null, 24 de Março, 2019
Prémio

A religião do jornalismo é a decência para o Melhor Jornalista espanhol do Ano

Antonio García Ferreras, director do canal de televisão laSexta, foi reconhecido pela Asociación de la Prensa de Madrid como o Melhor Jornalista do Ano de 2017  -  com referência especial ao modo como conduziu a cobertura do conflito na Catalunha. Entrevistado pela APM  - com a qual mantemos um acordo de parceria -  García Ferreras assume que o prémio distingue toda a equipa que dirige, pelo seu nível de “cumplicidade e interligação”:

“As equipas têm que estar sempre acima dos egos. (...) Sem esse fio fundamental que une as diferentes pessoas que fazem parte da redacção, nada seria possível.”

“Esta profissão é melhor do que julgamos e por vezes esquecemos. Assenta em dois ou três códigos básicos que a tornam apaixonante. Para mim, um desses códigos é a humildade. Outro é a indignação diante das injustiças, em defesa da dignidade daqueles que têm menos voz ou menos força. Para mim, é isso que devia fazer parte do ADN do jornalismo.” 

“Mas não creio que seja a única função: indignação perante a injustiça, consciência crítica mas com humildade, contar o que está a acontecer e esforçar-se por revelar aquilo que os poderes acham que devia continuar escondido. Acho sempre que o melhor desinfectante numa sociedade é a luz do sol  - quer dizer, a transparência.” (...) 

Sobre as questões da desinformação, boatos e fake news, García Ferreras recorda que sempre as houve na profissão, estando agora mais aceleradas pela natureza das redes sociais. Defende que o antídoto é a valorização e procura constante da verdade, “mas praticando sempre a religião do jornalismo, que é a decência”: 

“O desafio principal do jornalismo é a decência. E é isso que traz, com o tempo, a credibilidade.” (...) 

E acrescenta que não é preciso qualificar (ou desqualificar) o jornalismo actual por comparação com o anterior: 

“Em todas as épocas há elementos que nos podem deslumbrar, de coragem, de seriedade, rigor e força, e outros muito mais questionáveis. (...) Há bom jornalismo a ser feito agora, como há mau jornalismo. Como sempre, mas num ecossistema diferente e com outras velocidades.” (...) 

Sobre o programa de debate que dirige, Al rojo vivo  -  por vezes louvado por estar a fazer o “serviço público” que nem sempre fará a própria televisão estatal, ou, por outras pessoas, criticado pelo ambiente de “debate crispado” em que pode cair, García Ferreras responde: 

“Fazemos aquilo que cremos que temos de fazer. (...) Creio que todos os jornalistas procuram fazer um serviço público, estejam onde estiverem. Não discutimos se somos os substitutos de qualquer televisão pública. Fazemo-lo porque acreditamos nele.” (...) 

“Não gosto dos programas de debate político com crispação ou com briga. Creio que a paixão é aceitável. A emoção, a paixão, o debate, o cruzamento de opiniões diferentes.” (...) 

“É verdade que o tom de voz, neste tipo de debate, pode ficar crispado. Mas eu afasto-me da crispação, não gosto, mesmo que algumas pessoas achem que isso pode dar audiência. Não me interessa a audiência se é assente na crispação. O que me interessa é a informação, as chaves [de compreensão], procurar  decifrar as causas do que acontece.” (...) 

E em resposta à pergunta sobre se se considera um jornalista “incómodo, combativo e insistente”, afirma: 

“O jornalismo crítico significa arriscar. O jornalismo não pode ter sangue de cobarde, e isso faz com que, por vezes, sejamos incómodos e nos coloquemos em posições que, evidentemente, inplicam que não nos levantamos de manhã para fazer amigos. Acredito num jornalismo que tenha capacidade de incomodar o poder. E quando falo do poder não é só do governo, mas dos poderes: financeiros, políticos, empresariais, laborais...”

 

A entrevista na íntegra, na APM

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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