Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
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Ensinar os Media a "tomarem o pulso" aos seus leitores

Quando se trata da relação entre os media e a sua audiência, há uma pergunta que pode passar esquecida: o que é que o leitor, ouvinte ou espectador, precisa realmente de saber? Há programas para treinarem os jornalistas na pesquisa do que os utentes querem saber, mas não tanto sobre o que precisam. Informação sobre o tempo ou o tráfego é sempre útil, e reflexões de fundo sobre temas da comunidade podem ser úteis, mas Sarah Alvarez, uma advogada de formação, interessada por causas de direitos cívicos, e agora a trabalhar numa rádio pública, procurava o terreno intermédio onde os meios de comunicação podem encontrar a sua utilidade e vocação. Foi daqui que chegou ao projecto Pulse  - que procura, literalmente, “tomar o pulso” a uma comunidade e identificar o que lhe falta.

Sarah começou pela diferença entre as necessidades e as lacunas [gaps, no original] de informação. Como explica, “uma necessidade de informação é apenas isso, qualquer coisa que se deseja saber, mas só  se torna uma lacuna se não se consegue encontrar a informação”. 

Sarah Alvarez e Andrew Haeg, o fundador da ferramenta de envolvimento via SMS denominada GroundSource, que se tornou seu colaborador no projecto, adaptaram às redacções dos meios de comunicação um formato de inquérito criado na Google para antecipar as necessidades dos utentes. O método foi testado em vários media, baseando-se na formação de grupos representativos das suas comunidades, e compostos por pessoas disponíveis para participarem, às quais eram enviadas três vezes por dia perguntas como: 

O que precisa de saber, ou compreender melhor, neste preciso momento? Tem conseguido encontrar esta informação? (respostas possíveis  - Sim / Não / Não estou satisfeito com o que encontrei). Esta informação podia, ou conseguiu, ajudá-lo a  - Tomar uma decisão? / Responder a uma pergunta? / Esclarecer alguma coisa? / Mais do que uma destas respostas? 

Numa escala de 1 a 3, qual era a sua necessidade desta informação? (1 – Precisava muito, 2 – Teria ajudado, 3 – Só tinha curiosidade). 

No final de cada dia, havia mais as seguintes perguntas: 

Conseguiu a informação que procurava a partir de meios noticiosos que utiliza? (respostas possíveis  - Não consegui procurar ou perguntar / Procurei ou perguntei, mas não tive resposta / Sim). 

Se tivesse um jornalista pessoal, a trabalhar para si, o que lhe interessava que ele pesquisasse? 

Sarah experimentou o projecto no website Chalkbeat Detroit, sobre temas de educação, e ela e Andrew levaram-no também à rádio pública californiana KQED, para pesquisar as necessidades de informação dos residentes em San Jose. 

A experiência revelou-se surpreendente, tanto pela disponibilidade das pessoas em participarem como pelo tipo de informação que assinalaram como desejando receber mais  - por exemplo, sobre a situação dos sem-abrigo nas suas comunidades. 

Tonya Mosley, que dirige a delegação da KQED no Silicon Valley, disse que, “como editora reflectindo sobre isto, por vezes há coisas que pomos de lado para nos focarmos sobre uma história que tenha apelo junto da nossa audiência mais ampla, e não tão centrada sobre a comunidade local”: 

“Mas as pessoas estão interessadas nestas histórias centradas na comunidade, porque são aplicáveis à sociedade no seu todo. Isto abriu-me os olhos.” (...) 

Tanto Sarah como Andrew estão a tentar levar os meios noticiosos a pensarem de modo um pouco diferente sobre a informação  - não necessariamente o conteúdo -  que fornecem. 

“Temos esta questão incómoda de saber por que motivo isto não tem mais prioridade nas redacções, e é o modo como temos tradicionalmente feito as coisas”  - disse Andrew Haeg. “Realmente nunca considerámos prioritário sair mesmo e ir ver quais são as necessidades de informação das pessoas.”

 

O artigo citado, na íntegra, no NiemanLab, cuja imagem também incluimos

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
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