Sexta-feira, 22 de Fevereiro, 2019
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Estudo dinamarquês analisa a "crise estrutural" do jornalismo

Para se tornar relevante e bem sucedido junto do seu público, o jornalismo vai ter de enfrentar alguns “dogmas profissionais profundamente enraizados”, começando pelo de manter a distância, o da neutralidade e objectividade, a crença de que “os jornalistas têm uma competência especial para achar e escolher o que é importante para os cidadãos”  - e ainda a ideia básica de que jornalismo é “transportar notícias e informação do ponto A para o ponto B”. Chocante como possa parecer, este é o resultado de um inquérito internacional realizado por dois profissionais dinamarqueses junto de 54 meios de comunicação de nove países, sobre a “crise estrutural” do jornalismo, que  - segundo defendem -  não decorre apenas das mudanças tecnológicas ou de modelos de negócio ultrapassados.

“As actuais questões de fundo para os meios noticiosos  - velhos ou novos, pequenos ou grandes, privados ou públicos -  têm de ser sociais e culturais: Como pode o jornalismo recuperar a sua relevância, significado e proeminência credível na sociedade? Como pode o jornalismo reatar com os cidadãos?” 

De uma lista inicial de 120 meios de comunicação, os dois autores, Per Westergaard e Soren Jorgensen, acabaram por se focar em 54, incluindo uns novos e outros tradicionais, os que já nasceram no digital, estações de rádio e televisão e jornais impressos. Foram escolhidos porque estão a testar novas ideias, em áreas como as do envolvimento jornalístico, a cooperação, a escuta e o activismo. 

Mas, ao mesmo tempo, são exemplos que “demonstram que novos modos de se relacionarem com os cidadãos e de os envolverem [no processo] dão melhores resultados em termos de satifação dos utentes, de circulação, de audiência e de receitas”. 

Chegaram a nove conclusões principais, que aqui se resumem:

  1. – Da neutralidade à identidade.  Muitos media procuram hoje definir claramente o seu perfil e identidade. Esta necessidade é maior “quando os conteúdos noticiosos online são espelhados em pequenos pedaços indistintos pela Internet”. E para levar as pessoas a relacionarem-se consigo, “tem de lhes mostrar por que razões se bate”.
  2. – Do “cabe-tudo” ao nicho de audiência.  Tirando alguns poucos media de alcance global (The Guardian, a BBC, a CNN), todos os meios podem hoje ser considerados de nicho. Muitos hesitam em aceitar isto, porque o valor democrático da noção de nicho é controverso. Mas é possível tornar compatíveis “um jornalismo de qualidade, de elevado valor público, cuidando ao mesmo tempo de audiências específicas”.
  3. -  Do rebanho ao clube.  Trata-se aqui daquele movimento, hoje a afirmar-se dos dois lados do Atlântico, que procura “transformar os que eram conhecidos como assinantes, ou leitores, em ‘membros’, que têm de se registar ou pagar para aderir aos círculos interiores da multidão em torno dos media”.
  4. -  Da tinta ao suor.  Muitos media procuram hoje novos modos de criar um jornalismo físico, na forma de eventos públicos, festivais, espectáculos. “O diário francês Le Monde tem feito de encontros ao vivo uma via importante para se relacionar com os cidadãos e gerar novas fontes de receita.”
  5. -  Do falar ao escutar.  O jornalismo tradicional parece-se mais, frequentemente, “com uma fortaleza do que com uma casa aberta e acessível”. Muitos media estão hoje a abrir-se, fisica e mentalmente. “Isto significa escutarem os cidadãos e criarem mais transparência em matérias editoriais.”
  6. – Da distância à cooperação.  O jornalismo moderno mantinha as suas distâncias à porta da redacção, em relação ao público, a grupos de interesses, instituições públicas ou privadas, decisores. Hoje há mais redacções a envolverem os cidadãos no processo jornalístico. São citados os exemplos de De Correspondent, na Holanda, de Correctiv, na Alemanha, e da ProPublica, em Nova Iorque.
  7. -  Da sua própria a outras plataformas.  Trata-se aqui do recurso às redes sociais, que é uma “espada de dois gumes”, mas que, se for bem usada, talvez mais num modo de cooperação do que de distribuição, “pode reforçar e aprofundar o envolvimento, criando ao mesmo tempo um jornalismo mais forte”.
  8. -  Do problema à solução.  “Mesmo jornalistas de investigação mais endurecidos já descobriram que adquirem mais impacto se acrescentarem ao seu trabalho um nível de busca de soluções.” Este “jornalismo construtivo” cria mais envolvimento, que lê mais e se dispõe também mais a partilhar.
  9. -  De observadores a activistas.  Alguns media, antigos ou novos, estão a experimentar se conseguem criar mais relevância junto da sua audiência envolvendo-se em deterninadas campanhas. Isto é controverso para muitos jornalistas, e claro que não é uma estratégia que sirva para tudo. O livro descreve alguns casos interessantes.

 

Os autores sublinham, a concluir o artigo que aqui citamos, que não pretendem promover um modelo exclusivo de jornalismo para o futuro, mas que pode haver muitos que transportem consigo esta esperança.


O artigo aqui citado, na íntegra, no NiemanLab

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Um fotojornalista português, Mário Cruz, da Agência Lusa, figura entre os nomeados para o World Press Photo 2019, o mais prestigiado prémio de fotojornalismo do mundo, cuja identidade e trabalhos a concurso foram agora conhecidos. A Fundação organizadora introduziu também uma nova categoria a ser premiada, a História do Ano, destinada a “fotógrafos cuja criatividade e habilidades visuais produziram uma história com excelente edição e sequenciamento, que captura ou representa um evento ou assunto de grande importância jornalística”.

A imagem de Mário Cruz, intitulada “Viver entre o que foi deixado para trás”, mostra uma criança recolhendo material reciclável, deitada num colchão cercado por lixo, enquanto flutua no rio Pasig, em Manila, nas Filipinas.

Os vencedores do concurso serão conhecidos na cerimónia marcada para 11 de Abril, em Amesterdão, na Holanda.

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Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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