Sábado, 17 de Novembro, 2018
Media

A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital”

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

“Mas o grande conflito ganhou relevo quando foi colocado em xeque o papel como suporte de produtos editoriais. De repente, o papel era o inferno, traduzia literalmente a ideia de velhos media. O papel é analógico, é nada mais velho que suportes analógicos.
O surgimento da ‘impressão’ virtual, na extensão PDF, metaforizava e substituia o papel como suporte. Agora podíamos ‘imprimir’ sem enviar o documento para nenhum suporte analógico.” 

“A tecnologia encerrava-se em si mesma. Não à toa, PDF é a sigla de Portable Document Format (documento em formato portátil) que consolida num documento todos os elementos de um layout (texto, desenhos, cores, fotografias, gráficos) imitando um documento impresso. (...) A palavra ‘documento’ era chave. A ideia tradicional de documento como algo analógico estava em xeque.” 

Como recorda o autor, em 1995 Bill Gates lança o livro The road ahead e ataca visceralmente o conceito tradicional de documento como algo estritamente analógico: “Quando você pensa num ‘documento’, provavelmente visualiza pedaços de papel com alguma coisa impressa neles, mas essa definição é limitada.” (...) 

“Até então, ninguém imaginava que uma gigantesca bola de neve iria se formar projetando-se rumo ao jornal impresso em papel. (...) Gates vaticinava que a Internet seria o novo mediador nas relações de compra e venda”: 

“A estrada proporcionará maneiras alternativas e mais eficientes para que vendedores e compradores individuais se encontrem.” 

Na realidade, e como sabemos, desviou o caudal da receita publicitária que sustentava os media tradicionais. 

“Uma alternativa era compensar a perda cobrando pelo acesso ao conteúdo na distribuição via Internet. Faltava combinar com o internauta. A reacção — tardia para alguns — foi tentar se apropriar dessa nova tecnologia, uma estrada desconhecida e volátil onde a informação parecia jorrar gratuitamente, como uma nascente brota ao sopé de uma duna.” (...) 

É neste ponto que Luis Sérgio Santos coloca a “crise de identidade e a perda da consciência da natureza do jornal impresso”, falando do que sucedeu no Brasil: 

“A plasticidade dos jornais standard tem mudado repetidamente. O intervalo de redesenho dos jornais tem diminuído num auto atestado — potencialmente inseguro — de obsolescência. Mudanças drásticas vão numa única direção, a tentativa de assemelhar o desenho dos jornais aos ambientes digitais.” 

“Há uma ênfase nos espaços negativos, o uso dos brancos. Há uma quebra no paradigma do eyetrack da página impressa. A manchete, sempre nas margens externas das páginas, agora migra para as margens internas, como nas webpages. Os desenhos ficam cada vez mais ‘revistizados’, fotos estouradas, sangradas, ao modo de tablóides sensacionalistas.” 

E depois de uma breve referência aos clássicos “jornais de prestígio” dos EUA, e aos “jornalões alemães”, cuja apresentação “conservadora” parece escapar à referida “crise de identidade”, o autor conclui: 

“De qualquer modo, a tentação ‘minimalista’ é só mais um capítulo na busca de uma luz no fim do túnel, enquanto luz houver.”

 

O artigo citado, na íntegra no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
Bettany Hughes, Prémio Europeu Helena Vaz da Silva a comunicar história e património cultural Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hughes, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hughes como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Marçal Grilo abre novo ciclo de jantares-debate em Novembro Ver galeria

O Clube Português de Imprensa, o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário juntam-se, novamente,para promover um novo ciclo de jantares-debate, desta vez subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?

Será orador convidado, no próximo dia 22 de Novembro, Eduardo Marçal Grilo, antigo ministro da Educação e administrador da Fundação Gulbenkian, que tem dedicado à problemática do ensino e às causas da cultura e da ciência o essencial da sua actividade de intelectual, de homem político e enquanto docente.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
As notícias falsas e a internet
Francisco Sarsfield Cabral
As redes sociais são, hoje, a principal fonte de informação, se não mesmo a única, para imensa gente. O combate às “fake news” tem que ser feito, não pela censura, mas pela consciencialização dos utilizadores da net. Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil graças à utilização maciça das redes sociais. A maioria dos jornais brasileiros de referência não o apoiou, o...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...
Há cerca de um ano, António Barreto  costumava assinar uma assertiva coluna de opinião no Diário de Noticias, entretanto desaparecida como outras, sem deixar rasto. Numa delas,  reconhecia ser “simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão” . E comentava, a propósito,  que  “a vulgaridade é sinal de verdade. A...
Agenda
19
Nov
21
Nov
22
Nov
Westminster Forum Projects
09:00 @ Londres, Reino Unido
23
Nov
#6COBCIBER – VI Congresso Internacional de Ciberjornalismo
09:00 @ Faculdade de Letras da Universidade do Porto