Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
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Ética para o jornalismo digital, uma obra em construção

Não foi só o modelo de sustento económico que foi sacudido pela revolução digital. Temos a questão de saber até que ponto a ética dos media é ainda “adequada ao jornalismo de hoje e de amanhã, imediato, interactivo e ‘sempre ligado’  - um jornalismo de amadores e profissionais”.

Estamos a caminho de um jornalismo misto, de cidadãos e jornalistas profissionais, usando muitas plataformas  -  o qual requer uma nova ética: “linhas de conduta que se apliquem a amadores e profissionais, quer escrevam em blogs, ou por tweet, ou façam emissão ou publiquem em jornais”.

É esta a reflexão inicial de Stephen J.A. Ward, docente e fundador do Centro para a Ética do Jornalismo na Universidade de Wisconsin–Madison, num texto sobre a ética nos meios digitais.

O autor começa por descrever a nossa actual “ecologia” mediática como “uma paisagem caótica evoluindo a um ritmo furioso”, no qual os profissionais “partilham o espaço jornalístico com tweeters, bloggers, ‘jornalistas cidadãos’ e utentes das redes sociais”. 

“As mudanças desafiam as fundações da ética, e esse desafio vai mais fundo do que os debates sobre um ou outro princípio  - por exemplo o da objectividade.” (...)  

“O que pode significar a ética para uma profissão que tem de providenciar notícias e análises instantâneas, onde qualquer pessoa com um modem é um editor?” (...) 

Stephen Ward descreve o que será uma redacção “integrada”, a trabalhar com todos os “níveis” e “naturezas” de novos conteúdos sempre a chegar, e vai direito às “perguntas difíceis” para uma ética dos meios digitais: 

O que é um jornalista? O que é o jornalismo? Como lidar com o anonimato? Como lidar com os boatos e a necessidade de correcção? Como manter a imparcialidade e lidar com os conflitos de interesse e um jornalismo partidário? Como é uma empresa jornalística não-lucrativa? Como podem os jornalistas usar as redes sociais? E qual o papel dos “cidadãos-jornalistas”? 

Hoje, cidadãos sem formação jornalística, e que não trabalham para os media tradicionais, chamam-se a si mesmos jornalistas ou escrevem de modos que cabem na descrição geral de alguém que escreve regularmente sobre assuntos públicos para uma audiência. Não é sempre claro onde começa ou acaba o termo “jornalista”. 

A mesma ambiguidade se prolonga sobre o termo de “jornalismo”. A abordagem normativa assenta “numa visão ideal do jornalismo como informação pública rigorosa e responsável”. Define-se o jornalismo “considerando os seus melhores exemplos e as práticas dos melhores jornalistas”. 

A velocidade proporcionada pelos meios digitais é responsável por uma enorme pressão que afrouxa o cuidado de uma redacção perante boatos muito “partilhados”. Alguns serão inofensivos, outros podem cusar pânico público ou desencadear reacções perigosas. O problema posterior é o da necessária correcção. Já existe a prática de eliminar do ficheiro online todo o erro cometido, como se não tivesse sido publicado  - o que se chama unpublishing [despublicar]... 

Sobre as questões da imparcialidade, o autor chama a atenção para o facto de assistirmos hoje a uma espécie de regresso do jornalismo de opinião claramente partidária que informava muitos jornais do final do séc. XIX, “antes da reportagem objectiva dos princípios de 1900”. (...) 

“Para tornar as coisas ainda mais contenciosas, alguns dos novos expoentes do jornalismo de opinião e do imparcial não só colocam em questão a objectividade, como também o princípio estabelecido de que os jornalistas deviam ser independentes dos grupos a respeito dos quais escrevem.” (...) 

Sobre o uso das redes sociais pelos jornalistas, a questão desemboca sempre nos limites, auto-impostos ou colocados pelos meios para que trabalham, dada a quase inevitável “contaminação” entre os dois ambientes. 

No artigo citado, Stephen Ward insiste mais em definir as questões colocadas pelas novas realidades  - portanto as perguntas -  do que em adiantar respostas que resolvam todos os problemas. A leitura na íntegra do seu trabalho (que estes extractos não substituem) deixa-nos a noção muito clara de que a ética no jornalismo digital é um edifício em começo de construção.

 

O texto citado, no Center for Journalism Ethics

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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