Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Media

Desinformação e queda das fontes de receita ameaçam o jornalismo

Duas ameaças principais pesam sobre um jornalismo independente e livre, que tome a sério a sua responsabilidade de esteio da democracia: uma é a chegada maciça e quase mesmo o domínio, no espaço mediático, do fenómeno da desinformação deliberada; a outra é o desmoronar das fontes tradicionais de receita dos meios de comunicação, que emigraram para as plataformas digitais  - onde se juntam, precisamente, os dois problemas. É esta a reflexão inicial de Victoria Prego, presidente da Asociación de la Prensa de Madrid  - com a qual mantemos um acordo de parceria -  no texto de apresentação da edição número 36 de Cuadernos de Periodistas.

A maioria dos trabalhos aqui publicados trata desta questão e das suas possíveis soluções, apontando, sobretudo, para um esforço de captação de assinantes.

“Andamos há anos à procura da fórmula que garanta a sobrevivência de um jornal, impresso ou digital”  - afirma a autora. “E pelo que vemos das experiências vividas nos meios dos EUA, parece que a mais bem sucedida é a de cobrar ao utente para lhe oferecer conteúdos. A sua tradução mais imediata é a implementação das assinaturas.” (...) 

Tendo citado o exemplo de The New York Times, em que estas já garantem dois terços das suas receitas, Victoria Prego lembra que não é evidente que em todos os lados se possa apostar em exclusivo por esta fórmula, porque os utentes, “lamentavelmente habituados a receber informação completamente gratuita”, podem não estar dispostos a pagar agora. 

“Neste ponto é irrecusável a necessidade de fidelizar o ‘cliente’, oferecendo-lhe produtos  - notícias, análises, artigos de opinião, uma exclusividade -  que o levem a sentir-se parte de uma comunidade de interesses a que valha a pena pertencer.”  

“Na Espanha, onde a maioria dos media se afoga economicamente a pouco e pouco, há alguns exemplos de êxito entre os diários digitais de informação geral, mas o problema está longe de ficar resolvido.” (...) 

Sobre a desinformação intencional, a autora cita o caso recente ocorrido com a Cambridge Analytica, que levou o fundador e director executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, a ser chamado a contas perante uma comissão do Senado dos EUA e, posteriormente, perante o Parlamento Europeu. 

Zuckerberg repetiu até à exaustão as suas desculpas pelo abuso dos dados dos utentes do Facebook e pelo uso fraudulento da informação que circula nas suas redes, “dirigida a grupos previamente seleccionados, que podem tornar-se susceptíveis de ser empurrados em determinada direcção”. 

“Muitos I’m sorry, mas nenhuma explicação sobre como se permite que sucedam estas manipulações, nem ainda que vai o Facebook fazer para impedir que se repitam tais casos.” (...) 

A solução proposta é a de “fomentar entre os cidadãos uma atitude céptica perante o bombardeamento de imagens, notícias e dados que lhe chegam constantemente aos terminais”. E introduzir nos programas educativos “uma formação para a destreza na detecção de falsidades”. (...)

 

O artigo citado, na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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21
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09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigeria