null, 24 de Março, 2019
Media

Jornalista veterano toma conta da direcção editorial do "LA Times"

O novo editor executivo de Los Angeles Times, Norman Pearlstine, não é novo na idade. A primeira pergunta da entrevista aqui citada é como se sente um homem que se reforma aos 75 anos de um posto importante na Time Inc para vir dirigir um jornal que sobreviveu com dificuldade a quase duas décadas na posse do grupo Tronc, de Chicago, para ser agora adquirido por um médico multimilionário cheio de ambições de competitividade. E uma das que se seguem é como explica uma frase sua que ganhou o prémio da melhor citação nas Reliable Sources, em que Pearlstine diz que “os media são a cocaína de Trump”. Norman Pearlstine tem ideias sólidas sobre o que pode fazer, e a primeira é a de que o jornal tem de começar já a pensar sobre a “próxima geração de liderança”  - que não será a sua.

A prioridade absoluta é a de recuperar o jornal do tumultuoso período de 19 anos sob a direcção dos proprietários em Chicago, em que o Los Angeles Times era principalmente citado nos noticiários pela sua situação de “turbulência, cortes de despesa, fricção e despedimentos”. Norman Pearlstine diz que o jornal “tem mais talento do que tinha pensado olhando de fora”, e que é urgente conhecê-lo, avaliá-lo e ver o que se lhe pode acrescentar. 

Quanto ao seu próprio lugar neste processo, admite com realismo:  

“Por muito que eu gostasse de ser a pessoa responsável por uma reformulação de dez anos, no Los Angeles Times, acho que isso não seria provavelmente bom para a empresa, nem bom para mim pensar nesses termos.” (...) 

Sobre a frase a respeito de Trump, que o celebrizou, Pearlstine conta que o conhece bem, pessoalmente, que ele é “uma criatura instintiva”, e que o sentido daquela citação é simplesmente que ele “adora ter a atenção da Imprensa”. 

Isto implica que adora, igualmente, “pegar-se” constantemente com ela. Quando fica furioso, pode cortar o acesso da CNN, ou do New York Times, a algum evento, mas isso não o impede de ter dado a Maggie Haberman [a correspondente do NYT em assuntos da Casa Branca] algumas boas entrevistas. 

“Se eu fosse mais delicado  - diz Pearlstine -  acho que teria dito que se trata de uma relação simbiótica, ou qualquer coisa como isso. Mas sim, é a cocaína dele.” (...) 

Sobre as ambições do novo proprietário, Soon-Shiong, que quer pôr Los Angeles Times a competir directamente com os maiores jornais americanos de projecção mundial, como The New York Times e The Washington Post, admite que isso pode acontecer em determinados casos, mas adverte: 

“Precisamos de ter algum senso a respeito da rapidez com que podemos andar, mas eu não queria ficar ligado a uma data específica em termos de realizações. Neste momento ainda estou a avaliar quais são os nossos activos presentes, e de que modo estão aplicados.” (...) A primeira prioridade é reconhecer o talento que cá temos e garantir que estamos a utilizar em pleno e a tirar partido de algumas pessoas realmente brilhantes, que podem não ter sentido que eram escutadas, ou que tinham oportunidade de assumir mais autoridade ou responsabilidade.” (...) 

Partindo do facto da anterior experiência de Norman Pearlstine ter passado por jornais com tradição sindical interna, foi-lhe perguntado se essa sua experiência de “negociação colectiva” vai continuar com o Los Angeles Times, em que o movimento esteve contra o grupo Tronc

“Não quero entrar na discussão dos pormenores, porque não estive envolvido, mas o voto sindical foi a expressão de preocupações muito profundas da parte de muitas pessoas que aqui trabalham. E havendo ou não um sindicato, temos de tomar a sério essas preocupações. Tive um encontro  - não numa sessão formal, mas informalmente -  com pessoas que têm estado identificadas com o movimento sindical, e penso que há muita sinceridade nas suas preocupações, e que devemos estar preparados para as tomar a sério. Eu não acho que a existência de um sindicato implique qualquer impedimento de termos boas relações com as pessoas que aqui trabalham.” (...) 

E sobre o novo proprietário, Soon-Shiong, sublinha a importância desta oportunidade de “escutar as pessoas e procurar obter ideias da base para cima, em termos daquilo que estamos a fazer”: 

“É muito bom termos um patrão para quem é importante uma força de trabalho diferente, e um local de trabalho diferente. É fabuloso termos um patrão que, apesar do seu sucesso pessoal, continua a ver-se a si mesmo como uma espécie de oprimido [underdog, no original] desejoso de confrontar o establishment, na medicina ou em qualquer outro terreno. E que tem grande capacidade de escutar. Tenho aprendido muito com ele, sempre que estivémos juntos. Acho que é especialmente importante, em face do tumulto dos últimos anos, que possamos escutar cuidadosamente e tentar então dar resposta às melhores ideias que nos cheguem.” (...)

 

A entrevista com Norman Pearlstine, na íntegra, na Columbia Journalism Review

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O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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