Sexta-feira, 5 de Junho, 2020
Media

A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital”

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

“Mas o grande conflito ganhou relevo quando foi colocado em xeque o papel como suporte de produtos editoriais. De repente, o papel era o inferno, traduzia literalmente a ideia de velhos media. O papel é analógico, é nada mais velho que suportes analógicos.
O surgimento da ‘impressão’ virtual, na extensão PDF, metaforizava e substituia o papel como suporte. Agora podíamos ‘imprimir’ sem enviar o documento para nenhum suporte analógico.” 

“A tecnologia encerrava-se em si mesma. Não à toa, PDF é a sigla de Portable Document Format (documento em formato portátil) que consolida num documento todos os elementos de um layout (texto, desenhos, cores, fotografias, gráficos) imitando um documento impresso. (...) A palavra ‘documento’ era chave. A ideia tradicional de documento como algo analógico estava em xeque.” 

Como recorda o autor, em 1995 Bill Gates lança o livro The road ahead e ataca visceralmente o conceito tradicional de documento como algo estritamente analógico: “Quando você pensa num ‘documento’, provavelmente visualiza pedaços de papel com alguma coisa impressa neles, mas essa definição é limitada.” (...) 

“Até então, ninguém imaginava que uma gigantesca bola de neve iria se formar projetando-se rumo ao jornal impresso em papel. (...) Gates vaticinava que a Internet seria o novo mediador nas relações de compra e venda”: 

“A estrada proporcionará maneiras alternativas e mais eficientes para que vendedores e compradores individuais se encontrem.” 

Na realidade, e como sabemos, desviou o caudal da receita publicitária que sustentava os media tradicionais. 

“Uma alternativa era compensar a perda cobrando pelo acesso ao conteúdo na distribuição via Internet. Faltava combinar com o internauta. A reacção — tardia para alguns — foi tentar se apropriar dessa nova tecnologia, uma estrada desconhecida e volátil onde a informação parecia jorrar gratuitamente, como uma nascente brota ao sopé de uma duna.” (...) 

É neste ponto que Luis Sérgio Santos coloca a “crise de identidade e a perda da consciência da natureza do jornal impresso”, falando do que sucedeu no Brasil: 

“A plasticidade dos jornais standard tem mudado repetidamente. O intervalo de redesenho dos jornais tem diminuído num auto atestado — potencialmente inseguro — de obsolescência. Mudanças drásticas vão numa única direção, a tentativa de assemelhar o desenho dos jornais aos ambientes digitais.” 

“Há uma ênfase nos espaços negativos, o uso dos brancos. Há uma quebra no paradigma do eyetrack da página impressa. A manchete, sempre nas margens externas das páginas, agora migra para as margens internas, como nas webpages. Os desenhos ficam cada vez mais ‘revistizados’, fotos estouradas, sangradas, ao modo de tablóides sensacionalistas.” 

E depois de uma breve referência aos clássicos “jornais de prestígio” dos EUA, e aos “jornalões alemães”, cuja apresentação “conservadora” parece escapar à referida “crise de identidade”, o autor conclui: 

“De qualquer modo, a tentação ‘minimalista’ é só mais um capítulo na busca de uma luz no fim do túnel, enquanto luz houver.”

 

O artigo citado, na íntegra no Observatório da Imprensa do Brasil

Connosco
Inteligência artificial inventa "robots" na China e Rússia mas não substitui papel do jornalista Ver galeria

A inteligência artificial está a ser introduzida em todos os sectores e os “media” não são excepção, recorda um editorial do jornal indiano “Policy Times”.

As redacções estão a adoptar sistemas automáticos para verificar factos, encontrar fontes, transcrever entrevistas, e detectar plágios.

Além disso, empresas de tecnologia, como a Microsoft, estão a dispensar os seus jornalistas, substituindo-os por sistemas artificiais, programados para redigir artigos com base em notícias já publicadas.

A equipa que desenvolvia o “site” não escrevia artigos originais, mas exercia controlo editorial, publicando conteúdos e manchetes, para que estas se adequassem ao perfil da plataforma.

Na China e na Rússia, a automatização está, ainda, mais avançada, agora que alguns canais já colocaram “robots” a apresentar os telejornais. Apesar de inovadora, esta iniciativa foi mal recebida pelo público, que estranhou não ter um humano a estabelecer uma “ponte” entre a informação e os cidadãos.


Como o “Monde” desenvolveu um “lifeblog” durante a emergência Ver galeria

Perante a pandemia e o risco de isolamento, muitas publicações desenvolveram novos projectos e adoptaram diversas ferramentas para estabelecer contacto com as audiências, mas, talvez a iniciativa do “Le Monde” tenha sido a mais ambiciosa.

Durante 83 dias, sem interrupções, os jornalistas do “Monde” desenvolveram um “lifeblog”, com actualizações ao minuto, e com um “chat” aberto, onde os leitores deixaram as suas dúvidas e sugestões.

A audiência média diária foi de um milhão.

Findo o projecto, a equipa do jornal preparou um artigo para explicar a fórmula adoptada para o desenvolvimento do “lifeblog” mais longo da  sua história.

De acordo com o jornal, o projecto contou com a colaboração de  45 jornalistas, incluindo correspondentes sediados no estrangeiros.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


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Opinião
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Agenda
15
Jun
Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas