Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Fórum

Estudo dinamarquês analisa a "crise estrutural" do jornalismo

Para se tornar relevante e bem sucedido junto do seu público, o jornalismo vai ter de enfrentar alguns “dogmas profissionais profundamente enraizados”, começando pelo de manter a distância, o da neutralidade e objectividade, a crença de que “os jornalistas têm uma competência especial para achar e escolher o que é importante para os cidadãos”  - e ainda a ideia básica de que jornalismo é “transportar notícias e informação do ponto A para o ponto B”. Chocante como possa parecer, este é o resultado de um inquérito internacional realizado por dois profissionais dinamarqueses junto de 54 meios de comunicação de nove países, sobre a “crise estrutural” do jornalismo, que  - segundo defendem -  não decorre apenas das mudanças tecnológicas ou de modelos de negócio ultrapassados.

“As actuais questões de fundo para os meios noticiosos  - velhos ou novos, pequenos ou grandes, privados ou públicos -  têm de ser sociais e culturais: Como pode o jornalismo recuperar a sua relevância, significado e proeminência credível na sociedade? Como pode o jornalismo reatar com os cidadãos?” 

De uma lista inicial de 120 meios de comunicação, os dois autores, Per Westergaard e Soren Jorgensen, acabaram por se focar em 54, incluindo uns novos e outros tradicionais, os que já nasceram no digital, estações de rádio e televisão e jornais impressos. Foram escolhidos porque estão a testar novas ideias, em áreas como as do envolvimento jornalístico, a cooperação, a escuta e o activismo. 

Mas, ao mesmo tempo, são exemplos que “demonstram que novos modos de se relacionarem com os cidadãos e de os envolverem [no processo] dão melhores resultados em termos de satifação dos utentes, de circulação, de audiência e de receitas”. 

Chegaram a nove conclusões principais, que aqui se resumem:

  1. – Da neutralidade à identidade.  Muitos media procuram hoje definir claramente o seu perfil e identidade. Esta necessidade é maior “quando os conteúdos noticiosos online são espelhados em pequenos pedaços indistintos pela Internet”. E para levar as pessoas a relacionarem-se consigo, “tem de lhes mostrar por que razões se bate”.
  2. – Do “cabe-tudo” ao nicho de audiência.  Tirando alguns poucos media de alcance global (The Guardian, a BBC, a CNN), todos os meios podem hoje ser considerados de nicho. Muitos hesitam em aceitar isto, porque o valor democrático da noção de nicho é controverso. Mas é possível tornar compatíveis “um jornalismo de qualidade, de elevado valor público, cuidando ao mesmo tempo de audiências específicas”.
  3. -  Do rebanho ao clube.  Trata-se aqui daquele movimento, hoje a afirmar-se dos dois lados do Atlântico, que procura “transformar os que eram conhecidos como assinantes, ou leitores, em ‘membros’, que têm de se registar ou pagar para aderir aos círculos interiores da multidão em torno dos media”.
  4. -  Da tinta ao suor.  Muitos media procuram hoje novos modos de criar um jornalismo físico, na forma de eventos públicos, festivais, espectáculos. “O diário francês Le Monde tem feito de encontros ao vivo uma via importante para se relacionar com os cidadãos e gerar novas fontes de receita.”
  5. -  Do falar ao escutar.  O jornalismo tradicional parece-se mais, frequentemente, “com uma fortaleza do que com uma casa aberta e acessível”. Muitos media estão hoje a abrir-se, fisica e mentalmente. “Isto significa escutarem os cidadãos e criarem mais transparência em matérias editoriais.”
  6. – Da distância à cooperação.  O jornalismo moderno mantinha as suas distâncias à porta da redacção, em relação ao público, a grupos de interesses, instituições públicas ou privadas, decisores. Hoje há mais redacções a envolverem os cidadãos no processo jornalístico. São citados os exemplos de De Correspondent, na Holanda, de Correctiv, na Alemanha, e da ProPublica, em Nova Iorque.
  7. -  Da sua própria a outras plataformas.  Trata-se aqui do recurso às redes sociais, que é uma “espada de dois gumes”, mas que, se for bem usada, talvez mais num modo de cooperação do que de distribuição, “pode reforçar e aprofundar o envolvimento, criando ao mesmo tempo um jornalismo mais forte”.
  8. -  Do problema à solução.  “Mesmo jornalistas de investigação mais endurecidos já descobriram que adquirem mais impacto se acrescentarem ao seu trabalho um nível de busca de soluções.” Este “jornalismo construtivo” cria mais envolvimento, que lê mais e se dispõe também mais a partilhar.
  9. -  De observadores a activistas.  Alguns media, antigos ou novos, estão a experimentar se conseguem criar mais relevância junto da sua audiência envolvendo-se em deterninadas campanhas. Isto é controverso para muitos jornalistas, e claro que não é uma estratégia que sirva para tudo. O livro descreve alguns casos interessantes.

 

Os autores sublinham, a concluir o artigo que aqui citamos, que não pretendem promover um modelo exclusivo de jornalismo para o futuro, mas que pode haver muitos que transportem consigo esta esperança.


O artigo aqui citado, na íntegra, no NiemanLab

Connosco
A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital” Ver galeria

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

O Clube
O CPI – Clube Português de Imprensa voltou a participar no Prémio  Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural 2018,  instituído em 2013 pelo Centro Nacional de Cultura,  em cooperação com a Europa Nostra, a principal organização europeia de defesa do património,  que o CNC representa em Portugal.   O Prémio foi atribuído, este ano,  à...

ver mais >
Opinião
Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
É inegável a importância da tomada de posição conjunta de 350 jornais americanos que, respondendo a um apelo do The Boston Globe, assinaram  editoriais simultâneos, rejeitando a política de hostilidade desencadeada pelo presidente Trump contra os media. A data de 16 de Agosto ficará para a História da Imprensa  americana ao assumir esta iniciativa solidária e absolutamente inédita, que mobilizou grandes...
O optimismo de Centeno
Luís Queirós
"A economia da zona Euro cresce há 20 trimestres consecutivos", disse Mário Centeno no Grémio Literário, na palestra, proferida no passado dia 22 de Maio passado, integrada no ciclo que ali decorre subordinado ao tema  "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. O Ministro das Finanças de Portugal e presidente do...
Em meados do séc. XVIII, os parisienses que quisessem manter-se “au courant” àcerca do andamento da Guerra dos Sete Anos (iniciada em 1756) não tinham muitas escolhas. Se fizessem parte, dentre os 600 mil habitantes da capital francesa, da minoria que sabia ler – menos de metade dos homens e uma quarta parte das mulheres – e também estivessem entre os poucos privilegiados que podiam dar-se ao luxo de comprar um jornal, tinham três...