Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Fórum

Revolução digital no jornalismo: mistura de coisas boas e más

No início da revolução digital, muitos aplaudiram a queda de influência do jornalismo tradicional, e o facto de os seus profissionais terem perdido o papel de “porteiros” do notíciário. Os “missionários” do digital aplaudiram a chegada de uma nova situação, em que “as pessoas anteriormente referidas como sendo a audiência” podiam agora voltar o jogo: todos os cidadãos podiam ser “escritores, repórteres e analistas”. Mas o que aconteceu a seguir foi mau dos dois lados: nem o jornalismo profissional aprendeu a lição, nem a Internet inaugurou uma era de informação verdadeira, responsável e não tendenciosa.

É esta a reflexão inicial de um artigo de Roy Greenslade, jornalista e docente de Jornalismo na Universidade da Londres, em The Guardian.

O optimismo desses primeiros tempos assentava na suposta vocação libertadora da tecnologia. Os blogs e outras iniciativas de base, associados às novas ferramentas que permitiam escrever e filmar, colocando conteúdos em plataformas como o YouTube, fariam do jornalismo tradicional uma coisa do passado. 

Mas o autor pergunta: será que nós, os chamados MSM -  mainstream media, mudámos? Tomámos as críticas a sério? Roy Greenslade afirma que, pela observação dos diários de distribuição nacional, ao longo desta década, isso não aconteceu: 

“Os proprietários e editores dos jornais continuaram a acreditar que eram eles quem marcava a agenda política, social e cultural. Apesar de as vendas do impresso terem caído mais de 50% desde a passagem do milénio, eles sentiram-se confortados por grandes números no digital.” 

“Sem dúvida que isto os levou a crer que alguma coisa estariam a fazer bem, e deixaram de escutar as crescentes críticas das suas audiências.” (...) 

Mas este é apenas um dos lados da história, segundo o autor. O outro é que, se bem que os blogs tenham sido uma inovação importante “em sociedades onde a liberdade de Imprensa nunca existiu”, o seu impacto na agenda noticiosa do mundo desenvolvido tem sido mínimo. 

“Por outras palavras, os mainstream media não foram superados pelo desenvolvimento de uma quantidade de meios alternativos de natureza all-singing, all-dancing, truth-telling  - fresca, responsável, informativa, não tendenciosa. Aquilo que tomou conta da Internet foi o contrário, baseado numa inflação de fake news: um bando amotinado, maldoso, grosseiro, histérico e intolerante, proclamando opiniões extremistas marcadas pelo racismo, incluindo tanto o anti-semitismo como a islamofobia.” 

“Vozes sensíveis foram silenciadas. O fanatismo levou aquilo que estávamos habituados a considerar o centro moderado para as margens. O que conta são as opiniões, não os factos. Derrubou o pressuposto jornalístico de que as pessoas têm sede de informação. Na verdade, têm sede daquilo que reforce a sua intolerância. Não é exagero sugerir que este fenómeno afectou o resultado das eleições presidenciais nos Estados Unidos e o referendo sobre a União Europeia. E infecta todos os aspectos da vida na Net.” (...) 

Roy Greenslade volta a chamar a atenção para a responsabilidade dos próprios meios tradicionais por terem cedido também neste ponto  - por exemplo, promovendo, desde os anos 50, os colunistas de opinião, “encorajados a serem tão veementes e controversos quanto possível, na crença de que isso atrai leitores”. (...) 

“Por contraste, os repórteres  - os que procuram os factos, escavadores e investigadores, homens e mulheres empenhados na tarefa difícil de revelar coisas que os poderosos desejariam esconder -  têm passado a ganhar menos e a trabalhar mais. A mensagem não podia ser mais clara: a missão de informar não é tão valorizada como a missão de ofender.” (...) 

“Colhemos aquilo que semeamos.” (...)

 

O texto citado, na íntegra,  em The Guardian

Connosco
A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital” Ver galeria

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

O Clube
O CPI – Clube Português de Imprensa voltou a participar no Prémio  Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018,  instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura,  em cooperação com a Europa Nostra, a principal organização europeia de defesa do património,  que o CNC representa em Portugal.   O Prémio foi atribuído, este ano,  à...

ver mais >
Opinião
Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
É inegável a importância da tomada de posição conjunta de 350 jornais americanos que, respondendo a um apelo do The Boston Globe, assinaram  editoriais simultâneos, rejeitando a política de hostilidade desencadeada pelo presidente Trump contra os media. A data de 16 de Agosto ficará para a História da Imprensa  americana ao assumir esta iniciativa solidária e absolutamente inédita, que mobilizou grandes...
O optimismo de Centeno
Luís Queirós
"A economia da zona Euro cresce há 20 trimestres consecutivos", disse Mário Centeno no Grémio Literário, na palestra, proferida no passado dia 22 de Maio passado, integrada no ciclo que ali decorre subordinado ao tema  "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. O Ministro das Finanças de Portugal e presidente do...
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...