Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
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O “populismo” nos Media: fácil de usar, difícil de definir

Desde há uns tempos que os meios de comunicação usam e abusam do conceito de “populismo”. Só em Le Monde, por exemplo, não passa um dia sem que pessoas como Recep Erdogan, Donald Trump, Viktor Orban, Nicolas Maduro, Marine Le Pen ou Jean-Luc Mélenchon  - entre muitas outras -  sejam apelidadas de “populistas”, em textos ou em títulos; o que é reconhecido pelo próprio jornal. Pior do que isso: há protestos dos leitores e, num caso recente, um deles declara cancelar a sua assinatura porque o tratamento da informação económica seguido por Le Monde “faz o jogo dos populistas, de La France Insoumise e do Front National”. Tomando este ponto de partida, Franck Nouchi, que ocupa o cargo de médiateur no referido jornal, publica um artigo onde procura esclarecer as origens e as derivas desta questão.

O texto, erudito e bem documentado, pede uma leitura na íntegra, que não cabe aqui. O autor procura uma definição consensual do “populismo” e reconhece, citando o politólogo argentino Ernesto Laclau, que o conceito “é tão indescritível como recorrente”. 

Em última instância, e no final do artigo, aconselha a que seja utilizado “com parcimónia”. Mas, antes disso, vejamos uma síntese dos caminhos que seguiu: 

Recorrendo a uma autoridade da casa, Thomas Wieder, actual correspondente de Le Monde em Berlim, é preciso começar pela história do termo “populismo”, que tem a sua “genealogia”. 

O primeiro “populismo” é o da Rússia do séc. XIX, dos narodniks, intelectuais da classe média opostos ao czarismo, influenciados pelo socialismo e preocupados com a sorte dos camponeses. 

O segundo é o da América Latina dos anos 40, incarnado pelo “peronismo”, que significa o “populismo” chegado ao poder.

O terceiro, o contemporâneo, “seria um pensamento político que assenta ao mesmo tempo sobre a visão de um povo que faz bloco contra as élites e sobre uma promoção do nacionalismo”. 

Uma questão que se põe, segundo Thomas Wieder, é a de saber se pode ser usado para agrupar outras noções, como as de extrema-esquerda e extrema-direita, para “meter no mesmo saco, para fins de deslegitimação, Mélenchon e Le Pen”, no caso francês. 

Este autor recomenda “atenção” às diferenças entre ambos e ao facto de haver outras forças no espectro político “que não escapam necessariamente ao populismo”. 

A título pessoal, Thomas Wieder esclarece que não usa, no seu trabalho, a designação de “populista” para o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), mas sim a de “partido de extrema-direita”. 

Para o correspondente de Le Monde em Roma, Jean Gautheret, “se há na Europa um movimento com traços comuns com a definição ‘peronista’ do populismo, é o 5 Estrelas das origens”. (...) 

E para a responsável pela secção de Política, Solenn de Royer, o próprio Emmanuel Macron, “que se opõe ao ‘sistema’ e que contorna os corpos intermediários, também é portador de uma forma de populismo”. 

Mas não faria qualquer sentido, segundo afirma, “aproximá-lo de Mélenchon, que defende uma visão popular da nação, do género de Jaurès, ou de Marine Le Pen, que se dirige à sensibilidade identitária do povo. Este termo onde-cabe-tudo [mot-valise, no original] é ambíguo e pouco pertinente para descrever a pluralidade e a riqueza de cada caso.” (...) 

E segundo Sylvie Kauffman, directora editorial, esta dificuldade em definir o “populismo” corresponde, no fundo, “à nossa dificuldade em definir , com os nossos próprios critérios, estes regimes de aparência democrática, mas com tendências autocráticas, que emergem um pouco por todo o lado, inclusivamente na Europa. Nem sempre dispomos dos instrumentos adequados para definir estes novos fenómenos”. (...)

 

O artigo citado, na íntegra, em Le Monde

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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