Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Media

Pagar ou não pagar para ler notícias online em debate no Laboratório de Jornalismo da APM

A questão da sustentabilidade económica do jornalismo, posta em causa pela cultura da informação grátis, muito popular na era da Internet, esteve no centro dos debates durante a XII edição do Laboratorio de Periodismo da APM – Asociación de la Prensa de Madrid, com a qual mantemos um acordo de parceria. O título escolhido para o encontro deste ano era uma pergunta: “Vamos pagar por ler notícias online?”  - e todas as respostas foram no sentido de reabilitar o valor profissional do jornalismo, pela sua qualidade e credibilidade, antes do seu valor como custo.

Esta jornada de reflexão teve como moderador Nemesio Rodríguez, vice-presidente da APM e presidente da FAPEFederación de Asociaciones de Periodistas de España, para quem “o ‘completamente gratuito’ criou nas pessoas a percepção de que o jornalismo e o trabalho do jornalista não valem nada e qualquer um pode fazê-lo”. 

Por seu lado, Jesús Maraña, director editorial do InfoLibre, afirmou: 

“A equação que fizémos, de que a Internet é igual a gratuitidade, e jornalismo igual a comunicação, revelou-se fatal. Defendamos o valor do jornalismo e então encontraremos os caminhos  - que são muito complicados -  para o financiar.”

“O que fica em primeiro lugar é a credibilidade, o fazer bom jornalismo. Eu não pagaria por um meio em que não acredito. Na profissão há um grande problema de credibilidade”  -  declarou José Sanclemente, presidente de eldiario.es. Na sua opinião, “se forem feitos meios de comunicação credíveis, e com a suficiente independência, as pessoas vão tornar-se assinantes deles”. (...) 

Mas, como explicou a seguir, estas condições têm de estar presentes nos meios que pretendam cobrar pelos seus conteúdos: que provem ser independentes, o que “exige uma transparência e nudez absoluta”; que ofereçam um jornalismo de qualidade, não brincando ao sensacionalismo e à “guerra dos clics”; que conquistem influência e utilidade, de modo a que os leitores notem “que as suas informações têm consequências sobre a sociedade”; e que constituam uma comunidade de utentes fiéis, com “diálogo constante entre os jornalistas e os utentes”. (...) 

“É muito edificante voltar a pôr o foco no leitor, em vez de no anunciante”  - afirmou Rosalía Lloret, directora de Relações Públicas e Institucionais da Online Publishers Association Europe, que reflectiu sobre os números avassaladores da concentração das receitas publicitárias nas grandes plataformas, na Espanha como no resto do mundo, para concluir que “o futuro do modelo cuja sobrevivência depende apenas da publicidade é muito negro, mas começa a abrir-se o futuro de pagar pelas notícias”. (...) 

As questões da limitação de acesso (paywalls) e da utilização crescente de “bloqueadores de anúncios” também foram abordadas pelos intervenientes. 

“A informação deve ser paga como se paga o pão, mas as paywalls só podem funcionar nos grandes títulos”  - afirmou Mar Abad, jornalista e co-fundadora da Yorokobu.  

E segundo Miguel Ormaetxea, editor de Ecointeligencia Editorial, “as paywalls têm de ser apenas uma das cinco ou seis principais fontes de receita dos media digitais”. (...)

 

A reportagem aqui citada, na íntegra, na APM, onde é também possível abrir o vídeo de síntese do Laboratorio de Periodismo.

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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