Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
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O jornalismo deve explicar a natureza e poder da tecnologia

Vivemos hoje uma “ressaca da Internet”. Ficámos tão cegos pelas esperanças de libertação prometidas, que não prestámos atenção a uma coisa que crescia “debaixo dos nossos narizes: a ascensão dos monopólios das empresas de tecnologia”. Depois de uma onda de optimismo, “acordámos reféns de gigantes como o Facebook, Google e Amazon, que ditam o que os seus utentes vêem (ou deixam de ver), além de captarem e comercializarem os nossos dados pessoais como bem entendem”.

Citando agora Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism, precisamos de começar a fazer a cobertura da tecnologia “como algo que tem a ver com sociedade e poder”; e “precisamos de explicar esses novos sistemas de poder ao mundo”. É esta a reflexão inicial de um texto de Andressa Kikuti, docente de jornalismo e investigadora associada do ObjEthos  - no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A autora cita o mais recente Digital News Report da Reuters, sobre o uso do smartphone pelos brasileiros, que já chega aos 72% “como um dos principais dispositivos de acesso à Internet (em 2013 era apenas 23%)”. 

“Não à toa, os brasileiros são alguns dos utentes mais entusiastas das redes sociais e aplicativos de mensagem do mundo. Ainda segundo o estudo, embora o uso do Facebook para consumo de notícias tenha caído sensivelmente em relação a 2017 (de 57% para 52%), continua sendo o preferido. Cresceram em popularidade o WhatsApp e o Instagram para este mesmo fim, ambos também pertencentes a Mark Zuckerberg.” 

“O grande problema relacionado com isso já é bem conhecido: o Facebook (bem como as demais redes sociais citadas) não foi feito para notícias. Portanto, o feed dos seus utentes não é construído com base em critérios jornalísticos sobre aquilo que é importante, mas sim a partir de algoritmos que privilegiam aquilo que as pessoas já estão acostumadas a ver e curtir, criando bolhas de informação que confirmam pontos de vista.” 

“Como afirma Jaron Lanier em palestra no TED2018, mais do que redes sociais, essas empresas são moduladoras de comportamento.” (...) 

Andressa Kikuti aborda depois o modo como os jornais brasileiros tratam da tecnologia como notícia especializada, lamentando que não tenham em conta uma necessária “abordagem mais política e social”: 

“A representação da tecnologia nos jornais brasileiros acaba sendo um misto entre uma concepção instrumentalista  – que trata a tecnologia como sendo ferramentas, equipamentos criados para uma diversidade de tarefas -, e utilitarista  – que confere a ela uma visão funcionalista, exaltando sua finalidade e dando menos atenção aos processos envolvidos na sua elaboração.” (...) 

Como conclui, essa representação ignora, por vezes, “um papel importante do jornalismo na sociedade, que vai muito além de simplesmente informar: também envolve contextualizar, resgatar, problematizar assuntos de interesse público, principalmente quando as pessoas precisam de orientação sobre determinado tema (como é o caso, sem dúvida, da influência das empresas de tecnologia nas nossas ações quotidianas, nas informações que recebemos e na segurança dos nossos dados)”.   

 

O artigo citado, na íntegra, no Observatório da Imprensa do Brasil  e no ObjEthos

 

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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