Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Media

Microsoft aposta no jornalismo e concorre com Facebook e Google

A Microsoft anunciou recentemente a remodelação e unificação do seu serviço de notícias, posicionando-se para competir com a Google e o Facebook  - mas deixando claro, à partida, que o seu modelo se baseia na gratuitidade de acesso aos conteúdos. “Cremos que uma Imprensa gratuita e bem financiada é uma parte fundamental da nossa sociedade”  - afirma, propondo-se “oferecer às pessoas, sem custo, acesso a notícias fiáveis”, ao mesmo tempo que “proporciona uma fonte de receitas sustentável aos meios de comunicação”.

Bom demais para ser verdade? Ou simplesmente contraditório? No fundo, as grandes empresas tecnológicas estão a tomar a sério a sua aposta sobre o jornalismo, e a Microsoft chega agora para “disputar o seu próprio espaço no negócio do jornalismo digital”. Enquanto decorre esse duelo de gigantes, “os media continuam a viver de doações disfarçadas de investimentos, a troco de continuarem a ceder o controlo da distribuição dos seus conteúdos.”

É esta a reflexão de um texto publicado em Media-tics, onde se descreve o lançamento da Microsoft News, para tentar recuperar o avanço que consentiu ao Facebook e à Google neste terreno.

“A Microsoft News é a evolução da MSN, nascida em 1995 e convertida no referente informativo digital da primitiva Internet. A MSN chegou a aliar-se com a NBC para criar o canal MSNBC, especializado em notícias. Isto foi em 1996, o que demonstra que a relação da Microsoft com os media vem de longe e que o seu interesse pelas notícias remonta a uma época em que a Google era apenas um projecto na mente de dois universitários e o Facebook nem sequer uma ideia: Zuckerberg ainda era um menino de escola.” (...) 

Agora, a Microsoft fala dos 600 milhões de dólares que tem repartido pelos seus ‘sócios’, editores da dimensão de The New York Times, USA Today, The Washington Post, The Guardian, Le Monde, El País ou a BBC, só nestes últimos quatro anos. O seu argumento é que isto lhes permite “centrarem-se no que sabem fazer melhor: jornalismo de qualidade”. 

A aposta de Satya Nadella, o director executivo da Microsoft [nomeado em Fevereiro de 2014 por Bill Gates], é um “modelo híbrido que combina a IA (inteligência artificial) com uma redacção de 800 editores humanos, para classificar e ordenar as notícias, enquanto trabalha com mais de três mil títulos de todo o mundo para que forneçam conteúdos à sua plataforma  - embora a Microsoft tenha um certo poder editorial, precisamente graças a esses seus editores próprios, que tem repartidos por 50 países”. (...) 

Em termos de relação de forças, “não difere muito da Google News, mas a Microsoft conta com uma altíssima penetração nos computadores (as diferentes versões do Windows estão instaladas em quase 90% dos PC’s do mundo, segundo a NetMarketShare; tem o seu próprio motor de busca (Bing, que alcança apenas 3% da quota de mercado, face aos 92% da Google) e está forte nas video-consolas com a Xbox (a segunda a seguir à PlayStation, embora a febre pela Nintendo Switch ponha em perigo a sua medalha de prata; ainda assim, são mais de dez milhões de Xbox vendidas por ano, segundo a IHS Market, embora a Sony duplique este número).” 

“A Microsoft News estará presente em todos os produtos da Microsoft, bem como nos telemóveis e tablets, através de uma aplicação renovada para iOS e Android. Uma forma de chegar a mais utentes e superar os quase 500 milhões, em 140 países, que a MSN aglutina, actualmente reconvertida num hub digital que vai além das notícias e que se parece mais com a Yahoo! ou a extinta Terra. Coisas que soam como dos anos 90.” (...) 

E atenção, jornalistas: a promessa que nos fazem é de que “compomos as nossas páginas com esmero, para apresentar várias perspectivas de uma mesma história”, para contrariar o efeito “bolha de filtro”. A empresa vai chamar a si a disciplina jornalística do “contraditório”? 

“Cremos que as peças de opinião reflexivas  - que assinalamos claramente como tais -  ajudam os leitores a compreender melhor as notícias”  - explica a Microsoft. “Com este objectivo em mente, estamos sempre a avaliar a nossa rede de media para garantir que porporcionamos o conteúdo mais diverso, credível e completo disponível em todo o mundo.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra, em Media-tics, e a notícia da MSN

Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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