Quinta-feira, 17 de Outubro, 2019
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Ética para o jornalismo digital, uma obra em construção

Não foi só o modelo de sustento económico que foi sacudido pela revolução digital. Temos a questão de saber até que ponto a ética dos media é ainda “adequada ao jornalismo de hoje e de amanhã, imediato, interactivo e ‘sempre ligado’  - um jornalismo de amadores e profissionais”.

Estamos a caminho de um jornalismo misto, de cidadãos e jornalistas profissionais, usando muitas plataformas  -  o qual requer uma nova ética: “linhas de conduta que se apliquem a amadores e profissionais, quer escrevam em blogs, ou por tweet, ou façam emissão ou publiquem em jornais”.

É esta a reflexão inicial de Stephen J.A. Ward, docente e fundador do Centro para a Ética do Jornalismo na Universidade de Wisconsin–Madison, num texto sobre a ética nos meios digitais.

O autor começa por descrever a nossa actual “ecologia” mediática como “uma paisagem caótica evoluindo a um ritmo furioso”, no qual os profissionais “partilham o espaço jornalístico com tweeters, bloggers, ‘jornalistas cidadãos’ e utentes das redes sociais”. 

“As mudanças desafiam as fundações da ética, e esse desafio vai mais fundo do que os debates sobre um ou outro princípio  - por exemplo o da objectividade.” (...)  

“O que pode significar a ética para uma profissão que tem de providenciar notícias e análises instantâneas, onde qualquer pessoa com um modem é um editor?” (...) 

Stephen Ward descreve o que será uma redacção “integrada”, a trabalhar com todos os “níveis” e “naturezas” de novos conteúdos sempre a chegar, e vai direito às “perguntas difíceis” para uma ética dos meios digitais: 

O que é um jornalista? O que é o jornalismo? Como lidar com o anonimato? Como lidar com os boatos e a necessidade de correcção? Como manter a imparcialidade e lidar com os conflitos de interesse e um jornalismo partidário? Como é uma empresa jornalística não-lucrativa? Como podem os jornalistas usar as redes sociais? E qual o papel dos “cidadãos-jornalistas”? 

Hoje, cidadãos sem formação jornalística, e que não trabalham para os media tradicionais, chamam-se a si mesmos jornalistas ou escrevem de modos que cabem na descrição geral de alguém que escreve regularmente sobre assuntos públicos para uma audiência. Não é sempre claro onde começa ou acaba o termo “jornalista”. 

A mesma ambiguidade se prolonga sobre o termo de “jornalismo”. A abordagem normativa assenta “numa visão ideal do jornalismo como informação pública rigorosa e responsável”. Define-se o jornalismo “considerando os seus melhores exemplos e as práticas dos melhores jornalistas”. 

A velocidade proporcionada pelos meios digitais é responsável por uma enorme pressão que afrouxa o cuidado de uma redacção perante boatos muito “partilhados”. Alguns serão inofensivos, outros podem cusar pânico público ou desencadear reacções perigosas. O problema posterior é o da necessária correcção. Já existe a prática de eliminar do ficheiro online todo o erro cometido, como se não tivesse sido publicado  - o que se chama unpublishing [despublicar]... 

Sobre as questões da imparcialidade, o autor chama a atenção para o facto de assistirmos hoje a uma espécie de regresso do jornalismo de opinião claramente partidária que informava muitos jornais do final do séc. XIX, “antes da reportagem objectiva dos princípios de 1900”. (...) 

“Para tornar as coisas ainda mais contenciosas, alguns dos novos expoentes do jornalismo de opinião e do imparcial não só colocam em questão a objectividade, como também o princípio estabelecido de que os jornalistas deviam ser independentes dos grupos a respeito dos quais escrevem.” (...) 

Sobre o uso das redes sociais pelos jornalistas, a questão desemboca sempre nos limites, auto-impostos ou colocados pelos meios para que trabalham, dada a quase inevitável “contaminação” entre os dois ambientes. 

No artigo citado, Stephen Ward insiste mais em definir as questões colocadas pelas novas realidades  - portanto as perguntas -  do que em adiantar respostas que resolvam todos os problemas. A leitura na íntegra do seu trabalho (que estes extractos não substituem) deixa-nos a noção muito clara de que a ética no jornalismo digital é um edifício em começo de construção.

 

O texto citado, no Center for Journalism Ethics

Connosco
Ser jornalista no México é tornar-se “correspondente de guerra sem sair da sua terra” Ver galeria

Marcela Turati foi reconhecida com o Prémio Maria Moors Cabot 2019, atribuído pela Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, pela sua excelência profissional e por promover, com as suas reportagens, um melhor entendimento interamericano.

É fundadora, com outros jornalistas, da rede Periodistas de a Pie e do portal de investigação Quinto Elemento Lab, colectivos que procuram defender a liberdade de expressão e apoiar o exercício do jornalismo em regiões pobres e perigosas.

A jornalista deu uma entrevista ao Knight Center, na qual falou do seu percurso profissional e das dificuldades enfrentadas no México para o exercício da profissão.
Para Turati, ser jornalista no país é um “desafio constante” e uma responsabilidade, equivalente a tornar-se “correspondente de guerra sem sair da sua terra”.

Desde 2008, que cobre casos de vítimas de violência, lidando regularmente com pessoas que têm familiares desaparecidos, testemunhas de massacres, entre outros. Como profissional, procura cobrir a violência a partir de uma abordagem de direitos humanos e o seu objectivo é continuar a contar estas histórias sem as normalizar.

O Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual o CPI tem um acordo de parceria, publicou a entrevista com a jornalista no seu site.

Jornalistas deverão estar prevenidos para identificar e corrigir notícias falsas... Ver galeria

Existem várias lacunas na pesquisa de desinformação política e os debates contínuos sobre o que constitui as fake news e a sua classificação acabam por ser uma distracção, desviando as atenções das “questões críticas” relacionadas com o problema.

É importante reconhecer que as fake news existem, que estamos expostos a essas falsas informações, mas, se quisermos combatê-las, é indispensável procurar a sua origem, a sua forma de disseminação e analisar as consequências sociais e políticas.

É, ainda, imprescindível que os jornalistas estejam preparados e informados para não colaborarem na propagação deste tipo de informação.

Por vezes, o objectivo que se esconde em algumas fake news é que os media acabem por disseminá-las, acelerando a sua difusão. Por esse motivo, foi identificado o chamado “ponto de inflexão”, que representa o momento em que a história deixa de ser partilhada exclusivamente em “nichos” e acaba por atingir uma dimensão maior, alcançando várias comunidades. 

A jornalista Laura Hazard Owen abordou o tema num texto publicado no NiemanLab, no qual também faz referências à melhor forma de reconhecer os de conteúdos manipulados.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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Opinião
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Fotojornalismo e Direitos de Autor
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01
Nov
1º Congresso Internacional de Rádios Lusófonas
14:30 @ Angra do Heroísmo, Açores
19
Nov
Connections Europe
09:00 @ Marriott Hotel, Amsterdão
21
Nov