Quinta-feira, 21 de Março, 2019
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O “populismo” nos Media: fácil de usar, difícil de definir

Desde há uns tempos que os meios de comunicação usam e abusam do conceito de “populismo”. Só em Le Monde, por exemplo, não passa um dia sem que pessoas como Recep Erdogan, Donald Trump, Viktor Orban, Nicolas Maduro, Marine Le Pen ou Jean-Luc Mélenchon  - entre muitas outras -  sejam apelidadas de “populistas”, em textos ou em títulos; o que é reconhecido pelo próprio jornal. Pior do que isso: há protestos dos leitores e, num caso recente, um deles declara cancelar a sua assinatura porque o tratamento da informação económica seguido por Le Monde “faz o jogo dos populistas, de La France Insoumise e do Front National”. Tomando este ponto de partida, Franck Nouchi, que ocupa o cargo de médiateur no referido jornal, publica um artigo onde procura esclarecer as origens e as derivas desta questão.

O texto, erudito e bem documentado, pede uma leitura na íntegra, que não cabe aqui. O autor procura uma definição consensual do “populismo” e reconhece, citando o politólogo argentino Ernesto Laclau, que o conceito “é tão indescritível como recorrente”. 

Em última instância, e no final do artigo, aconselha a que seja utilizado “com parcimónia”. Mas, antes disso, vejamos uma síntese dos caminhos que seguiu: 

Recorrendo a uma autoridade da casa, Thomas Wieder, actual correspondente de Le Monde em Berlim, é preciso começar pela história do termo “populismo”, que tem a sua “genealogia”. 

O primeiro “populismo” é o da Rússia do séc. XIX, dos narodniks, intelectuais da classe média opostos ao czarismo, influenciados pelo socialismo e preocupados com a sorte dos camponeses. 

O segundo é o da América Latina dos anos 40, incarnado pelo “peronismo”, que significa o “populismo” chegado ao poder.

O terceiro, o contemporâneo, “seria um pensamento político que assenta ao mesmo tempo sobre a visão de um povo que faz bloco contra as élites e sobre uma promoção do nacionalismo”. 

Uma questão que se põe, segundo Thomas Wieder, é a de saber se pode ser usado para agrupar outras noções, como as de extrema-esquerda e extrema-direita, para “meter no mesmo saco, para fins de deslegitimação, Mélenchon e Le Pen”, no caso francês. 

Este autor recomenda “atenção” às diferenças entre ambos e ao facto de haver outras forças no espectro político “que não escapam necessariamente ao populismo”. 

A título pessoal, Thomas Wieder esclarece que não usa, no seu trabalho, a designação de “populista” para o partido Alternativa para a Alemanha (AfD), mas sim a de “partido de extrema-direita”. 

Para o correspondente de Le Monde em Roma, Jean Gautheret, “se há na Europa um movimento com traços comuns com a definição ‘peronista’ do populismo, é o 5 Estrelas das origens”. (...) 

E para a responsável pela secção de Política, Solenn de Royer, o próprio Emmanuel Macron, “que se opõe ao ‘sistema’ e que contorna os corpos intermediários, também é portador de uma forma de populismo”. 

Mas não faria qualquer sentido, segundo afirma, “aproximá-lo de Mélenchon, que defende uma visão popular da nação, do género de Jaurès, ou de Marine Le Pen, que se dirige à sensibilidade identitária do povo. Este termo onde-cabe-tudo [mot-valise, no original] é ambíguo e pouco pertinente para descrever a pluralidade e a riqueza de cada caso.” (...) 

E segundo Sylvie Kauffman, directora editorial, esta dificuldade em definir o “populismo” corresponde, no fundo, “à nossa dificuldade em definir , com os nossos próprios critérios, estes regimes de aparência democrática, mas com tendências autocráticas, que emergem um pouco por todo o lado, inclusivamente na Europa. Nem sempre dispomos dos instrumentos adequados para definir estes novos fenómenos”. (...)

 

O artigo citado, na íntegra, em Le Monde

Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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