Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
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O jornalismo deve explicar a natureza e poder da tecnologia

Vivemos hoje uma “ressaca da Internet”. Ficámos tão cegos pelas esperanças de libertação prometidas, que não prestámos atenção a uma coisa que crescia “debaixo dos nossos narizes: a ascensão dos monopólios das empresas de tecnologia”. Depois de uma onda de optimismo, “acordámos reféns de gigantes como o Facebook, Google e Amazon, que ditam o que os seus utentes vêem (ou deixam de ver), além de captarem e comercializarem os nossos dados pessoais como bem entendem”.

Citando agora Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism, precisamos de começar a fazer a cobertura da tecnologia “como algo que tem a ver com sociedade e poder”; e “precisamos de explicar esses novos sistemas de poder ao mundo”. É esta a reflexão inicial de um texto de Andressa Kikuti, docente de jornalismo e investigadora associada do ObjEthos  - no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A autora cita o mais recente Digital News Report da Reuters, sobre o uso do smartphone pelos brasileiros, que já chega aos 72% “como um dos principais dispositivos de acesso à Internet (em 2013 era apenas 23%)”. 

“Não à toa, os brasileiros são alguns dos utentes mais entusiastas das redes sociais e aplicativos de mensagem do mundo. Ainda segundo o estudo, embora o uso do Facebook para consumo de notícias tenha caído sensivelmente em relação a 2017 (de 57% para 52%), continua sendo o preferido. Cresceram em popularidade o WhatsApp e o Instagram para este mesmo fim, ambos também pertencentes a Mark Zuckerberg.” 

“O grande problema relacionado com isso já é bem conhecido: o Facebook (bem como as demais redes sociais citadas) não foi feito para notícias. Portanto, o feed dos seus utentes não é construído com base em critérios jornalísticos sobre aquilo que é importante, mas sim a partir de algoritmos que privilegiam aquilo que as pessoas já estão acostumadas a ver e curtir, criando bolhas de informação que confirmam pontos de vista.” 

“Como afirma Jaron Lanier em palestra no TED2018, mais do que redes sociais, essas empresas são moduladoras de comportamento.” (...) 

Andressa Kikuti aborda depois o modo como os jornais brasileiros tratam da tecnologia como notícia especializada, lamentando que não tenham em conta uma necessária “abordagem mais política e social”: 

“A representação da tecnologia nos jornais brasileiros acaba sendo um misto entre uma concepção instrumentalista  – que trata a tecnologia como sendo ferramentas, equipamentos criados para uma diversidade de tarefas -, e utilitarista  – que confere a ela uma visão funcionalista, exaltando sua finalidade e dando menos atenção aos processos envolvidos na sua elaboração.” (...) 

Como conclui, essa representação ignora, por vezes, “um papel importante do jornalismo na sociedade, que vai muito além de simplesmente informar: também envolve contextualizar, resgatar, problematizar assuntos de interesse público, principalmente quando as pessoas precisam de orientação sobre determinado tema (como é o caso, sem dúvida, da influência das empresas de tecnologia nas nossas ações quotidianas, nas informações que recebemos e na segurança dos nossos dados)”.   

 

O artigo citado, na íntegra, no Observatório da Imprensa do Brasil  e no ObjEthos

 

Connosco
A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital” Ver galeria

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

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