Sábado, 25 de Maio, 2019
Prémio

A religião do jornalismo é a decência para o Melhor Jornalista espanhol do Ano

Antonio García Ferreras, director do canal de televisão laSexta, foi reconhecido pela Asociación de la Prensa de Madrid como o Melhor Jornalista do Ano de 2017  -  com referência especial ao modo como conduziu a cobertura do conflito na Catalunha. Entrevistado pela APM  - com a qual mantemos um acordo de parceria -  García Ferreras assume que o prémio distingue toda a equipa que dirige, pelo seu nível de “cumplicidade e interligação”:

“As equipas têm que estar sempre acima dos egos. (...) Sem esse fio fundamental que une as diferentes pessoas que fazem parte da redacção, nada seria possível.”

“Esta profissão é melhor do que julgamos e por vezes esquecemos. Assenta em dois ou três códigos básicos que a tornam apaixonante. Para mim, um desses códigos é a humildade. Outro é a indignação diante das injustiças, em defesa da dignidade daqueles que têm menos voz ou menos força. Para mim, é isso que devia fazer parte do ADN do jornalismo.” 

“Mas não creio que seja a única função: indignação perante a injustiça, consciência crítica mas com humildade, contar o que está a acontecer e esforçar-se por revelar aquilo que os poderes acham que devia continuar escondido. Acho sempre que o melhor desinfectante numa sociedade é a luz do sol  - quer dizer, a transparência.” (...) 

Sobre as questões da desinformação, boatos e fake news, García Ferreras recorda que sempre as houve na profissão, estando agora mais aceleradas pela natureza das redes sociais. Defende que o antídoto é a valorização e procura constante da verdade, “mas praticando sempre a religião do jornalismo, que é a decência”: 

“O desafio principal do jornalismo é a decência. E é isso que traz, com o tempo, a credibilidade.” (...) 

E acrescenta que não é preciso qualificar (ou desqualificar) o jornalismo actual por comparação com o anterior: 

“Em todas as épocas há elementos que nos podem deslumbrar, de coragem, de seriedade, rigor e força, e outros muito mais questionáveis. (...) Há bom jornalismo a ser feito agora, como há mau jornalismo. Como sempre, mas num ecossistema diferente e com outras velocidades.” (...) 

Sobre o programa de debate que dirige, Al rojo vivo  -  por vezes louvado por estar a fazer o “serviço público” que nem sempre fará a própria televisão estatal, ou, por outras pessoas, criticado pelo ambiente de “debate crispado” em que pode cair, García Ferreras responde: 

“Fazemos aquilo que cremos que temos de fazer. (...) Creio que todos os jornalistas procuram fazer um serviço público, estejam onde estiverem. Não discutimos se somos os substitutos de qualquer televisão pública. Fazemo-lo porque acreditamos nele.” (...) 

“Não gosto dos programas de debate político com crispação ou com briga. Creio que a paixão é aceitável. A emoção, a paixão, o debate, o cruzamento de opiniões diferentes.” (...) 

“É verdade que o tom de voz, neste tipo de debate, pode ficar crispado. Mas eu afasto-me da crispação, não gosto, mesmo que algumas pessoas achem que isso pode dar audiência. Não me interessa a audiência se é assente na crispação. O que me interessa é a informação, as chaves [de compreensão], procurar  decifrar as causas do que acontece.” (...) 

E em resposta à pergunta sobre se se considera um jornalista “incómodo, combativo e insistente”, afirma: 

“O jornalismo crítico significa arriscar. O jornalismo não pode ter sangue de cobarde, e isso faz com que, por vezes, sejamos incómodos e nos coloquemos em posições que, evidentemente, inplicam que não nos levantamos de manhã para fazer amigos. Acredito num jornalismo que tenha capacidade de incomodar o poder. E quando falo do poder não é só do governo, mas dos poderes: financeiros, políticos, empresariais, laborais...”

 

A entrevista na íntegra, na APM

Connosco
Prémios Europeus de Jornalismo privilegiam grandes reportagens Ver galeria

Foram designados os vencedores do European Press Prize, que contempla, desde 2013, os melhores trabalhos do jornalismo europeu, como uma espécie de equivalente europeu do famoso Prémio Pulitzer nos EUA. A cerimónia de atribuição, realizada na sede do diário Gazeta Wyborcza, em Varsóvia, nomeou cinco meios de comunicação e a rede de jornalistas  Forbidden Stories, que prossegue e procura concluir as reportagens de investigação de profissionais que deram a vida por elas.

Os jornais onde foram publicados os trabalhos premiados são a Der Spiegel, o El País Semanal e o Süddeutsche Zeitung Magazin, The Guardian e o site de jornalismo de investigação Bellingcat, no Reino Unido. O júri, que examinou centenas de trabalhos vindos de toda a Europa, era constituído po Sir Harold Evans, da Reuters, Sylvie Kauffmann, de Le Monde, Jorgen Ejbol, do Jyllands-Posten, Yevgenia Albats, de The New Times, e Alexandra Föderl-Schmidt, do Süddeutsche Zeitung.

Crise actual do jornalismo é "diferente de todas as que já teve" Ver galeria

O jornalismo “já não é mais o que era antigamente, e as pessoas e as sociedades relacionam-se hoje de forma distinta, muitas vezes abrindo mão do jornalismo para isso”. Em consequência, o jornalismo “está numa crise diferente de todas as que já teve: não é só financeira, mas política, ética, de credibilidade, de governança”.

“Mas é importante ter em mente que não se pode resolver um problema tão complexo assim com uma bala de prata, com uma tacada perfeita. A crise afecta profissionais, públicos e organizações de forma distinta, inclusive porque tem escalas distintas. Um pequeno jornal do interior é afectado pela crise de um modo e não pode responder a ela como um New York Times. A crise é frenética, dinâmica e complexa. Enfrentá-la é urgente.”

Esta reflexão é de Rogério Christofoletti , docente de jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, que sintetiza o seu pensamento sobre esta matéria num livro acabado de lançar  - “A crise do jornalismo tem solução?” -  e responde a uma entrevista no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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