Terça-feira, 23 de Outubro, 2018
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Estudo dinamarquês analisa a "crise estrutural" do jornalismo

Para se tornar relevante e bem sucedido junto do seu público, o jornalismo vai ter de enfrentar alguns “dogmas profissionais profundamente enraizados”, começando pelo de manter a distância, o da neutralidade e objectividade, a crença de que “os jornalistas têm uma competência especial para achar e escolher o que é importante para os cidadãos”  - e ainda a ideia básica de que jornalismo é “transportar notícias e informação do ponto A para o ponto B”. Chocante como possa parecer, este é o resultado de um inquérito internacional realizado por dois profissionais dinamarqueses junto de 54 meios de comunicação de nove países, sobre a “crise estrutural” do jornalismo, que  - segundo defendem -  não decorre apenas das mudanças tecnológicas ou de modelos de negócio ultrapassados.

“As actuais questões de fundo para os meios noticiosos  - velhos ou novos, pequenos ou grandes, privados ou públicos -  têm de ser sociais e culturais: Como pode o jornalismo recuperar a sua relevância, significado e proeminência credível na sociedade? Como pode o jornalismo reatar com os cidadãos?” 

De uma lista inicial de 120 meios de comunicação, os dois autores, Per Westergaard e Soren Jorgensen, acabaram por se focar em 54, incluindo uns novos e outros tradicionais, os que já nasceram no digital, estações de rádio e televisão e jornais impressos. Foram escolhidos porque estão a testar novas ideias, em áreas como as do envolvimento jornalístico, a cooperação, a escuta e o activismo. 

Mas, ao mesmo tempo, são exemplos que “demonstram que novos modos de se relacionarem com os cidadãos e de os envolverem [no processo] dão melhores resultados em termos de satifação dos utentes, de circulação, de audiência e de receitas”. 

Chegaram a nove conclusões principais, que aqui se resumem:

  1. – Da neutralidade à identidade.  Muitos media procuram hoje definir claramente o seu perfil e identidade. Esta necessidade é maior “quando os conteúdos noticiosos online são espelhados em pequenos pedaços indistintos pela Internet”. E para levar as pessoas a relacionarem-se consigo, “tem de lhes mostrar por que razões se bate”.
  2. – Do “cabe-tudo” ao nicho de audiência.  Tirando alguns poucos media de alcance global (The Guardian, a BBC, a CNN), todos os meios podem hoje ser considerados de nicho. Muitos hesitam em aceitar isto, porque o valor democrático da noção de nicho é controverso. Mas é possível tornar compatíveis “um jornalismo de qualidade, de elevado valor público, cuidando ao mesmo tempo de audiências específicas”.
  3. -  Do rebanho ao clube.  Trata-se aqui daquele movimento, hoje a afirmar-se dos dois lados do Atlântico, que procura “transformar os que eram conhecidos como assinantes, ou leitores, em ‘membros’, que têm de se registar ou pagar para aderir aos círculos interiores da multidão em torno dos media”.
  4. -  Da tinta ao suor.  Muitos media procuram hoje novos modos de criar um jornalismo físico, na forma de eventos públicos, festivais, espectáculos. “O diário francês Le Monde tem feito de encontros ao vivo uma via importante para se relacionar com os cidadãos e gerar novas fontes de receita.”
  5. -  Do falar ao escutar.  O jornalismo tradicional parece-se mais, frequentemente, “com uma fortaleza do que com uma casa aberta e acessível”. Muitos media estão hoje a abrir-se, fisica e mentalmente. “Isto significa escutarem os cidadãos e criarem mais transparência em matérias editoriais.”
  6. – Da distância à cooperação.  O jornalismo moderno mantinha as suas distâncias à porta da redacção, em relação ao público, a grupos de interesses, instituições públicas ou privadas, decisores. Hoje há mais redacções a envolverem os cidadãos no processo jornalístico. São citados os exemplos de De Correspondent, na Holanda, de Correctiv, na Alemanha, e da ProPublica, em Nova Iorque.
  7. -  Da sua própria a outras plataformas.  Trata-se aqui do recurso às redes sociais, que é uma “espada de dois gumes”, mas que, se for bem usada, talvez mais num modo de cooperação do que de distribuição, “pode reforçar e aprofundar o envolvimento, criando ao mesmo tempo um jornalismo mais forte”.
  8. -  Do problema à solução.  “Mesmo jornalistas de investigação mais endurecidos já descobriram que adquirem mais impacto se acrescentarem ao seu trabalho um nível de busca de soluções.” Este “jornalismo construtivo” cria mais envolvimento, que lê mais e se dispõe também mais a partilhar.
  9. -  De observadores a activistas.  Alguns media, antigos ou novos, estão a experimentar se conseguem criar mais relevância junto da sua audiência envolvendo-se em deterninadas campanhas. Isto é controverso para muitos jornalistas, e claro que não é uma estratégia que sirva para tudo. O livro descreve alguns casos interessantes.

 

Os autores sublinham, a concluir o artigo que aqui citamos, que não pretendem promover um modelo exclusivo de jornalismo para o futuro, mas que pode haver muitos que transportem consigo esta esperança.


O artigo aqui citado, na íntegra, no NiemanLab

Connosco
Jornalista e historiador de Macau vencem Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia Ver galeria

O Júri dos Prémios de Jornalismo e Ensaio da Lusofonia, instituídos pelo Jornal Tribuna de Macau, em parceria com o Clube Português de Imprensa, escolheu, por unanimidade, na primeira categoria, o trabalho "Ler sem limites", da jornalista Catarina Brites Soares, publicado no semanário Plataforma, em Macau.

Na categoria Ensaio, atribuída este ano pela primeira vez, foi distinguido o original do historiador António Aresta, de Macau, intitulado "Miguel Torga: um poeta português em Macau".
A Acta do Júri destaca, no primeiro caso, que Catarina Brito Soares  consegue desenhar com o seu texto “uma panorâmica das leituras mais frequentes em Macau, com um levantamento de livros e autores que circulam livremente no território, incluindo alguns que, por diferentes razões, têm limites de acesso fora da RAEM”.
O semanário Plataforma Macau é publicado em Macau, em português e chinês. 

Na categoria Ensaio, o Júri deliberou, também por unanimidade, atribuir o Prémio ao trabalho de António Aresta, considerando tratar-se de “uma narrativa consequente sobre a visita histórica do grande poeta a Macau, com passagem por Cantão e Hong Kong”.

Universidades apoiam e investem no jornalismo de investigação Ver galeria

A sociedade necessita de um jornalismo de investigação que fica caro, e esta necessidade “chega num momento de grande tensão financeira para uma indústria maciçamente perturbada pelas novas tecnologias e alterações económicas”.

“Acreditamos que este tipo de jornalismo, em defesa do povo americano, é mais importante do que nunca na presente cacofonia de informação confusa, contraditória e enganadora, já para não falar de cepticismo  - ou por vezes rejeição absoluta -  dos factos.”

Esta reflexão é assinada por Christopher Callahan e Leonard Downie Jr., docentes na Universidade Estatal do Arizona, sobre a criação de dois centros de ensino de jornalismo de investigação, um na Universidade referida, outro na de Maryland. Tendo em conta a “proliferação de centros de reportagem de investigação independentes, sem objectivo de lucro, em grande parte financiados por [mecenato] filantrópico”, as universidades “estão prontas a assumir funções de liderança neste novo ecossistema de jornalismo de investigação”  - afirmam no seu texto.

O Clube

Bettany Hughes, inglesa, historiadora, autora e também editora e apresentadora de programas de televisão e de rádio, é a vencedora do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018.

O Prémio pretende homenagear a personalidade excecional de Hughes, demonstrada repetidamente na sua maneira de comunicar o passado de forma popular e entusiasmante.

A cerimónia de atribuição do prémio terá lugar no dia 15 de novembro 2018 na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.


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