Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Estudo

Jornalistas são novo alvo de assédio "online" à escala mundial

O assédio online, ou intimidação sistemática de pessoas, usando a natureza multiplicadora das redes sociais, é uma forma de agressão bem conhecida e que está a tornar-se “cada vez mais corrente e organizada” na direcção de um novo alvo: os jornalistas. Segundo um relatório muito recente, elaborado pela ONG Repórteres sem Fronteiras a partir de um inquérito junto de dezenas de vítimas, em 32 países, este fenómeno propaga-se à escala mundial e “constitui hoje uma das piores ameaças à liberdade de Imprensa”.

O problema é que a maior parte dos jornalistas agredidos deste modo, e entrevistados pela RSF, acabam por se “remeter à auto-censura diante de uma vaga de violência cuja dimensão não tinham imaginado”. Há casos em que os agressores intimidam, não só o repórter, como também a sua família. As mulheres e os jornalistas de investigação encontram-se entre os mais visados.

As campanhas podem ser lançadas por comunidades de indivíduos, por grupos políticos ou até por empresas. O estudo cita o exemplo de duas sociedades brasileiras, JBS e 4Buzz, que financiaram a produção de uma falsa reportagem difamatória, que aparecia nos resultados dos motores de busca de cada vez que fosse mencionado o nome do jornalista Leonardo Sakamoto.  

Na Índia, a jornalista Rana Ayyub foi incluída numa lista de jornalistas a atacar, estabelecida pela equipa da campanha de Narendra Modi, hoje Primeiro-Ministro. “Chamaram-me prostituta. A minha imagem foi acoplada à fotografia de um corpo despido, e a foto da minha mãe tomada da minha conta de Instagram e modificada a photoshop de todas as formas possíveis”  -  contou à RSF.

Para organizarem operações de maior amplitude, os mandantes chamam “activistas ou sub-contratados precários, remunerados para produzirem histórias ‘virais’ ou para lançarem campanhas com o objectivo de desacreditar ou atacar os jornalistas, [enquanto] difundem a sua propaganda”. 

“Contratam também o serviço de empresas que permitem comprar a baixo preço assinantes, likes ou partilhas em massa, que permitem amplificar artificialmente a visibilidade das campanhas.” 

“Assediar de forma maciça um jornalista nunca foi tão simples  - e tão pouco custoso”  - denuncia a RSF, fustigando empresas com a Devumi, que vendem as “visitas” e os likes

O Presidente dos Estados Unidos é mencionando no relatório, não como origem de tais campanhas, mas por ter criado um “clima” que ele mesmo mantém, visando constantemente os jornalistas, “que acusa de fake news de cada vez que publicam qualquer coisa que não seja a seu favor”. 

Referindo-se aos “Estados predadores da liberdade de Imprensa”, o relatório da RSF descreve o funcionamento do assédio online em três etapas:

  1. Desinformação  -  o conteúdo jornalístico é metido nas redes sociais sob uma onda de notícias falsas e conteúdos a favor do regime.
  2. Amplificação  -  estes conteúdos são valorizados de modo artificial, por comentadores pagos ou por programas informáticos que fazem reenvios automáticos.
  3. Intimidação  -  os jornalistas são tomados como alvos pessoais, insultados e ameaçados de morte, para os desacreditar e silenciar.

Para lutar contra estes fenómenos, a organização Repórteres sem Fronteiras divulga 25 recomendações, dirigidas aos Estados, como às organizações internacionais e às plataformas, mas também aos media e aos anunciantes. 

Quanto às plataformas, fica o apelo a que dêem provas de maior transparência sobre os seus mecanismos de moderação de conteúdos, tendo o cuidado de verificar que “as regras não sejam desviadas da sua finalidade para fazer calar os jornalistas”  - o que sucede quando internautas mal intencionados “assinalam” as contas de jornalistas para sugerirem às plataformas o seu encerramento.

 

Mais informação em Le Monde,  a apresentação do relatório na RSF e a sua edição em PDF

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A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital” Ver galeria

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O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

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