Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
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O “populismo” nos Media: fácil de usar, difícil de definir

Desde há uns tempos que os meios de comunicação usam e abusam do conceito de “populismo”. Só em Le Monde, por exemplo, não passa um dia sem que pessoas como Recep Erdogan, Donald Trump, Viktor Orban, Nicolas Maduro, Marine Le Pen ou Jean-Luc Mélenchon  - entre muitas outras -  sejam apelidadas de “populistas”, em textos ou em títulos; o que é reconhecido pelo próprio jornal. Pior do que isso: há protestos dos leitores e, num caso recente, um deles declara cancelar a sua assinatura porque o tratamento da informação económica seguido por Le Monde “faz o jogo dos populistas, de La France Insoumise e do Front National”. Tomando este ponto de partida, Franck Nouchi, que ocupa o cargo de médiateur no referido jornal, publica um artigo onde procura esclarecer as origens e as derivas desta questão.

O texto, erudito e bem documentado, pede uma leitura na íntegra, que não cabe aqui. O autor procura uma definição consensual do “populismo” e reconhece, citando o politólogo argentino Ernesto Laclau, que o conceito “é tão indescritível como recorrente”. 

Em última instância, e no final do artigo, aconselha a que seja utilizado “com parcimónia”. Mas, antes disso, vejamos uma síntese dos caminhos que seguiu: 

Recorrendo a uma autoridade da casa, Thomas Wieder, actual correspondente de Le Monde em Berlim, é preciso começar pela história do termo “populismo”, que tem a sua “genealogia”. 

O primeiro “populismo” é o da Rússia do séc. XIX, dos narodniks, intelectuais da classe média opostos ao czarismo, influenciados pelo socialismo e preocupados com a sorte dos camponeses. 

O segundo é o da América Latina dos anos 40, incarnado pelo “peronismo”, que significa o “populismo” chegado ao poder.

O terceiro, o contemporâneo, “seria um pensamento político que assenta ao mesmo tempo sobre a visão de um povo que faz bloco contra as élites e sobre uma promoção do nacionalismo”. 

Uma questão que se põe, segundo Thomas Wieder, é a de saber se pode ser usado para agrupar outras noções, como as de extrema-esquerda e extrema-direita, para “meter no mesmo saco, para fins de deslegitimação, Mélenchon e Le Pen”, no caso francês. 

Este autor recomenda “atenção” às diferenças entre ambos e ao facto de haver outras forças no espectro político “que não escapam necessariamente ao populismo”. 

A título pessoal, Thomas Wieder esclarece que não usa, no seu trabalho, a designação de “populista” para o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), mas sim a de “partido de extrema-direita”. 

Para o correspondente de Le Monde em Roma, Jean Gautheret, “se há na Europa um movimento com traços comuns com a definição ‘peronista’ do populismo, é o 5 Estrelas das origens”. (...) 

E para a responsável pela secção de Política, Solenn de Royer, o próprio Emmanuel Macron, “que se opõe ao ‘sistema’ e que contorna os corpos intermediários, também é portador de uma forma de populismo”. 

Mas não faria qualquer sentido, segundo afirma, “aproximá-lo de Mélenchon, que defende uma visão popular da nação, do género de Jaurès, ou de Marine Le Pen, que se dirige à sensibilidade identitária do povo. Este termo onde-cabe-tudo [mot-valise, no original] é ambíguo e pouco pertinente para descrever a pluralidade e a riqueza de cada caso.” (...) 

E segundo Sylvie Kauffman, directora editorial, esta dificuldade em definir o “populismo” corresponde, no fundo, “à nossa dificuldade em definir , com os nossos próprios critérios, estes regimes de aparência democrática, mas com tendências autocráticas, que emergem um pouco por todo o lado, inclusivamente na Europa. Nem sempre dispomos dos instrumentos adequados para definir estes novos fenómenos”. (...)

 

O artigo citado, na íntegra, em Le Monde

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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