Sábado, 17 de Agosto, 2019
Prémio

A religião do jornalismo é a decência para o Melhor Jornalista espanhol do Ano

Antonio García Ferreras, director do canal de televisão laSexta, foi reconhecido pela Asociación de la Prensa de Madrid como o Melhor Jornalista do Ano de 2017  -  com referência especial ao modo como conduziu a cobertura do conflito na Catalunha. Entrevistado pela APM  - com a qual mantemos um acordo de parceria -  García Ferreras assume que o prémio distingue toda a equipa que dirige, pelo seu nível de “cumplicidade e interligação”:

“As equipas têm que estar sempre acima dos egos. (...) Sem esse fio fundamental que une as diferentes pessoas que fazem parte da redacção, nada seria possível.”

“Esta profissão é melhor do que julgamos e por vezes esquecemos. Assenta em dois ou três códigos básicos que a tornam apaixonante. Para mim, um desses códigos é a humildade. Outro é a indignação diante das injustiças, em defesa da dignidade daqueles que têm menos voz ou menos força. Para mim, é isso que devia fazer parte do ADN do jornalismo.” 

“Mas não creio que seja a única função: indignação perante a injustiça, consciência crítica mas com humildade, contar o que está a acontecer e esforçar-se por revelar aquilo que os poderes acham que devia continuar escondido. Acho sempre que o melhor desinfectante numa sociedade é a luz do sol  - quer dizer, a transparência.” (...) 

Sobre as questões da desinformação, boatos e fake news, García Ferreras recorda que sempre as houve na profissão, estando agora mais aceleradas pela natureza das redes sociais. Defende que o antídoto é a valorização e procura constante da verdade, “mas praticando sempre a religião do jornalismo, que é a decência”: 

“O desafio principal do jornalismo é a decência. E é isso que traz, com o tempo, a credibilidade.” (...) 

E acrescenta que não é preciso qualificar (ou desqualificar) o jornalismo actual por comparação com o anterior: 

“Em todas as épocas há elementos que nos podem deslumbrar, de coragem, de seriedade, rigor e força, e outros muito mais questionáveis. (...) Há bom jornalismo a ser feito agora, como há mau jornalismo. Como sempre, mas num ecossistema diferente e com outras velocidades.” (...) 

Sobre o programa de debate que dirige, Al rojo vivo  -  por vezes louvado por estar a fazer o “serviço público” que nem sempre fará a própria televisão estatal, ou, por outras pessoas, criticado pelo ambiente de “debate crispado” em que pode cair, García Ferreras responde: 

“Fazemos aquilo que cremos que temos de fazer. (...) Creio que todos os jornalistas procuram fazer um serviço público, estejam onde estiverem. Não discutimos se somos os substitutos de qualquer televisão pública. Fazemo-lo porque acreditamos nele.” (...) 

“Não gosto dos programas de debate político com crispação ou com briga. Creio que a paixão é aceitável. A emoção, a paixão, o debate, o cruzamento de opiniões diferentes.” (...) 

“É verdade que o tom de voz, neste tipo de debate, pode ficar crispado. Mas eu afasto-me da crispação, não gosto, mesmo que algumas pessoas achem que isso pode dar audiência. Não me interessa a audiência se é assente na crispação. O que me interessa é a informação, as chaves [de compreensão], procurar  decifrar as causas do que acontece.” (...) 

E em resposta à pergunta sobre se se considera um jornalista “incómodo, combativo e insistente”, afirma: 

“O jornalismo crítico significa arriscar. O jornalismo não pode ter sangue de cobarde, e isso faz com que, por vezes, sejamos incómodos e nos coloquemos em posições que, evidentemente, inplicam que não nos levantamos de manhã para fazer amigos. Acredito num jornalismo que tenha capacidade de incomodar o poder. E quando falo do poder não é só do governo, mas dos poderes: financeiros, políticos, empresariais, laborais...”

 

A entrevista na íntegra, na APM

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

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Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

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