Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Media

A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital”

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

“Mas o grande conflito ganhou relevo quando foi colocado em xeque o papel como suporte de produtos editoriais. De repente, o papel era o inferno, traduzia literalmente a ideia de velhos media. O papel é analógico, é nada mais velho que suportes analógicos.
O surgimento da ‘impressão’ virtual, na extensão PDF, metaforizava e substituia o papel como suporte. Agora podíamos ‘imprimir’ sem enviar o documento para nenhum suporte analógico.” 

“A tecnologia encerrava-se em si mesma. Não à toa, PDF é a sigla de Portable Document Format (documento em formato portátil) que consolida num documento todos os elementos de um layout (texto, desenhos, cores, fotografias, gráficos) imitando um documento impresso. (...) A palavra ‘documento’ era chave. A ideia tradicional de documento como algo analógico estava em xeque.” 

Como recorda o autor, em 1995 Bill Gates lança o livro The road ahead e ataca visceralmente o conceito tradicional de documento como algo estritamente analógico: “Quando você pensa num ‘documento’, provavelmente visualiza pedaços de papel com alguma coisa impressa neles, mas essa definição é limitada.” (...) 

“Até então, ninguém imaginava que uma gigantesca bola de neve iria se formar projetando-se rumo ao jornal impresso em papel. (...) Gates vaticinava que a Internet seria o novo mediador nas relações de compra e venda”: 

“A estrada proporcionará maneiras alternativas e mais eficientes para que vendedores e compradores individuais se encontrem.” 

Na realidade, e como sabemos, desviou o caudal da receita publicitária que sustentava os media tradicionais. 

“Uma alternativa era compensar a perda cobrando pelo acesso ao conteúdo na distribuição via Internet. Faltava combinar com o internauta. A reacção — tardia para alguns — foi tentar se apropriar dessa nova tecnologia, uma estrada desconhecida e volátil onde a informação parecia jorrar gratuitamente, como uma nascente brota ao sopé de uma duna.” (...) 

É neste ponto que Luis Sérgio Santos coloca a “crise de identidade e a perda da consciência da natureza do jornal impresso”, falando do que sucedeu no Brasil: 

“A plasticidade dos jornais standard tem mudado repetidamente. O intervalo de redesenho dos jornais tem diminuído num auto atestado — potencialmente inseguro — de obsolescência. Mudanças drásticas vão numa única direção, a tentativa de assemelhar o desenho dos jornais aos ambientes digitais.” 

“Há uma ênfase nos espaços negativos, o uso dos brancos. Há uma quebra no paradigma do eyetrack da página impressa. A manchete, sempre nas margens externas das páginas, agora migra para as margens internas, como nas webpages. Os desenhos ficam cada vez mais ‘revistizados’, fotos estouradas, sangradas, ao modo de tablóides sensacionalistas.” 

E depois de uma breve referência aos clássicos “jornais de prestígio” dos EUA, e aos “jornalões alemães”, cuja apresentação “conservadora” parece escapar à referida “crise de identidade”, o autor conclui: 

“De qualquer modo, a tentação ‘minimalista’ é só mais um capítulo na busca de uma luz no fim do túnel, enquanto luz houver.”

 

O artigo citado, na íntegra no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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