Quarta-feira, 19 de Setembro, 2018
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O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital"

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

“As redes sociais são um mundo paralelo, mas com importantes ligações com a vida real. Quando nasceram, prometiam ser um espaço de encontro para levar às suas últimas consequências a liberdade de expressão, e o certo é que, durante muito tempo, foram vistas com receio por regimes de duvidosa reputação democrática, precisamente porque amplificavam as mensagens da dissidência.” 

Foi por esse motivo que muitos países as bloquearam ou proibiram, depis de terem visto “o seu verdadeiro poder no mundo real, com as Primaveras Árabes”. Mas alguns governos acabaram por ceder perante as redes sociais, enquanto tratam de “intoxicar o ambiente”. 

O autor recorda as eleições presidenciais de 2016, nos EUA, como o ponto alto do debate sobre as “notícias falsas” e a sua proliferação pelas redes sociais, “graças a exércitos de robots e de trolls”. Muitos adolescentes sem nada a perder ganharam rios de dinheiro “vendendo mentiras no Facebook ou no Twitter”. 

Recorda também que, em 2008, Barack Obama “soube tecer uma campanha acertada nas redes sociais, para captar votos, que o ajudaram a chegar à Casa Branca”. Outros imitaram a sua estratégia, mas “centrando-se mais em desacreditar os oponentes do que em construir junto das pessoas”. 

“Esse descrédito acabou por se converter na dinâmica habitual destas plataformas, onde a humilhação, o insulto e o linchamento público se converteram na arma habitual de vários governos, por meio de peritos em redes sociais, para silenciar as vozes críticas.” (...) 

O autor apresenta ainda, no seu texto, um trabalho recente da Bloomberg, onde se descreve como “exércitos de trolls actuam sob a cobertura do governos e partidos políticos para turvar as redes sociais e conseguir votos ou firmar as suas ideias”: 

“O populismo encontrou nestas plataformas o caldo de cultura perfeito para cristalizar. E nem sequer precisa de gastar muito dinheiro, porque muitos radicais estão disponíveis para colaborar de graça, pelo bem da sua causa. Outros fazem-no a troco de benefícios do governo.” (...) 

“Nas redes sociais está em curso uma guerra digital muito mais perigosa: a que desacredita o sistema para criar uma nova ordem dirigida por radicais sob a promessa de devolverem às massas a liberdade supostamente roubada pelo establishment. Uma estratégia efectiva sem planos de futuro, a não ser o do poder imediato a qualquer preço.”

 

O texto citado, na íntegra, em Media-tics, cuja imagem também incluimos, e a reportagem da Bloomberg

Connosco
Plataformas tecnológicas estão a sentar-se no coração do jornalismo Ver galeria

Na relação difícil que se tem desenvolvido, nestes últimos anos, entre as plataformas tecnológicas e os publishers dos media, a iniciativa foi sempre das primeiras e a intimidade nunca foi tanta como agora, com as plataformas “a tomarem mais decisões deliberadas que afectam o jornalismo e a colocação e distribuição das notícias”. Embora já haja editores a praticarem um “desacoplamento consciente” da sua dependência das plataformas, do lado destas vem um movimento muito claro de se envolverem cada vez mais no “apoio financeiro directo a determinados tipos de jornalismo”. Isto significa que plataformas “movidas pelo lucro” estão a “sentar-se desconfortavelmente no coração do jornalismo e das notícias”.

É esta a reflexão inicial de Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism  - que esteve em Lisboa, na cimeira da Global Editors Network -  no texto de apresentação de um relatório sobre o estado das relações entre publishers e plataformas.

Empresas de Media alimentam monstros que as fazem passar fome... Ver galeria

Tanto a Google como o Facebook têm estado a enviar dinheiro para apoio a projectos jornalísticos. Só nestes últimos três anos, as duas empresas juntas já destinaram mais de 500 milhões de dólares a vários programas ou parcerias com os media. Estas mega plataformas contam-se agora entre as maiores financiadoras do jornalismo. A ironia é que foi o desmantelamento da publicidade tradicional, em grande parte cometido por elas, que deixou as empresas jornalísticas neste sufoco de necessidade. O resultado é uma aliança disfuncional. Mesmo os que recebem estes apoios acham que as doações são “dinheiro culpado”, enquanto as gigantes tecnológicas procuram melhorar a imagem e conquistar amigos numa comunidade jornalística que  - sobretudo agora -  parece abertamente hostil.

O Clube

Lançado em Novembro de 2015, este site do Clube Português de Imprensa tem desenvolvido, desde então, um trabalho de acompanhamento das tendências dominantes, quer no mercado de Imprensa, quer nos media audiovisuais em geral e na Internet em particular.

Interessa-nos, também, debater o jornalismo e o modo como é exercido, em Portugal e fora de fronteiras,  cumprindo um objectivo que está na génese desta Associação.


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