Quinta-feira, 17 de Janeiro, 2019
Media

Como captar audiência e ser fiel ao bom jornalismo

A crise que tem atingido os meios de comunicação, nos últimos anos, com a queda constante das receitas da publicidade e a dependência incerta da adesão dos leitores, tem conduzido editores e jornalistas a apostarem sobretudo nesta segunda direcção. Reatar relações de confiança e construir “audiências leais em torno de um jornalismo de qualidade”, parece ser o único caminho sólido, mesmo que não seja fácil. Os fundamentos da próxima geração de modelos sustentáveis de receita para os media “serão contribuições directas da sua audiência, apoiados por altos níveis de compromisso dos leitores”.

Portanto, uma espécie de “contrato social”, pelo lado do meio de comunicação e dos seus jornalistas, e uma espécie de “conversão pessoal”, pelo lado dos leitores. É esta a linha desenvolvida por um recente estudo do Tow Center for Digital Journalism, da Universidade de Columbia, nos EUA, aqui comentado em artigo publicado na 36ª edição de Cuadernos de Periodistas, da Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria.

Segundo o autor do texto que citamos, a mudança brusca no modelo de negócio tradicional colheu muitos media de surpresa, deixando-os em dificuldades para procederem a esta reorientação de sentido: “conseguir que os leitores, os utentes, paguem pelos produtos e serviços de informação que lhes oferecem, principalmente no meio digital”. 

O documento produzido pelo Tow Center for Digital Journalism é precisamente um guia teórico e prático para aconselhamento dos media neste processo de conseguirem “estabelecer uma relação sólida e estreita com as suas audiências”. 

Publicado em Fevereiro de 2018, e redigido pelas investigadoras Elizabeth Hansen e Emily Goligoski, este Guide to Audience Revenue and Engagement  parte de centenas de conversas e entrevistas com jornalistas, editores e sócios de meios de comunicação muito diferentes, mas todos envolvidos nesta experiência de procurar as novas fontes de receita apostando numa maior participação da audiência. 

Há três modelos possíveis de fazer esta recolha: 

A doação, ou contribuição directa, em que se pede à audiência “que dedique tempo ou dinheiro para apoiar uma causa ou valores comuns representados pelo meio de comunicação” envolvido. 

A assinatura, pela qual “o utente paga para ter acesso ao produto ou serviço informativo oferecido pelo meio”. 

E a ‘membrasia’, pela qual se convida a audiência a “dar o seu tempo, dinheiro, contactos, experiência profissional e distribuição pelas suas redes, ou ideias, para apoiar uma causa em que crêem”. Implica um outro nível de compromisso entre os membros dessa audiência, tornados ‘sócios’ ou ‘membros’, e o meio de comunicação. 

Um dos casos exemplares de ‘membrasia’, de que temos falado neste site, é o do jornal holandês De Correspondent, e do Membership Puzzle Project, criado por Jay Rosen, da Universidade de Nova Iorque, que mantém uma base de dados com exemplos de meios de comunicação de todo o mundo que seguiram este caminho. 

Um ponto muito curioso, entre as nove conclusões do estudo, é o seu ponto 7., que trata de uma pesquisa sobre o utente, para “compreender em profundidade as necessidades, preferências e hábitos diários da audiência”. O seu desenvolvimento passa pelos degraus de expor os conteúdos e atrair os seus desejados utentes, contactar e aprofundar a proximidade com eles, convertê-los em ‘membros’ ou assinantes, e depois manter essa relação por meio de estratégias efectivas de envolvimento [engagement, no original]. 

A última conclusão refere-se à necessária “mudança da cultura da redacção”. Também esta é chamada a uma “conversão”, neste caso impulsionada pela audiência, e especialmente pelos ‘sócios’ [previamente convertidos a esta condição]. No fundo, chegar a um “compromisso bi-direccional entre o meio e a sua audiência”  - que pode gerar algum incómodo entre jornalistas que “esperam uma fronteira clara entre a equipa da redacção e [o público]”. 

Mas, segundo as autoras do estudo, esta “mudança de cultura é possível”.

 

O artigo citado, de Ismael Nafría, jornalista perito em meios digitais, em Cuadernos de Periodistas.
O Guide to Audience Revenue and Engagement

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
Sobre a liberdade de expressão em Portugal
Francisco Sarsfield Cabral
O caso da participação num programa matinal da TVI de um racista, já condenado e tendo cumprido pena de prisão, Mário Machado, suscitou polémica. Ainda bem, porque as questões em causa são importantes. Mas, como é costume, o debate rapidamente derivou para um confronto entre a esquerda indignada por se ter dado tempo de antena a um criminoso fascista e a direita defendendo a liberdade de expressão e a dualidade de...
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