Sábado, 17 de Novembro, 2018
Opinião

Trump contra o jornalismo

por Francisco Sarsfield Cabral

Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.

 Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos. Diários e alguns semanários, dirigidos à pequena elite dos que sabiam ler; eram jornais quase sempre instrumentos de afirmação de um político ou de uma fação. Embora fossem por vezes publicados textos excelentes – lembremos, em Portugal, as “Farpas”, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão – não era em geral grande jornalismo.

Com o aumento da alfabetização na Grã-Bretanha, no princípio do século XX começaram ali a surgir os chamados jornais “tabloides”, cuja ambição era vender o maior número de exemplares possível. Esta massificação dos jornais favorecia o sensacionalismo, a exploração de escândalos, o culto dos famosos, etc. Mau jornalismo.

 

Só que o chamado jornalismo de referência, ou de qualidade, não desapareceu na Grã-Bretanha e, em menor escala, nos Estados Unidos. Pelo contrário, os jornais dirigidos às elites cultas aumentaram o número de jornalistas e de correspondentes em países estrangeiros. Distinguindo claramente entre textos noticiosos e textos de opinião, tornaram-se credíveis. Foi o período de ouro do jornalismo. Mas atenção: a circulação dos jornais sensacionalistas e populares sempre foi cinco ou mais vezes superior à venda dos jornais de referência na Grã-Bretanha.

 

Por vezes, o jornalismo de investigação dos jornais de referência conduziu a resultados importantes, como foi o facto de o “Washington Post” ter descoberto as malfeitorias de Nixon, que foi obrigado a demitir-se de Presidente dos EUA – o célebre caso do Watergate. Creio que, hoje o WP não poderia repetir a façanha, que implicou gastos significativos. O jornal foi comprado por Jeff Bezzos, CEO da Amazon e agora milionário, que manteve a independência editorial do jornal. O problema é que o WP, como muitos outros jornais de qualidade, dentro e fora dos EUA, já não possui os meios financeiros e humanos que tinha há meio século. A generalização da internet e das redes sociais complicou a vida financeira dos jornais, que têm perdido não só leitores como publicidade.

 

Jornalismo na rádio e na TV

 

Embora numerosos jornais hoje tenham “sites” permanentes de notícias e comentários na internet, e outros apenas existam na net, ainda não se encontrou uma fórmula para atrair um volume suficiente de receitas de publicidade na internet que permitisse manter os custos operacionais do passado. O número de jornalistas caiu drasticamente um pouco por toda a parte, o que forçosamente limita a qualidade do material publicado.  

 

O jornalismo não tem a ver apenas com jornais – ele entrou em força na rádio e na televisão. E aí, a par com algumas rádios nos EUA que vivem de difundir opiniões racistas e informações falsas, houve excelente jornalismo radiofónico e televisivo entre os anos 40 e a generalização da internet. Não digo que tal tenha acontecido em Portugal, porque vivíamos então em ditadura, que não dispensava uma apertada censura sobre os órgãos de comunicação social.

 

Um exemplo de bom jornalismo na televisão foi dado pelo americano Walter Cronkite, que apresentou o principal jornal da rede CBS durante 19 anos, entre 1962 e 1981. A sua credibilidade era enorme; por isso, quando regressou de uma reportagem sobre a guerra do Vietname, manifestou no jornal televisivo que diariamente apresentava o seu ceticismo sobre a possibilidade de os EUA vencerem militarmente o conflito no Vietname. Há vários historiadores que consideram esta intervenção de W. Cronkite decisiva para o fim da guerra do Vietname.

 

Nos últimos anos, as grandes cadeias televisivas americanas – CBS, NBC e ABC – foram perdendo audiência para as televisões por cabo. O que levou a tornar os seus noticiários mais populistas e menos elaborados. No cabo, encontra-se de tudo – o melhor e o pior jornalismo. Mas uma grande, porventura a maior, fonte de informação da maioria da população dos EUA e de outros países passou a estar na net e nas redes sociais.

 

Ora essa informação não obedece, em geral, às normas deontológicas do jornalismo profissional. O que lhe permite emitir opiniões caluniosas e informações não verdadeiras sem que daí decorram quaisquer consequências punitivas.

 

Informação e democracia

 

É esta situação que permite a Trump, por um lado, dizer as maiores barbaridades e ser acreditado pelos seus fieis seguidores; e, por outro, demonizar a informação americana que consegue manter uma certa qualidade e por isso denuncia as suas falsidades. Trump ataca esses órgãos de informação, chamando-lhes “inimigos do povo”. Uma opinião seguida por 51% dos eleitores republicanos, segundo a sondagem de uma universidade. Uma outra sondagem revela que um em cada oito americanos e 23% dos eleitores republicanos julgam que o presidente deveria encerrar o canal televisivo de notícias CNN e os jornais Washington Post e New York Times.

 

Uma democracia digna desse nome não pode viver sem jornalismo sério. Poderá enganar-se, claro, até porque hoje dispõe de menos meios do que no passado, mas sempre é um contrapoder indispensável ao pluralismo democrático. Também há pluralismo nas redes sociais – o problema é que muita gente só ouve e só lê aquelas redes cuja opinião e cuja informação confirmam as suas convicções pessoais. Não há aí verdadeiro debate.

 

Os ataques do presidente Trump aos “media” aproximam-se perigosamente de incitamentos à violência contra os jornalistas. Violência que aparece nos comícios que Trump realiza junto dos seus apoiantes.

 

Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os ataques de Trump ao jornalismo. E, felizmente, ainda 65% dos americanos inquiridos numa sondagem dizem que a informação dos “media” é parte importante da democracia. Por algum motivo, o Senado Federal, onde os republicanos detém a maioria, aprovou, por unanimidade, uma declaração afirmando - contra Trump – que "a comunicação social não é inimiga do povo".

 

 

( Este texto foi originalmente publicado no “site” www.rr.pt).  

 

 

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A historiadora britânica Bettany Hughes, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hughes como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

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O Clube Português de Imprensa, o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário juntam-se, novamente,para promover um novo ciclo de jantares-debate, desta vez subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?

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