Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Estudo

Jornalistas são novo alvo de assédio "online" à escala mundial

O assédio online, ou intimidação sistemática de pessoas, usando a natureza multiplicadora das redes sociais, é uma forma de agressão bem conhecida e que está a tornar-se “cada vez mais corrente e organizada” na direcção de um novo alvo: os jornalistas. Segundo um relatório muito recente, elaborado pela ONG Repórteres sem Fronteiras a partir de um inquérito junto de dezenas de vítimas, em 32 países, este fenómeno propaga-se à escala mundial e “constitui hoje uma das piores ameaças à liberdade de Imprensa”.

O problema é que a maior parte dos jornalistas agredidos deste modo, e entrevistados pela RSF, acabam por se “remeter à auto-censura diante de uma vaga de violência cuja dimensão não tinham imaginado”. Há casos em que os agressores intimidam, não só o repórter, como também a sua família. As mulheres e os jornalistas de investigação encontram-se entre os mais visados.

As campanhas podem ser lançadas por comunidades de indivíduos, por grupos políticos ou até por empresas. O estudo cita o exemplo de duas sociedades brasileiras, JBS e 4Buzz, que financiaram a produção de uma falsa reportagem difamatória, que aparecia nos resultados dos motores de busca de cada vez que fosse mencionado o nome do jornalista Leonardo Sakamoto.  

Na Índia, a jornalista Rana Ayyub foi incluída numa lista de jornalistas a atacar, estabelecida pela equipa da campanha de Narendra Modi, hoje Primeiro-Ministro. “Chamaram-me prostituta. A minha imagem foi acoplada à fotografia de um corpo despido, e a foto da minha mãe tomada da minha conta de Instagram e modificada a photoshop de todas as formas possíveis”  -  contou à RSF.

Para organizarem operações de maior amplitude, os mandantes chamam “activistas ou sub-contratados precários, remunerados para produzirem histórias ‘virais’ ou para lançarem campanhas com o objectivo de desacreditar ou atacar os jornalistas, [enquanto] difundem a sua propaganda”. 

“Contratam também o serviço de empresas que permitem comprar a baixo preço assinantes, likes ou partilhas em massa, que permitem amplificar artificialmente a visibilidade das campanhas.” 

“Assediar de forma maciça um jornalista nunca foi tão simples  - e tão pouco custoso”  - denuncia a RSF, fustigando empresas com a Devumi, que vendem as “visitas” e os likes

O Presidente dos Estados Unidos é mencionando no relatório, não como origem de tais campanhas, mas por ter criado um “clima” que ele mesmo mantém, visando constantemente os jornalistas, “que acusa de fake news de cada vez que publicam qualquer coisa que não seja a seu favor”. 

Referindo-se aos “Estados predadores da liberdade de Imprensa”, o relatório da RSF descreve o funcionamento do assédio online em três etapas:

  1. Desinformação  -  o conteúdo jornalístico é metido nas redes sociais sob uma onda de notícias falsas e conteúdos a favor do regime.
  2. Amplificação  -  estes conteúdos são valorizados de modo artificial, por comentadores pagos ou por programas informáticos que fazem reenvios automáticos.
  3. Intimidação  -  os jornalistas são tomados como alvos pessoais, insultados e ameaçados de morte, para os desacreditar e silenciar.

Para lutar contra estes fenómenos, a organização Repórteres sem Fronteiras divulga 25 recomendações, dirigidas aos Estados, como às organizações internacionais e às plataformas, mas também aos media e aos anunciantes. 

Quanto às plataformas, fica o apelo a que dêem provas de maior transparência sobre os seus mecanismos de moderação de conteúdos, tendo o cuidado de verificar que “as regras não sejam desviadas da sua finalidade para fazer calar os jornalistas”  - o que sucede quando internautas mal intencionados “assinalam” as contas de jornalistas para sugerirem às plataformas o seu encerramento.

 

Mais informação em Le Monde,  a apresentação do relatório na RSF e a sua edição em PDF

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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