null, 24 de Março, 2019
Colectânea

Plataformas tecnológicas estão a sentar-se no coração do jornalismo

Na relação difícil que se tem desenvolvido, nestes últimos anos, entre as plataformas tecnológicas e os publishers dos media, a iniciativa foi sempre das primeiras e a intimidade nunca foi tanta como agora, com as plataformas “a tomarem mais decisões deliberadas que afectam o jornalismo e a colocação e distribuição das notícias”. Embora já haja editores a praticarem um “desacoplamento consciente” da sua dependência das plataformas, do lado destas vem um movimento muito claro de se envolverem cada vez mais no “apoio financeiro directo a determinados tipos de jornalismo”. Isto significa que plataformas “movidas pelo lucro” estão a “sentar-se desconfortavelmente no coração do jornalismo e das notícias”.

É esta a reflexão inicial de Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism  - que esteve em Lisboa, na cimeira da Global Editors Network -  no texto de apresentação de um relatório sobre o estado das relações entre publishers e plataformas.

E a autora prossegue advertindo que os jornalistas têm de continuar a lembrar-se de que, por muito que estejam em parcerias com as plataformas, “estas empresas são muito maiores do que as notícias  - [porque] estão envolvidas em todos os aspectos da vida cívica”: 

“Se vocês forem uma redacção local apoiada por dinheiro da Google, como é que vão sentir-se numa investigação sobre os contratos que a Google está a assinar com as vossas escolas locais, ou a vossa autarquia, o vosso hospital, ou qualquer outra área onde a empresa está a distribuir sofware?” (...) 

Emily Bell apresenta um relatório acabado de publicar pelo Tow Center, intitulado  -  “Friend and Foe: The Platform Press at the Heart of Journalism”, elaborado a partir de entrevistas em 44 redacções e seis destas plataformas, dois anos de análise de conteúdos e dados e uma sondagem recente feita junto de 1100 jornalistas no activo. 

“Os jornalistas têm uma relação de conflito com as plataformas das redes sociais: enquanto a maioria reconhece que adaptou as práticas na redacção em resposta às plataformas, uma esmagadora maioria (86%) sente que as redes sociais contribuíram para o declínio de confiança no jornalismo. Mas continuam a usar vigorosamente as mesmas plataformas, e parecem ter respondido positivamente aos esforços de contacto feitos particularmente pela Google.” 

A abrir uma síntese dos principais pontos do relatório, a autora adianta: 

“A aparente natureza tóxica da retórica contra as empresas tecnológicas, de modo geral, e especialmente contra o Facebook, não parece ter diminuído a quantidade de material [noticioso] que os editores enviam pelas plataformas sociais. Verifica-se, no entanto, um ajustamento nítido, da parte destes, para não criarem material que viva exclusivamente em plataformas de terceiros.” 

“À medida que os editores exercem esse ‘desacoplamento consciente’ da influência das redes sociais, as empresas das plataformas intensificam os seus próprios esforços de permanecerem envolvidas na formação do futuro do jornalismo. Se isto é uma estratégia a longo prazo, ou uma iniciativa de relações públicas, veremos.” (...) 

Dos doze websites (os grandes jornais de referência, a CNN e os mais conhecidos órgãos digitais) que foram seguidos durante mais de um ano e meio, nesta investigação, verificou-se que os maiores, e dotados de mais recursos, “consistentemente colocaram mais conteúdos numa gama mais larga de plataformas”. Os mais pequenos “concentraram-se quase inteiramente na Apple News, no Facebook e no Twitter”. Isto foi particularmente claro nos casos de três jornais metropolitanos, o Chicago Tribune, Los Angeles Times e New York Daily News

“As plataformas continuam a moldar tanto o estilo como a substância dos conteúdos editoriais, directa ou indirectamente” [a autora fornece exemplos concretos]. (...) Não há sinais de que isto vá mudar. (...) Um editor contou-nos que as plataformas procuram mais contratos ‘tipo Netflix’ e tratam os publishers como empresas de produção.” (...) 

“As actuais estratégias das plataformas quanto à publicação de notícias estão a ser menos moldadas pelas forças do mercado e mais por uma mistura de dever cívico e receio da regulação. Isto leva à adoptão de práticas ‘editoriais’ muito mais explícitas por parte das plataformas, incluindo a contratação de mais jornalistas no activo, moderadores humanos e empenhamento em estratégias para promover um notíciário de ‘melhor qualidade’. Isto vai inevitavelmente conduzir a um ponto em que as empresas tecnológicas estarão a exercer uma grande influência na decisão de quais publishers vão beneficiar das suas envolventes, e que notícias vão os consumidores ver nos seus portais ou resultados de pesquisa.” (...) 

Emily Bell conclui citando uma intervenção recente de Mark Thompson, director-executivo da The New York Times Company, num debate co-promovido pelo Tow Center sobre os efeitos de um poder monopolista sobre o jornalismo. 

Segundo conta, “enfrentamos agora uma ameaça imediata [à independência editorial], proveniente do facto de que a lista de passos errados, com os dados pessoais e com conteúdos extremistas e de ódio, cometidos pelo Facebook, vai levar a uma tentativa ingénua de ele se assumir como uma espécie de editor-chefe do digital em todo o mundo, dando prioridade e presumivelmente despromovendo ou rejeitando conteúdos por um critério de avaliação assente em sondagens e dados, para decidir se o fonecedor desses conteúdos é ‘geralmente confiável’ ou não”. 

“Thompson acrescentou que uma pluralidade de pontos de vista em espaços abertos é o modo como o jornalismo funciona melhor, e que re-alimentar o processo de decisão editorial com pontos de vista sobre confiança, vindos de maiorias transitórias, ‘é profundamente perigoso’.” (...)

 

O artigo citado, na íntegra, na Columbia Journalism Review,  e o relatório apresentado por Emily Bell

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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