null, 24 de Março, 2019
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Ética para o jornalismo digital, uma obra em construção

Não foi só o modelo de sustento económico que foi sacudido pela revolução digital. Temos a questão de saber até que ponto a ética dos media é ainda “adequada ao jornalismo de hoje e de amanhã, imediato, interactivo e ‘sempre ligado’  - um jornalismo de amadores e profissionais”.

Estamos a caminho de um jornalismo misto, de cidadãos e jornalistas profissionais, usando muitas plataformas  -  o qual requer uma nova ética: “linhas de conduta que se apliquem a amadores e profissionais, quer escrevam em blogs, ou por tweet, ou façam emissão ou publiquem em jornais”.

É esta a reflexão inicial de Stephen J.A. Ward, docente e fundador do Centro para a Ética do Jornalismo na Universidade de Wisconsin–Madison, num texto sobre a ética nos meios digitais.

O autor começa por descrever a nossa actual “ecologia” mediática como “uma paisagem caótica evoluindo a um ritmo furioso”, no qual os profissionais “partilham o espaço jornalístico com tweeters, bloggers, ‘jornalistas cidadãos’ e utentes das redes sociais”. 

“As mudanças desafiam as fundações da ética, e esse desafio vai mais fundo do que os debates sobre um ou outro princípio  - por exemplo o da objectividade.” (...)  

“O que pode significar a ética para uma profissão que tem de providenciar notícias e análises instantâneas, onde qualquer pessoa com um modem é um editor?” (...) 

Stephen Ward descreve o que será uma redacção “integrada”, a trabalhar com todos os “níveis” e “naturezas” de novos conteúdos sempre a chegar, e vai direito às “perguntas difíceis” para uma ética dos meios digitais: 

O que é um jornalista? O que é o jornalismo? Como lidar com o anonimato? Como lidar com os boatos e a necessidade de correcção? Como manter a imparcialidade e lidar com os conflitos de interesse e um jornalismo partidário? Como é uma empresa jornalística não-lucrativa? Como podem os jornalistas usar as redes sociais? E qual o papel dos “cidadãos-jornalistas”? 

Hoje, cidadãos sem formação jornalística, e que não trabalham para os media tradicionais, chamam-se a si mesmos jornalistas ou escrevem de modos que cabem na descrição geral de alguém que escreve regularmente sobre assuntos públicos para uma audiência. Não é sempre claro onde começa ou acaba o termo “jornalista”. 

A mesma ambiguidade se prolonga sobre o termo de “jornalismo”. A abordagem normativa assenta “numa visão ideal do jornalismo como informação pública rigorosa e responsável”. Define-se o jornalismo “considerando os seus melhores exemplos e as práticas dos melhores jornalistas”. 

A velocidade proporcionada pelos meios digitais é responsável por uma enorme pressão que afrouxa o cuidado de uma redacção perante boatos muito “partilhados”. Alguns serão inofensivos, outros podem cusar pânico público ou desencadear reacções perigosas. O problema posterior é o da necessária correcção. Já existe a prática de eliminar do ficheiro online todo o erro cometido, como se não tivesse sido publicado  - o que se chama unpublishing [despublicar]... 

Sobre as questões da imparcialidade, o autor chama a atenção para o facto de assistirmos hoje a uma espécie de regresso do jornalismo de opinião claramente partidária que informava muitos jornais do final do séc. XIX, “antes da reportagem objectiva dos princípios de 1900”. (...) 

“Para tornar as coisas ainda mais contenciosas, alguns dos novos expoentes do jornalismo de opinião e do imparcial não só colocam em questão a objectividade, como também o princípio estabelecido de que os jornalistas deviam ser independentes dos grupos a respeito dos quais escrevem.” (...) 

Sobre o uso das redes sociais pelos jornalistas, a questão desemboca sempre nos limites, auto-impostos ou colocados pelos meios para que trabalham, dada a quase inevitável “contaminação” entre os dois ambientes. 

No artigo citado, Stephen Ward insiste mais em definir as questões colocadas pelas novas realidades  - portanto as perguntas -  do que em adiantar respostas que resolvam todos os problemas. A leitura na íntegra do seu trabalho (que estes extractos não substituem) deixa-nos a noção muito clara de que a ética no jornalismo digital é um edifício em começo de construção.

 

O texto citado, no Center for Journalism Ethics

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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