Sábado, 17 de Novembro, 2018
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O “populismo” nos Media: fácil de usar, difícil de definir

Desde há uns tempos que os meios de comunicação usam e abusam do conceito de “populismo”. Só em Le Monde, por exemplo, não passa um dia sem que pessoas como Recep Erdogan, Donald Trump, Viktor Orban, Nicolas Maduro, Marine Le Pen ou Jean-Luc Mélenchon  - entre muitas outras -  sejam apelidadas de “populistas”, em textos ou em títulos; o que é reconhecido pelo próprio jornal. Pior do que isso: há protestos dos leitores e, num caso recente, um deles declara cancelar a sua assinatura porque o tratamento da informação económica seguido por Le Monde “faz o jogo dos populistas, de La France Insoumise e do Front National”. Tomando este ponto de partida, Franck Nouchi, que ocupa o cargo de médiateur no referido jornal, publica um artigo onde procura esclarecer as origens e as derivas desta questão.

O texto, erudito e bem documentado, pede uma leitura na íntegra, que não cabe aqui. O autor procura uma definição consensual do “populismo” e reconhece, citando o politólogo argentino Ernesto Laclau, que o conceito “é tão indescritível como recorrente”. 

Em última instância, e no final do artigo, aconselha a que seja utilizado “com parcimónia”. Mas, antes disso, vejamos uma síntese dos caminhos que seguiu: 

Recorrendo a uma autoridade da casa, Thomas Wieder, actual correspondente de Le Monde em Berlim, é preciso começar pela história do termo “populismo”, que tem a sua “genealogia”. 

O primeiro “populismo” é o da Rússia do séc. XIX, dos narodniks, intelectuais da classe média opostos ao czarismo, influenciados pelo socialismo e preocupados com a sorte dos camponeses. 

O segundo é o da América Latina dos anos 40, incarnado pelo “peronismo”, que significa o “populismo” chegado ao poder.

O terceiro, o contemporâneo, “seria um pensamento político que assenta ao mesmo tempo sobre a visão de um povo que faz bloco contra as élites e sobre uma promoção do nacionalismo”. 

Uma questão que se põe, segundo Thomas Wieder, é a de saber se pode ser usado para agrupar outras noções, como as de extrema-esquerda e extrema-direita, para “meter no mesmo saco, para fins de deslegitimação, Mélenchon e Le Pen”, no caso francês. 

Este autor recomenda “atenção” às diferenças entre ambos e ao facto de haver outras forças no espectro político “que não escapam necessariamente ao populismo”. 

A título pessoal, Thomas Wieder esclarece que não usa, no seu trabalho, a designação de “populista” para o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), mas sim a de “partido de extrema-direita”. 

Para o correspondente de Le Monde em Roma, Jean Gautheret, “se há na Europa um movimento com traços comuns com a definição ‘peronista’ do populismo, é o 5 Estrelas das origens”. (...) 

E para a responsável pela secção de Política, Solenn de Royer, o próprio Emmanuel Macron, “que se opõe ao ‘sistema’ e que contorna os corpos intermediários, também é portador de uma forma de populismo”. 

Mas não faria qualquer sentido, segundo afirma, “aproximá-lo de Mélenchon, que defende uma visão popular da nação, do género de Jaurès, ou de Marine Le Pen, que se dirige à sensibilidade identitária do povo. Este termo onde-cabe-tudo [mot-valise, no original] é ambíguo e pouco pertinente para descrever a pluralidade e a riqueza de cada caso.” (...) 

E segundo Sylvie Kauffman, directora editorial, esta dificuldade em definir o “populismo” corresponde, no fundo, “à nossa dificuldade em definir , com os nossos próprios critérios, estes regimes de aparência democrática, mas com tendências autocráticas, que emergem um pouco por todo o lado, inclusivamente na Europa. Nem sempre dispomos dos instrumentos adequados para definir estes novos fenómenos”. (...)

 

O artigo citado, na íntegra, em Le Monde

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A historiadora britânica Bettany Hughes, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hughes como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

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Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

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Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

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