Sábado, 25 de Maio, 2019
Estudo

Viabilidade da Imprensa portuguesa na "corda bamba"...

A questão da sustentabilidade da Imprensa em Portugal, depois da revolução digital, é reflectida em ensaio publicado no Observador, onde se faz o diagnóstico das causas conhecidas, a descrição dos efeitos e um prognóstico pouco optimista. O trabalho, assinado por Carlos Guimarães Pinto, refere algumas alternativas de solução pensadas ou tentadas, como o financiamento público, a (renovada) dependência de accionistas ou a mistura de informação com entretenimento e, a concluir, algumas outras que deram provas e “funcionaram”  - pelo menos em grandes jornais estrangeiros.

“A má notícia para os órgãos de comunicação social é que o sucesso na era digital também depende em muito de escala, algo que será difícil de obter para um órgão em língua portuguesa.” (...) “E com um processo de cura dos jornais que se espera lento, no curto prazo o importante é mesmo manter os pacientes vivos por qualquer meio disponível.

O diagnóstico parte de situações que são hoje evidentes: 

“Enquanto que até há uns anos um indivíduo que presenciasse um acontecimento relevante telefonava de imediato a um órgão de comunicação social, hoje prefere registá-lo e divulgá-lo por meios próprios aos seus amigos ou seguidores nas redes sociais. (...) E, assim, cada vez mais os consumidores preferem seguir directamente a fonte das notícias em vez de utilizar o filtro dos órgãos de comunicação social.” (...) 

Criou-se a ilusão, no consumidor, de que “não existe necessidade de pagar por conteúdos jornalísticos”, enquanto nos próprios media tradicionais diminuía o cuidado na verificação de fontes, pela necessidade de “andar à mesma velocidade que as redes sociais”. 

O autor descreve a situação económica dos principais grupos de media em Portugal como estando “no limiar da sobrevivência”, mantendo-se “graças a injecções de capital de accionistas”  - sobretudo na Imprensa escrita -, e os que têm resultados mais saudáveis “ou estão incluídos num grupo cujo objectivo é vender entretenimento; ou misturam entretenimento e jornalismo, sem que sejam bem definidas as fronteiras entre um e outro”. (...) 

Outra evidência conhecida é a da queda no mercado da publicidade. Mesmo no segmento digital, o único em franco crescimento, “uma fatia muito gorda destas receitas é capturada pelos gigantes internacionais (tais como Google e Facebook), não sendo por isso passível de associar estas receitas aos jornais digitais”. 

O autor aborda depois as alternativas: o financiamento público é a primeira, com o risco conhecido da dependência do poder  - que “já existe de forma encapotada, mas tem como único efeito a restrição da concorrência e não o oposto; dificilmente aumentar esse financiamento traria mais independência e qualidade na informação”. (...) 

A segunda será “aceitar que a Imprensa escrita terá sempre que depender de financiamento de accionistas com variados interesses (que podem ir do puro altruísmo à vontade de controlar a informação) – restando regular para que esse financiamento e motivações sejam transparentes para os leitores”. (...) 

A terceira implica “colocar a viabilidade do jornalismo nas sinergias com o entretenimento”. O risco é o de deixar de ser levado a sério e de perder terreno até no mercado do entretenimento, que “está em vias de sofrer a sua própria disrupção digital”. 

“Uma quarta alternativa é a coexistência no mesmo órgão de conteúdos disponíveis gratuitamente e conteúdos pagos”, que tem sido seguida por muitos media em Portugal e um pouco por todo o Mundo, mas tem entre nós mais limitações de escala, pela dimensão do país e do seu nível de desenvolvimento. 

Carlos Guimarães Pinto apresenta os exemplos conhecidos daquilo “que funcionou”, em jornais como The Washington Post ou o Financial Times, trazendo a boa notícia de que “parece haver um caminho para o sucesso na era digital: melhorar a experiência do utilizador utilizando as potencialidades da Internet para o conhecer melhor, e um esquema de preços e pacotes de produtos que alargue a base de leitores pagantes”. 

Mas ressalvando a referida diferença de escala, que torna a comparação  - e possível aplicação do modelo -  inaplicável ao caso português. 

“À medida que as fontes de financiamento passam de quem tem interesse em consumir informação para quem tem interesse em controlá-la, a quantidade, qualidade e diversidade da informação tenderá inevitavelmente a diminuir. A existência de concorrência interessada aliviará em parte o problema de conflitos de interesses, mas dificilmente será suficiente para garantir uma comunicação plural como aquela que é essencial existir em democracia.” 

O autor conclui que, “perante este cenário, parece evidente que a única forma de termos Imprensa livre é garantir que esta continua a depender dos consumidores e não de outras fontes de financiamento”: 

“A criação de novos modelos de relação com os consumidores, novas plataformas de distribuição, e sinergias cuidadosas entre informação e entretenimento serão essenciais para a manutenção de uma Imprensa livre. (...) Quanto mais rapidamente os órgãos de comunicação social conseguirem convencer os consumidores a voltar a pagar pelo seu trabalho, menos longa e dolorosa será a fase de transição.”  (...) 

O artigo citado está acessível na edição Premium do Observador

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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