Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Media

Jornalista veterano toma conta da direcção editorial do "LA Times"

O novo editor executivo de Los Angeles Times, Norman Pearlstine, não é novo na idade. A primeira pergunta da entrevista aqui citada é como se sente um homem que se reforma aos 75 anos de um posto importante na Time Inc para vir dirigir um jornal que sobreviveu com dificuldade a quase duas décadas na posse do grupo Tronc, de Chicago, para ser agora adquirido por um médico multimilionário cheio de ambições de competitividade. E uma das que se seguem é como explica uma frase sua que ganhou o prémio da melhor citação nas Reliable Sources, em que Pearlstine diz que “os media são a cocaína de Trump”. Norman Pearlstine tem ideias sólidas sobre o que pode fazer, e a primeira é a de que o jornal tem de começar já a pensar sobre a “próxima geração de liderança”  - que não será a sua.

A prioridade absoluta é a de recuperar o jornal do tumultuoso período de 19 anos sob a direcção dos proprietários em Chicago, em que o Los Angeles Times era principalmente citado nos noticiários pela sua situação de “turbulência, cortes de despesa, fricção e despedimentos”. Norman Pearlstine diz que o jornal “tem mais talento do que tinha pensado olhando de fora”, e que é urgente conhecê-lo, avaliá-lo e ver o que se lhe pode acrescentar. 

Quanto ao seu próprio lugar neste processo, admite com realismo:  

“Por muito que eu gostasse de ser a pessoa responsável por uma reformulação de dez anos, no Los Angeles Times, acho que isso não seria provavelmente bom para a empresa, nem bom para mim pensar nesses termos.” (...) 

Sobre a frase a respeito de Trump, que o celebrizou, Pearlstine conta que o conhece bem, pessoalmente, que ele é “uma criatura instintiva”, e que o sentido daquela citação é simplesmente que ele “adora ter a atenção da Imprensa”. 

Isto implica que adora, igualmente, “pegar-se” constantemente com ela. Quando fica furioso, pode cortar o acesso da CNN, ou do New York Times, a algum evento, mas isso não o impede de ter dado a Maggie Haberman [a correspondente do NYT em assuntos da Casa Branca] algumas boas entrevistas. 

“Se eu fosse mais delicado  - diz Pearlstine -  acho que teria dito que se trata de uma relação simbiótica, ou qualquer coisa como isso. Mas sim, é a cocaína dele.” (...) 

Sobre as ambições do novo proprietário, Soon-Shiong, que quer pôr Los Angeles Times a competir directamente com os maiores jornais americanos de projecção mundial, como The New York Times e The Washington Post, admite que isso pode acontecer em determinados casos, mas adverte: 

“Precisamos de ter algum senso a respeito da rapidez com que podemos andar, mas eu não queria ficar ligado a uma data específica em termos de realizações. Neste momento ainda estou a avaliar quais são os nossos activos presentes, e de que modo estão aplicados.” (...) A primeira prioridade é reconhecer o talento que cá temos e garantir que estamos a utilizar em pleno e a tirar partido de algumas pessoas realmente brilhantes, que podem não ter sentido que eram escutadas, ou que tinham oportunidade de assumir mais autoridade ou responsabilidade.” (...) 

Partindo do facto da anterior experiência de Norman Pearlstine ter passado por jornais com tradição sindical interna, foi-lhe perguntado se essa sua experiência de “negociação colectiva” vai continuar com o Los Angeles Times, em que o movimento esteve contra o grupo Tronc

“Não quero entrar na discussão dos pormenores, porque não estive envolvido, mas o voto sindical foi a expressão de preocupações muito profundas da parte de muitas pessoas que aqui trabalham. E havendo ou não um sindicato, temos de tomar a sério essas preocupações. Tive um encontro  - não numa sessão formal, mas informalmente -  com pessoas que têm estado identificadas com o movimento sindical, e penso que há muita sinceridade nas suas preocupações, e que devemos estar preparados para as tomar a sério. Eu não acho que a existência de um sindicato implique qualquer impedimento de termos boas relações com as pessoas que aqui trabalham.” (...) 

E sobre o novo proprietário, Soon-Shiong, sublinha a importância desta oportunidade de “escutar as pessoas e procurar obter ideias da base para cima, em termos daquilo que estamos a fazer”: 

“É muito bom termos um patrão para quem é importante uma força de trabalho diferente, e um local de trabalho diferente. É fabuloso termos um patrão que, apesar do seu sucesso pessoal, continua a ver-se a si mesmo como uma espécie de oprimido [underdog, no original] desejoso de confrontar o establishment, na medicina ou em qualquer outro terreno. E que tem grande capacidade de escutar. Tenho aprendido muito com ele, sempre que estivémos juntos. Acho que é especialmente importante, em face do tumulto dos últimos anos, que possamos escutar cuidadosamente e tentar então dar resposta às melhores ideias que nos cheguem.” (...)

 

A entrevista com Norman Pearlstine, na íntegra, na Columbia Journalism Review

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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