Sábado, 17 de Novembro, 2018
Media

"Redacções seguras" como plataforma contra censura na Ásia

Um jornalista paquistanês cujo trabalho incomodava demasiado os poderes instituídos, até ao ponto de uma tentativa de rapto onde por pouco não perdeu a vida, exilou-se em Paris, onde agora reside e de onde promove uma iniciativa intitulada SAFE Newsrooms (“Redacções seguras”, à letra, mas que significa também South Asians for Freedom of Expression). O seu projecto é o de pôr em evidência, e denunciar, todas as diversas formas de censura que estão em vigor nos países da região: no seu, em primeiro lugar, logo a seguir na Índia e no Bangladesh, depois também no Sri Lanka e no Afeganistão.

Taha Siddiqui, distinguido com vários prémios na área do jornalismo de investigação, e com trabalho publicado em meios como The New York Times, The Guardian, France24, Christian Science Monitor, e tendo chefiado a delegação paquistanesa do canal de televisão WION – World is One News, tomou a decisão de sair do seu país quando compreendeu que mesmo o Governo já não garantia a sua segurança. 

Numa entrevista com o Ministro do Interior, Ahsan Iqbal, foi-lhe proposto que dirigisse ao comandante do Exército uma carta com um pedido de perdão. Um outro jornalista, seu amigo, intercedeu por ele junto do próprio Primeiro-Ministro, Shahid Khaqan Abbassi, o qual respondeu que, nestes casos, o Governo não podia fazer nada. 

Conforme relatado numa entrevista a The Wire  - que aqui citamos da GIJN – Global Investigative Journalism Network, mesmo alguns dos seus camaradas de profissão mais velhos sugeriram que procurasse o caminho da reconciliação com os militares e contivesse o seu activismo. 

A sua situação em França não é de asilo. Taha Siddiqui obteve uma transferência para Paris, de uma das empresas com que tem trabalhado, mas tem por esse lado um emprego não permanente, em part-time

O seu projecto, Safenewsrooms.org, é, como explica, “uma iniciativa digital auto-financiada que lancei no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a 3 de Maio de 2018; a ideia é dar voz aos jornalistas do Sul da Ásia que enfrentam a censura”. (...) 

“Quero continuar a trabalhar pelos direitos humanos no Paquistão e no Sul da Ásia e, dada a minha experiência de reportagem nesta região, e a minha própria sobrevivência a uma recente tentativa de rapto, tornar a safenewsroom.org uma plataforma pela qual os jornalistas do Sul da Ásia possam continuar a resistir, tal como eu.” (...) 

A sua caracterização das formas de censura em vigor é como segue: 

“No Paquistão são os militares, os militantes e a poderosa élite dos negócios. Na Índia, o Governo de Narendra Modi hostiliza os media, enquanto muitos dos seus proprietários e editores apoiam a defeituosa narrativa do Estado” [num caso de corrupção entre dirigentes de empresas de media]. (...) 

“No Bangladesh, vemos também como as vozes seculares e daqueles que falam contra o regime e os militares são silenciadas. A seguir, vamos fazer a cobertura do Sri Lanka, onde os media também não são livres, bem como do Afeganistão e de outros países na região do Sul da Ásia.” (...) 

No caso do Paquistão, um dos pontos fortes da investigação e do protesto de Taha Siddiqui tem a ver com o rapto e desaparecimento de dissidentes ou activistas, como Raza Khan, que pretendia promover a paz entre paquistaneses e indianos estabelecendo contactos, via Skype, entre crianças de ambos os países. 

Já passaram seis meses desde o seu desaparecimento, mas a justiça não tem respostas, nem mesmo uma organização intitulada Comissão de Inquérito sobre os Desaparecimentos Forçados.

 

A entrevista aqui citada, na íntegra, no GIJN, e a carta aberta que Taha Siddiqui dirigiu ao comandante do Exército, publicada em The Guardian.
Os dados do grafismo incluído são do Relatório sobre Liberdade de Imprensa no Paquistão de 2018

Connosco
Bettany Hughes, Prémio Europeu Helena Vaz da Silva a comunicar história e património cultural Ver galeria

A historiadora britânica Bettany Hughes, que recebeu este ano o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, sublinhou a importância da memória em toda a actividade humana, mesmo quando se trata de criar um mundo novo. Reconhecida, tanto a nível académico como no da divulgação científica pela televisão, explicou o seu percurso nesta direcção, que “não foi fácil”, como disse, e terminou com um voto pela “paz e a vida, e ao futuro poderoso da Cultura e da herança”.

Guilherme d’Oliveira Martins, anfitrião da cerimónia, na qualidade de administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, apresentou Bettany Hughes como “uma historiadora que dedicou os últimos vinte cinco anos à comunicação do passado”, não numa visão retrospectiva, mas sim com “uma leitura dinâmica das raízes, da História, do tempo, das culturas, dos encontros e desencontros, numa palavra: da complexidade”.

Graça Fonseca, ministra da Cultura, evocou a figura de Helena Vaz da Silva pelo seu “contributo de excepção para a cultura portuguesa, quer enquanto jornalista e escritora, quer na sua vertente mais institucional”, como Presidente da Comissão Nacional da UNESCO e à frente do Centro Nacional de Cultura.

Para Dinis de Abreu, que interveio na sua qualidade de Presidente do Clube Português de Imprensa, Bettany Hughes persegue, afinal, um objectivo em tudo idêntico ao que um dia Helena Vaz da Silva atribuiu aos seus escritos, resumindo-os como “pequenas pedras que vou semeando”:

“Sabe bem evocar o seu exemplo, numa época instável e amiúde caótica, onde a responsabilidade se dilui por entre sombras e vazios, ocupados por populismos e extremismos, de esquerda e de direita, que vicejam e agravam as incertezas” – disse.

Marçal Grilo abre novo ciclo de jantares-debate em Novembro Ver galeria

O Clube Português de Imprensa, o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário juntam-se, novamente,para promover um novo ciclo de jantares-debate, desta vez subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?

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O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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