Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Media

Desinformação e queda das fontes de receita ameaçam o jornalismo

Duas ameaças principais pesam sobre um jornalismo independente e livre, que tome a sério a sua responsabilidade de esteio da democracia: uma é a chegada maciça e quase mesmo o domínio, no espaço mediático, do fenómeno da desinformação deliberada; a outra é o desmoronar das fontes tradicionais de receita dos meios de comunicação, que emigraram para as plataformas digitais  - onde se juntam, precisamente, os dois problemas. É esta a reflexão inicial de Victoria Prego, presidente da Asociación de la Prensa de Madrid  - com a qual mantemos um acordo de parceria -  no texto de apresentação da edição número 36 de Cuadernos de Periodistas.

A maioria dos trabalhos aqui publicados trata desta questão e das suas possíveis soluções, apontando, sobretudo, para um esforço de captação de assinantes.

“Andamos há anos à procura da fórmula que garanta a sobrevivência de um jornal, impresso ou digital”  - afirma a autora. “E pelo que vemos das experiências vividas nos meios dos EUA, parece que a mais bem sucedida é a de cobrar ao utente para lhe oferecer conteúdos. A sua tradução mais imediata é a implementação das assinaturas.” (...) 

Tendo citado o exemplo de The New York Times, em que estas já garantem dois terços das suas receitas, Victoria Prego lembra que não é evidente que em todos os lados se possa apostar em exclusivo por esta fórmula, porque os utentes, “lamentavelmente habituados a receber informação completamente gratuita”, podem não estar dispostos a pagar agora. 

“Neste ponto é irrecusável a necessidade de fidelizar o ‘cliente’, oferecendo-lhe produtos  - notícias, análises, artigos de opinião, uma exclusividade -  que o levem a sentir-se parte de uma comunidade de interesses a que valha a pena pertencer.”  

“Na Espanha, onde a maioria dos media se afoga economicamente a pouco e pouco, há alguns exemplos de êxito entre os diários digitais de informação geral, mas o problema está longe de ficar resolvido.” (...) 

Sobre a desinformação intencional, a autora cita o caso recente ocorrido com a Cambridge Analytica, que levou o fundador e director executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, a ser chamado a contas perante uma comissão do Senado dos EUA e, posteriormente, perante o Parlamento Europeu. 

Zuckerberg repetiu até à exaustão as suas desculpas pelo abuso dos dados dos utentes do Facebook e pelo uso fraudulento da informação que circula nas suas redes, “dirigida a grupos previamente seleccionados, que podem tornar-se susceptíveis de ser empurrados em determinada direcção”. 

“Muitos I’m sorry, mas nenhuma explicação sobre como se permite que sucedam estas manipulações, nem ainda que vai o Facebook fazer para impedir que se repitam tais casos.” (...) 

A solução proposta é a de “fomentar entre os cidadãos uma atitude céptica perante o bombardeamento de imagens, notícias e dados que lhe chegam constantemente aos terminais”. E introduzir nos programas educativos “uma formação para a destreza na detecção de falsidades”. (...)

 

O artigo citado, na íntegra, em Cuadernos de Periodistas

Connosco
A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital” Ver galeria

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

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