Sábado, 25 de Maio, 2019
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Ética para o jornalismo digital, uma obra em construção

Não foi só o modelo de sustento económico que foi sacudido pela revolução digital. Temos a questão de saber até que ponto a ética dos media é ainda “adequada ao jornalismo de hoje e de amanhã, imediato, interactivo e ‘sempre ligado’  - um jornalismo de amadores e profissionais”.

Estamos a caminho de um jornalismo misto, de cidadãos e jornalistas profissionais, usando muitas plataformas  -  o qual requer uma nova ética: “linhas de conduta que se apliquem a amadores e profissionais, quer escrevam em blogs, ou por tweet, ou façam emissão ou publiquem em jornais”.

É esta a reflexão inicial de Stephen J.A. Ward, docente e fundador do Centro para a Ética do Jornalismo na Universidade de Wisconsin–Madison, num texto sobre a ética nos meios digitais.

O autor começa por descrever a nossa actual “ecologia” mediática como “uma paisagem caótica evoluindo a um ritmo furioso”, no qual os profissionais “partilham o espaço jornalístico com tweeters, bloggers, ‘jornalistas cidadãos’ e utentes das redes sociais”. 

“As mudanças desafiam as fundações da ética, e esse desafio vai mais fundo do que os debates sobre um ou outro princípio  - por exemplo o da objectividade.” (...)  

“O que pode significar a ética para uma profissão que tem de providenciar notícias e análises instantâneas, onde qualquer pessoa com um modem é um editor?” (...) 

Stephen Ward descreve o que será uma redacção “integrada”, a trabalhar com todos os “níveis” e “naturezas” de novos conteúdos sempre a chegar, e vai direito às “perguntas difíceis” para uma ética dos meios digitais: 

O que é um jornalista? O que é o jornalismo? Como lidar com o anonimato? Como lidar com os boatos e a necessidade de correcção? Como manter a imparcialidade e lidar com os conflitos de interesse e um jornalismo partidário? Como é uma empresa jornalística não-lucrativa? Como podem os jornalistas usar as redes sociais? E qual o papel dos “cidadãos-jornalistas”? 

Hoje, cidadãos sem formação jornalística, e que não trabalham para os media tradicionais, chamam-se a si mesmos jornalistas ou escrevem de modos que cabem na descrição geral de alguém que escreve regularmente sobre assuntos públicos para uma audiência. Não é sempre claro onde começa ou acaba o termo “jornalista”. 

A mesma ambiguidade se prolonga sobre o termo de “jornalismo”. A abordagem normativa assenta “numa visão ideal do jornalismo como informação pública rigorosa e responsável”. Define-se o jornalismo “considerando os seus melhores exemplos e as práticas dos melhores jornalistas”. 

A velocidade proporcionada pelos meios digitais é responsável por uma enorme pressão que afrouxa o cuidado de uma redacção perante boatos muito “partilhados”. Alguns serão inofensivos, outros podem cusar pânico público ou desencadear reacções perigosas. O problema posterior é o da necessária correcção. Já existe a prática de eliminar do ficheiro online todo o erro cometido, como se não tivesse sido publicado  - o que se chama unpublishing [despublicar]... 

Sobre as questões da imparcialidade, o autor chama a atenção para o facto de assistirmos hoje a uma espécie de regresso do jornalismo de opinião claramente partidária que informava muitos jornais do final do séc. XIX, “antes da reportagem objectiva dos princípios de 1900”. (...) 

“Para tornar as coisas ainda mais contenciosas, alguns dos novos expoentes do jornalismo de opinião e do imparcial não só colocam em questão a objectividade, como também o princípio estabelecido de que os jornalistas deviam ser independentes dos grupos a respeito dos quais escrevem.” (...) 

Sobre o uso das redes sociais pelos jornalistas, a questão desemboca sempre nos limites, auto-impostos ou colocados pelos meios para que trabalham, dada a quase inevitável “contaminação” entre os dois ambientes. 

No artigo citado, Stephen Ward insiste mais em definir as questões colocadas pelas novas realidades  - portanto as perguntas -  do que em adiantar respostas que resolvam todos os problemas. A leitura na íntegra do seu trabalho (que estes extractos não substituem) deixa-nos a noção muito clara de que a ética no jornalismo digital é um edifício em começo de construção.

 

O texto citado, no Center for Journalism Ethics

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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