Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
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Estudo dinamarquês analisa a "crise estrutural" do jornalismo

Para se tornar relevante e bem sucedido junto do seu público, o jornalismo vai ter de enfrentar alguns “dogmas profissionais profundamente enraizados”, começando pelo de manter a distância, o da neutralidade e objectividade, a crença de que “os jornalistas têm uma competência especial para achar e escolher o que é importante para os cidadãos”  - e ainda a ideia básica de que jornalismo é “transportar notícias e informação do ponto A para o ponto B”. Chocante como possa parecer, este é o resultado de um inquérito internacional realizado por dois profissionais dinamarqueses junto de 54 meios de comunicação de nove países, sobre a “crise estrutural” do jornalismo, que  - segundo defendem -  não decorre apenas das mudanças tecnológicas ou de modelos de negócio ultrapassados.

“As actuais questões de fundo para os meios noticiosos  - velhos ou novos, pequenos ou grandes, privados ou públicos -  têm de ser sociais e culturais: Como pode o jornalismo recuperar a sua relevância, significado e proeminência credível na sociedade? Como pode o jornalismo reatar com os cidadãos?” 

De uma lista inicial de 120 meios de comunicação, os dois autores, Per Westergaard e Soren Jorgensen, acabaram por se focar em 54, incluindo uns novos e outros tradicionais, os que já nasceram no digital, estações de rádio e televisão e jornais impressos. Foram escolhidos porque estão a testar novas ideias, em áreas como as do envolvimento jornalístico, a cooperação, a escuta e o activismo. 

Mas, ao mesmo tempo, são exemplos que “demonstram que novos modos de se relacionarem com os cidadãos e de os envolverem [no processo] dão melhores resultados em termos de satifação dos utentes, de circulação, de audiência e de receitas”. 

Chegaram a nove conclusões principais, que aqui se resumem:

  1. – Da neutralidade à identidade.  Muitos media procuram hoje definir claramente o seu perfil e identidade. Esta necessidade é maior “quando os conteúdos noticiosos online são espelhados em pequenos pedaços indistintos pela Internet”. E para levar as pessoas a relacionarem-se consigo, “tem de lhes mostrar por que razões se bate”.
  2. – Do “cabe-tudo” ao nicho de audiência.  Tirando alguns poucos media de alcance global (The Guardian, a BBC, a CNN), todos os meios podem hoje ser considerados de nicho. Muitos hesitam em aceitar isto, porque o valor democrático da noção de nicho é controverso. Mas é possível tornar compatíveis “um jornalismo de qualidade, de elevado valor público, cuidando ao mesmo tempo de audiências específicas”.
  3. -  Do rebanho ao clube.  Trata-se aqui daquele movimento, hoje a afirmar-se dos dois lados do Atlântico, que procura “transformar os que eram conhecidos como assinantes, ou leitores, em ‘membros’, que têm de se registar ou pagar para aderir aos círculos interiores da multidão em torno dos media”.
  4. -  Da tinta ao suor.  Muitos media procuram hoje novos modos de criar um jornalismo físico, na forma de eventos públicos, festivais, espectáculos. “O diário francês Le Monde tem feito de encontros ao vivo uma via importante para se relacionar com os cidadãos e gerar novas fontes de receita.”
  5. -  Do falar ao escutar.  O jornalismo tradicional parece-se mais, frequentemente, “com uma fortaleza do que com uma casa aberta e acessível”. Muitos media estão hoje a abrir-se, fisica e mentalmente. “Isto significa escutarem os cidadãos e criarem mais transparência em matérias editoriais.”
  6. – Da distância à cooperação.  O jornalismo moderno mantinha as suas distâncias à porta da redacção, em relação ao público, a grupos de interesses, instituições públicas ou privadas, decisores. Hoje há mais redacções a envolverem os cidadãos no processo jornalístico. São citados os exemplos de De Correspondent, na Holanda, de Correctiv, na Alemanha, e da ProPublica, em Nova Iorque.
  7. -  Da sua própria a outras plataformas.  Trata-se aqui do recurso às redes sociais, que é uma “espada de dois gumes”, mas que, se for bem usada, talvez mais num modo de cooperação do que de distribuição, “pode reforçar e aprofundar o envolvimento, criando ao mesmo tempo um jornalismo mais forte”.
  8. -  Do problema à solução.  “Mesmo jornalistas de investigação mais endurecidos já descobriram que adquirem mais impacto se acrescentarem ao seu trabalho um nível de busca de soluções.” Este “jornalismo construtivo” cria mais envolvimento, que lê mais e se dispõe também mais a partilhar.
  9. -  De observadores a activistas.  Alguns media, antigos ou novos, estão a experimentar se conseguem criar mais relevância junto da sua audiência envolvendo-se em deterninadas campanhas. Isto é controverso para muitos jornalistas, e claro que não é uma estratégia que sirva para tudo. O livro descreve alguns casos interessantes.

 

Os autores sublinham, a concluir o artigo que aqui citamos, que não pretendem promover um modelo exclusivo de jornalismo para o futuro, mas que pode haver muitos que transportem consigo esta esperança.


O artigo aqui citado, na íntegra, no NiemanLab

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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