Sexta-feira, 22 de Fevereiro, 2019
Estudo

Jornalistas são novo alvo de assédio "online" à escala mundial

O assédio online, ou intimidação sistemática de pessoas, usando a natureza multiplicadora das redes sociais, é uma forma de agressão bem conhecida e que está a tornar-se “cada vez mais corrente e organizada” na direcção de um novo alvo: os jornalistas. Segundo um relatório muito recente, elaborado pela ONG Repórteres sem Fronteiras a partir de um inquérito junto de dezenas de vítimas, em 32 países, este fenómeno propaga-se à escala mundial e “constitui hoje uma das piores ameaças à liberdade de Imprensa”.

O problema é que a maior parte dos jornalistas agredidos deste modo, e entrevistados pela RSF, acabam por se “remeter à auto-censura diante de uma vaga de violência cuja dimensão não tinham imaginado”. Há casos em que os agressores intimidam, não só o repórter, como também a sua família. As mulheres e os jornalistas de investigação encontram-se entre os mais visados.

As campanhas podem ser lançadas por comunidades de indivíduos, por grupos políticos ou até por empresas. O estudo cita o exemplo de duas sociedades brasileiras, JBS e 4Buzz, que financiaram a produção de uma falsa reportagem difamatória, que aparecia nos resultados dos motores de busca de cada vez que fosse mencionado o nome do jornalista Leonardo Sakamoto.  

Na Índia, a jornalista Rana Ayyub foi incluída numa lista de jornalistas a atacar, estabelecida pela equipa da campanha de Narendra Modi, hoje Primeiro-Ministro. “Chamaram-me prostituta. A minha imagem foi acoplada à fotografia de um corpo despido, e a foto da minha mãe tomada da minha conta de Instagram e modificada a photoshop de todas as formas possíveis”  -  contou à RSF.

Para organizarem operações de maior amplitude, os mandantes chamam “activistas ou sub-contratados precários, remunerados para produzirem histórias ‘virais’ ou para lançarem campanhas com o objectivo de desacreditar ou atacar os jornalistas, [enquanto] difundem a sua propaganda”. 

“Contratam também o serviço de empresas que permitem comprar a baixo preço assinantes, likes ou partilhas em massa, que permitem amplificar artificialmente a visibilidade das campanhas.” 

“Assediar de forma maciça um jornalista nunca foi tão simples  - e tão pouco custoso”  - denuncia a RSF, fustigando empresas com a Devumi, que vendem as “visitas” e os likes

O Presidente dos Estados Unidos é mencionando no relatório, não como origem de tais campanhas, mas por ter criado um “clima” que ele mesmo mantém, visando constantemente os jornalistas, “que acusa de fake news de cada vez que publicam qualquer coisa que não seja a seu favor”. 

Referindo-se aos “Estados predadores da liberdade de Imprensa”, o relatório da RSF descreve o funcionamento do assédio online em três etapas:

  1. Desinformação  -  o conteúdo jornalístico é metido nas redes sociais sob uma onda de notícias falsas e conteúdos a favor do regime.
  2. Amplificação  -  estes conteúdos são valorizados de modo artificial, por comentadores pagos ou por programas informáticos que fazem reenvios automáticos.
  3. Intimidação  -  os jornalistas são tomados como alvos pessoais, insultados e ameaçados de morte, para os desacreditar e silenciar.

Para lutar contra estes fenómenos, a organização Repórteres sem Fronteiras divulga 25 recomendações, dirigidas aos Estados, como às organizações internacionais e às plataformas, mas também aos media e aos anunciantes. 

Quanto às plataformas, fica o apelo a que dêem provas de maior transparência sobre os seus mecanismos de moderação de conteúdos, tendo o cuidado de verificar que “as regras não sejam desviadas da sua finalidade para fazer calar os jornalistas”  - o que sucede quando internautas mal intencionados “assinalam” as contas de jornalistas para sugerirem às plataformas o seu encerramento.

 

Mais informação em Le Monde,  a apresentação do relatório na RSF e a sua edição em PDF

Connosco
Eslováquia recorda jornalista morto há um ano Ver galeria
“Esperamos respostas tão breve quanto possível, porque ainda há muitas questões”  - afirmou.
Prémios do World Press Photo 2019 já têm candidatos escolhidos... Ver galeria

Um fotojornalista português, Mário Cruz, da Agência Lusa, figura entre os nomeados para o World Press Photo 2019, o mais prestigiado prémio de fotojornalismo do mundo, cuja identidade e trabalhos a concurso foram agora conhecidos. A Fundação organizadora introduziu também uma nova categoria a ser premiada, a História do Ano, destinada a “fotógrafos cuja criatividade e habilidades visuais produziram uma história com excelente edição e sequenciamento, que captura ou representa um evento ou assunto de grande importância jornalística”.

A imagem de Mário Cruz, intitulada “Viver entre o que foi deixado para trás”, mostra uma criança recolhendo material reciclável, deitada num colchão cercado por lixo, enquanto flutua no rio Pasig, em Manila, nas Filipinas.

Os vencedores do concurso serão conhecidos na cerimónia marcada para 11 de Abril, em Amesterdão, na Holanda.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
Adoro imprensa…
Manuel Falcão
Sou um apaixonado leitor de imprensa, quer de jornais quer de revistas, e gosto de seguir o que se publica. A edição mais recente da revista Time tem por título de capa "The Art Of Optimism" e apresenta 34 pessoas que são relevantes e inspiracionais, na sociedade norte-americana, mostrando o que estão a fazer. A edição é cuidada e permite-nos ter de forma sintética um retrato daquilo que tantas vezes passa despercebido. O...
Os actuais detentores da Global Media, proprietária do Diário de Noticias e do Jornal de Noticias, além da TSF e de outros títulos, parecem estar a especializar-se como uma espécie  de “comissão  liquidatária” da empresa. Depois de alienarem  o edifício-sede histórico do Diário de Noticias , construído de raiz para albergar aquele jornal centenário,  segundo um projecto de Pardal...
Zé Manel, o talento e a sensualidade
António Gomes de Almeida
Geralmente considerado um dos mais talentosos ilustradores portugueses, a sua arte manifestou-se sob várias facetas, desde as Capas e as Ilustrações de Livros à Banda Desenhada, aos Cartazes, ao Cartoon, à Caricatura e, até, ao Vitral. E será, provavelmente, essa dispersão por tantos meios de expressão da sua Arte que fez com que demorasse algum tempo, antes de ser tão conhecido do grande público, e de ter a...
Jornalismo a meia-haste
Graça Franco
Atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto. Temi que algum jornalista se oferecesse para partilhar a cadeia com Armando Vara, só para ver como este se sentia “já lá dentro”. A porta ia-se fechando, em câmara lenta, e o enxame de microfones não largava a presa. O...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
Agenda
26
Fev
Digital Summit Seattle
09:00 @ Seattle, EUA
02
Mar
LinkedIn para Jornalistas
09:00 @ Cenjor, Lisboa
04
Mar
Simpósio de Radiodifusão Digital da ABU
09:00 @ Kuala Lumpur, Malásia