Quinta-feira, 21 de Março, 2019
Tecnologias

Agência “Xinhua” em vantagem na ‘inteligência artificial’

No início do ano, a Xinhua, maior agência noticiosa estatal da China, divulgou o desenvolvimento de aplicação da ‘inteligência artificial’ para construir “um novo tipo de redacção, baseada na tecnologia de informação e utilizando colaboração entre o homem e a máquina”. Estava então a equipar-se com a plataforma Media Brain, que aplica a parafernália corrente designada por IA (inteligência artificial), Internet das coisas, big data e cloud computing a todas as fases da produção de notícias, desde a criação dos leads à agregação, edição, distribuição e análise de feedback.

Agora anunciou um update ao Media Brain, que vai usar MGC – machine generated content  para uma produção noticiosa de alta velocidade, que pode criar um vídeo de modo automático em cerca de dez segundos. O presidente da Xinhua, Cai Mingzaho, disse que a agência usará a IA para criar uma “informação individualizada e personalizada” que pode tomar muitas formas, desde portais noticiosos personalizados até títulos e artigos ajustados para leitores individuais  -  “e, provavelmente, para propaganda”. A informação é de um artigo de Kelsey Ables, assistente editorial na Columbia Journalism Review.

A Xinhua tem uma presença internacional crescente, com mais de 170 delegações no estrangeiro e o maior número de correspondentes de qualquer agência noticiosa em todo o mundo. 

“Antigamente, a Xinhua admirava a Reuters e a AP – Associated Press, e queria chegar lá”  -  diz Xin Xin, um ex-jornalista da Xinhua, hoje docente de Comunicações Internacionais na Universidade de Westminster. “Mas, subitamente, a Xinhua apercebeu-se de que continuava a expandir-se, enquanto as outras agências de notícias reduziam a dimensão.” Naturalmente, como agência estatal, a Xinhua não depende de receitas da publicidade. 

Sean Gourley, fundador e CEO da Primer, uma empresa de machine intelligence, com sede em San Francisco, sublinha que a Xinhua pode juntar-se ao grupo das grandes redes noticiosas muito depressa  -  e adquirir muita influência: 

“Temos a AP, a Reuters, a emissão da CNN, e algumas outras, mas não são muitas, e estas redes reverberam [replicam-se] maciçamente”  - afirma. “As agências noticiosas têm um papel enorme em dar o tom da conversa, muito mais do que lhes atribuímos.” (...) 

Conforme a autora do artigo que citamos, “se a ‘inteligência artificial’ amplificar a voz da Xinhua para fora da China, a agência vai ter um impacto global dramático sobre o modo como as notícias são espalhadas”: 

“A agência estatal tem má reputação pelas suas palavras proibidas, pontos sem acesso sobre questões de direitos humanos, acusações de espionagem e, mais recentemente, por ter feito a lista das contas Twitter de The New York Times que adquiriam falsos seguidores.” 

“Em 2016, depois de ter publicado o que se crê ser uma confissão forçada de um editor aparentemente raptado, Guo Minhai, os Repórteres sem Fronteiras pediram sanções da União Europeia contra a Xinhua, denunciando-a como uma ‘arma de propaganda de massas’ que tinha de facto ‘deixado de ser uma agência noticiosa’.” (...) 

“Além de bloquear palavras ou excluir conteúdos do noticiário, o governo controla cuidadosamente os media requerendo o uso do conteúdo da Xinhua. 

“A primeira prioridade do Partido Comunista Chinês é a de irradiar narrativas positivas sobre a China, contando a ‘boa história chinesa’”  - explica Sarah Cook, analista da Ásia Oriental na Freedom House

“Trata-se de apresentar o governo comunista e o regime autoritário a uma luz positiva, retratando-o como benigno, desvalorizando os problemas dos direitos humanos, sublinhando os sucessos económicos e, ao mesmo tempo, suprimindo as vozes críticas e, se necessário, usando estas vias para vilipendiar os críticos.” (...) 

Sarah Cook define isto como “censura positiva”. Se aparecer cobertura de acontecimentos negativos ou temas politicamente sensíveis, como tensões crescentes no mar do Sul da China ou [referências à] independência de Taiwan, o governo frequentemente requere o uso da versão da Xinhua

“Temos então basicamente a mesma reportagem, em todos os jornais ou websites, exactamente com as mesmas palavras.” (...)

E quando aparecem reportagens que não se ajustam à narrativa preferida pelo Partido Comunista Chinês, a Xinhua tem procurado lançar sementes de dúvida sobre a validade dessas histórias. (...) 

“Do ponto de vista de alguém que tem trabalhado nos media, há uma forte ênfase em ser-se o primeiro, no que respeita à experimentação”  -  afirma Jarrod Dicker, que dirigiu um laboratório de investigação digital  em The Washington Post, sobre a utilização da IA na redacções de todo o mundo. 

“Trata-se de ver se isto funciona antes de mais ninguém.” E não é só a Xinhua que quer ser a primeira; outras empresas de media estão também a integrar a IA no seu funcionamento  - incluindo a Associated Press e a Reuters. (...) 

 

O artigo citado, na íntegra, na Columbia Journalism Review.  E a notícia de Janeiro, sobre o início desta tecnologia na Xinhua.
Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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