Sábado, 6 de Junho, 2020
Tecnologias

Agência “Xinhua” em vantagem na ‘inteligência artificial’

No início do ano, a Xinhua, maior agência noticiosa estatal da China, divulgou o desenvolvimento de aplicação da ‘inteligência artificial’ para construir “um novo tipo de redacção, baseada na tecnologia de informação e utilizando colaboração entre o homem e a máquina”. Estava então a equipar-se com a plataforma Media Brain, que aplica a parafernália corrente designada por IA (inteligência artificial), Internet das coisas, big data e cloud computing a todas as fases da produção de notícias, desde a criação dos leads à agregação, edição, distribuição e análise de feedback.

Agora anunciou um update ao Media Brain, que vai usar MGC – machine generated content  para uma produção noticiosa de alta velocidade, que pode criar um vídeo de modo automático em cerca de dez segundos. O presidente da Xinhua, Cai Mingzaho, disse que a agência usará a IA para criar uma “informação individualizada e personalizada” que pode tomar muitas formas, desde portais noticiosos personalizados até títulos e artigos ajustados para leitores individuais  -  “e, provavelmente, para propaganda”. A informação é de um artigo de Kelsey Ables, assistente editorial na Columbia Journalism Review.

A Xinhua tem uma presença internacional crescente, com mais de 170 delegações no estrangeiro e o maior número de correspondentes de qualquer agência noticiosa em todo o mundo. 

“Antigamente, a Xinhua admirava a Reuters e a AP – Associated Press, e queria chegar lá”  -  diz Xin Xin, um ex-jornalista da Xinhua, hoje docente de Comunicações Internacionais na Universidade de Westminster. “Mas, subitamente, a Xinhua apercebeu-se de que continuava a expandir-se, enquanto as outras agências de notícias reduziam a dimensão.” Naturalmente, como agência estatal, a Xinhua não depende de receitas da publicidade. 

Sean Gourley, fundador e CEO da Primer, uma empresa de machine intelligence, com sede em San Francisco, sublinha que a Xinhua pode juntar-se ao grupo das grandes redes noticiosas muito depressa  -  e adquirir muita influência: 

“Temos a AP, a Reuters, a emissão da CNN, e algumas outras, mas não são muitas, e estas redes reverberam [replicam-se] maciçamente”  - afirma. “As agências noticiosas têm um papel enorme em dar o tom da conversa, muito mais do que lhes atribuímos.” (...) 

Conforme a autora do artigo que citamos, “se a ‘inteligência artificial’ amplificar a voz da Xinhua para fora da China, a agência vai ter um impacto global dramático sobre o modo como as notícias são espalhadas”: 

“A agência estatal tem má reputação pelas suas palavras proibidas, pontos sem acesso sobre questões de direitos humanos, acusações de espionagem e, mais recentemente, por ter feito a lista das contas Twitter de The New York Times que adquiriam falsos seguidores.” 

“Em 2016, depois de ter publicado o que se crê ser uma confissão forçada de um editor aparentemente raptado, Guo Minhai, os Repórteres sem Fronteiras pediram sanções da União Europeia contra a Xinhua, denunciando-a como uma ‘arma de propaganda de massas’ que tinha de facto ‘deixado de ser uma agência noticiosa’.” (...) 

“Além de bloquear palavras ou excluir conteúdos do noticiário, o governo controla cuidadosamente os media requerendo o uso do conteúdo da Xinhua. 

“A primeira prioridade do Partido Comunista Chinês é a de irradiar narrativas positivas sobre a China, contando a ‘boa história chinesa’”  - explica Sarah Cook, analista da Ásia Oriental na Freedom House

“Trata-se de apresentar o governo comunista e o regime autoritário a uma luz positiva, retratando-o como benigno, desvalorizando os problemas dos direitos humanos, sublinhando os sucessos económicos e, ao mesmo tempo, suprimindo as vozes críticas e, se necessário, usando estas vias para vilipendiar os críticos.” (...) 

Sarah Cook define isto como “censura positiva”. Se aparecer cobertura de acontecimentos negativos ou temas politicamente sensíveis, como tensões crescentes no mar do Sul da China ou [referências à] independência de Taiwan, o governo frequentemente requere o uso da versão da Xinhua

“Temos então basicamente a mesma reportagem, em todos os jornais ou websites, exactamente com as mesmas palavras.” (...)

E quando aparecem reportagens que não se ajustam à narrativa preferida pelo Partido Comunista Chinês, a Xinhua tem procurado lançar sementes de dúvida sobre a validade dessas histórias. (...) 

“Do ponto de vista de alguém que tem trabalhado nos media, há uma forte ênfase em ser-se o primeiro, no que respeita à experimentação”  -  afirma Jarrod Dicker, que dirigiu um laboratório de investigação digital  em The Washington Post, sobre a utilização da IA na redacções de todo o mundo. 

“Trata-se de ver se isto funciona antes de mais ninguém.” E não é só a Xinhua que quer ser a primeira; outras empresas de media estão também a integrar a IA no seu funcionamento  - incluindo a Associated Press e a Reuters. (...) 

 

O artigo citado, na íntegra, na Columbia Journalism Review.  E a notícia de Janeiro, sobre o início desta tecnologia na Xinhua.
Connosco
Inteligência artificial inventa "robots" na China e Rússia mas não substitui papel do jornalista Ver galeria

A inteligência artificial está a ser introduzida em todos os sectores e os “media” não são excepção, recorda um editorial do jornal indiano “Policy Times”.

As redacções estão a adoptar sistemas automáticos para verificar factos, encontrar fontes, transcrever entrevistas, e detectar plágios.

Além disso, empresas de tecnologia, como a Microsoft, estão a dispensar os seus jornalistas, substituindo-os por sistemas artificiais, programados para redigir artigos com base em notícias já publicadas.

A equipa que desenvolvia o “site” não escrevia artigos originais, mas exercia controlo editorial, publicando conteúdos e manchetes, para que estas se adequassem ao perfil da plataforma.

Na China e na Rússia, a automatização está, ainda, mais avançada, agora que alguns canais já colocaram “robots” a apresentar os telejornais. Apesar de inovadora, esta iniciativa foi mal recebida pelo público, que estranhou não ter um humano a estabelecer uma “ponte” entre a informação e os cidadãos.


Como o “Monde” desenvolveu um “lifeblog” durante a emergência Ver galeria

Perante a pandemia e o risco de isolamento, muitas publicações desenvolveram novos projectos e adoptaram diversas ferramentas para estabelecer contacto com as audiências, mas, talvez a iniciativa do “Le Monde” tenha sido a mais ambiciosa.

Durante 83 dias, sem interrupções, os jornalistas do “Monde” desenvolveram um “lifeblog”, com actualizações ao minuto, e com um “chat” aberto, onde os leitores deixaram as suas dúvidas e sugestões.

A audiência média diária foi de um milhão.

Findo o projecto, a equipa do jornal preparou um artigo para explicar a fórmula adoptada para o desenvolvimento do “lifeblog” mais longo da  sua história.

De acordo com o jornal, o projecto contou com a colaboração de  45 jornalistas, incluindo correspondentes sediados no estrangeiros.

O Clube


A pandemia trouxe dificuldades acrescidas aos
media e as associações do sector não passaram incólumes, forçadas a fechar a porta e a manter o contacto com os seus associados através de meios virtuais, como é o caso deste “site” do Clube.

Ao longo da fase mais aguda do coronavírus e da quarentena imposta em defesa da saúde pública, continuámos, como prometemos, em regime de teletrabalho,  mantendo a actualização regular  do “site”, por considerarmos importante  para os jornalistas  ter à sua disposição um espaço, desenhado a  rigor,  com o retrato diário  dos factos e tendências  mais relevantes que foram acontecendo no mundo mediático durante a crise.

É um trabalho sempre  incompleto, até porque a crise, com origem no vírus, veio aprofundar e agravar a outra crise estrutural já existente, em particular, na Imprensa.    

Mas o Clube foi recompensado por não ter desistido,  com o aumento significativo  da projecção  deste “site”, na ordem dos  63,2% de utilizadores regulares, comparativamente com o ano anterior, medidos pela Google Analytics.

Note–se que se verificou este  crescimento não obstante o “site” ter sido vítima, por duas vezes, de ataques informáticos, que nos bloquearam durante vários dias.  

É uma excelente “performance” que nos apraz partilhar com os associados e outros frequentadores interessados em conhecer, a par e passo,  os problemas que estão dominar os media, sem esquecer a inovação e a criatividade, factores  indispensáveis para salvar muitos  projectos.

Concluímos hoje  como o fizemos há meses, quando precisámos de mudar de rotinas, perante o vírus instalado entre nós: Contem com o Clube como o Clube deseja contar convosco.


ver mais >
Opinião
À medida que a pandemia parece mais controlada e o regresso ao trabalho se faz, conforme as regras de desconfinamento gradual, instalou-se uma “guerra mediática” de contornos invulgares, favorecida pela trapalhada da distribuição de apoios anunciados pelo governo, supostamente,  através da compra antecipada de espaço para publicidade institucional. Primeiro assistiu-se a uma “guerra “ privada, entre a Cofina e o...
Numa era digital, marcada por uma constante e acelerada mudança, caracterizada por um globalismo padronizador de culturas e de costumes, muitas indústrias e profissões estão a alterar-se totalmente, ou até mesmo a desaparecer. Tudo isto se passa num ritmo freneticamente acelerado, que nos afoga literalmente num caudal de informação, muitas vezes difícil de filtrar e descodificar em tempo útil. A evolução...
As suas vendas desceram, os clientes atrasaram-se a pagar, os fornecedores pressionam para receber, a tesouraria está apertada? O que fazer? – Claro que vai ver onde se pode cortar custos, ao mesmo tempo que se prepara o retomar de actividades. E um dos primeiros cortes para muitas empresas é na comunicação e na publicidade. “O dinheiro não chega para tudo, tem que se escolher”, pensa quem faz o corte. No fundo consideram que no...
Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo? Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais....
O paradoxo mediático
Francisco Sarsfield Cabral
Em toda a parte, ou quase, a pandemia causada pelo coronavírus fechou em casa muitos milhões de pessoas, para evitarem ser contaminadas. Um dos efeitos desse confinamento foi terem aumentado as audiências de televisão. Por outro lado, as pessoas precisam de informação, por isso o estado de emergência em Portugal mantém abertos os quiosques, que vendem jornais.   Melhores tempos para a comunicação social? Nem por isso,...
Agenda
15
Jun
Jornalismo Empreendedor
18:30 @ Cenjor
17
Jun
Congresso Mundial de "Media"
10:00 @ Saragoça
18
Jun
Stereo and Immersive Media 2020
09:30 @ Universidade Lusófona
22
Jun
15
Out
Conferência sobre a história do jornalismo em Portugal
10:00 @ Universidade Nova de Lisboa -- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas