Sexta-feira, 22 de Fevereiro, 2019
Colectânea

Revolução digital no jornalismo: mistura de coisas boas e más

No início da revolução digital, muitos aplaudiram a queda de influência do jornalismo tradicional, e o facto de os seus profissionais terem perdido o papel de “porteiros” do notíciário. Os “missionários” do digital aplaudiram a chegada de uma nova situação, em que “as pessoas anteriormente referidas como sendo a audiência” podiam agora voltar o jogo: todos os cidadãos podiam ser “escritores, repórteres e analistas”. Mas o que aconteceu a seguir foi mau dos dois lados: nem o jornalismo profissional aprendeu a lição, nem a Internet inaugurou uma era de informação verdadeira, responsável e não tendenciosa.

É esta a reflexão inicial de um artigo de Roy Greenslade, jornalista e docente de Jornalismo na Universidade da Londres, em The Guardian.

O optimismo desses primeiros tempos assentava na suposta vocação libertadora da tecnologia. Os blogs e outras iniciativas de base, associados às novas ferramentas que permitiam escrever e filmar, colocando conteúdos em plataformas como o YouTube, fariam do jornalismo tradicional uma coisa do passado. 

Mas o autor pergunta: será que nós, os chamados MSM -  mainstream media, mudámos? Tomámos as críticas a sério? Roy Greenslade afirma que, pela observação dos diários de distribuição nacional, ao longo desta década, isso não aconteceu: 

“Os proprietários e editores dos jornais continuaram a acreditar que eram eles quem marcava a agenda política, social e cultural. Apesar de as vendas do impresso terem caído mais de 50% desde a passagem do milénio, eles sentiram-se confortados por grandes números no digital.” 

“Sem dúvida que isto os levou a crer que alguma coisa estariam a fazer bem, e deixaram de escutar as crescentes críticas das suas audiências.” (...) 

Mas este é apenas um dos lados da história, segundo o autor. O outro é que, se bem que os blogs tenham sido uma inovação importante “em sociedades onde a liberdade de Imprensa nunca existiu”, o seu impacto na agenda noticiosa do mundo desenvolvido tem sido mínimo. 

“Por outras palavras, os mainstream media não foram superados pelo desenvolvimento de uma quantidade de meios alternativos de natureza all-singing, all-dancing, truth-telling  - fresca, responsável, informativa, não tendenciosa. Aquilo que tomou conta da Internet foi o contrário, baseado numa inflação de fake news: um bando amotinado, maldoso, grosseiro, histérico e intolerante, proclamando opiniões extremistas marcadas pelo racismo, incluindo tanto o anti-semitismo como a islamofobia.” 

“Vozes sensíveis foram silenciadas. O fanatismo levou aquilo que estávamos habituados a considerar o centro moderado para as margens. O que conta são as opiniões, não os factos. Derrubou o pressuposto jornalístico de que as pessoas têm sede de informação. Na verdade, têm sede daquilo que reforce a sua intolerância. Não é exagero sugerir que este fenómeno afectou o resultado das eleições presidenciais nos Estados Unidos e o referendo sobre a União Europeia. E infecta todos os aspectos da vida na Net.” (...) 

Roy Greenslade volta a chamar a atenção para a responsabilidade dos próprios meios tradicionais por terem cedido também neste ponto  - por exemplo, promovendo, desde os anos 50, os colunistas de opinião, “encorajados a serem tão veementes e controversos quanto possível, na crença de que isso atrai leitores”. (...) 

“Por contraste, os repórteres  - os que procuram os factos, escavadores e investigadores, homens e mulheres empenhados na tarefa difícil de revelar coisas que os poderosos desejariam esconder -  têm passado a ganhar menos e a trabalhar mais. A mensagem não podia ser mais clara: a missão de informar não é tão valorizada como a missão de ofender.” (...) 

“Colhemos aquilo que semeamos.” (...)

 

O texto citado, na íntegra,  em The Guardian

Connosco
Jorge Soares em Fevereiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

Prossegue a 27  Fevereiro o ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?”, promovido pelo CPI, em parceria com o CNC e o Grémio Literário, tendo como orador convidado o Prof. Jorge Soares, que preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, desde 2016, preenchendo o lugar deixado vago por morte de João Lobo Antunes.  

Director do Programa Gulbenkian Inovar em Saúde, da Fundação Calouste Gulbenkian, Jorge Soares já fazia parte daquele Conselho, antes de ser eleito para a sua presidência .

O seu currículo é vasto. Presidiu também à  Comissão Externa para Avaliação da Qualidade do Ensino, e, mais tarde,  assumiu a vice-presidência da Comissão de Ética da Fundação Champalimaud, e, a partir de 2016, foi presidente da Comissão Nacional dos Centros de Referência. É Perito Nacional na União Europeia do 3rd Programme “EuropeAgainst Cancer” .

Expressiva manifestação em Bratislava evocando jornalista morto Ver galeria
“Esperamos respostas tão breve quanto possível, porque ainda há muitas questões”  - afirmou.
O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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