Sábado, 17 de Agosto, 2019
Estudo

Viabilidade da Imprensa portuguesa na "corda bamba"...

A questão da sustentabilidade da Imprensa em Portugal, depois da revolução digital, é reflectida em ensaio publicado no Observador, onde se faz o diagnóstico das causas conhecidas, a descrição dos efeitos e um prognóstico pouco optimista. O trabalho, assinado por Carlos Guimarães Pinto, refere algumas alternativas de solução pensadas ou tentadas, como o financiamento público, a (renovada) dependência de accionistas ou a mistura de informação com entretenimento e, a concluir, algumas outras que deram provas e “funcionaram”  - pelo menos em grandes jornais estrangeiros.

“A má notícia para os órgãos de comunicação social é que o sucesso na era digital também depende em muito de escala, algo que será difícil de obter para um órgão em língua portuguesa.” (...) “E com um processo de cura dos jornais que se espera lento, no curto prazo o importante é mesmo manter os pacientes vivos por qualquer meio disponível.

O diagnóstico parte de situações que são hoje evidentes: 

“Enquanto que até há uns anos um indivíduo que presenciasse um acontecimento relevante telefonava de imediato a um órgão de comunicação social, hoje prefere registá-lo e divulgá-lo por meios próprios aos seus amigos ou seguidores nas redes sociais. (...) E, assim, cada vez mais os consumidores preferem seguir directamente a fonte das notícias em vez de utilizar o filtro dos órgãos de comunicação social.” (...) 

Criou-se a ilusão, no consumidor, de que “não existe necessidade de pagar por conteúdos jornalísticos”, enquanto nos próprios media tradicionais diminuía o cuidado na verificação de fontes, pela necessidade de “andar à mesma velocidade que as redes sociais”. 

O autor descreve a situação económica dos principais grupos de media em Portugal como estando “no limiar da sobrevivência”, mantendo-se “graças a injecções de capital de accionistas”  - sobretudo na Imprensa escrita -, e os que têm resultados mais saudáveis “ou estão incluídos num grupo cujo objectivo é vender entretenimento; ou misturam entretenimento e jornalismo, sem que sejam bem definidas as fronteiras entre um e outro”. (...) 

Outra evidência conhecida é a da queda no mercado da publicidade. Mesmo no segmento digital, o único em franco crescimento, “uma fatia muito gorda destas receitas é capturada pelos gigantes internacionais (tais como Google e Facebook), não sendo por isso passível de associar estas receitas aos jornais digitais”. 

O autor aborda depois as alternativas: o financiamento público é a primeira, com o risco conhecido da dependência do poder  - que “já existe de forma encapotada, mas tem como único efeito a restrição da concorrência e não o oposto; dificilmente aumentar esse financiamento traria mais independência e qualidade na informação”. (...) 

A segunda será “aceitar que a Imprensa escrita terá sempre que depender de financiamento de accionistas com variados interesses (que podem ir do puro altruísmo à vontade de controlar a informação) – restando regular para que esse financiamento e motivações sejam transparentes para os leitores”. (...) 

A terceira implica “colocar a viabilidade do jornalismo nas sinergias com o entretenimento”. O risco é o de deixar de ser levado a sério e de perder terreno até no mercado do entretenimento, que “está em vias de sofrer a sua própria disrupção digital”. 

“Uma quarta alternativa é a coexistência no mesmo órgão de conteúdos disponíveis gratuitamente e conteúdos pagos”, que tem sido seguida por muitos media em Portugal e um pouco por todo o Mundo, mas tem entre nós mais limitações de escala, pela dimensão do país e do seu nível de desenvolvimento. 

Carlos Guimarães Pinto apresenta os exemplos conhecidos daquilo “que funcionou”, em jornais como The Washington Post ou o Financial Times, trazendo a boa notícia de que “parece haver um caminho para o sucesso na era digital: melhorar a experiência do utilizador utilizando as potencialidades da Internet para o conhecer melhor, e um esquema de preços e pacotes de produtos que alargue a base de leitores pagantes”. 

Mas ressalvando a referida diferença de escala, que torna a comparação  - e possível aplicação do modelo -  inaplicável ao caso português. 

“À medida que as fontes de financiamento passam de quem tem interesse em consumir informação para quem tem interesse em controlá-la, a quantidade, qualidade e diversidade da informação tenderá inevitavelmente a diminuir. A existência de concorrência interessada aliviará em parte o problema de conflitos de interesses, mas dificilmente será suficiente para garantir uma comunicação plural como aquela que é essencial existir em democracia.” 

O autor conclui que, “perante este cenário, parece evidente que a única forma de termos Imprensa livre é garantir que esta continua a depender dos consumidores e não de outras fontes de financiamento”: 

“A criação de novos modelos de relação com os consumidores, novas plataformas de distribuição, e sinergias cuidadosas entre informação e entretenimento serão essenciais para a manutenção de uma Imprensa livre. (...) Quanto mais rapidamente os órgãos de comunicação social conseguirem convencer os consumidores a voltar a pagar pelo seu trabalho, menos longa e dolorosa será a fase de transição.”  (...) 

O artigo citado está acessível na edição Premium do Observador

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

O Clube

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