Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
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O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital"

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

“As redes sociais são um mundo paralelo, mas com importantes ligações com a vida real. Quando nasceram, prometiam ser um espaço de encontro para levar às suas últimas consequências a liberdade de expressão, e o certo é que, durante muito tempo, foram vistas com receio por regimes de duvidosa reputação democrática, precisamente porque amplificavam as mensagens da dissidência.” 

Foi por esse motivo que muitos países as bloquearam ou proibiram, depis de terem visto “o seu verdadeiro poder no mundo real, com as Primaveras Árabes”. Mas alguns governos acabaram por ceder perante as redes sociais, enquanto tratam de “intoxicar o ambiente”. 

O autor recorda as eleições presidenciais de 2016, nos EUA, como o ponto alto do debate sobre as “notícias falsas” e a sua proliferação pelas redes sociais, “graças a exércitos de robots e de trolls”. Muitos adolescentes sem nada a perder ganharam rios de dinheiro “vendendo mentiras no Facebook ou no Twitter”. 

Recorda também que, em 2008, Barack Obama “soube tecer uma campanha acertada nas redes sociais, para captar votos, que o ajudaram a chegar à Casa Branca”. Outros imitaram a sua estratégia, mas “centrando-se mais em desacreditar os oponentes do que em construir junto das pessoas”. 

“Esse descrédito acabou por se converter na dinâmica habitual destas plataformas, onde a humilhação, o insulto e o linchamento público se converteram na arma habitual de vários governos, por meio de peritos em redes sociais, para silenciar as vozes críticas.” (...) 

O autor apresenta ainda, no seu texto, um trabalho recente da Bloomberg, onde se descreve como “exércitos de trolls actuam sob a cobertura do governos e partidos políticos para turvar as redes sociais e conseguir votos ou firmar as suas ideias”: 

“O populismo encontrou nestas plataformas o caldo de cultura perfeito para cristalizar. E nem sequer precisa de gastar muito dinheiro, porque muitos radicais estão disponíveis para colaborar de graça, pelo bem da sua causa. Outros fazem-no a troco de benefícios do governo.” (...) 

“Nas redes sociais está em curso uma guerra digital muito mais perigosa: a que desacredita o sistema para criar uma nova ordem dirigida por radicais sob a promessa de devolverem às massas a liberdade supostamente roubada pelo establishment. Uma estratégia efectiva sem planos de futuro, a não ser o do poder imediato a qualquer preço.”

 

O texto citado, na íntegra, em Media-tics, cuja imagem também incluimos, e a reportagem da Bloomberg

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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