Sexta-feira, 22 de Fevereiro, 2019
Fórum

O jornalismo deve explicar a natureza e poder da tecnologia

Vivemos hoje uma “ressaca da Internet”. Ficámos tão cegos pelas esperanças de libertação prometidas, que não prestámos atenção a uma coisa que crescia “debaixo dos nossos narizes: a ascensão dos monopólios das empresas de tecnologia”. Depois de uma onda de optimismo, “acordámos reféns de gigantes como o Facebook, Google e Amazon, que ditam o que os seus utentes vêem (ou deixam de ver), além de captarem e comercializarem os nossos dados pessoais como bem entendem”.

Citando agora Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism, precisamos de começar a fazer a cobertura da tecnologia “como algo que tem a ver com sociedade e poder”; e “precisamos de explicar esses novos sistemas de poder ao mundo”. É esta a reflexão inicial de um texto de Andressa Kikuti, docente de jornalismo e investigadora associada do ObjEthos  - no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A autora cita o mais recente Digital News Report da Reuters, sobre o uso do smartphone pelos brasileiros, que já chega aos 72% “como um dos principais dispositivos de acesso à Internet (em 2013 era apenas 23%)”. 

“Não à toa, os brasileiros são alguns dos utentes mais entusiastas das redes sociais e aplicativos de mensagem do mundo. Ainda segundo o estudo, embora o uso do Facebook para consumo de notícias tenha caído sensivelmente em relação a 2017 (de 57% para 52%), continua sendo o preferido. Cresceram em popularidade o WhatsApp e o Instagram para este mesmo fim, ambos também pertencentes a Mark Zuckerberg.” 

“O grande problema relacionado com isso já é bem conhecido: o Facebook (bem como as demais redes sociais citadas) não foi feito para notícias. Portanto, o feed dos seus utentes não é construído com base em critérios jornalísticos sobre aquilo que é importante, mas sim a partir de algoritmos que privilegiam aquilo que as pessoas já estão acostumadas a ver e curtir, criando bolhas de informação que confirmam pontos de vista.” 

“Como afirma Jaron Lanier em palestra no TED2018, mais do que redes sociais, essas empresas são moduladoras de comportamento.” (...) 

Andressa Kikuti aborda depois o modo como os jornais brasileiros tratam da tecnologia como notícia especializada, lamentando que não tenham em conta uma necessária “abordagem mais política e social”: 

“A representação da tecnologia nos jornais brasileiros acaba sendo um misto entre uma concepção instrumentalista  – que trata a tecnologia como sendo ferramentas, equipamentos criados para uma diversidade de tarefas -, e utilitarista  – que confere a ela uma visão funcionalista, exaltando sua finalidade e dando menos atenção aos processos envolvidos na sua elaboração.” (...) 

Como conclui, essa representação ignora, por vezes, “um papel importante do jornalismo na sociedade, que vai muito além de simplesmente informar: também envolve contextualizar, resgatar, problematizar assuntos de interesse público, principalmente quando as pessoas precisam de orientação sobre determinado tema (como é o caso, sem dúvida, da influência das empresas de tecnologia nas nossas ações quotidianas, nas informações que recebemos e na segurança dos nossos dados)”.   

 

O artigo citado, na íntegra, no Observatório da Imprensa do Brasil  e no ObjEthos

 

Connosco
Eslováquia recorda jornalista morto há um ano Ver galeria
“Esperamos respostas tão breve quanto possível, porque ainda há muitas questões”  - afirmou.
Prémios do World Press Photo 2019 já têm candidatos escolhidos... Ver galeria

Um fotojornalista português, Mário Cruz, da Agência Lusa, figura entre os nomeados para o World Press Photo 2019, o mais prestigiado prémio de fotojornalismo do mundo, cuja identidade e trabalhos a concurso foram agora conhecidos. A Fundação organizadora introduziu também uma nova categoria a ser premiada, a História do Ano, destinada a “fotógrafos cuja criatividade e habilidades visuais produziram uma história com excelente edição e sequenciamento, que captura ou representa um evento ou assunto de grande importância jornalística”.

A imagem de Mário Cruz, intitulada “Viver entre o que foi deixado para trás”, mostra uma criança recolhendo material reciclável, deitada num colchão cercado por lixo, enquanto flutua no rio Pasig, em Manila, nas Filipinas.

Os vencedores do concurso serão conhecidos na cerimónia marcada para 11 de Abril, em Amesterdão, na Holanda.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
Adoro imprensa…
Manuel Falcão
Sou um apaixonado leitor de imprensa, quer de jornais quer de revistas, e gosto de seguir o que se publica. A edição mais recente da revista Time tem por título de capa "The Art Of Optimism" e apresenta 34 pessoas que são relevantes e inspiracionais, na sociedade norte-americana, mostrando o que estão a fazer. A edição é cuidada e permite-nos ter de forma sintética um retrato daquilo que tantas vezes passa despercebido. O...
Os actuais detentores da Global Media, proprietária do Diário de Noticias e do Jornal de Noticias, além da TSF e de outros títulos, parecem estar a especializar-se como uma espécie  de “comissão  liquidatária” da empresa. Depois de alienarem  o edifício-sede histórico do Diário de Noticias , construído de raiz para albergar aquele jornal centenário,  segundo um projecto de Pardal...
Zé Manel, o talento e a sensualidade
António Gomes de Almeida
Geralmente considerado um dos mais talentosos ilustradores portugueses, a sua arte manifestou-se sob várias facetas, desde as Capas e as Ilustrações de Livros à Banda Desenhada, aos Cartazes, ao Cartoon, à Caricatura e, até, ao Vitral. E será, provavelmente, essa dispersão por tantos meios de expressão da sua Arte que fez com que demorasse algum tempo, antes de ser tão conhecido do grande público, e de ter a...
Jornalismo a meia-haste
Graça Franco
Atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto. Temi que algum jornalista se oferecesse para partilhar a cadeia com Armando Vara, só para ver como este se sentia “já lá dentro”. A porta ia-se fechando, em câmara lenta, e o enxame de microfones não largava a presa. O...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
Agenda
26
Fev
Digital Summit Seattle
09:00 @ Seattle, EUA
02
Mar
LinkedIn para Jornalistas
09:00 @ Cenjor, Lisboa
04
Mar
Simpósio de Radiodifusão Digital da ABU
09:00 @ Kuala Lumpur, Malásia