Sábado, 17 de Agosto, 2019
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"Deep Fakes", uma nova ameaça para o jornalismo "online"

A comunicação entre pessoas não se esgota na palavra (que pode ser usada para mentir), nem no tom de voz, nem na postura geral de quem fala  - embora todos estes elementos sejam úteis para detectar a falsidade intencional de alguém. Em qualquer diálogo, como nos interrogatórios de investigação judicial, ou psicológica, os olhos são especialmente reveladores. A partir destas evidências, e da natureza tecnológica da inteligência artificial, investigadores ao serviço do Departamento de Defesa dos EUA estão a desenvolver ferramentas capazes de detectar os chamados DeepFakes  - vídeos que retratam a imagem verdadeira de alguém, mas a fazer ou a dizer coisas que de facto não são autênticas.

Um exemplo conhecido é o que foi feito pelo humorista e cineasta Gordon Peele, que criou para o BuzzFeed um vídeo que, entre outras coisas, chama “completo idiota” a Donald Trump. Outros, mais correntes, apropriam-se do rosto de actrizes famosas de Hollywood e conseguem colocá-lo nos corpos de protagonistas de filmes pornográficos, realizando deste modo imitações muito realistas e, naturalmente, lesivas de quem teve a sua imagem usurpada para tais fins. 

Segundo o artigo que citamos, da Media-tics, os investigadores ao serviço da DARPA - Defense Advanced Research Projects Agency procuraram e aproveitaram uma brecha na tecnologia usada para a criação destas falsificações, a saber: os DeepFakes “nunca mostram a pessoa que foi manipulada a pestanejar, porque a inteligência artificial que os cria é baseada em imagens estáticas”. 

Ou, em casos em que haja pestanejar, “os movimentos oculares não imitam com exactidão os que são naturalmente efectuados por qualquer ser humano”. É então possível identificar “a exploração de sinais fisiológicos deste tipo, os quais – pelo menos por enquanto -  são difíceis de imitar para fazer DeepFakes”. 

“Para desmontar um DeepFake é preciso, em primeiro lugar, examinar o arquivo digital em busca de indícios que sugiram uma montagem de imagens, analisando cortes ou pequenos erros de edição. Depois, é preciso prestar atenção às distintas propriedades físicas das imagens, na busca de possíveis incongruências ou erros de junção. Neste sentido, é possível ainda verificar se o vídeo mostra características climáticas incompatíveis com a sua suposta data de realização, ou um fundo que não encaixa com a sua teórica localização de filmagem.” 

“Treinar uma ferramenta de inteligência artificial para detectar estas falhas é a tarefa que tem em mãos o projecto da agência DARPA, embora seja necessário tempo para o conseguir  -  e, de qualquer modo, o mundo digital já demonstrou que a detecção das mentiras costuma chegar depois de se terem tornado ‘virais’ e feito o seu trabalho.” 

“Esperam-nos muitas aventuras...”  - conclui o autor. 

Podemos acrescentar outro exemplo recente das possibilidades assustadoras da tecnologia digital usada por estes maus caminhos. Charlie Warzel, um jornalista do BuzzFeed, preocupado com a predição de um futuro em que essa tecnologia pode estar perto de “democratizar a capacidade de manipular a percepção e falsificar a realidade”, chegando a uma espécie de “Infocalipse”, resolveu testar as suas próprias competências neste terreno. 

Procedeu a uma recriação digital da sua voz e foi melhorando até chegar ao ponto de a tornar tão convincente que podia “enganar a pessoa que claramente conhece a minha voz melhor do que ninguém: a minha mãe”. 

Os passos técnicos seguidos estão descritos no artigo de que incluímos aqui o link, em BuzzFeedNews. O engano resultou, e ela levou tempo até aceitar que aquilo que escutou tinha sido criado por inteligência artificial: 

“Eu não sabia que uma coisa como esta era possível”  -  disse mais tarde. “Nunca duvidei, nem por um segundo, que eras tu.”

 

O artigo de Miguel Ossorio Vega, em Media-tics, e o de Charlie Warzel, em BuzzFeedNews.

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

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Quando retomarmos a actualização  das nossas páginas, no inicio de Setembro, contamos com a renovação do interesse dos Associados do Clube e dos milhares de outros frequentadores regulares,  que nos acompanham  em número crescente e que  se revêem neste espaço, formatado no rigor e na independência em que todos nos reconhecemos,  como  valor matricial do Clube, desde a sua fundação,  há quase meio século.   


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