Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Colectânea

Plataformas tecnológicas estão a sentar-se no coração do jornalismo

Na relação difícil que se tem desenvolvido, nestes últimos anos, entre as plataformas tecnológicas e os publishers dos media, a iniciativa foi sempre das primeiras e a intimidade nunca foi tanta como agora, com as plataformas “a tomarem mais decisões deliberadas que afectam o jornalismo e a colocação e distribuição das notícias”. Embora já haja editores a praticarem um “desacoplamento consciente” da sua dependência das plataformas, do lado destas vem um movimento muito claro de se envolverem cada vez mais no “apoio financeiro directo a determinados tipos de jornalismo”. Isto significa que plataformas “movidas pelo lucro” estão a “sentar-se desconfortavelmente no coração do jornalismo e das notícias”.

É esta a reflexão inicial de Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism  - que esteve em Lisboa, na cimeira da Global Editors Network -  no texto de apresentação de um relatório sobre o estado das relações entre publishers e plataformas.

E a autora prossegue advertindo que os jornalistas têm de continuar a lembrar-se de que, por muito que estejam em parcerias com as plataformas, “estas empresas são muito maiores do que as notícias  - [porque] estão envolvidas em todos os aspectos da vida cívica”: 

“Se vocês forem uma redacção local apoiada por dinheiro da Google, como é que vão sentir-se numa investigação sobre os contratos que a Google está a assinar com as vossas escolas locais, ou a vossa autarquia, o vosso hospital, ou qualquer outra área onde a empresa está a distribuir sofware?” (...) 

Emily Bell apresenta um relatório acabado de publicar pelo Tow Center, intitulado  -  “Friend and Foe: The Platform Press at the Heart of Journalism”, elaborado a partir de entrevistas em 44 redacções e seis destas plataformas, dois anos de análise de conteúdos e dados e uma sondagem recente feita junto de 1100 jornalistas no activo. 

“Os jornalistas têm uma relação de conflito com as plataformas das redes sociais: enquanto a maioria reconhece que adaptou as práticas na redacção em resposta às plataformas, uma esmagadora maioria (86%) sente que as redes sociais contribuíram para o declínio de confiança no jornalismo. Mas continuam a usar vigorosamente as mesmas plataformas, e parecem ter respondido positivamente aos esforços de contacto feitos particularmente pela Google.” 

A abrir uma síntese dos principais pontos do relatório, a autora adianta: 

“A aparente natureza tóxica da retórica contra as empresas tecnológicas, de modo geral, e especialmente contra o Facebook, não parece ter diminuído a quantidade de material [noticioso] que os editores enviam pelas plataformas sociais. Verifica-se, no entanto, um ajustamento nítido, da parte destes, para não criarem material que viva exclusivamente em plataformas de terceiros.” 

“À medida que os editores exercem esse ‘desacoplamento consciente’ da influência das redes sociais, as empresas das plataformas intensificam os seus próprios esforços de permanecerem envolvidas na formação do futuro do jornalismo. Se isto é uma estratégia a longo prazo, ou uma iniciativa de relações públicas, veremos.” (...) 

Dos doze websites (os grandes jornais de referência, a CNN e os mais conhecidos órgãos digitais) que foram seguidos durante mais de um ano e meio, nesta investigação, verificou-se que os maiores, e dotados de mais recursos, “consistentemente colocaram mais conteúdos numa gama mais larga de plataformas”. Os mais pequenos “concentraram-se quase inteiramente na Apple News, no Facebook e no Twitter”. Isto foi particularmente claro nos casos de três jornais metropolitanos, o Chicago Tribune, Los Angeles Times e New York Daily News

“As plataformas continuam a moldar tanto o estilo como a substância dos conteúdos editoriais, directa ou indirectamente” [a autora fornece exemplos concretos]. (...) Não há sinais de que isto vá mudar. (...) Um editor contou-nos que as plataformas procuram mais contratos ‘tipo Netflix’ e tratam os publishers como empresas de produção.” (...) 

“As actuais estratégias das plataformas quanto à publicação de notícias estão a ser menos moldadas pelas forças do mercado e mais por uma mistura de dever cívico e receio da regulação. Isto leva à adoptão de práticas ‘editoriais’ muito mais explícitas por parte das plataformas, incluindo a contratação de mais jornalistas no activo, moderadores humanos e empenhamento em estratégias para promover um notíciário de ‘melhor qualidade’. Isto vai inevitavelmente conduzir a um ponto em que as empresas tecnológicas estarão a exercer uma grande influência na decisão de quais publishers vão beneficiar das suas envolventes, e que notícias vão os consumidores ver nos seus portais ou resultados de pesquisa.” (...) 

Emily Bell conclui citando uma intervenção recente de Mark Thompson, director-executivo da The New York Times Company, num debate co-promovido pelo Tow Center sobre os efeitos de um poder monopolista sobre o jornalismo. 

Segundo conta, “enfrentamos agora uma ameaça imediata [à independência editorial], proveniente do facto de que a lista de passos errados, com os dados pessoais e com conteúdos extremistas e de ódio, cometidos pelo Facebook, vai levar a uma tentativa ingénua de ele se assumir como uma espécie de editor-chefe do digital em todo o mundo, dando prioridade e presumivelmente despromovendo ou rejeitando conteúdos por um critério de avaliação assente em sondagens e dados, para decidir se o fonecedor desses conteúdos é ‘geralmente confiável’ ou não”. 

“Thompson acrescentou que uma pluralidade de pontos de vista em espaços abertos é o modo como o jornalismo funciona melhor, e que re-alimentar o processo de decisão editorial com pontos de vista sobre confiança, vindos de maiorias transitórias, ‘é profundamente perigoso’.” (...)

 

O artigo citado, na íntegra, na Columbia Journalism Review,  e o relatório apresentado por Emily Bell

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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