Quarta-feira, 19 de Setembro, 2018
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Abecedário para combater vulnerabilidade à desinformação

A facilidade com que se propaga a desinformação nas redes sociais tem vindo a ser objecto de estudo, para identificar as suas causas e propor um antídoto eficaz. O simples facto de os conteúdos de fraca qualidade se espalharem tão depressa sugere que, tanto as pessoas como os algoritmos na estrutura das plataformas, são vulneráveis à manipulação. Dois investigadores na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, procuraram identificar três tipos dominantes de preconceito, ou tendenciosismo, e os seus espaços de actuação, para desenvolverem depois as ferramentas tecnológicas indicadas para tornar as pessoas conscientes desses perigos e agirem em conformidade. 

Segundo o seu estudo, a “parcialidade” que nos torna vulneráveis ao engano pode revelar-se desde logo no cérebro, viciando o processo cognitivo; ou na sociedade, por efeito de imitação e “câmara de eco”; ou nos aparelhos que usamos, computadores ou telemóveis, por desvio do objectivo inicial dos algoritmos instalados. 

O nosso primeiro problema é que o cérebro está preparado para lidar com uma quantidade finita de informação, e o excesso de estímulos pode causar um efeito de sobrecarga. A “competição intensa pela atenção limitada dos utentes implica que determinadas ideias se tornam ‘virais’ apesar da sua fraca qualidade, e mesmo que as pessoas prefiram partilhar conteúdos de alta qualidade”. 

O acto de decidirmos se fazemos ou não o reenvio de uma história acabada de chegar deixa-nos mais vulneráveis, por exemplo, às conotações emocionais de um título  - que pode não ser o melhor critério sobre a sua autenticidade. “É mais importante saber quem o escreveu.” 

Em termos de relações sociais, tendemos a identificar-nos, no nosso tráfego online, cada vez mais com um grupo determinado. A investigação citada pelos dois autores revela que “é possível determinar a inclinação política de um utente do Twitter olhando simplesmente para as preferências partidárias dos seus amigos”. 

A estrutura destes grupos torna-os muito eficazes na partilha de informação  - verdadeira ou não  - “quando são muito coesos e desligados de outras partes da sociedade”. Isto explica de que modo tantas conversas online descambam em confrontos de “nós contra eles”. 

O terceiro tipo de tendenciosismo vem directamente dos algoritmos usados tanto pelas plataformas das redes sociais como pelos motores de busca. Estas “tecnologias de personalização” reforçam as preferências detectadas, tornando os utentes cada vez mais vulneráveis à manipulação. 

“Por exemplo, as ferramentas de publicidade inseridas em muitas plataformas de redes sociais permitem aos autores de campanhas de desinformação explorar as tendências de confirmação, fornecendo mensagens ajustadas a pessoas já inclinadas a acreditarem nelas.” (...) 

Para qualquer destes três territórios principais, os investigadores do estudo citado, no Observatory of Social Media da Universidade de Indiana, desenvolveram ferramentas específicas: 

Para o primeiro, apresentam Fakey, um jogo de literacia mediática destinado a dispositivos móveis, no qual se ganham pontos quando se faz o reenvio de notícias de fontes sérias ou se assinalam conteúdos suspeitos para fact-checking

Para o tendenciosismo de origem colectiva, propõem Hoaxy, um sistema que identifica de forma visual a disseminação de conteúdos de baixa credibilidade e o modo como estas disputam espaço aos esforços de fact-checking

Para o último, desenvolveram o Botometer, à letra um uma ferramenta para detectar robots sociais. “Não é perfeito, mas revelou que pelo menos 15% das contas do Twitter mostram sinais de que se trata de robots.” (...) 

“Ferramentas como estas oferecem aos utentes da Internet mais informação sobre a desinformação e, portanto, algum grau de protecção contra os seus malefícios. As soluções não serão exclusivamente tecnológicas, embora tenham provavelmente alguns aspectos técnicos. Mas devem ter em conta os aspectos cognitivos e sociais do problema.” 

O artigo citado, na íntegra, no NiemanLab, com um vídeo de apresentação destas ferramentas

Connosco
Plataformas tecnológicas estão a sentar-se no coração do jornalismo Ver galeria

Na relação difícil que se tem desenvolvido, nestes últimos anos, entre as plataformas tecnológicas e os publishers dos media, a iniciativa foi sempre das primeiras e a intimidade nunca foi tanta como agora, com as plataformas “a tomarem mais decisões deliberadas que afectam o jornalismo e a colocação e distribuição das notícias”. Embora já haja editores a praticarem um “desacoplamento consciente” da sua dependência das plataformas, do lado destas vem um movimento muito claro de se envolverem cada vez mais no “apoio financeiro directo a determinados tipos de jornalismo”. Isto significa que plataformas “movidas pelo lucro” estão a “sentar-se desconfortavelmente no coração do jornalismo e das notícias”.

É esta a reflexão inicial de Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism  - que esteve em Lisboa, na cimeira da Global Editors Network -  no texto de apresentação de um relatório sobre o estado das relações entre publishers e plataformas.

Empresas de Media alimentam monstros que as fazem passar fome... Ver galeria

Tanto a Google como o Facebook têm estado a enviar dinheiro para apoio a projectos jornalísticos. Só nestes últimos três anos, as duas empresas juntas já destinaram mais de 500 milhões de dólares a vários programas ou parcerias com os media. Estas mega plataformas contam-se agora entre as maiores financiadoras do jornalismo. A ironia é que foi o desmantelamento da publicidade tradicional, em grande parte cometido por elas, que deixou as empresas jornalísticas neste sufoco de necessidade. O resultado é uma aliança disfuncional. Mesmo os que recebem estes apoios acham que as doações são “dinheiro culpado”, enquanto as gigantes tecnológicas procuram melhorar a imagem e conquistar amigos numa comunidade jornalística que  - sobretudo agora -  parece abertamente hostil.

O Clube

Lançado em Novembro de 2015, este site do Clube Português de Imprensa tem desenvolvido, desde então, um trabalho de acompanhamento das tendências dominantes, quer no mercado de Imprensa, quer nos media audiovisuais em geral e na Internet em particular.

Interessa-nos, também, debater o jornalismo e o modo como é exercido, em Portugal e fora de fronteiras,  cumprindo um objectivo que está na génese desta Associação.


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