Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
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Ensinar os Media a "tomarem o pulso" aos seus leitores

Quando se trata da relação entre os media e a sua audiência, há uma pergunta que pode passar esquecida: o que é que o leitor, ouvinte ou espectador, precisa realmente de saber? Há programas para treinarem os jornalistas na pesquisa do que os utentes querem saber, mas não tanto sobre o que precisam. Informação sobre o tempo ou o tráfego é sempre útil, e reflexões de fundo sobre temas da comunidade podem ser úteis, mas Sarah Alvarez, uma advogada de formação, interessada por causas de direitos cívicos, e agora a trabalhar numa rádio pública, procurava o terreno intermédio onde os meios de comunicação podem encontrar a sua utilidade e vocação. Foi daqui que chegou ao projecto Pulse  - que procura, literalmente, “tomar o pulso” a uma comunidade e identificar o que lhe falta.

Sarah começou pela diferença entre as necessidades e as lacunas [gaps, no original] de informação. Como explica, “uma necessidade de informação é apenas isso, qualquer coisa que se deseja saber, mas só  se torna uma lacuna se não se consegue encontrar a informação”. 

Sarah Alvarez e Andrew Haeg, o fundador da ferramenta de envolvimento via SMS denominada GroundSource, que se tornou seu colaborador no projecto, adaptaram às redacções dos meios de comunicação um formato de inquérito criado na Google para antecipar as necessidades dos utentes. O método foi testado em vários media, baseando-se na formação de grupos representativos das suas comunidades, e compostos por pessoas disponíveis para participarem, às quais eram enviadas três vezes por dia perguntas como: 

O que precisa de saber, ou compreender melhor, neste preciso momento? Tem conseguido encontrar esta informação? (respostas possíveis  - Sim / Não / Não estou satisfeito com o que encontrei). Esta informação podia, ou conseguiu, ajudá-lo a  - Tomar uma decisão? / Responder a uma pergunta? / Esclarecer alguma coisa? / Mais do que uma destas respostas? 

Numa escala de 1 a 3, qual era a sua necessidade desta informação? (1 – Precisava muito, 2 – Teria ajudado, 3 – Só tinha curiosidade). 

No final de cada dia, havia mais as seguintes perguntas: 

Conseguiu a informação que procurava a partir de meios noticiosos que utiliza? (respostas possíveis  - Não consegui procurar ou perguntar / Procurei ou perguntei, mas não tive resposta / Sim). 

Se tivesse um jornalista pessoal, a trabalhar para si, o que lhe interessava que ele pesquisasse? 

Sarah experimentou o projecto no website Chalkbeat Detroit, sobre temas de educação, e ela e Andrew levaram-no também à rádio pública californiana KQED, para pesquisar as necessidades de informação dos residentes em San Jose. 

A experiência revelou-se surpreendente, tanto pela disponibilidade das pessoas em participarem como pelo tipo de informação que assinalaram como desejando receber mais  - por exemplo, sobre a situação dos sem-abrigo nas suas comunidades. 

Tonya Mosley, que dirige a delegação da KQED no Silicon Valley, disse que, “como editora reflectindo sobre isto, por vezes há coisas que pomos de lado para nos focarmos sobre uma história que tenha apelo junto da nossa audiência mais ampla, e não tão centrada sobre a comunidade local”: 

“Mas as pessoas estão interessadas nestas histórias centradas na comunidade, porque são aplicáveis à sociedade no seu todo. Isto abriu-me os olhos.” (...) 

Tanto Sarah como Andrew estão a tentar levar os meios noticiosos a pensarem de modo um pouco diferente sobre a informação  - não necessariamente o conteúdo -  que fornecem. 

“Temos esta questão incómoda de saber por que motivo isto não tem mais prioridade nas redacções, e é o modo como temos tradicionalmente feito as coisas”  - disse Andrew Haeg. “Realmente nunca considerámos prioritário sair mesmo e ir ver quais são as necessidades de informação das pessoas.”

 

O artigo citado, na íntegra, no NiemanLab, cuja imagem também incluimos

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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21
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09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigeria