Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Media

Desinformação e queda das fontes de receita ameaçam o jornalismo

Duas ameaças principais pesam sobre um jornalismo independente e livre, que tome a sério a sua responsabilidade de esteio da democracia: uma é a chegada maciça e quase mesmo o domínio, no espaço mediático, do fenómeno da desinformação deliberada; a outra é o desmoronar das fontes tradicionais de receita dos meios de comunicação, que emigraram para as plataformas digitais  - onde se juntam, precisamente, os dois problemas. É esta a reflexão inicial de Victoria Prego, presidente da Asociación de la Prensa de Madrid  - com a qual mantemos um acordo de parceria -  no texto de apresentação da edição número 36 de Cuadernos de Periodistas.

A maioria dos trabalhos aqui publicados trata desta questão e das suas possíveis soluções, apontando, sobretudo, para um esforço de captação de assinantes.

“Andamos há anos à procura da fórmula que garanta a sobrevivência de um jornal, impresso ou digital”  - afirma a autora. “E pelo que vemos das experiências vividas nos meios dos EUA, parece que a mais bem sucedida é a de cobrar ao utente para lhe oferecer conteúdos. A sua tradução mais imediata é a implementação das assinaturas.” (...) 

Tendo citado o exemplo de The New York Times, em que estas já garantem dois terços das suas receitas, Victoria Prego lembra que não é evidente que em todos os lados se possa apostar em exclusivo por esta fórmula, porque os utentes, “lamentavelmente habituados a receber informação completamente gratuita”, podem não estar dispostos a pagar agora. 

“Neste ponto é irrecusável a necessidade de fidelizar o ‘cliente’, oferecendo-lhe produtos  - notícias, análises, artigos de opinião, uma exclusividade -  que o levem a sentir-se parte de uma comunidade de interesses a que valha a pena pertencer.”  

“Na Espanha, onde a maioria dos media se afoga economicamente a pouco e pouco, há alguns exemplos de êxito entre os diários digitais de informação geral, mas o problema está longe de ficar resolvido.” (...) 

Sobre a desinformação intencional, a autora cita o caso recente ocorrido com a Cambridge Analytica, que levou o fundador e director executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, a ser chamado a contas perante uma comissão do Senado dos EUA e, posteriormente, perante o Parlamento Europeu. 

Zuckerberg repetiu até à exaustão as suas desculpas pelo abuso dos dados dos utentes do Facebook e pelo uso fraudulento da informação que circula nas suas redes, “dirigida a grupos previamente seleccionados, que podem tornar-se susceptíveis de ser empurrados em determinada direcção”. 

“Muitos I’m sorry, mas nenhuma explicação sobre como se permite que sucedam estas manipulações, nem ainda que vai o Facebook fazer para impedir que se repitam tais casos.” (...) 

A solução proposta é a de “fomentar entre os cidadãos uma atitude céptica perante o bombardeamento de imagens, notícias e dados que lhe chegam constantemente aos terminais”. E introduzir nos programas educativos “uma formação para a destreza na detecção de falsidades”. (...)

 

O artigo citado, na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
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