Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Colectânea

Revolução digital no jornalismo: mistura de coisas boas e más

No início da revolução digital, muitos aplaudiram a queda de influência do jornalismo tradicional, e o facto de os seus profissionais terem perdido o papel de “porteiros” do notíciário. Os “missionários” do digital aplaudiram a chegada de uma nova situação, em que “as pessoas anteriormente referidas como sendo a audiência” podiam agora voltar o jogo: todos os cidadãos podiam ser “escritores, repórteres e analistas”. Mas o que aconteceu a seguir foi mau dos dois lados: nem o jornalismo profissional aprendeu a lição, nem a Internet inaugurou uma era de informação verdadeira, responsável e não tendenciosa.

É esta a reflexão inicial de um artigo de Roy Greenslade, jornalista e docente de Jornalismo na Universidade da Londres, em The Guardian.

O optimismo desses primeiros tempos assentava na suposta vocação libertadora da tecnologia. Os blogs e outras iniciativas de base, associados às novas ferramentas que permitiam escrever e filmar, colocando conteúdos em plataformas como o YouTube, fariam do jornalismo tradicional uma coisa do passado. 

Mas o autor pergunta: será que nós, os chamados MSM -  mainstream media, mudámos? Tomámos as críticas a sério? Roy Greenslade afirma que, pela observação dos diários de distribuição nacional, ao longo desta década, isso não aconteceu: 

“Os proprietários e editores dos jornais continuaram a acreditar que eram eles quem marcava a agenda política, social e cultural. Apesar de as vendas do impresso terem caído mais de 50% desde a passagem do milénio, eles sentiram-se confortados por grandes números no digital.” 

“Sem dúvida que isto os levou a crer que alguma coisa estariam a fazer bem, e deixaram de escutar as crescentes críticas das suas audiências.” (...) 

Mas este é apenas um dos lados da história, segundo o autor. O outro é que, se bem que os blogs tenham sido uma inovação importante “em sociedades onde a liberdade de Imprensa nunca existiu”, o seu impacto na agenda noticiosa do mundo desenvolvido tem sido mínimo. 

“Por outras palavras, os mainstream media não foram superados pelo desenvolvimento de uma quantidade de meios alternativos de natureza all-singing, all-dancing, truth-telling  - fresca, responsável, informativa, não tendenciosa. Aquilo que tomou conta da Internet foi o contrário, baseado numa inflação de fake news: um bando amotinado, maldoso, grosseiro, histérico e intolerante, proclamando opiniões extremistas marcadas pelo racismo, incluindo tanto o anti-semitismo como a islamofobia.” 

“Vozes sensíveis foram silenciadas. O fanatismo levou aquilo que estávamos habituados a considerar o centro moderado para as margens. O que conta são as opiniões, não os factos. Derrubou o pressuposto jornalístico de que as pessoas têm sede de informação. Na verdade, têm sede daquilo que reforce a sua intolerância. Não é exagero sugerir que este fenómeno afectou o resultado das eleições presidenciais nos Estados Unidos e o referendo sobre a União Europeia. E infecta todos os aspectos da vida na Net.” (...) 

Roy Greenslade volta a chamar a atenção para a responsabilidade dos próprios meios tradicionais por terem cedido também neste ponto  - por exemplo, promovendo, desde os anos 50, os colunistas de opinião, “encorajados a serem tão veementes e controversos quanto possível, na crença de que isso atrai leitores”. (...) 

“Por contraste, os repórteres  - os que procuram os factos, escavadores e investigadores, homens e mulheres empenhados na tarefa difícil de revelar coisas que os poderosos desejariam esconder -  têm passado a ganhar menos e a trabalhar mais. A mensagem não podia ser mais clara: a missão de informar não é tão valorizada como a missão de ofender.” (...) 

“Colhemos aquilo que semeamos.” (...)

 

O texto citado, na íntegra,  em The Guardian

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
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