Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Media

"Redacções seguras" como plataforma contra censura na Ásia

Um jornalista paquistanês cujo trabalho incomodava demasiado os poderes instituídos, até ao ponto de uma tentativa de rapto onde por pouco não perdeu a vida, exilou-se em Paris, onde agora reside e de onde promove uma iniciativa intitulada SAFE Newsrooms (“Redacções seguras”, à letra, mas que significa também South Asians for Freedom of Expression). O seu projecto é o de pôr em evidência, e denunciar, todas as diversas formas de censura que estão em vigor nos países da região: no seu, em primeiro lugar, logo a seguir na Índia e no Bangladesh, depois também no Sri Lanka e no Afeganistão.

Taha Siddiqui, distinguido com vários prémios na área do jornalismo de investigação, e com trabalho publicado em meios como The New York Times, The Guardian, France24, Christian Science Monitor, e tendo chefiado a delegação paquistanesa do canal de televisão WION – World is One News, tomou a decisão de sair do seu país quando compreendeu que mesmo o Governo já não garantia a sua segurança. 

Numa entrevista com o Ministro do Interior, Ahsan Iqbal, foi-lhe proposto que dirigisse ao comandante do Exército uma carta com um pedido de perdão. Um outro jornalista, seu amigo, intercedeu por ele junto do próprio Primeiro-Ministro, Shahid Khaqan Abbassi, o qual respondeu que, nestes casos, o Governo não podia fazer nada. 

Conforme relatado numa entrevista a The Wire  - que aqui citamos da GIJN – Global Investigative Journalism Network, mesmo alguns dos seus camaradas de profissão mais velhos sugeriram que procurasse o caminho da reconciliação com os militares e contivesse o seu activismo. 

A sua situação em França não é de asilo. Taha Siddiqui obteve uma transferência para Paris, de uma das empresas com que tem trabalhado, mas tem por esse lado um emprego não permanente, em part-time

O seu projecto, Safenewsrooms.org, é, como explica, “uma iniciativa digital auto-financiada que lancei no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a 3 de Maio de 2018; a ideia é dar voz aos jornalistas do Sul da Ásia que enfrentam a censura”. (...) 

“Quero continuar a trabalhar pelos direitos humanos no Paquistão e no Sul da Ásia e, dada a minha experiência de reportagem nesta região, e a minha própria sobrevivência a uma recente tentativa de rapto, tornar a safenewsroom.org uma plataforma pela qual os jornalistas do Sul da Ásia possam continuar a resistir, tal como eu.” (...) 

A sua caracterização das formas de censura em vigor é como segue: 

“No Paquistão são os militares, os militantes e a poderosa élite dos negócios. Na Índia, o Governo de Narendra Modi hostiliza os media, enquanto muitos dos seus proprietários e editores apoiam a defeituosa narrativa do Estado” [num caso de corrupção entre dirigentes de empresas de media]. (...) 

“No Bangladesh, vemos também como as vozes seculares e daqueles que falam contra o regime e os militares são silenciadas. A seguir, vamos fazer a cobertura do Sri Lanka, onde os media também não são livres, bem como do Afeganistão e de outros países na região do Sul da Ásia.” (...) 

No caso do Paquistão, um dos pontos fortes da investigação e do protesto de Taha Siddiqui tem a ver com o rapto e desaparecimento de dissidentes ou activistas, como Raza Khan, que pretendia promover a paz entre paquistaneses e indianos estabelecendo contactos, via Skype, entre crianças de ambos os países. 

Já passaram seis meses desde o seu desaparecimento, mas a justiça não tem respostas, nem mesmo uma organização intitulada Comissão de Inquérito sobre os Desaparecimentos Forçados.

 

A entrevista aqui citada, na íntegra, no GIJN, e a carta aberta que Taha Siddiqui dirigiu ao comandante do Exército, publicada em The Guardian.
Os dados do grafismo incluído são do Relatório sobre Liberdade de Imprensa no Paquistão de 2018

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


ver mais >
Opinião
O chamado “jornalismo de causas “  voltou a estar na moda. E sobram os temas:  a “emergência climática”,   assumida por António Guterres enquanto secretário geral da ONU,  numa capa caricata da “Time”;  o “feito” de uma adolescente nórdica,   que atravessou o Atlântico num veleiro de luxo -  a pretexto de assim  reduzir o impacto ambiental -, para participar...
As limitações do nosso jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
J.-M. Nobre-Correia, professor emérito de Informação e Comunicação da Universidade Livre de Bruxelas, escreveu no “Público” um artigo bastante crítico da qualidade do actual jornalismo português. Em carta ao director, uma leitora deste jornal aplaudiu esse artigo, dizendo nomeadamente: “Os problemas, com que se defrontam no dia-a-dia os cidadãos, não são investigados, em detrimento de...
Uma das coisas em que a informação sobre o mercado publicitário português peca é na análise das contas que são ganhas pelas agências de meios aqui em Portugal. Volta e meia vejo notícias do género a marca X decidiu atribuir a sua conta de publicidade em Portugal à agência Y. Quando se vai a ver, o que aconteceu é que a marca internacional X decidiu num qualquer escritório em Londres, Paris ou Berlim,...
Agenda
16
Set
16
Set
Ferramentas Google para Jornalistas
09:00 @ Cenjor,Lisboa
19
Set
Local Media Fal(l) School
09:00 @ Covilhã
23
Set
Radio Broadcasters Convention of Southern Africa
09:00 @ Johannesburg, África do Sul