Terça-feira, 23 de Outubro, 2018
Estudo

Jornalistas são novo alvo de assédio "online" à escala mundial

O assédio online, ou intimidação sistemática de pessoas, usando a natureza multiplicadora das redes sociais, é uma forma de agressão bem conhecida e que está a tornar-se “cada vez mais corrente e organizada” na direcção de um novo alvo: os jornalistas. Segundo um relatório muito recente, elaborado pela ONG Repórteres sem Fronteiras a partir de um inquérito junto de dezenas de vítimas, em 32 países, este fenómeno propaga-se à escala mundial e “constitui hoje uma das piores ameaças à liberdade de Imprensa”.

O problema é que a maior parte dos jornalistas agredidos deste modo, e entrevistados pela RSF, acabam por se “remeter à auto-censura diante de uma vaga de violência cuja dimensão não tinham imaginado”. Há casos em que os agressores intimidam, não só o repórter, como também a sua família. As mulheres e os jornalistas de investigação encontram-se entre os mais visados.

As campanhas podem ser lançadas por comunidades de indivíduos, por grupos políticos ou até por empresas. O estudo cita o exemplo de duas sociedades brasileiras, JBS e 4Buzz, que financiaram a produção de uma falsa reportagem difamatória, que aparecia nos resultados dos motores de busca de cada vez que fosse mencionado o nome do jornalista Leonardo Sakamoto.  

Na Índia, a jornalista Rana Ayyub foi incluída numa lista de jornalistas a atacar, estabelecida pela equipa da campanha de Narendra Modi, hoje Primeiro-Ministro. “Chamaram-me prostituta. A minha imagem foi acoplada à fotografia de um corpo despido, e a foto da minha mãe tomada da minha conta de Instagram e modificada a photoshop de todas as formas possíveis”  -  contou à RSF.

Para organizarem operações de maior amplitude, os mandantes chamam “activistas ou sub-contratados precários, remunerados para produzirem histórias ‘virais’ ou para lançarem campanhas com o objectivo de desacreditar ou atacar os jornalistas, [enquanto] difundem a sua propaganda”. 

“Contratam também o serviço de empresas que permitem comprar a baixo preço assinantes, likes ou partilhas em massa, que permitem amplificar artificialmente a visibilidade das campanhas.” 

“Assediar de forma maciça um jornalista nunca foi tão simples  - e tão pouco custoso”  - denuncia a RSF, fustigando empresas com a Devumi, que vendem as “visitas” e os likes

O Presidente dos Estados Unidos é mencionando no relatório, não como origem de tais campanhas, mas por ter criado um “clima” que ele mesmo mantém, visando constantemente os jornalistas, “que acusa de fake news de cada vez que publicam qualquer coisa que não seja a seu favor”. 

Referindo-se aos “Estados predadores da liberdade de Imprensa”, o relatório da RSF descreve o funcionamento do assédio online em três etapas:

  1. Desinformação  -  o conteúdo jornalístico é metido nas redes sociais sob uma onda de notícias falsas e conteúdos a favor do regime.
  2. Amplificação  -  estes conteúdos são valorizados de modo artificial, por comentadores pagos ou por programas informáticos que fazem reenvios automáticos.
  3. Intimidação  -  os jornalistas são tomados como alvos pessoais, insultados e ameaçados de morte, para os desacreditar e silenciar.

Para lutar contra estes fenómenos, a organização Repórteres sem Fronteiras divulga 25 recomendações, dirigidas aos Estados, como às organizações internacionais e às plataformas, mas também aos media e aos anunciantes. 

Quanto às plataformas, fica o apelo a que dêem provas de maior transparência sobre os seus mecanismos de moderação de conteúdos, tendo o cuidado de verificar que “as regras não sejam desviadas da sua finalidade para fazer calar os jornalistas”  - o que sucede quando internautas mal intencionados “assinalam” as contas de jornalistas para sugerirem às plataformas o seu encerramento.

 

Mais informação em Le Monde,  a apresentação do relatório na RSF e a sua edição em PDF

Connosco
Jornalista e historiador de Macau vencem Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.
O semanário Plataforma Macau é publicado em Macau, em português e chinês. 

Na categoria Ensaio, o Júri deliberou, também por unanimidade, atribuir o Prémio ao trabalho de António Aresta, considerando tratar-se de “uma narrativa consequente sobre a visita histórica do grande poeta a Macau, com passagem por Cantão e Hong Kong”.

Universidades apoiam e investem no jornalismo de investigação Ver galeria

A sociedade necessita de um jornalismo de investigação que fica caro, e esta necessidade “chega num momento de grande tensão financeira para uma indústria maciçamente perturbada pelas novas tecnologias e alterações económicas”.

“Acreditamos que este tipo de jornalismo, em defesa do povo americano, é mais importante do que nunca na presente cacofonia de informação confusa, contraditória e enganadora, já para não falar de cepticismo  - ou por vezes rejeição absoluta -  dos factos.”

Esta reflexão é assinada por Christopher Callahan e Leonard Downie Jr., docentes na Universidade Estatal do Arizona, sobre a criação de dois centros de ensino de jornalismo de investigação, um na Universidade referida, outro na de Maryland. Tendo em conta a “proliferação de centros de reportagem de investigação independentes, sem objectivo de lucro, em grande parte financiados por [mecenato] filantrópico”, as universidades “estão prontas a assumir funções de liderança neste novo ecossistema de jornalismo de investigação”  - afirmam no seu texto.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


ver mais >
Opinião
Como está o papel?
Manuel Falcão
Durante muitos anos a imprensa – jornais e revistas – captava a segunda maior fatia do investimento publicitário, logo a seguir à televisão, que sensivelmente fica com metade do total do bolo publicitário. Mas desde o princípio desta década a queda do investimento em imprensa foi sempre aumentando e, agora, desceu para a quinta posição, atrás, por esta ordem, da TV, digital, outdoor e rádio. Ao ritmo a que...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...
Agenda
24
Out
Medientage München
09:00 @ Munique, Alemanha
25
Out
Perspetivas do Fotorjonalismo em Portugal
18:00 @ Casa da imprensa, Lisboa
07
Nov
newsrewired
09:00 @ Londres, UK
10
Nov
LinkedIn para Jornalistas
09:00 @ Cenjor,Lisboa