Quarta-feira, 17 de Julho, 2019
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Abecedário para combater vulnerabilidade à desinformação

A facilidade com que se propaga a desinformação nas redes sociais tem vindo a ser objecto de estudo, para identificar as suas causas e propor um antídoto eficaz. O simples facto de os conteúdos de fraca qualidade se espalharem tão depressa sugere que, tanto as pessoas como os algoritmos na estrutura das plataformas, são vulneráveis à manipulação. Dois investigadores na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, procuraram identificar três tipos dominantes de preconceito, ou tendenciosismo, e os seus espaços de actuação, para desenvolverem depois as ferramentas tecnológicas indicadas para tornar as pessoas conscientes desses perigos e agirem em conformidade. 

Segundo o seu estudo, a “parcialidade” que nos torna vulneráveis ao engano pode revelar-se desde logo no cérebro, viciando o processo cognitivo; ou na sociedade, por efeito de imitação e “câmara de eco”; ou nos aparelhos que usamos, computadores ou telemóveis, por desvio do objectivo inicial dos algoritmos instalados. 

O nosso primeiro problema é que o cérebro está preparado para lidar com uma quantidade finita de informação, e o excesso de estímulos pode causar um efeito de sobrecarga. A “competição intensa pela atenção limitada dos utentes implica que determinadas ideias se tornam ‘virais’ apesar da sua fraca qualidade, e mesmo que as pessoas prefiram partilhar conteúdos de alta qualidade”. 

O acto de decidirmos se fazemos ou não o reenvio de uma história acabada de chegar deixa-nos mais vulneráveis, por exemplo, às conotações emocionais de um título  - que pode não ser o melhor critério sobre a sua autenticidade. “É mais importante saber quem o escreveu.” 

Em termos de relações sociais, tendemos a identificar-nos, no nosso tráfego online, cada vez mais com um grupo determinado. A investigação citada pelos dois autores revela que “é possível determinar a inclinação política de um utente do Twitter olhando simplesmente para as preferências partidárias dos seus amigos”. 

A estrutura destes grupos torna-os muito eficazes na partilha de informação  - verdadeira ou não  - “quando são muito coesos e desligados de outras partes da sociedade”. Isto explica de que modo tantas conversas online descambam em confrontos de “nós contra eles”. 

O terceiro tipo de tendenciosismo vem directamente dos algoritmos usados tanto pelas plataformas das redes sociais como pelos motores de busca. Estas “tecnologias de personalização” reforçam as preferências detectadas, tornando os utentes cada vez mais vulneráveis à manipulação. 

“Por exemplo, as ferramentas de publicidade inseridas em muitas plataformas de redes sociais permitem aos autores de campanhas de desinformação explorar as tendências de confirmação, fornecendo mensagens ajustadas a pessoas já inclinadas a acreditarem nelas.” (...) 

Para qualquer destes três territórios principais, os investigadores do estudo citado, no Observatory of Social Media da Universidade de Indiana, desenvolveram ferramentas específicas: 

Para o primeiro, apresentam Fakey, um jogo de literacia mediática destinado a dispositivos móveis, no qual se ganham pontos quando se faz o reenvio de notícias de fontes sérias ou se assinalam conteúdos suspeitos para fact-checking

Para o tendenciosismo de origem colectiva, propõem Hoaxy, um sistema que identifica de forma visual a disseminação de conteúdos de baixa credibilidade e o modo como estas disputam espaço aos esforços de fact-checking

Para o último, desenvolveram o Botometer, à letra um uma ferramenta para detectar robots sociais. “Não é perfeito, mas revelou que pelo menos 15% das contas do Twitter mostram sinais de que se trata de robots.” (...) 

“Ferramentas como estas oferecem aos utentes da Internet mais informação sobre a desinformação e, portanto, algum grau de protecção contra os seus malefícios. As soluções não serão exclusivamente tecnológicas, embora tenham provavelmente alguns aspectos técnicos. Mas devem ter em conta os aspectos cognitivos e sociais do problema.” 

O artigo citado, na íntegra, no NiemanLab, com um vídeo de apresentação destas ferramentas

Connosco
Confirma-se que as más notícias são as que correm mais depressa Ver galeria

Todos ouvimos alguma vez dizer, no início da profissão, que a aterragem segura de mil aviões não é notícia, mas o despenhamento de um só já passa a ser.
A classificação do que é “noticiável” teve sempre alguma preferência por esse lado negativo: “a guerra mais do que a paz, os crimes mais do que a segurança, o conflito mais do que o acordo”.

“Sabemos hoje que nem sempre a audiência segue estas escolhas; muitos encaram os noticiários como pouco mais do que uma fonte de irritação, impotência, ansiedade, stress  e um geral negativismo.”

Sabemos também que cresce a percentagem dos que já se recusam a “consumir” a informação jornalística dominante por terem esta mesma sensação.  

A reflexão inicial é de Joshua Benton, fundador e director do Nieman Journalism Lab, na Universidade de Harvard.

As questões “que incomodam” no Festival Internacional de Jornalismo Ver galeria

Jornalistas e gilets jaunes  tiveram, em Couthures, o seu frente-a-frente de revisão da matéria dada. Terminado o quarto Festival Internacional de Jornalismo, o jornal  Le Monde, seu organizador, conta agora, numa série de reportagens, o que se passou neste evento de Verão nas margens do rio Garonne  - e um dos pontos altos foi uma espécie de “Prós e Contras”, incluindo a sua grande-repórter Florence Aubenas, que encontrou a agressividade das ruas em Dezembro de 2018, mais Céline Pigalle, que chefia a redacção do canal BFM-TV, especialmente detestado pelos manifestantes, e do outro lado seis representantes assumidos do movimento, da região de Marmande.

O debate foi vivo, e a confrontação verbal, por vezes, agressiva. Houve também um esforço de esclarecimento e momentos de auto-crítica.  Depois do “julgamento” final, uma encenação com acusadores (o público), réus (os jornalistas), alguns reconhecendo-se culpados com “circunstâncias atenuantes”, outros assumindo o risco de “prisão perpétua”, a conclusão de uma participante:

“Ficam muito bem as boas decisões durante o Festival. Só que vocês vão esquecer durante onze meses, e voltam iguais para o ano que vem. Mas eu volto também e fico agradecida.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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“Fake news”, ontem e hoje
Francisco Sarsfield Cabral
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Agenda
01
Ago
Composição Fotográfica
09:00 @ Cenjor,Lisboa
21
Ago
Edinburgh TV Festival
09:00 @ Edinburgo, Escócia
27
Ago
Digital Broadcast Media Convention
09:00 @ Lagos, Nigéria
16
Set