Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
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O jornalismo deve explicar a natureza e poder da tecnologia

Vivemos hoje uma “ressaca da Internet”. Ficámos tão cegos pelas esperanças de libertação prometidas, que não prestámos atenção a uma coisa que crescia “debaixo dos nossos narizes: a ascensão dos monopólios das empresas de tecnologia”. Depois de uma onda de optimismo, “acordámos reféns de gigantes como o Facebook, Google e Amazon, que ditam o que os seus utentes vêem (ou deixam de ver), além de captarem e comercializarem os nossos dados pessoais como bem entendem”.

Citando agora Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism, precisamos de começar a fazer a cobertura da tecnologia “como algo que tem a ver com sociedade e poder”; e “precisamos de explicar esses novos sistemas de poder ao mundo”. É esta a reflexão inicial de um texto de Andressa Kikuti, docente de jornalismo e investigadora associada do ObjEthos  - no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A autora cita o mais recente Digital News Report da Reuters, sobre o uso do smartphone pelos brasileiros, que já chega aos 72% “como um dos principais dispositivos de acesso à Internet (em 2013 era apenas 23%)”. 

“Não à toa, os brasileiros são alguns dos utentes mais entusiastas das redes sociais e aplicativos de mensagem do mundo. Ainda segundo o estudo, embora o uso do Facebook para consumo de notícias tenha caído sensivelmente em relação a 2017 (de 57% para 52%), continua sendo o preferido. Cresceram em popularidade o WhatsApp e o Instagram para este mesmo fim, ambos também pertencentes a Mark Zuckerberg.” 

“O grande problema relacionado com isso já é bem conhecido: o Facebook (bem como as demais redes sociais citadas) não foi feito para notícias. Portanto, o feed dos seus utentes não é construído com base em critérios jornalísticos sobre aquilo que é importante, mas sim a partir de algoritmos que privilegiam aquilo que as pessoas já estão acostumadas a ver e curtir, criando bolhas de informação que confirmam pontos de vista.” 

“Como afirma Jaron Lanier em palestra no TED2018, mais do que redes sociais, essas empresas são moduladoras de comportamento.” (...) 

Andressa Kikuti aborda depois o modo como os jornais brasileiros tratam da tecnologia como notícia especializada, lamentando que não tenham em conta uma necessária “abordagem mais política e social”: 

“A representação da tecnologia nos jornais brasileiros acaba sendo um misto entre uma concepção instrumentalista  – que trata a tecnologia como sendo ferramentas, equipamentos criados para uma diversidade de tarefas -, e utilitarista  – que confere a ela uma visão funcionalista, exaltando sua finalidade e dando menos atenção aos processos envolvidos na sua elaboração.” (...) 

Como conclui, essa representação ignora, por vezes, “um papel importante do jornalismo na sociedade, que vai muito além de simplesmente informar: também envolve contextualizar, resgatar, problematizar assuntos de interesse público, principalmente quando as pessoas precisam de orientação sobre determinado tema (como é o caso, sem dúvida, da influência das empresas de tecnologia nas nossas ações quotidianas, nas informações que recebemos e na segurança dos nossos dados)”.   

 

O artigo citado, na íntegra, no Observatório da Imprensa do Brasil  e no ObjEthos

 

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
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02
Jul
The Children’s Media Conference
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21
Ago
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09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigeria