Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Opinião

A morte anunciada do “DN” em papel

por Dinis de Abreu

Ao ler no centenário “Diário de Noticias” a noticia da extinção formal da sua edição em papel, de Segunda–Feira a Sábado , a partir de Julho, fica a saber-se que o seu actual director, o  jornalista Ferreira Fernandes, entrou em “oito cafés(…) a caminho do cinema S. Jorge onde decorreu a apresentação do novo jornal” e só “contou três pessoas a ler o jornal em papel”.   

Feito este exaustivo (e cansativo) inquérito de rua, o mesmo director concluiu, segundo ainda o “DN”,  que os únicos dias onde "há recorde de vendas em banca" são os sábados e os domingos. E, com base nesta expressiva amostragem, detectada  em “oito cafés”, é feito o enquadramento editorial para uma mudança histórica de um jornal, que se despede, na prática, das bancas, onde regista vendas residuais.

Depois de  trocar um edifício construído de raiz para ser a sua sede,  na avenida da Liberdade, pela quase anonimato num condomínio partilhado numa das Torres Lisboa, o vetusto “DN”, que já foi de referência , quase desiste do papel em que arquivou século e meio de História portuguesa, e envereda pelo digital, com uma redacção  reduzida a metade da que tinha, quando era um matutino influente.

Nada que surpreenda. Os erros acumulados pagam-se caro e as dependências também. Publicar a única edição em papel ao domingo , quando os postos de venda estão reduzidos a um terço, é a prova de uma resignação. E uma desculpa para o futuro.

Bem pode Daniel Proença de Carvalho, investido no papel de “chairman” da empresa, anunciar que "o DN ultrapassou todas as crises porque soube rejuvenescer-se e adaptar-se às realidades".  É uma frase feita, inócua e piedosa, do advogado astucioso, há muito com um pé nos media.    

É uma afirmação tão gratuita e oca como a de proclamar que o “DN” deu “um salto para se aproximar dos seus leitores”. Só se foi um salto no escuro, perante a contínua  deserção de leitores.

É um facto que a Imprensa em suporte de papel tem vindo a perder terreno e Portugal não é excepção. Convirá, todavia, sublinhar, que as tiragens irrisórias a que desceu o “DN” não têm comparação com as de outros jornais, diários e semanários, que se publicam em Portugal.

Com este passo, o jornal fundado em 1864  por Eduardo Coelho recolhe ao digital e adopta, em papel,  uma camuflagem “multimarcas”, que constitui o novo jargão modernaço para impressionar os convertidos, a quem cabe recitar  o catecismo de uma religião na moda. Estamos assim.

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


ver mais >
Opinião