Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Opinião

Trump contra o jornalismo

por Francisco Sarsfield Cabral

Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.

 Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos. Diários e alguns semanários, dirigidos à pequena elite dos que sabiam ler; eram jornais quase sempre instrumentos de afirmação de um político ou de uma fação. Embora fossem por vezes publicados textos excelentes – lembremos, em Portugal, as “Farpas”, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão – não era em geral grande jornalismo.

Com o aumento da alfabetização na Grã-Bretanha, no princípio do século XX começaram ali a surgir os chamados jornais “tabloides”, cuja ambição era vender o maior número de exemplares possível. Esta massificação dos jornais favorecia o sensacionalismo, a exploração de escândalos, o culto dos famosos, etc. Mau jornalismo.

 

Só que o chamado jornalismo de referência, ou de qualidade, não desapareceu na Grã-Bretanha e, em menor escala, nos Estados Unidos. Pelo contrário, os jornais dirigidos às elites cultas aumentaram o número de jornalistas e de correspondentes em países estrangeiros. Distinguindo claramente entre textos noticiosos e textos de opinião, tornaram-se credíveis. Foi o período de ouro do jornalismo. Mas atenção: a circulação dos jornais sensacionalistas e populares sempre foi cinco ou mais vezes superior à venda dos jornais de referência na Grã-Bretanha.

 

Por vezes, o jornalismo de investigação dos jornais de referência conduziu a resultados importantes, como foi o facto de o “Washington Post” ter descoberto as malfeitorias de Nixon, que foi obrigado a demitir-se de Presidente dos EUA – o célebre caso do Watergate. Creio que, hoje o WP não poderia repetir a façanha, que implicou gastos significativos. O jornal foi comprado por Jeff Bezzos, CEO da Amazon e agora milionário, que manteve a independência editorial do jornal. O problema é que o WP, como muitos outros jornais de qualidade, dentro e fora dos EUA, já não possui os meios financeiros e humanos que tinha há meio século. A generalização da internet e das redes sociais complicou a vida financeira dos jornais, que têm perdido não só leitores como publicidade.

 

Jornalismo na rádio e na TV

 

Embora numerosos jornais hoje tenham “sites” permanentes de notícias e comentários na internet, e outros apenas existam na net, ainda não se encontrou uma fórmula para atrair um volume suficiente de receitas de publicidade na internet que permitisse manter os custos operacionais do passado. O número de jornalistas caiu drasticamente um pouco por toda a parte, o que forçosamente limita a qualidade do material publicado.  

 

O jornalismo não tem a ver apenas com jornais – ele entrou em força na rádio e na televisão. E aí, a par com algumas rádios nos EUA que vivem de difundir opiniões racistas e informações falsas, houve excelente jornalismo radiofónico e televisivo entre os anos 40 e a generalização da internet. Não digo que tal tenha acontecido em Portugal, porque vivíamos então em ditadura, que não dispensava uma apertada censura sobre os órgãos de comunicação social.

 

Um exemplo de bom jornalismo na televisão foi dado pelo americano Walter Cronkite, que apresentou o principal jornal da rede CBS durante 19 anos, entre 1962 e 1981. A sua credibilidade era enorme; por isso, quando regressou de uma reportagem sobre a guerra do Vietname, manifestou no jornal televisivo que diariamente apresentava o seu ceticismo sobre a possibilidade de os EUA vencerem militarmente o conflito no Vietname. Há vários historiadores que consideram esta intervenção de W. Cronkite decisiva para o fim da guerra do Vietname.

 

Nos últimos anos, as grandes cadeias televisivas americanas – CBS, NBC e ABC – foram perdendo audiência para as televisões por cabo. O que levou a tornar os seus noticiários mais populistas e menos elaborados. No cabo, encontra-se de tudo – o melhor e o pior jornalismo. Mas uma grande, porventura a maior, fonte de informação da maioria da população dos EUA e de outros países passou a estar na net e nas redes sociais.

 

Ora essa informação não obedece, em geral, às normas deontológicas do jornalismo profissional. O que lhe permite emitir opiniões caluniosas e informações não verdadeiras sem que daí decorram quaisquer consequências punitivas.

 

Informação e democracia

 

É esta situação que permite a Trump, por um lado, dizer as maiores barbaridades e ser acreditado pelos seus fieis seguidores; e, por outro, demonizar a informação americana que consegue manter uma certa qualidade e por isso denuncia as suas falsidades. Trump ataca esses órgãos de informação, chamando-lhes “inimigos do povo”. Uma opinião seguida por 51% dos eleitores republicanos, segundo a sondagem de uma universidade. Uma outra sondagem revela que um em cada oito americanos e 23% dos eleitores republicanos julgam que o presidente deveria encerrar o canal televisivo de notícias CNN e os jornais Washington Post e New York Times.

 

Uma democracia digna desse nome não pode viver sem jornalismo sério. Poderá enganar-se, claro, até porque hoje dispõe de menos meios do que no passado, mas sempre é um contrapoder indispensável ao pluralismo democrático. Também há pluralismo nas redes sociais – o problema é que muita gente só ouve e só lê aquelas redes cuja opinião e cuja informação confirmam as suas convicções pessoais. Não há aí verdadeiro debate.

 

Os ataques do presidente Trump aos “media” aproximam-se perigosamente de incitamentos à violência contra os jornalistas. Violência que aparece nos comícios que Trump realiza junto dos seus apoiantes.

 

Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os ataques de Trump ao jornalismo. E, felizmente, ainda 65% dos americanos inquiridos numa sondagem dizem que a informação dos “media” é parte importante da democracia. Por algum motivo, o Senado Federal, onde os republicanos detém a maioria, aprovou, por unanimidade, uma declaração afirmando - contra Trump – que "a comunicação social não é inimiga do povo".

 

 

( Este texto foi originalmente publicado no “site” www.rr.pt).  

 

 

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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