Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Media

Microsoft aposta no jornalismo e concorre com Facebook e Google

A Microsoft anunciou recentemente a remodelação e unificação do seu serviço de notícias, posicionando-se para competir com a Google e o Facebook  - mas deixando claro, à partida, que o seu modelo se baseia na gratuitidade de acesso aos conteúdos. “Cremos que uma Imprensa gratuita e bem financiada é uma parte fundamental da nossa sociedade”  - afirma, propondo-se “oferecer às pessoas, sem custo, acesso a notícias fiáveis”, ao mesmo tempo que “proporciona uma fonte de receitas sustentável aos meios de comunicação”.

Bom demais para ser verdade? Ou simplesmente contraditório? No fundo, as grandes empresas tecnológicas estão a tomar a sério a sua aposta sobre o jornalismo, e a Microsoft chega agora para “disputar o seu próprio espaço no negócio do jornalismo digital”. Enquanto decorre esse duelo de gigantes, “os media continuam a viver de doações disfarçadas de investimentos, a troco de continuarem a ceder o controlo da distribuição dos seus conteúdos.”

É esta a reflexão de um texto publicado em Media-tics, onde se descreve o lançamento da Microsoft News, para tentar recuperar o avanço que consentiu ao Facebook e à Google neste terreno.

“A Microsoft News é a evolução da MSN, nascida em 1995 e convertida no referente informativo digital da primitiva Internet. A MSN chegou a aliar-se com a NBC para criar o canal MSNBC, especializado em notícias. Isto foi em 1996, o que demonstra que a relação da Microsoft com os media vem de longe e que o seu interesse pelas notícias remonta a uma época em que a Google era apenas um projecto na mente de dois universitários e o Facebook nem sequer uma ideia: Zuckerberg ainda era um menino de escola.” (...) 

Agora, a Microsoft fala dos 600 milhões de dólares que tem repartido pelos seus ‘sócios’, editores da dimensão de The New York Times, USA Today, The Washington Post, The Guardian, Le Monde, El País ou a BBC, só nestes últimos quatro anos. O seu argumento é que isto lhes permite “centrarem-se no que sabem fazer melhor: jornalismo de qualidade”. 

A aposta de Satya Nadella, o director executivo da Microsoft [nomeado em Fevereiro de 2014 por Bill Gates], é um “modelo híbrido que combina a IA (inteligência artificial) com uma redacção de 800 editores humanos, para classificar e ordenar as notícias, enquanto trabalha com mais de três mil títulos de todo o mundo para que forneçam conteúdos à sua plataforma  - embora a Microsoft tenha um certo poder editorial, precisamente graças a esses seus editores próprios, que tem repartidos por 50 países”. (...) 

Em termos de relação de forças, “não difere muito da Google News, mas a Microsoft conta com uma altíssima penetração nos computadores (as diferentes versões do Windows estão instaladas em quase 90% dos PC’s do mundo, segundo a NetMarketShare; tem o seu próprio motor de busca (Bing, que alcança apenas 3% da quota de mercado, face aos 92% da Google) e está forte nas video-consolas com a Xbox (a segunda a seguir à PlayStation, embora a febre pela Nintendo Switch ponha em perigo a sua medalha de prata; ainda assim, são mais de dez milhões de Xbox vendidas por ano, segundo a IHS Market, embora a Sony duplique este número).” 

“A Microsoft News estará presente em todos os produtos da Microsoft, bem como nos telemóveis e tablets, através de uma aplicação renovada para iOS e Android. Uma forma de chegar a mais utentes e superar os quase 500 milhões, em 140 países, que a MSN aglutina, actualmente reconvertida num hub digital que vai além das notícias e que se parece mais com a Yahoo! ou a extinta Terra. Coisas que soam como dos anos 90.” (...) 

E atenção, jornalistas: a promessa que nos fazem é de que “compomos as nossas páginas com esmero, para apresentar várias perspectivas de uma mesma história”, para contrariar o efeito “bolha de filtro”. A empresa vai chamar a si a disciplina jornalística do “contraditório”? 

“Cremos que as peças de opinião reflexivas  - que assinalamos claramente como tais -  ajudam os leitores a compreender melhor as notícias”  - explica a Microsoft. “Com este objectivo em mente, estamos sempre a avaliar a nossa rede de media para garantir que porporcionamos o conteúdo mais diverso, credível e completo disponível em todo o mundo.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra, em Media-tics, e a notícia da MSN

Connosco
A crise de identidade nos jornais de prestígio e a “anarquia digital” Ver galeria

As datas são recentes, mas a história que contam parece comprida, tem capítulos uns atrás dos outros. O efeito da revolução digital sobre o jornal impresso está sempre a ser revisto e avaliado, como nos filmes de ficção científica em que o herói vai ao passado para tentar “corrigir” a História.
“O marco da anarquia digital é 1996, ninguém previu o novo ciclo e ele se inicia para implantar o caos e desorganizar a segurança conservadora, principalmente dos grandes grupos de comunicação.”

A reflexão é do jornalista Luís Sérgio Santos, docente de Desenho Editorial na Universidade Federal do Ceará, e o seu texto multiplica termos como “ameaça”, “abismo”, “conflito”, “incerteza”. Mas trata-se apenas de uma abordagem à “crise de identidade dos jornais de prestígio”  - título que escolheu para este artigo, publicado no Observatório da Imprensa do Brasil.

O perigo de instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

É esta a reflexão inicial do jornalista e empreendedor no meio digital Miguel Ossorio Vega, que faz uma síntese do ocorrido neste terreno nos últimos anos, chamando a atenção para o que considera serem os maiores perigos da ciberguerra em curso.

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