Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Media

Pagar ou não pagar para ler notícias online em debate no Laboratório de Jornalismo da APM

A questão da sustentabilidade económica do jornalismo, posta em causa pela cultura da informação grátis, muito popular na era da Internet, esteve no centro dos debates durante a XII edição do Laboratorio de Periodismo da APM – Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria. O título escolhido para o encontro deste ano era uma pergunta: “Vamos pagar por ler notícias online?”  - e todas as respostas foram no sentido de reabilitar o valor profissional do jornalismo, pela sua qualidade e credibilidade, antes do seu valor como custo.

Esta jornada de reflexão teve como moderador Nemesio Rodríguez, vice-presidente da APM e presidente da FAPEFederación de Asociaciones de Periodistas de España, para quem “o ‘completamente gratuito’ criou nas pessoas a percepção de que o jornalismo e o trabalho do jornalista não valem nada e qualquer um pode fazê-lo”. 

Por seu lado, Jesús Maraña, director editorial do InfoLibre, afirmou: 

“A equação que fizémos, de que a Internet é igual a gratuitidade, e jornalismo igual a comunicação, revelou-se fatal. Defendamos o valor do jornalismo e então encontraremos os caminhos  - que são muito complicados -  para o financiar.”

“O que fica em primeiro lugar é a credibilidade, o fazer bom jornalismo. Eu não pagaria por um meio em que não acredito. Na profissão há um grande problema de credibilidade”  -  declarou José Sanclemente, presidente de eldiario.es. Na sua opinião, “se forem feitos meios de comunicação credíveis, e com a suficiente independência, as pessoas vão tornar-se assinantes deles”. (...) 

Mas, como explicou a seguir, estas condições têm de estar presentes nos meios que pretendam cobrar pelos seus conteúdos: que provem ser independentes, o que “exige uma transparência e nudez absoluta”; que ofereçam um jornalismo de qualidade, não brincando ao sensacionalismo e à “guerra dos clics”; que conquistem influência e utilidade, de modo a que os leitores notem “que as suas informações têm consequências sobre a sociedade”; e que constituam uma comunidade de utentes fiéis, com “diálogo constante entre os jornalistas e os utentes”. (...) 

“É muito edificante voltar a pôr o foco no leitor, em vez de no anunciante”  - afirmou Rosalía Lloret, directora de Relações Públicas e Institucionais da Online Publishers Association Europe, que reflectiu sobre os números avassaladores da concentração das receitas publicitárias nas grandes plataformas, na Espanha como no resto do mundo, para concluir que “o futuro do modelo cuja sobrevivência depende apenas da publicidade é muito negro, mas começa a abrir-se o futuro de pagar pelas notícias”. (...) 

As questões da limitação de acesso (paywalls) e da utilização crescente de “bloqueadores de anúncios” também foram abordadas pelos intervenientes. 

“A informação deve ser paga como se paga o pão, mas as paywalls só podem funcionar nos grandes títulos”  - afirmou Mar Abad, jornalista e co-fundadora da Yorokobu.  

E segundo Miguel Ormaetxea, editor de Ecointeligencia Editorial, “as paywalls têm de ser apenas uma das cinco ou seis principais fontes de receita dos media digitais”. (...)

 

A reportagem aqui citada, na íntegra, na APM, onde é também possível abrir o vídeo de síntese do Laboratorio de Periodismo.

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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