Sexta-feira, 22 de Março, 2019
Fórum

Abecedário para combater vulnerabilidade à desinformação

A facilidade com que se propaga a desinformação nas redes sociais tem vindo a ser objecto de estudo, para identificar as suas causas e propor um antídoto eficaz. O simples facto de os conteúdos de fraca qualidade se espalharem tão depressa sugere que, tanto as pessoas como os algoritmos na estrutura das plataformas, são vulneráveis à manipulação. Dois investigadores na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, procuraram identificar três tipos dominantes de preconceito, ou tendenciosismo, e os seus espaços de actuação, para desenvolverem depois as ferramentas tecnológicas indicadas para tornar as pessoas conscientes desses perigos e agirem em conformidade. 

Segundo o seu estudo, a “parcialidade” que nos torna vulneráveis ao engano pode revelar-se desde logo no cérebro, viciando o processo cognitivo; ou na sociedade, por efeito de imitação e “câmara de eco”; ou nos aparelhos que usamos, computadores ou telemóveis, por desvio do objectivo inicial dos algoritmos instalados. 

O nosso primeiro problema é que o cérebro está preparado para lidar com uma quantidade finita de informação, e o excesso de estímulos pode causar um efeito de sobrecarga. A “competição intensa pela atenção limitada dos utentes implica que determinadas ideias se tornam ‘virais’ apesar da sua fraca qualidade, e mesmo que as pessoas prefiram partilhar conteúdos de alta qualidade”. 

O acto de decidirmos se fazemos ou não o reenvio de uma história acabada de chegar deixa-nos mais vulneráveis, por exemplo, às conotações emocionais de um título  - que pode não ser o melhor critério sobre a sua autenticidade. “É mais importante saber quem o escreveu.” 

Em termos de relações sociais, tendemos a identificar-nos, no nosso tráfego online, cada vez mais com um grupo determinado. A investigação citada pelos dois autores revela que “é possível determinar a inclinação política de um utente do Twitter olhando simplesmente para as preferências partidárias dos seus amigos”. 

A estrutura destes grupos torna-os muito eficazes na partilha de informação  - verdadeira ou não  - “quando são muito coesos e desligados de outras partes da sociedade”. Isto explica de que modo tantas conversas online descambam em confrontos de “nós contra eles”. 

O terceiro tipo de tendenciosismo vem directamente dos algoritmos usados tanto pelas plataformas das redes sociais como pelos motores de busca. Estas “tecnologias de personalização” reforçam as preferências detectadas, tornando os utentes cada vez mais vulneráveis à manipulação. 

“Por exemplo, as ferramentas de publicidade inseridas em muitas plataformas de redes sociais permitem aos autores de campanhas de desinformação explorar as tendências de confirmação, fornecendo mensagens ajustadas a pessoas já inclinadas a acreditarem nelas.” (...) 

Para qualquer destes três territórios principais, os investigadores do estudo citado, no Observatory of Social Media da Universidade de Indiana, desenvolveram ferramentas específicas: 

Para o primeiro, apresentam Fakey, um jogo de literacia mediática destinado a dispositivos móveis, no qual se ganham pontos quando se faz o reenvio de notícias de fontes sérias ou se assinalam conteúdos suspeitos para fact-checking

Para o tendenciosismo de origem colectiva, propõem Hoaxy, um sistema que identifica de forma visual a disseminação de conteúdos de baixa credibilidade e o modo como estas disputam espaço aos esforços de fact-checking

Para o último, desenvolveram o Botometer, à letra um uma ferramenta para detectar robots sociais. “Não é perfeito, mas revelou que pelo menos 15% das contas do Twitter mostram sinais de que se trata de robots.” (...) 

“Ferramentas como estas oferecem aos utentes da Internet mais informação sobre a desinformação e, portanto, algum grau de protecção contra os seus malefícios. As soluções não serão exclusivamente tecnológicas, embora tenham provavelmente alguns aspectos técnicos. Mas devem ter em conta os aspectos cognitivos e sociais do problema.” 

O artigo citado, na íntegra, no NiemanLab, com um vídeo de apresentação destas ferramentas

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


ver mais >
Opinião
A realidade choca. Um trabalho de investigação jornalística, publicado no Expresso,  apurou que Portugal tem 95 políticos a comentar nos media. É algo absolutamente inédito em qualquer parte do mundo, da Europa aos EUA. Nalguma coisa teríamos de ser inovadores, infelizmente, da pior maneira. É um “assalto”, que condiciona a opinião pública e constitui um simulacro de pluralismo, já que  o elenco...
Augusto Cid, uma obra quase monumental
António Gomes de Almeida
Com o falecimento de Augusto Cid, desaparece um dos mais conhecidos desenhadores de Humor portugueses, com uma obra que pode considerar-se quase monumental. Desenhou milhares de cartoons, fez livros, e até teve a suprema honra de ver parte da sua obra apreendida – depois do 25 de Abril (!) – e tornou-se conhecido, entre outras, por estas duas razões: pelas piadas sibilinas lançadas contra o general Ramalho Eanes, e por fazer parte do combativo grupo das...
Uma edição fraca
Manuel Falcão
Já se sabe que a revista “Monocle” é uma grande utilizadora criativa do conceito de conteúdos patrocinados, frequentemente dissimulados de forma editorial elegante e sedutora. O grafismo da revista continua contemporâneo, apesar de não ter tido muitas evoluções desde que foi lançada em 2007. Em contrapartida, o espaço ocupado por conteúdos patrocinados tem vindo sempre a aumentar, por vezes demais, até se...
Duas atitudes face ao jornalismo
Francisco Sarsfield Cabral
No recente encontro em Roma, no Vaticano, sobre o dramático caso dos abusos sexuais por elementos do clero católico, a vários níveis, ouviram-se vozes agradecendo a jornalistas que investigaram e divulgaram abusos. É uma justa atitude.  Dir-se-á que alguns jornalistas terão procurado o escândalo e, também, denegrir a imagem da Igreja. Talvez. Mas o verdadeiro escândalo é que padres, bispos e cardeais, em vez de...
Jornalismo a meia-haste
Graça Franco
Atropelados pela ditadura do entretenimento, podemos enquanto “informadores” desde já colocar a bandeira a meia-haste. O jornalismo não está a morrer. Está a cometer suicídio em direto. Temi que algum jornalista se oferecesse para partilhar a cadeia com Armando Vara, só para ver como este se sentia “já lá dentro”. A porta ia-se fechando, em câmara lenta, e o enxame de microfones não largava a presa. O...
Agenda
30
Mar
Google Analytics para Jornalistas
09:00 @ Cenjor,Lisboa
31
Mar
Radiodays Europe
09:00 @ Lausanne, Suiça
01
Abr
Digital Media Europe 2019
09:00 @ Viena,Áustria
08
Abr
25
Abr
Social Media Camp
09:00 @ Victoria, Canada