Terça-feira, 23 de Outubro, 2018
Fórum

Ensinar os Media a "tomarem o pulso" aos seus leitores

Quando se trata da relação entre os media e a sua audiência, há uma pergunta que pode passar esquecida: o que é que o leitor, ouvinte ou espectador, precisa realmente de saber? Há programas para treinarem os jornalistas na pesquisa do que os utentes querem saber, mas não tanto sobre o que precisam. Informação sobre o tempo ou o tráfego é sempre útil, e reflexões de fundo sobre temas da comunidade podem ser úteis, mas Sarah Alvarez, uma advogada de formação, interessada por causas de direitos cívicos, e agora a trabalhar numa rádio pública, procurava o terreno intermédio onde os meios de comunicação podem encontrar a sua utilidade e vocação. Foi daqui que chegou ao projecto Pulse  - que procura, literalmente, “tomar o pulso” a uma comunidade e identificar o que lhe falta.

Sarah começou pela diferença entre as necessidades e as lacunas [gaps, no original] de informação. Como explica, “uma necessidade de informação é apenas isso, qualquer coisa que se deseja saber, mas só  se torna uma lacuna se não se consegue encontrar a informação”. 

Sarah Alvarez e Andrew Haeg, o fundador da ferramenta de envolvimento via SMS denominada GroundSource, que se tornou seu colaborador no projecto, adaptaram às redacções dos meios de comunicação um formato de inquérito criado na Google para antecipar as necessidades dos utentes. O método foi testado em vários media, baseando-se na formação de grupos representativos das suas comunidades, e compostos por pessoas disponíveis para participarem, às quais eram enviadas três vezes por dia perguntas como: 

O que precisa de saber, ou compreender melhor, neste preciso momento? Tem conseguido encontrar esta informação? (respostas possíveis  - Sim / Não / Não estou satisfeito com o que encontrei). Esta informação podia, ou conseguiu, ajudá-lo a  - Tomar uma decisão? / Responder a uma pergunta? / Esclarecer alguma coisa? / Mais do que uma destas respostas? 

Numa escala de 1 a 3, qual era a sua necessidade desta informação? (1 – Precisava muito, 2 – Teria ajudado, 3 – Só tinha curiosidade). 

No final de cada dia, havia mais as seguintes perguntas: 

Conseguiu a informação que procurava a partir de meios noticiosos que utiliza? (respostas possíveis  - Não consegui procurar ou perguntar / Procurei ou perguntei, mas não tive resposta / Sim). 

Se tivesse um jornalista pessoal, a trabalhar para si, o que lhe interessava que ele pesquisasse? 

Sarah experimentou o projecto no website Chalkbeat Detroit, sobre temas de educação, e ela e Andrew levaram-no também à rádio pública californiana KQED, para pesquisar as necessidades de informação dos residentes em San Jose. 

A experiência revelou-se surpreendente, tanto pela disponibilidade das pessoas em participarem como pelo tipo de informação que assinalaram como desejando receber mais  - por exemplo, sobre a situação dos sem-abrigo nas suas comunidades. 

Tonya Mosley, que dirige a delegação da KQED no Silicon Valley, disse que, “como editora reflectindo sobre isto, por vezes há coisas que pomos de lado para nos focarmos sobre uma história que tenha apelo junto da nossa audiência mais ampla, e não tão centrada sobre a comunidade local”: 

“Mas as pessoas estão interessadas nestas histórias centradas na comunidade, porque são aplicáveis à sociedade no seu todo. Isto abriu-me os olhos.” (...) 

Tanto Sarah como Andrew estão a tentar levar os meios noticiosos a pensarem de modo um pouco diferente sobre a informação  - não necessariamente o conteúdo -  que fornecem. 

“Temos esta questão incómoda de saber por que motivo isto não tem mais prioridade nas redacções, e é o modo como temos tradicionalmente feito as coisas”  - disse Andrew Haeg. “Realmente nunca considerámos prioritário sair mesmo e ir ver quais são as necessidades de informação das pessoas.”

 

O artigo citado, na íntegra, no NiemanLab, cuja imagem também incluimos

Connosco
Jornalista e historiador de Macau vencem Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.
O semanário Plataforma Macau é publicado em Macau, em português e chinês. 

Na categoria Ensaio, o Júri deliberou, também por unanimidade, atribuir o Prémio ao trabalho de António Aresta, considerando tratar-se de “uma narrativa consequente sobre a visita histórica do grande poeta a Macau, com passagem por Cantão e Hong Kong”.

Universidades apoiam e investem no jornalismo de investigação Ver galeria

A sociedade necessita de um jornalismo de investigação que fica caro, e esta necessidade “chega num momento de grande tensão financeira para uma indústria maciçamente perturbada pelas novas tecnologias e alterações económicas”.

“Acreditamos que este tipo de jornalismo, em defesa do povo americano, é mais importante do que nunca na presente cacofonia de informação confusa, contraditória e enganadora, já para não falar de cepticismo  - ou por vezes rejeição absoluta -  dos factos.”

Esta reflexão é assinada por Christopher Callahan e Leonard Downie Jr., docentes na Universidade Estatal do Arizona, sobre a criação de dois centros de ensino de jornalismo de investigação, um na Universidade referida, outro na de Maryland. Tendo em conta a “proliferação de centros de reportagem de investigação independentes, sem objectivo de lucro, em grande parte financiados por [mecenato] filantrópico”, as universidades “estão prontas a assumir funções de liderança neste novo ecossistema de jornalismo de investigação”  - afirmam no seu texto.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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Opinião
Como está o papel?
Manuel Falcão
Durante muitos anos a imprensa – jornais e revistas – captava a segunda maior fatia do investimento publicitário, logo a seguir à televisão, que sensivelmente fica com metade do total do bolo publicitário. Mas desde o princípio desta década a queda do investimento em imprensa foi sempre aumentando e, agora, desceu para a quinta posição, atrás, por esta ordem, da TV, digital, outdoor e rádio. Ao ritmo a que...

Na edição de 15 de Setembro o Expresso inseria como manchete, ao alto da primeira página, o seguinte titulo: “Acordo à vista para manter a PGR”. Como se viu, o semanário, habitualmente tido por bem informado, falhou redondamente.

Seria de esperar, em tal contexto, que se retratasse na edição seguiste. E fê-lo, ao publicar uma nota editorial a que chamou “O Expresso errou”.

Trump contra o jornalismo
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Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
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