Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
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O que pode fazer o jornalismo quando as palavras nos dividem

Na ilha de Chipre, formalmente dividida desde 1974 em duas zonas de influência, um grupo de jornalistas preparou e editou, em grego, turco e inglês, “Palavras que Importam: um Glossário para o Jornalismo em Chipre”. A intenção foi boa, as primeiras reacções nem por isso. Um dos autores, Aidan White, fundador e presidente da Ethical Journalism Network, explica que não se trata de uma tentativa de censurar ou intimidar jornalistas e editores, que não é uma lista de palavras proibidas nem um manual de “politicamente correcto”.
É antes um esforço, feito por jornalistas, para abrir o debate, nas redacções de ambos os lados da ilha, sobre as palavras e frases que usam no seu ofício. Mas nem todos aceitam o argumento.

Este glossário destaca apenas 56 palavras ou frases. Mas, ainda antes de ser publicado, a 10 de Julho, já atraía críticas de muitos jornalistas cipriotas gregos e dirigentes políticos, dizendo que se tratava de uma tentativa de limitar a liberdade de expressão, impondo um vocabulário enganoso no modo como tratava determinados factos históricos. 

Segundo uma notícia da Associated Press, em The New York Times, uma carta de protesto, denunciando ideias “perigosas” que pretendiam transformar os jornalistas em “instrumentos inconscientes” e promover a “censura”, foi assinada por 70 jornalistas e circulou três semanas antes da publicação do texto. 

Como conta Aidan White, “depois disso a controvérsia desenvolveu-se, ganhando ritmo à medida que todos, desde o Presidente da República até às alcateias das redes sociais, se juntaram na discussão, ignorando alegremente o contexto, o conteúdo e a natureza totalmente voluntária do processo do glossário”. 

“Instalou-se uma atmosfera febril, com a verdade sacrificada de todos os lados. Houve insultos intoleráveis contra os quatro autores residentes em Chipre. Foram chamados ‘traidores’ ou acusados de procederem como ‘agentes’ da Turquia, e disseram a uma jornalista que não era mais do que uma ‘prostituta turca’.” 

“Isto foi uma resposta extraordinária a uma iniciativa que se limita a propor um debate sobre o modo como são usadas e entendidas as palavras. Por exemplo, uma palavra sublinhada pela reportagem do New York Times é ‘fronteira’, usada pelos media cipriotas turcos para descrever a linha de demarcação que separa o internacionalmente reconhecido Sul cipriota grego do separatista Norte cipriota turco.” 

“Os cipriotas gregos não gostam da palavra, porque podia legimitar a ideia de dois Estados reconhecidos na ilha. O glossário propõe uma alternativa, a ‘Linha Verde’, em referência à cor da linha que os britânicos desenharam no mapa para marcar a zona tampão durante os conflitos armados no princípio dos anos 60.” 

“Outras palavras difíceis, tais como ‘invasão’, para descrever as acções militares turcas em 1974, que ofendem alguns cipriotas turcos, são também destacadas, mas sem alternativas sugeridas. O glossário chama a atenção para a linguagem problemática, mas evita estabelecer uma lei que diga aos jornalistas e aos editores o que devem escrever.” 

Aidan White esclarece que, embora o glossário e o projecto de diálogo tenham origem no grupo inter-governamental da OSCE, sendo financiado por fundos da Alemanha e da Holanda, o texto foi “planeado, redigido, editado e divulgado exclusivamente por jornalistas”. 

“Não há ‘dedadas’ políticas no documento. Foi acolhido sem reservas pela Federação Europeia de Jornalistas, pelo Internacional Press Institute e pela rede internacional de seis dezenas de grupos de apoio [que compõem] a Ethical Journalism Network, bem como pelo Relator Especial das Nações Unidas para a Liberdade de Expressão.”  (...) 

“Os jornalistas cipriotas deviam aproveitar a oportunidade para lerem o glossário, fazerem sugestões de como pode ser melhorado e acrescentarem as suas próprias propostas, para ajudarem os media a libertar-se de uma agenda noticiosa tribal e politicamente motivada. (...) 

“Pedir aos jornalistas de Chipre que voltem a pensar sobre as palavras que usam não é uma ameaça à sua liberdade, mas podia ajudar os media a moldarem o debate público de formas que atenuem a tensão e abram espaço para diálogos significativos.”

 

O artigo de Aidan White, na íntegra, na EJN,  e o Glossário, em três línguas, em formato PDF

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

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Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...