Quinta-feira, 21 de Março, 2019
Media

"Redacções seguras" como plataforma contra censura na Ásia

Um jornalista paquistanês cujo trabalho incomodava demasiado os poderes instituídos, até ao ponto de uma tentativa de rapto onde por pouco não perdeu a vida, exilou-se em Paris, onde agora reside e de onde promove uma iniciativa intitulada SAFE Newsrooms (“Redacções seguras”, à letra, mas que significa também South Asians for Freedom of Expression). O seu projecto é o de pôr em evidência, e denunciar, todas as diversas formas de censura que estão em vigor nos países da região: no seu, em primeiro lugar, logo a seguir na Índia e no Bangladesh, depois também no Sri Lanka e no Afeganistão.

Taha Siddiqui, distinguido com vários prémios na área do jornalismo de investigação, e com trabalho publicado em meios como The New York Times, The Guardian, France24, Christian Science Monitor, e tendo chefiado a delegação paquistanesa do canal de televisão WION – World is One News, tomou a decisão de sair do seu país quando compreendeu que mesmo o Governo já não garantia a sua segurança. 

Numa entrevista com o Ministro do Interior, Ahsan Iqbal, foi-lhe proposto que dirigisse ao comandante do Exército uma carta com um pedido de perdão. Um outro jornalista, seu amigo, intercedeu por ele junto do próprio Primeiro-Ministro, Shahid Khaqan Abbassi, o qual respondeu que, nestes casos, o Governo não podia fazer nada. 

Conforme relatado numa entrevista a The Wire  - que aqui citamos da GIJN – Global Investigative Journalism Network, mesmo alguns dos seus camaradas de profissão mais velhos sugeriram que procurasse o caminho da reconciliação com os militares e contivesse o seu activismo. 

A sua situação em França não é de asilo. Taha Siddiqui obteve uma transferência para Paris, de uma das empresas com que tem trabalhado, mas tem por esse lado um emprego não permanente, em part-time

O seu projecto, Safenewsrooms.org, é, como explica, “uma iniciativa digital auto-financiada que lancei no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a 3 de Maio de 2018; a ideia é dar voz aos jornalistas do Sul da Ásia que enfrentam a censura”. (...) 

“Quero continuar a trabalhar pelos direitos humanos no Paquistão e no Sul da Ásia e, dada a minha experiência de reportagem nesta região, e a minha própria sobrevivência a uma recente tentativa de rapto, tornar a safenewsroom.org uma plataforma pela qual os jornalistas do Sul da Ásia possam continuar a resistir, tal como eu.” (...) 

A sua caracterização das formas de censura em vigor é como segue: 

“No Paquistão são os militares, os militantes e a poderosa élite dos negócios. Na Índia, o Governo de Narendra Modi hostiliza os media, enquanto muitos dos seus proprietários e editores apoiam a defeituosa narrativa do Estado” [num caso de corrupção entre dirigentes de empresas de media]. (...) 

“No Bangladesh, vemos também como as vozes seculares e daqueles que falam contra o regime e os militares são silenciadas. A seguir, vamos fazer a cobertura do Sri Lanka, onde os media também não são livres, bem como do Afeganistão e de outros países na região do Sul da Ásia.” (...) 

No caso do Paquistão, um dos pontos fortes da investigação e do protesto de Taha Siddiqui tem a ver com o rapto e desaparecimento de dissidentes ou activistas, como Raza Khan, que pretendia promover a paz entre paquistaneses e indianos estabelecendo contactos, via Skype, entre crianças de ambos os países. 

Já passaram seis meses desde o seu desaparecimento, mas a justiça não tem respostas, nem mesmo uma organização intitulada Comissão de Inquérito sobre os Desaparecimentos Forçados.

 

A entrevista aqui citada, na íntegra, no GIJN, e a carta aberta que Taha Siddiqui dirigiu ao comandante do Exército, publicada em The Guardian.
Os dados do grafismo incluído são do Relatório sobre Liberdade de Imprensa no Paquistão de 2018

Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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