Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
Colectânea

Revolução digital no jornalismo: mistura de coisas boas e más

No início da revolução digital, muitos aplaudiram a queda de influência do jornalismo tradicional, e o facto de os seus profissionais terem perdido o papel de “porteiros” do notíciário. Os “missionários” do digital aplaudiram a chegada de uma nova situação, em que “as pessoas anteriormente referidas como sendo a audiência” podiam agora voltar o jogo: todos os cidadãos podiam ser “escritores, repórteres e analistas”. Mas o que aconteceu a seguir foi mau dos dois lados: nem o jornalismo profissional aprendeu a lição, nem a Internet inaugurou uma era de informação verdadeira, responsável e não tendenciosa.

É esta a reflexão inicial de um artigo de Roy Greenslade, jornalista e docente de Jornalismo na Universidade da Londres, em The Guardian.

O optimismo desses primeiros tempos assentava na suposta vocação libertadora da tecnologia. Os blogs e outras iniciativas de base, associados às novas ferramentas que permitiam escrever e filmar, colocando conteúdos em plataformas como o YouTube, fariam do jornalismo tradicional uma coisa do passado. 

Mas o autor pergunta: será que nós, os chamados MSM -  mainstream media, mudámos? Tomámos as críticas a sério? Roy Greenslade afirma que, pela observação dos diários de distribuição nacional, ao longo desta década, isso não aconteceu: 

“Os proprietários e editores dos jornais continuaram a acreditar que eram eles quem marcava a agenda política, social e cultural. Apesar de as vendas do impresso terem caído mais de 50% desde a passagem do milénio, eles sentiram-se confortados por grandes números no digital.” 

“Sem dúvida que isto os levou a crer que alguma coisa estariam a fazer bem, e deixaram de escutar as crescentes críticas das suas audiências.” (...) 

Mas este é apenas um dos lados da história, segundo o autor. O outro é que, se bem que os blogs tenham sido uma inovação importante “em sociedades onde a liberdade de Imprensa nunca existiu”, o seu impacto na agenda noticiosa do mundo desenvolvido tem sido mínimo. 

“Por outras palavras, os mainstream media não foram superados pelo desenvolvimento de uma quantidade de meios alternativos de natureza all-singing, all-dancing, truth-telling  - fresca, responsável, informativa, não tendenciosa. Aquilo que tomou conta da Internet foi o contrário, baseado numa inflação de fake news: um bando amotinado, maldoso, grosseiro, histérico e intolerante, proclamando opiniões extremistas marcadas pelo racismo, incluindo tanto o anti-semitismo como a islamofobia.” 

“Vozes sensíveis foram silenciadas. O fanatismo levou aquilo que estávamos habituados a considerar o centro moderado para as margens. O que conta são as opiniões, não os factos. Derrubou o pressuposto jornalístico de que as pessoas têm sede de informação. Na verdade, têm sede daquilo que reforce a sua intolerância. Não é exagero sugerir que este fenómeno afectou o resultado das eleições presidenciais nos Estados Unidos e o referendo sobre a União Europeia. E infecta todos os aspectos da vida na Net.” (...) 

Roy Greenslade volta a chamar a atenção para a responsabilidade dos próprios meios tradicionais por terem cedido também neste ponto  - por exemplo, promovendo, desde os anos 50, os colunistas de opinião, “encorajados a serem tão veementes e controversos quanto possível, na crença de que isso atrai leitores”. (...) 

“Por contraste, os repórteres  - os que procuram os factos, escavadores e investigadores, homens e mulheres empenhados na tarefa difícil de revelar coisas que os poderosos desejariam esconder -  têm passado a ganhar menos e a trabalhar mais. A mensagem não podia ser mais clara: a missão de informar não é tão valorizada como a missão de ofender.” (...) 

“Colhemos aquilo que semeamos.” (...)

 

O texto citado, na íntegra,  em The Guardian

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
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Agenda
01
Ago
Composição Fotográfica
09:00 @ Cenjor,Lisboa
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigéria
16
Set