Quarta-feira, 19 de Setembro, 2018
Media

Magnata da Imprensa nos EUA defende "integridade jornalística"

O multimilionário Patrick Soon-Shiong, que investiu 500 milhões de dólares na compra de Los Angeles Times, The San Diego Union-Tribune e o jornal californiano Hoy (de língua espanhola), afirma que tem o propósito de os projectar para um impacto nacional e mesmo mundial. Parece pedir muito a três meios de comunicação regionais, ainda por cima saídos da tutela de outro Estado: o dono anterior era o grupo Tronc, de Chicago. Mas Soon Shiong (médico sul-africano de origem chinesa, hoje também cidadão dos EUA), com experiência de homem de negócios noutros ramos, garante ser capaz de conciliar o seu respeito pela identidade dos jornais  - sobretudo Los Angeles Times – para o conduzir ao patamar de concorrente directo de The New York Times e The Washington Post.

“Sou muito competitivo”  - afirma. -  “E seremos competitivos com The New York Times e The Washington Post. Evidentemente, neste momento estamos um ou dois anos atrás deles. Mas não vai levar muito tempo, espero bem, a sermos tão competitivos e reconhecidos, já não só como um jornal regional mas sim um jornal nacional e, desejavelmente, internacional.” (...) 

O projecto parece atrevido, mas, para Soon-Shiong, ultrapassar o domínio da costa Leste não é só uma ambição no terreno da indústria da Imprensa, mas uma espécia de vocação da Califórnia: 

“Penso que nós [o LA Times] somos realmente  - podemos ser e devemos ser -  a voz da Califórnia, a voz da [costa] Oeste e, finalmente, a voz da nação. Acho que não há lugar como a Califórnia  -  se olharem só para Los Angeles, por exemplo, podia ser a capital desportiva da nação, com dois clubes de baseball, dois de futebol [americano] e dois de futebol [soccer, no original]. É a capital da nação em termos do entretenimento, e depois há a inovação... À medida que cresce a oportunidade, eu penso que nós somos unicamente Californianos e unicamente West Coast.” (...) 

Em entrevista à NPR – National Public Radio, aqui citada de Media-tics, Soon-Shiong declara que ainda põe a hipótese de comprar os restantes activos do grupo Tronc, incluindo o Chicago Tribune, The Baltimore Sun, The New York Daily News e outros meios regionais. “Disse ainda que primeiro quer deslindar muitas das apregoadas iniciativas digitais do grupo Tronc e fazer novos investimentos prometedores, em vez dos cortes constantes a que o jornal da costa Oeste foi submetido pelos seus anteriores proprietários.” (...) 

Segundo informação datada de Janeiro de 2017  - e mencionada nesta entrevista -  Soon-Shiong ainda teve contactos com a Administração Trump sobre a possibilidade de ocupar um lugar na área da saúde pública, mas isso não sucedeu. Já o tinha feito junto da anterior, a de Barack Obama e Joe Biden, tendo feito parte de um painel de consultores do vice-Presidente.

É citada uma declaração sua de 2014, segundo a qual “os fundamentos e intenção do Affordable Care Act (de Obama) são louváveis, mas o modo como está a ser posto em prática é  desastroso”. 

A distância que marca em relação à política de Trump para os media é mais clara. Segundo afirma, ao adquirir estes jornais deseja que “o leitor acredite que o que está a ser relatado como notícia é verdadeiro”: 

“Acho realmente que as fake news são o cancro dos nossos tempos, e a ideia do que são é, tristemente, que há o lado bom da tecnologia e o seu lado escuro. Com as redes sociais, a capacidade de espalhar informação ou desinformação é muito perigosa.” 

“A força de organizações como o LA Times, The New York Times, The Washington Post, é esta integridade jornalística e força jornalística, certo? Penso que o poder da reportagem de investigação deve ser capacitado para que tenhamos verdade, tanto para falar ao poder, como também em termos de inspiração e daquilo a que chamo falar em nome do povo.” 

“É parte desta actividade e do papel dos jornais. É parte da liberdade da democracia, e da liberdade de Imprensa, garantir que a verdade seja conhecida. Tendo dito isto, é também importante que sejamos conhecidos pelo equilíbrio, significando que não deve haver uma ‘agenda’ [parcialidade] num ou noutro sentido, para além de uma perspectiva de a reportagem ser completamente verdadeira e com a máxima integridade. E sem qualquer interferência dos proprietários  - completa independência da integridade jornalística.” (...) 

A terminar a entrevista, afirma Soon-Shiong: 

“Não desejo ter qualquer papel ou influência sobre qualquer coisa que escrevam a meu respeito... E aceito isso completamente. Convido todos os jornalistas a escreverem o que desejarem sobre nós, seja bom ou mau. A única coisa que peço, seja a meu respeito ou de qualquer outra pessoa, é que sejam correctos, o que significa que escrevam informação honesta e verdadeira.” (...)

 

O artigo de Media-tics e a entrevista na íntegra, na National Public Radio.

Mais informação sobre os novos magnatas da Imprensa nos EUA e o artigo de J. Botelho Tomé sobre Patrick Soon-Shiong

Connosco
Plataformas tecnológicas estão a sentar-se no coração do jornalismo Ver galeria

Na relação difícil que se tem desenvolvido, nestes últimos anos, entre as plataformas tecnológicas e os publishers dos media, a iniciativa foi sempre das primeiras e a intimidade nunca foi tanta como agora, com as plataformas “a tomarem mais decisões deliberadas que afectam o jornalismo e a colocação e distribuição das notícias”. Embora já haja editores a praticarem um “desacoplamento consciente” da sua dependência das plataformas, do lado destas vem um movimento muito claro de se envolverem cada vez mais no “apoio financeiro directo a determinados tipos de jornalismo”. Isto significa que plataformas “movidas pelo lucro” estão a “sentar-se desconfortavelmente no coração do jornalismo e das notícias”.

É esta a reflexão inicial de Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism  - que esteve em Lisboa, na cimeira da Global Editors Network -  no texto de apresentação de um relatório sobre o estado das relações entre publishers e plataformas.

Empresas de Media alimentam monstros que as fazem passar fome... Ver galeria

Tanto a Google como o Facebook têm estado a enviar dinheiro para apoio a projectos jornalísticos. Só nestes últimos três anos, as duas empresas juntas já destinaram mais de 500 milhões de dólares a vários programas ou parcerias com os media. Estas mega plataformas contam-se agora entre as maiores financiadoras do jornalismo. A ironia é que foi o desmantelamento da publicidade tradicional, em grande parte cometido por elas, que deixou as empresas jornalísticas neste sufoco de necessidade. O resultado é uma aliança disfuncional. Mesmo os que recebem estes apoios acham que as doações são “dinheiro culpado”, enquanto as gigantes tecnológicas procuram melhorar a imagem e conquistar amigos numa comunidade jornalística que  - sobretudo agora -  parece abertamente hostil.

O Clube

Lançado em Novembro de 2015, este site do Clube Português de Imprensa tem desenvolvido, desde então, um trabalho de acompanhamento das tendências dominantes, quer no mercado de Imprensa, quer nos media audiovisuais em geral e na Internet em particular.

Interessa-nos, também, debater o jornalismo e o modo como é exercido, em Portugal e fora de fronteiras,  cumprindo um objectivo que está na génese desta Associação.


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Opinião
Costuma dizer-se que “no melhor pano cai a nódoa”. E assim aconteceu com o prestigiado jornal americano “The New New York Times” ao decidir publicar, como opinião, um artigo não assinado com o sugestivo titulo “I Am Part of the Resistance Inside the Trump Administration”, que dispensa tradução. Depois do saudável movimento, que congregou, recentemente, 350 jornais americanos, em resposta ao apelo do The Boston Globe,...
Trump contra o jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
Numa iniciativa inédita, mais de 300 órgãos de comunicação dos EUA manifestaram na quinta-feira repúdio contra os violentos ataques de Trump ao jornalismo.  Como jornalista com muitos anos de profissão, tenho pena de reconhecer que a qualidade do produto jornalístico baixou ao longo das últimas décadas. Mas importa perceber porquê. No século XIX o jornalismo resumia-se a… jornais impressos....
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