Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Media

Quando o jornalista tem de mudar de "chip" para fundar um meio digital

No novo ambiente criado pela revolução digital, encontrar um modelo de negócio sustentável para o jornalismo continua a ser uma questão em aberto  - que foi discutida, uma vez mais, numa vídeo-conferência promovida pela International Journalists’ Network. A jornalista brasileira Priscila Brito, fundadora do site Negócio de Jornalista, esteve presente e conta que, em dado momento, uma das participantes mencionou que “uma etapa importante para se obter sucesso nessa tarefa é mudar o chip”:

“Ou seja, é preciso parar de pensar exclusivamente como jornalista e incorporar a lógica dos negócios.”

"É um processo que pode gerar resistência enorme a quem vem programado com o chip de jornalista  -  afinal, aprendemos que editorial e comercial devem (ou deveriam) estar tão separados como devem (ou deveriam estar) Igreja e Estado."

A partir daqui, Priscila Brito sugere outras imagens: é como saltar de uma viatura em movimento para outra que também se move. De repente, estamos no “encontro de duas fronteiras, e não há como levar um potencial negócio adiante sem essa troca de chip, que não necessariamente significa [apagar] os limites das fronteiras, mas coordená-los”. 

“Quanto mais demorada essa troca for, pior. Eu só percebi que precisava de trocar o chip um pouco tarde no processo de desenvolvimento do Festivalando, site do qual sou co-fundadora, às custas de muita energia e tempo investidos sem retorno.” (...) 

Da sua participação na vídeo-conferência, a autora que citamos recolhe experiência de outros a quem pôs esta mesma questão e, “se serve de consolo, vi que não fui a única a fazer a transição um pouco tarde ou com certa dificuldade”. 

“Mais importante que isso, porém, foi ver que as respostas convergiram todas para uma mesma direcção: é preciso acima de tudo aprender, estudar. Também faz parte do processo não oferecer resistência ao mundo dos negócios e agir, colocar ideias em prática.” (...) 

Três exemplos que apresenta: o primeiro de Fabiola Torres, co-fundadora e editora do site peruano OjoPúblico

    

“No início (do OjoPúblico), só pensávamos nas reportagens, nas fontes. Não nos importávamos com negócios, com impacto. Hoje entendemos que é importante planear, ter estratégias, desenvolver projectos.” 

“A minha recomendação para fazer a troca de chip é não ter medo de ter que aprender algo novo do zero. Inevitavelmente, este é um ambiente no qual estamos sempre aprendendo. Também não espere [até] o seu produto ficar perfeito. Apenas faça, e faça logo.” 

O segundo de Larry Ryckman, editor do site norte-americano The Colorado Sun

“Faça o que tem que ser feito. Aprenda os objectivos do negócio, entenda como uma empresa funciona, lance mão do marketing nas redes sociais. É bom quando se aprendem coisas novas e para mim foi uma parte divertida do processo.” 

O terceiro de Alan Soon, co-fundador do site The Splice Newsroom, especialmente focado em países asiáticos: 

“Acredito que estamos na era de ouro dos media, apesar de tudo. Temos nas nossas mãos as condições para aprender como as pessoas se informam, como usam tecnologia. O ambiente também é favorável para aprender sobre negócios, startups, pois temos muito mais ferramentas e serviços à nossa disposição. Dez anos atrás, eu não teria conseguido criar um negócio como fiz hoje, menos provável ainda que conseguisse isso 15 anos atrás.” (...)

 

O texto de Priscila Brito, na íntegra, no Negócio de Jornalista.

Mais informação no International Journalists’ Network, que traduziu para inglês o artigo original, e contém o link para a vídeo-conferência

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
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As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
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16
Set
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