Terça-feira, 23 de Outubro, 2018
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O que pode fazer o jornalismo quando as palavras nos dividem

Na ilha de Chipre, formalmente dividida desde 1974 em duas zonas de influência, um grupo de jornalistas preparou e editou, em grego, turco e inglês, “Palavras que Importam: um Glossário para o Jornalismo em Chipre”. A intenção foi boa, as primeiras reacções nem por isso. Um dos autores, Aidan White, fundador e presidente da Ethical Journalism Network, explica que não se trata de uma tentativa de censurar ou intimidar jornalistas e editores, que não é uma lista de palavras proibidas nem um manual de “politicamente correcto”.
É antes um esforço, feito por jornalistas, para abrir o debate, nas redacções de ambos os lados da ilha, sobre as palavras e frases que usam no seu ofício. Mas nem todos aceitam o argumento.

Este glossário destaca apenas 56 palavras ou frases. Mas, ainda antes de ser publicado, a 10 de Julho, já atraía críticas de muitos jornalistas cipriotas gregos e dirigentes políticos, dizendo que se tratava de uma tentativa de limitar a liberdade de expressão, impondo um vocabulário enganoso no modo como tratava determinados factos históricos. 

Segundo uma notícia da Associated Press, em The New York Times, uma carta de protesto, denunciando ideias “perigosas” que pretendiam transformar os jornalistas em “instrumentos inconscientes” e promover a “censura”, foi assinada por 70 jornalistas e circulou três semanas antes da publicação do texto. 

Como conta Aidan White, “depois disso a controvérsia desenvolveu-se, ganhando ritmo à medida que todos, desde o Presidente da República até às alcateias das redes sociais, se juntaram na discussão, ignorando alegremente o contexto, o conteúdo e a natureza totalmente voluntária do processo do glossário”. 

“Instalou-se uma atmosfera febril, com a verdade sacrificada de todos os lados. Houve insultos intoleráveis contra os quatro autores residentes em Chipre. Foram chamados ‘traidores’ ou acusados de procederem como ‘agentes’ da Turquia, e disseram a uma jornalista que não era mais do que uma ‘prostituta turca’.” 

“Isto foi uma resposta extraordinária a uma iniciativa que se limita a propor um debate sobre o modo como são usadas e entendidas as palavras. Por exemplo, uma palavra sublinhada pela reportagem do New York Times é ‘fronteira’, usada pelos media cipriotas turcos para descrever a linha de demarcação que separa o internacionalmente reconhecido Sul cipriota grego do separatista Norte cipriota turco.” 

“Os cipriotas gregos não gostam da palavra, porque podia legimitar a ideia de dois Estados reconhecidos na ilha. O glossário propõe uma alternativa, a ‘Linha Verde’, em referência à cor da linha que os britânicos desenharam no mapa para marcar a zona tampão durante os conflitos armados no princípio dos anos 60.” 

“Outras palavras difíceis, tais como ‘invasão’, para descrever as acções militares turcas em 1974, que ofendem alguns cipriotas turcos, são também destacadas, mas sem alternativas sugeridas. O glossário chama a atenção para a linguagem problemática, mas evita estabelecer uma lei que diga aos jornalistas e aos editores o que devem escrever.” 

Aidan White esclarece que, embora o glossário e o projecto de diálogo tenham origem no grupo inter-governamental da OSCE, sendo financiado por fundos da Alemanha e da Holanda, o texto foi “planeado, redigido, editado e divulgado exclusivamente por jornalistas”. 

“Não há ‘dedadas’ políticas no documento. Foi acolhido sem reservas pela Federação Europeia de Jornalistas, pelo Internacional Press Institute e pela rede internacional de seis dezenas de grupos de apoio [que compõem] a Ethical Journalism Network, bem como pelo Relator Especial das Nações Unidas para a Liberdade de Expressão.”  (...) 

“Os jornalistas cipriotas deviam aproveitar a oportunidade para lerem o glossário, fazerem sugestões de como pode ser melhorado e acrescentarem as suas próprias propostas, para ajudarem os media a libertar-se de uma agenda noticiosa tribal e politicamente motivada. (...) 

“Pedir aos jornalistas de Chipre que voltem a pensar sobre as palavras que usam não é uma ameaça à sua liberdade, mas podia ajudar os media a moldarem o debate público de formas que atenuem a tensão e abram espaço para diálogos significativos.”

 

O artigo de Aidan White, na íntegra, na EJN,  e o Glossário, em três línguas, em formato PDF

Connosco
Jornalista e historiador de Macau vencem Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.
O semanário Plataforma Macau é publicado em Macau, em português e chinês. 

Na categoria Ensaio, o Júri deliberou, também por unanimidade, atribuir o Prémio ao trabalho de António Aresta, considerando tratar-se de “uma narrativa consequente sobre a visita histórica do grande poeta a Macau, com passagem por Cantão e Hong Kong”.

Universidades apoiam e investem no jornalismo de investigação Ver galeria

A sociedade necessita de um jornalismo de investigação que fica caro, e esta necessidade “chega num momento de grande tensão financeira para uma indústria maciçamente perturbada pelas novas tecnologias e alterações económicas”.

“Acreditamos que este tipo de jornalismo, em defesa do povo americano, é mais importante do que nunca na presente cacofonia de informação confusa, contraditória e enganadora, já para não falar de cepticismo  - ou por vezes rejeição absoluta -  dos factos.”

Esta reflexão é assinada por Christopher Callahan e Leonard Downie Jr., docentes na Universidade Estatal do Arizona, sobre a criação de dois centros de ensino de jornalismo de investigação, um na Universidade referida, outro na de Maryland. Tendo em conta a “proliferação de centros de reportagem de investigação independentes, sem objectivo de lucro, em grande parte financiados por [mecenato] filantrópico”, as universidades “estão prontas a assumir funções de liderança neste novo ecossistema de jornalismo de investigação”  - afirmam no seu texto.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Opinião
Como está o papel?
Manuel Falcão
Durante muitos anos a imprensa – jornais e revistas – captava a segunda maior fatia do investimento publicitário, logo a seguir à televisão, que sensivelmente fica com metade do total do bolo publicitário. Mas desde o princípio desta década a queda do investimento em imprensa foi sempre aumentando e, agora, desceu para a quinta posição, atrás, por esta ordem, da TV, digital, outdoor e rádio. Ao ritmo a que...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
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