Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Media

"Redacções seguras" como plataforma contra censura na Ásia

Um jornalista paquistanês cujo trabalho incomodava demasiado os poderes instituídos, até ao ponto de uma tentativa de rapto onde por pouco não perdeu a vida, exilou-se em Paris, onde agora reside e de onde promove uma iniciativa intitulada SAFE Newsrooms (“Redacções seguras”, à letra, mas que significa também South Asians for Freedom of Expression). O seu projecto é o de pôr em evidência, e denunciar, todas as diversas formas de censura que estão em vigor nos países da região: no seu, em primeiro lugar, logo a seguir na Índia e no Bangladesh, depois também no Sri Lanka e no Afeganistão.

Taha Siddiqui, distinguido com vários prémios na área do jornalismo de investigação, e com trabalho publicado em meios como The New York Times, The Guardian, France24, Christian Science Monitor, e tendo chefiado a delegação paquistanesa do canal de televisão WION – World is One News, tomou a decisão de sair do seu país quando compreendeu que mesmo o Governo já não garantia a sua segurança. 

Numa entrevista com o Ministro do Interior, Ahsan Iqbal, foi-lhe proposto que dirigisse ao comandante do Exército uma carta com um pedido de perdão. Um outro jornalista, seu amigo, intercedeu por ele junto do próprio Primeiro-Ministro, Shahid Khaqan Abbassi, o qual respondeu que, nestes casos, o Governo não podia fazer nada. 

Conforme relatado numa entrevista a The Wire  - que aqui citamos da GIJN – Global Investigative Journalism Network, mesmo alguns dos seus camaradas de profissão mais velhos sugeriram que procurasse o caminho da reconciliação com os militares e contivesse o seu activismo. 

A sua situação em França não é de asilo. Taha Siddiqui obteve uma transferência para Paris, de uma das empresas com que tem trabalhado, mas tem por esse lado um emprego não permanente, em part-time

O seu projecto, Safenewsrooms.org, é, como explica, “uma iniciativa digital auto-financiada que lancei no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a 3 de Maio de 2018; a ideia é dar voz aos jornalistas do Sul da Ásia que enfrentam a censura”. (...) 

“Quero continuar a trabalhar pelos direitos humanos no Paquistão e no Sul da Ásia e, dada a minha experiência de reportagem nesta região, e a minha própria sobrevivência a uma recente tentativa de rapto, tornar a safenewsroom.org uma plataforma pela qual os jornalistas do Sul da Ásia possam continuar a resistir, tal como eu.” (...) 

A sua caracterização das formas de censura em vigor é como segue: 

“No Paquistão são os militares, os militantes e a poderosa élite dos negócios. Na Índia, o Governo de Narendra Modi hostiliza os media, enquanto muitos dos seus proprietários e editores apoiam a defeituosa narrativa do Estado” [num caso de corrupção entre dirigentes de empresas de media]. (...) 

“No Bangladesh, vemos também como as vozes seculares e daqueles que falam contra o regime e os militares são silenciadas. A seguir, vamos fazer a cobertura do Sri Lanka, onde os media também não são livres, bem como do Afeganistão e de outros países na região do Sul da Ásia.” (...) 

No caso do Paquistão, um dos pontos fortes da investigação e do protesto de Taha Siddiqui tem a ver com o rapto e desaparecimento de dissidentes ou activistas, como Raza Khan, que pretendia promover a paz entre paquistaneses e indianos estabelecendo contactos, via Skype, entre crianças de ambos os países. 

Já passaram seis meses desde o seu desaparecimento, mas a justiça não tem respostas, nem mesmo uma organização intitulada Comissão de Inquérito sobre os Desaparecimentos Forçados.

 

A entrevista aqui citada, na íntegra, no GIJN, e a carta aberta que Taha Siddiqui dirigiu ao comandante do Exército, publicada em The Guardian.
Os dados do grafismo incluído são do Relatório sobre Liberdade de Imprensa no Paquistão de 2018

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


ver mais >
Opinião
Sobre a liberdade de expressão em Portugal
Francisco Sarsfield Cabral
O caso da participação num programa matinal da TVI de um racista, já condenado e tendo cumprido pena de prisão, Mário Machado, suscitou polémica. Ainda bem, porque as questões em causa são importantes. Mas, como é costume, o debate rapidamente derivou para um confronto entre a esquerda indignada por se ter dado tempo de antena a um criminoso fascista e a direita defendendo a liberdade de expressão e a dualidade de...
O panorama dos media
Manuel Falcão
Se olharmos para o top dos programas mais vistos na televisão generalista em 2018 vemos um claro domínio das transmissões desportivas, seguidas a grande distância pelos reality shows e, ainda mais para trás, pelas telenovelas. No entanto as transmissões televisivas produzem apenas picos de audiência e contribuem relativamente pouco para as médias e para planos continuados. O dilema das televisões generalistas está na...
Informar ou depender…
Dinis de Abreu
O título deste texto corresponde a um livro publicado nos anos 70 por Francisco Balsemão, numa altura em que já se ‘contavam espingardas’ para pôr termo ao Estado Novo, como veio a acontecer com o derrube de Marcello Caetano, em 25 de Abril de 74.  A obra foi polémica à época e justamente considerada um ‘grito de alma’, assinada por quem começara a sua vida profissional num jornal controlado pela família...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...