Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Media

Microsoft aposta no jornalismo e concorre com Facebook e Google

A Microsoft anunciou recentemente a remodelação e unificação do seu serviço de notícias, posicionando-se para competir com a Google e o Facebook  - mas deixando claro, à partida, que o seu modelo se baseia na gratuitidade de acesso aos conteúdos. “Cremos que uma Imprensa gratuita e bem financiada é uma parte fundamental da nossa sociedade”  - afirma, propondo-se “oferecer às pessoas, sem custo, acesso a notícias fiáveis”, ao mesmo tempo que “proporciona uma fonte de receitas sustentável aos meios de comunicação”.

Bom demais para ser verdade? Ou simplesmente contraditório? No fundo, as grandes empresas tecnológicas estão a tomar a sério a sua aposta sobre o jornalismo, e a Microsoft chega agora para “disputar o seu próprio espaço no negócio do jornalismo digital”. Enquanto decorre esse duelo de gigantes, “os media continuam a viver de doações disfarçadas de investimentos, a troco de continuarem a ceder o controlo da distribuição dos seus conteúdos.”

É esta a reflexão de um texto publicado em Media-tics, onde se descreve o lançamento da Microsoft News, para tentar recuperar o avanço que consentiu ao Facebook e à Google neste terreno.

“A Microsoft News é a evolução da MSN, nascida em 1995 e convertida no referente informativo digital da primitiva Internet. A MSN chegou a aliar-se com a NBC para criar o canal MSNBC, especializado em notícias. Isto foi em 1996, o que demonstra que a relação da Microsoft com os media vem de longe e que o seu interesse pelas notícias remonta a uma época em que a Google era apenas um projecto na mente de dois universitários e o Facebook nem sequer uma ideia: Zuckerberg ainda era um menino de escola.” (...) 

Agora, a Microsoft fala dos 600 milhões de dólares que tem repartido pelos seus ‘sócios’, editores da dimensão de The New York Times, USA Today, The Washington Post, The Guardian, Le Monde, El País ou a BBC, só nestes últimos quatro anos. O seu argumento é que isto lhes permite “centrarem-se no que sabem fazer melhor: jornalismo de qualidade”. 

A aposta de Satya Nadella, o director executivo da Microsoft [nomeado em Fevereiro de 2014 por Bill Gates], é um “modelo híbrido que combina a IA (inteligência artificial) com uma redacção de 800 editores humanos, para classificar e ordenar as notícias, enquanto trabalha com mais de três mil títulos de todo o mundo para que forneçam conteúdos à sua plataforma  - embora a Microsoft tenha um certo poder editorial, precisamente graças a esses seus editores próprios, que tem repartidos por 50 países”. (...) 

Em termos de relação de forças, “não difere muito da Google News, mas a Microsoft conta com uma altíssima penetração nos computadores (as diferentes versões do Windows estão instaladas em quase 90% dos PC’s do mundo, segundo a NetMarketShare; tem o seu próprio motor de busca (Bing, que alcança apenas 3% da quota de mercado, face aos 92% da Google) e está forte nas video-consolas com a Xbox (a segunda a seguir à PlayStation, embora a febre pela Nintendo Switch ponha em perigo a sua medalha de prata; ainda assim, são mais de dez milhões de Xbox vendidas por ano, segundo a IHS Market, embora a Sony duplique este número).” 

“A Microsoft News estará presente em todos os produtos da Microsoft, bem como nos telemóveis e tablets, através de uma aplicação renovada para iOS e Android. Uma forma de chegar a mais utentes e superar os quase 500 milhões, em 140 países, que a MSN aglutina, actualmente reconvertida num hub digital que vai além das notícias e que se parece mais com a Yahoo! ou a extinta Terra. Coisas que soam como dos anos 90.” (...) 

E atenção, jornalistas: a promessa que nos fazem é de que “compomos as nossas páginas com esmero, para apresentar várias perspectivas de uma mesma história”, para contrariar o efeito “bolha de filtro”. A empresa vai chamar a si a disciplina jornalística do “contraditório”? 

“Cremos que as peças de opinião reflexivas  - que assinalamos claramente como tais -  ajudam os leitores a compreender melhor as notícias”  - explica a Microsoft. “Com este objectivo em mente, estamos sempre a avaliar a nossa rede de media para garantir que porporcionamos o conteúdo mais diverso, credível e completo disponível em todo o mundo.” (...)

 

O artigo aqui citado, na íntegra, em Media-tics, e a notícia da MSN

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
1.Segundo um estudo da Marktest sobre a utilização que os portugueses fazem das redes sociais 65.9% dos inquiridos referem o Facebook, 16.4% indicam o Instagram, 8.3% oWhatsApp, 4% o Youtube e 5.4% outras redes. O estudo sublinha que esta predominância do Facebook não é transversal a toda a população: “Entre os jovens utilizadores de redes sociais, os resultados de 2018 mostram uma inversão das redes visitadas com mais...