Sábado, 25 de Maio, 2019
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O que pode fazer o jornalismo quando as palavras nos dividem

Na ilha de Chipre, formalmente dividida desde 1974 em duas zonas de influência, um grupo de jornalistas preparou e editou, em grego, turco e inglês, “Palavras que Importam: um Glossário para o Jornalismo em Chipre”. A intenção foi boa, as primeiras reacções nem por isso. Um dos autores, Aidan White, fundador e presidente da Ethical Journalism Network, explica que não se trata de uma tentativa de censurar ou intimidar jornalistas e editores, que não é uma lista de palavras proibidas nem um manual de “politicamente correcto”.
É antes um esforço, feito por jornalistas, para abrir o debate, nas redacções de ambos os lados da ilha, sobre as palavras e frases que usam no seu ofício. Mas nem todos aceitam o argumento.

Este glossário destaca apenas 56 palavras ou frases. Mas, ainda antes de ser publicado, a 10 de Julho, já atraía críticas de muitos jornalistas cipriotas gregos e dirigentes políticos, dizendo que se tratava de uma tentativa de limitar a liberdade de expressão, impondo um vocabulário enganoso no modo como tratava determinados factos históricos. 

Segundo uma notícia da Associated Press, em The New York Times, uma carta de protesto, denunciando ideias “perigosas” que pretendiam transformar os jornalistas em “instrumentos inconscientes” e promover a “censura”, foi assinada por 70 jornalistas e circulou três semanas antes da publicação do texto. 

Como conta Aidan White, “depois disso a controvérsia desenvolveu-se, ganhando ritmo à medida que todos, desde o Presidente da República até às alcateias das redes sociais, se juntaram na discussão, ignorando alegremente o contexto, o conteúdo e a natureza totalmente voluntária do processo do glossário”. 

“Instalou-se uma atmosfera febril, com a verdade sacrificada de todos os lados. Houve insultos intoleráveis contra os quatro autores residentes em Chipre. Foram chamados ‘traidores’ ou acusados de procederem como ‘agentes’ da Turquia, e disseram a uma jornalista que não era mais do que uma ‘prostituta turca’.” 

“Isto foi uma resposta extraordinária a uma iniciativa que se limita a propor um debate sobre o modo como são usadas e entendidas as palavras. Por exemplo, uma palavra sublinhada pela reportagem do New York Times é ‘fronteira’, usada pelos media cipriotas turcos para descrever a linha de demarcação que separa o internacionalmente reconhecido Sul cipriota grego do separatista Norte cipriota turco.” 

“Os cipriotas gregos não gostam da palavra, porque podia legimitar a ideia de dois Estados reconhecidos na ilha. O glossário propõe uma alternativa, a ‘Linha Verde’, em referência à cor da linha que os britânicos desenharam no mapa para marcar a zona tampão durante os conflitos armados no princípio dos anos 60.” 

“Outras palavras difíceis, tais como ‘invasão’, para descrever as acções militares turcas em 1974, que ofendem alguns cipriotas turcos, são também destacadas, mas sem alternativas sugeridas. O glossário chama a atenção para a linguagem problemática, mas evita estabelecer uma lei que diga aos jornalistas e aos editores o que devem escrever.” 

Aidan White esclarece que, embora o glossário e o projecto de diálogo tenham origem no grupo inter-governamental da OSCE, sendo financiado por fundos da Alemanha e da Holanda, o texto foi “planeado, redigido, editado e divulgado exclusivamente por jornalistas”. 

“Não há ‘dedadas’ políticas no documento. Foi acolhido sem reservas pela Federação Europeia de Jornalistas, pelo Internacional Press Institute e pela rede internacional de seis dezenas de grupos de apoio [que compõem] a Ethical Journalism Network, bem como pelo Relator Especial das Nações Unidas para a Liberdade de Expressão.”  (...) 

“Os jornalistas cipriotas deviam aproveitar a oportunidade para lerem o glossário, fazerem sugestões de como pode ser melhorado e acrescentarem as suas próprias propostas, para ajudarem os media a libertar-se de uma agenda noticiosa tribal e politicamente motivada. (...) 

“Pedir aos jornalistas de Chipre que voltem a pensar sobre as palavras que usam não é uma ameaça à sua liberdade, mas podia ajudar os media a moldarem o debate público de formas que atenuem a tensão e abram espaço para diálogos significativos.”

 

O artigo de Aidan White, na íntegra, na EJN,  e o Glossário, em três línguas, em formato PDF

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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