Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Estudo

Jornalistas são novo alvo de assédio "online" à escala mundial

O assédio online, ou intimidação sistemática de pessoas, usando a natureza multiplicadora das redes sociais, é uma forma de agressão bem conhecida e que está a tornar-se “cada vez mais corrente e organizada” na direcção de um novo alvo: os jornalistas. Segundo um relatório muito recente, elaborado pela ONG Repórteres sem Fronteiras a partir de um inquérito junto de dezenas de vítimas, em 32 países, este fenómeno propaga-se à escala mundial e “constitui hoje uma das piores ameaças à liberdade de Imprensa”.

O problema é que a maior parte dos jornalistas agredidos deste modo, e entrevistados pela RSF, acabam por se “remeter à auto-censura diante de uma vaga de violência cuja dimensão não tinham imaginado”. Há casos em que os agressores intimidam, não só o repórter, como também a sua família. As mulheres e os jornalistas de investigação encontram-se entre os mais visados.

As campanhas podem ser lançadas por comunidades de indivíduos, por grupos políticos ou até por empresas. O estudo cita o exemplo de duas sociedades brasileiras, JBS e 4Buzz, que financiaram a produção de uma falsa reportagem difamatória, que aparecia nos resultados dos motores de busca de cada vez que fosse mencionado o nome do jornalista Leonardo Sakamoto.  

Na Índia, a jornalista Rana Ayyub foi incluída numa lista de jornalistas a atacar, estabelecida pela equipa da campanha de Narendra Modi, hoje Primeiro-Ministro. “Chamaram-me prostituta. A minha imagem foi acoplada à fotografia de um corpo despido, e a foto da minha mãe tomada da minha conta de Instagram e modificada a photoshop de todas as formas possíveis”  -  contou à RSF.

Para organizarem operações de maior amplitude, os mandantes chamam “activistas ou sub-contratados precários, remunerados para produzirem histórias ‘virais’ ou para lançarem campanhas com o objectivo de desacreditar ou atacar os jornalistas, [enquanto] difundem a sua propaganda”. 

“Contratam também o serviço de empresas que permitem comprar a baixo preço assinantes, likes ou partilhas em massa, que permitem amplificar artificialmente a visibilidade das campanhas.” 

“Assediar de forma maciça um jornalista nunca foi tão simples  - e tão pouco custoso”  - denuncia a RSF, fustigando empresas com a Devumi, que vendem as “visitas” e os likes

O Presidente dos Estados Unidos é mencionando no relatório, não como origem de tais campanhas, mas por ter criado um “clima” que ele mesmo mantém, visando constantemente os jornalistas, “que acusa de fake news de cada vez que publicam qualquer coisa que não seja a seu favor”. 

Referindo-se aos “Estados predadores da liberdade de Imprensa”, o relatório da RSF descreve o funcionamento do assédio online em três etapas:

  1. Desinformação  -  o conteúdo jornalístico é metido nas redes sociais sob uma onda de notícias falsas e conteúdos a favor do regime.
  2. Amplificação  -  estes conteúdos são valorizados de modo artificial, por comentadores pagos ou por programas informáticos que fazem reenvios automáticos.
  3. Intimidação  -  os jornalistas são tomados como alvos pessoais, insultados e ameaçados de morte, para os desacreditar e silenciar.

Para lutar contra estes fenómenos, a organização Repórteres sem Fronteiras divulga 25 recomendações, dirigidas aos Estados, como às organizações internacionais e às plataformas, mas também aos media e aos anunciantes. 

Quanto às plataformas, fica o apelo a que dêem provas de maior transparência sobre os seus mecanismos de moderação de conteúdos, tendo o cuidado de verificar que “as regras não sejam desviadas da sua finalidade para fazer calar os jornalistas”  - o que sucede quando internautas mal intencionados “assinalam” as contas de jornalistas para sugerirem às plataformas o seu encerramento.

 

Mais informação em Le Monde,  a apresentação do relatório na RSF e a sua edição em PDF

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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