Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Media

Magnata da Imprensa nos EUA defende "integridade jornalística"

O multimilionário Patrick Soon-Shiong, que investiu 500 milhões de dólares na compra de Los Angeles Times, The San Diego Union-Tribune e o jornal californiano Hoy (de língua espanhola), afirma que tem o propósito de os projectar para um impacto nacional e mesmo mundial. Parece pedir muito a três meios de comunicação regionais, ainda por cima saídos da tutela de outro Estado: o dono anterior era o grupo Tronc, de Chicago. Mas Soon Shiong (médico sul-africano de origem chinesa, hoje também cidadão dos EUA), com experiência de homem de negócios noutros ramos, garante ser capaz de conciliar o seu respeito pela identidade dos jornais  - sobretudo Los Angeles Times – para o conduzir ao patamar de concorrente directo de The New York Times e The Washington Post.

“Sou muito competitivo”  - afirma. -  “E seremos competitivos com The New York Times e The Washington Post. Evidentemente, neste momento estamos um ou dois anos atrás deles. Mas não vai levar muito tempo, espero bem, a sermos tão competitivos e reconhecidos, já não só como um jornal regional mas sim um jornal nacional e, desejavelmente, internacional.” (...) 

O projecto parece atrevido, mas, para Soon-Shiong, ultrapassar o domínio da costa Leste não é só uma ambição no terreno da indústria da Imprensa, mas uma espécia de vocação da Califórnia: 

“Penso que nós [o LA Times] somos realmente  - podemos ser e devemos ser -  a voz da Califórnia, a voz da [costa] Oeste e, finalmente, a voz da nação. Acho que não há lugar como a Califórnia  -  se olharem só para Los Angeles, por exemplo, podia ser a capital desportiva da nação, com dois clubes de baseball, dois de futebol [americano] e dois de futebol [soccer, no original]. É a capital da nação em termos do entretenimento, e depois há a inovação... À medida que cresce a oportunidade, eu penso que nós somos unicamente Californianos e unicamente West Coast.” (...) 

Em entrevista à NPR – National Public Radio, aqui citada de Media-tics, Soon-Shiong declara que ainda põe a hipótese de comprar os restantes activos do grupo Tronc, incluindo o Chicago Tribune, The Baltimore Sun, The New York Daily News e outros meios regionais. “Disse ainda que primeiro quer deslindar muitas das apregoadas iniciativas digitais do grupo Tronc e fazer novos investimentos prometedores, em vez dos cortes constantes a que o jornal da costa Oeste foi submetido pelos seus anteriores proprietários.” (...) 

Segundo informação datada de Janeiro de 2017  - e mencionada nesta entrevista -  Soon-Shiong ainda teve contactos com a Administração Trump sobre a possibilidade de ocupar um lugar na área da saúde pública, mas isso não sucedeu. Já o tinha feito junto da anterior, a de Barack Obama e Joe Biden, tendo feito parte de um painel de consultores do vice-Presidente.

É citada uma declaração sua de 2014, segundo a qual “os fundamentos e intenção do Affordable Care Act (de Obama) são louváveis, mas o modo como está a ser posto em prática é  desastroso”. 

A distância que marca em relação à política de Trump para os media é mais clara. Segundo afirma, ao adquirir estes jornais deseja que “o leitor acredite que o que está a ser relatado como notícia é verdadeiro”: 

“Acho realmente que as fake news são o cancro dos nossos tempos, e a ideia do que são é, tristemente, que há o lado bom da tecnologia e o seu lado escuro. Com as redes sociais, a capacidade de espalhar informação ou desinformação é muito perigosa.” 

“A força de organizações como o LA Times, The New York Times, The Washington Post, é esta integridade jornalística e força jornalística, certo? Penso que o poder da reportagem de investigação deve ser capacitado para que tenhamos verdade, tanto para falar ao poder, como também em termos de inspiração e daquilo a que chamo falar em nome do povo.” 

“É parte desta actividade e do papel dos jornais. É parte da liberdade da democracia, e da liberdade de Imprensa, garantir que a verdade seja conhecida. Tendo dito isto, é também importante que sejamos conhecidos pelo equilíbrio, significando que não deve haver uma ‘agenda’ [parcialidade] num ou noutro sentido, para além de uma perspectiva de a reportagem ser completamente verdadeira e com a máxima integridade. E sem qualquer interferência dos proprietários  - completa independência da integridade jornalística.” (...) 

A terminar a entrevista, afirma Soon-Shiong: 

“Não desejo ter qualquer papel ou influência sobre qualquer coisa que escrevam a meu respeito... E aceito isso completamente. Convido todos os jornalistas a escreverem o que desejarem sobre nós, seja bom ou mau. A única coisa que peço, seja a meu respeito ou de qualquer outra pessoa, é que sejam correctos, o que significa que escrevam informação honesta e verdadeira.” (...)

 

O artigo de Media-tics e a entrevista na íntegra, na National Public Radio.

Mais informação sobre os novos magnatas da Imprensa nos EUA e o artigo de J. Botelho Tomé sobre Patrick Soon-Shiong

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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