era possível”  -  disse mais tarde. “Nunca duvidei, nem por um segundo, que eras tu.”

 

O artigo de Miguel Ossorio Vega, em Media-tics, e o de Charlie Warzel, em BuzzFeedNews.

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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