Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Media

Quando o jornalista tem de mudar de "chip" para fundar um meio digital

No novo ambiente criado pela revolução digital, encontrar um modelo de negócio sustentável para o jornalismo continua a ser uma questão em aberto  - que foi discutida, uma vez mais, numa vídeo-conferência promovida pela International Journalists’ Network. A jornalista brasileira Priscila Brito, fundadora do site Negócio de Jornalista, esteve presente e conta que, em dado momento, uma das participantes mencionou que “uma etapa importante para se obter sucesso nessa tarefa é mudar o chip”:

“Ou seja, é preciso parar de pensar exclusivamente como jornalista e incorporar a lógica dos negócios.”

"É um processo que pode gerar resistência enorme a quem vem programado com o chip de jornalista  -  afinal, aprendemos que editorial e comercial devem (ou deveriam) estar tão separados como devem (ou deveriam estar) Igreja e Estado."

A partir daqui, Priscila Brito sugere outras imagens: é como saltar de uma viatura em movimento para outra que também se move. De repente, estamos no “encontro de duas fronteiras, e não há como levar um potencial negócio adiante sem essa troca de chip, que não necessariamente significa [apagar] os limites das fronteiras, mas coordená-los”. 

“Quanto mais demorada essa troca for, pior. Eu só percebi que precisava de trocar o chip um pouco tarde no processo de desenvolvimento do Festivalando, site do qual sou co-fundadora, às custas de muita energia e tempo investidos sem retorno.” (...) 

Da sua participação na vídeo-conferência, a autora que citamos recolhe experiência de outros a quem pôs esta mesma questão e, “se serve de consolo, vi que não fui a única a fazer a transição um pouco tarde ou com certa dificuldade”. 

“Mais importante que isso, porém, foi ver que as respostas convergiram todas para uma mesma direcção: é preciso acima de tudo aprender, estudar. Também faz parte do processo não oferecer resistência ao mundo dos negócios e agir, colocar ideias em prática.” (...) 

Três exemplos que apresenta: o primeiro de Fabiola Torres, co-fundadora e editora do site peruano OjoPúblico

    

“No início (do OjoPúblico), só pensávamos nas reportagens, nas fontes. Não nos importávamos com negócios, com impacto. Hoje entendemos que é importante planear, ter estratégias, desenvolver projectos.” 

“A minha recomendação para fazer a troca de chip é não ter medo de ter que aprender algo novo do zero. Inevitavelmente, este é um ambiente no qual estamos sempre aprendendo. Também não espere [até] o seu produto ficar perfeito. Apenas faça, e faça logo.” 

O segundo de Larry Ryckman, editor do site norte-americano The Colorado Sun

“Faça o que tem que ser feito. Aprenda os objectivos do negócio, entenda como uma empresa funciona, lance mão do marketing nas redes sociais. É bom quando se aprendem coisas novas e para mim foi uma parte divertida do processo.” 

O terceiro de Alan Soon, co-fundador do site The Splice Newsroom, especialmente focado em países asiáticos: 

“Acredito que estamos na era de ouro dos media, apesar de tudo. Temos nas nossas mãos as condições para aprender como as pessoas se informam, como usam tecnologia. O ambiente também é favorável para aprender sobre negócios, startups, pois temos muito mais ferramentas e serviços à nossa disposição. Dez anos atrás, eu não teria conseguido criar um negócio como fiz hoje, menos provável ainda que conseguisse isso 15 anos atrás.” (...)

 

O texto de Priscila Brito, na íntegra, no Negócio de Jornalista.

Mais informação no International Journalists’ Network, que traduziu para inglês o artigo original, e contém o link para a vídeo-conferência

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


ver mais >
Opinião
Sobre a liberdade de expressão em Portugal
Francisco Sarsfield Cabral
O caso da participação num programa matinal da TVI de um racista, já condenado e tendo cumprido pena de prisão, Mário Machado, suscitou polémica. Ainda bem, porque as questões em causa são importantes. Mas, como é costume, o debate rapidamente derivou para um confronto entre a esquerda indignada por se ter dado tempo de antena a um criminoso fascista e a direita defendendo a liberdade de expressão e a dualidade de...
O panorama dos media
Manuel Falcão
Se olharmos para o top dos programas mais vistos na televisão generalista em 2018 vemos um claro domínio das transmissões desportivas, seguidas a grande distância pelos reality shows e, ainda mais para trás, pelas telenovelas. No entanto as transmissões televisivas produzem apenas picos de audiência e contribuem relativamente pouco para as médias e para planos continuados. O dilema das televisões generalistas está na...
Informar ou depender…
Dinis de Abreu
O título deste texto corresponde a um livro publicado nos anos 70 por Francisco Balsemão, numa altura em que já se ‘contavam espingardas’ para pôr termo ao Estado Novo, como veio a acontecer com o derrube de Marcello Caetano, em 25 de Abril de 74.  A obra foi polémica à época e justamente considerada um ‘grito de alma’, assinada por quem começara a sua vida profissional num jornal controlado pela família...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...