Quarta-feira, 19 de Setembro, 2018
Media

A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital”

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

“Mas o grande conflito ganhou relevo quando foi colocado em xeque o papel como suporte de produtos editoriais. De repente, o papel era o inferno, traduzia literalmente a ideia de velhos media. O papel é analógico, é nada mais velho que suportes analógicos.
O surgimento da ‘impressão’ virtual, na extensão PDF, metaforizava e substituia o papel como suporte. Agora podíamos ‘imprimir’ sem enviar o documento para nenhum suporte analógico.” 

“A tecnologia encerrava-se em si mesma. Não à toa, PDF é a sigla de Portable Document Format (documento em formato portátil) que consolida num documento todos os elementos de um layout (texto, desenhos, cores, fotografias, gráficos) imitando um documento impresso. (...) A palavra ‘documento’ era chave. A ideia tradicional de documento como algo analógico estava em xeque.” 

Como recorda o autor, em 1995 Bill Gates lança o livro The road ahead e ataca visceralmente o conceito tradicional de documento como algo estritamente analógico: “Quando você pensa num ‘documento’, provavelmente visualiza pedaços de papel com alguma coisa impressa neles, mas essa definição é limitada.” (...) 

“Até então, ninguém imaginava que uma gigantesca bola de neve iria se formar projetando-se rumo ao jornal impresso em papel. (...) Gates vaticinava que a Internet seria o novo mediador nas relações de compra e venda”: 

“A estrada proporcionará maneiras alternativas e mais eficientes para que vendedores e compradores individuais se encontrem.” 

Na realidade, e como sabemos, desviou o caudal da receita publicitária que sustentava os media tradicionais. 

“Uma alternativa era compensar a perda cobrando pelo acesso ao conteúdo na distribuição via Internet. Faltava combinar com o internauta. A reacção — tardia para alguns — foi tentar se apropriar dessa nova tecnologia, uma estrada desconhecida e volátil onde a informação parecia jorrar gratuitamente, como uma nascente brota ao sopé de uma duna.” (...) 

É neste ponto que Luis Sérgio Santos coloca a “crise de identidade e a perda da consciência da natureza do jornal impresso”, falando do que sucedeu no Brasil: 

“A plasticidade dos jornais standard tem mudado repetidamente. O intervalo de redesenho dos jornais tem diminuído num auto atestado — potencialmente inseguro — de obsolescência. Mudanças drásticas vão numa única direção, a tentativa de assemelhar o desenho dos jornais aos ambientes digitais.” 

“Há uma ênfase nos espaços negativos, o uso dos brancos. Há uma quebra no paradigma do eyetrack da página impressa. A manchete, sempre nas margens externas das páginas, agora migra para as margens internas, como nas webpages. Os desenhos ficam cada vez mais ‘revistizados’, fotos estouradas, sangradas, ao modo de tablóides sensacionalistas.” 

E depois de uma breve referência aos clássicos “jornais de prestígio” dos EUA, e aos “jornalões alemães”, cuja apresentação “conservadora” parece escapar à referida “crise de identidade”, o autor conclui: 

“De qualquer modo, a tentação ‘minimalista’ é só mais um capítulo na busca de uma luz no fim do túnel, enquanto luz houver.”

 

O artigo citado, na íntegra no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
Plataformas tecnológicas estão a sentar-se no coração do jornalismo Ver galeria

Na relação difícil que se tem desenvolvido, nestes últimos anos, entre as plataformas tecnológicas e os publishers dos media, a iniciativa foi sempre das primeiras e a intimidade nunca foi tanta como agora, com as plataformas “a tomarem mais decisões deliberadas que afectam o jornalismo e a colocação e distribuição das notícias”. Embora já haja editores a praticarem um “desacoplamento consciente” da sua dependência das plataformas, do lado destas vem um movimento muito claro de se envolverem cada vez mais no “apoio financeiro directo a determinados tipos de jornalismo”. Isto significa que plataformas “movidas pelo lucro” estão a “sentar-se desconfortavelmente no coração do jornalismo e das notícias”.

É esta a reflexão inicial de Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism  - que esteve em Lisboa, na cimeira da Global Editors Network -  no texto de apresentação de um relatório sobre o estado das relações entre publishers e plataformas.

Empresas de Media alimentam monstros que as fazem passar fome... Ver galeria

Tanto a Google como o Facebook têm estado a enviar dinheiro para apoio a projectos jornalísticos. Só nestes últimos três anos, as duas empresas juntas já destinaram mais de 500 milhões de dólares a vários programas ou parcerias com os media. Estas mega plataformas contam-se agora entre as maiores financiadoras do jornalismo. A ironia é que foi o desmantelamento da publicidade tradicional, em grande parte cometido por elas, que deixou as empresas jornalísticas neste sufoco de necessidade. O resultado é uma aliança disfuncional. Mesmo os que recebem estes apoios acham que as doações são “dinheiro culpado”, enquanto as gigantes tecnológicas procuram melhorar a imagem e conquistar amigos numa comunidade jornalística que  - sobretudo agora -  parece abertamente hostil.

O Clube

Lançado em Novembro de 2015, este site do Clube Português de Imprensa tem desenvolvido, desde então, um trabalho de acompanhamento das tendências dominantes, quer no mercado de Imprensa, quer nos media audiovisuais em geral e na Internet em particular.

Interessa-nos, também, debater o jornalismo e o modo como é exercido, em Portugal e fora de fronteiras,  cumprindo um objectivo que está na génese desta Associação.


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