Sábado, 17 de Agosto, 2019
Colectânea

Plataformas tecnológicas estão a sentar-se no coração do jornalismo

Na relação difícil que se tem desenvolvido, nestes últimos anos, entre as plataformas tecnológicas e os publishers dos media, a iniciativa foi sempre das primeiras e a intimidade nunca foi tanta como agora, com as plataformas “a tomarem mais decisões deliberadas que afectam o jornalismo e a colocação e distribuição das notícias”. Embora já haja editores a praticarem um “desacoplamento consciente” da sua dependência das plataformas, do lado destas vem um movimento muito claro de se envolverem cada vez mais no “apoio financeiro directo a determinados tipos de jornalismo”. Isto significa que plataformas “movidas pelo lucro” estão a “sentar-se desconfortavelmente no coração do jornalismo e das notícias”.

É esta a reflexão inicial de Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism  - que esteve em Lisboa, na cimeira da Global Editors Network -  no texto de apresentação de um relatório sobre o estado das relações entre publishers e plataformas.

E a autora prossegue advertindo que os jornalistas têm de continuar a lembrar-se de que, por muito que estejam em parcerias com as plataformas, “estas empresas são muito maiores do que as notícias  - [porque] estão envolvidas em todos os aspectos da vida cívica”: 

“Se vocês forem uma redacção local apoiada por dinheiro da Google, como é que vão sentir-se numa investigação sobre os contratos que a Google está a assinar com as vossas escolas locais, ou a vossa autarquia, o vosso hospital, ou qualquer outra área onde a empresa está a distribuir sofware?” (...) 

Emily Bell apresenta um relatório acabado de publicar pelo Tow Center, intitulado  -  “Friend and Foe: The Platform Press at the Heart of Journalism”, elaborado a partir de entrevistas em 44 redacções e seis destas plataformas, dois anos de análise de conteúdos e dados e uma sondagem recente feita junto de 1100 jornalistas no activo. 

“Os jornalistas têm uma relação de conflito com as plataformas das redes sociais: enquanto a maioria reconhece que adaptou as práticas na redacção em resposta às plataformas, uma esmagadora maioria (86%) sente que as redes sociais contribuíram para o declínio de confiança no jornalismo. Mas continuam a usar vigorosamente as mesmas plataformas, e parecem ter respondido positivamente aos esforços de contacto feitos particularmente pela Google.” 

A abrir uma síntese dos principais pontos do relatório, a autora adianta: 

“A aparente natureza tóxica da retórica contra as empresas tecnológicas, de modo geral, e especialmente contra o Facebook, não parece ter diminuído a quantidade de material [noticioso] que os editores enviam pelas plataformas sociais. Verifica-se, no entanto, um ajustamento nítido, da parte destes, para não criarem material que viva exclusivamente em plataformas de terceiros.” 

“À medida que os editores exercem esse ‘desacoplamento consciente’ da influência das redes sociais, as empresas das plataformas intensificam os seus próprios esforços de permanecerem envolvidas na formação do futuro do jornalismo. Se isto é uma estratégia a longo prazo, ou uma iniciativa de relações públicas, veremos.” (...) 

Dos doze websites (os grandes jornais de referência, a CNN e os mais conhecidos órgãos digitais) que foram seguidos durante mais de um ano e meio, nesta investigação, verificou-se que os maiores, e dotados de mais recursos, “consistentemente colocaram mais conteúdos numa gama mais larga de plataformas”. Os mais pequenos “concentraram-se quase inteiramente na Apple News, no Facebook e no Twitter”. Isto foi particularmente claro nos casos de três jornais metropolitanos, o Chicago Tribune, Los Angeles Times e New York Daily News

“As plataformas continuam a moldar tanto o estilo como a substância dos conteúdos editoriais, directa ou indirectamente” [a autora fornece exemplos concretos]. (...) Não há sinais de que isto vá mudar. (...) Um editor contou-nos que as plataformas procuram mais contratos ‘tipo Netflix’ e tratam os publishers como empresas de produção.” (...) 

“As actuais estratégias das plataformas quanto à publicação de notícias estão a ser menos moldadas pelas forças do mercado e mais por uma mistura de dever cívico e receio da regulação. Isto leva à adoptão de práticas ‘editoriais’ muito mais explícitas por parte das plataformas, incluindo a contratação de mais jornalistas no activo, moderadores humanos e empenhamento em estratégias para promover um notíciário de ‘melhor qualidade’. Isto vai inevitavelmente conduzir a um ponto em que as empresas tecnológicas estarão a exercer uma grande influência na decisão de quais publishers vão beneficiar das suas envolventes, e que notícias vão os consumidores ver nos seus portais ou resultados de pesquisa.” (...) 

Emily Bell conclui citando uma intervenção recente de Mark Thompson, director-executivo da The New York Times Company, num debate co-promovido pelo Tow Center sobre os efeitos de um poder monopolista sobre o jornalismo. 

Segundo conta, “enfrentamos agora uma ameaça imediata [à independência editorial], proveniente do facto de que a lista de passos errados, com os dados pessoais e com conteúdos extremistas e de ódio, cometidos pelo Facebook, vai levar a uma tentativa ingénua de ele se assumir como uma espécie de editor-chefe do digital em todo o mundo, dando prioridade e presumivelmente despromovendo ou rejeitando conteúdos por um critério de avaliação assente em sondagens e dados, para decidir se o fonecedor desses conteúdos é ‘geralmente confiável’ ou não”. 

“Thompson acrescentou que uma pluralidade de pontos de vista em espaços abertos é o modo como o jornalismo funciona melhor, e que re-alimentar o processo de decisão editorial com pontos de vista sobre confiança, vindos de maiorias transitórias, ‘é profundamente perigoso’.” (...)

 

O artigo citado, na íntegra, na Columbia Journalism Review,  e o relatório apresentado por Emily Bell

Connosco
História de um editor espanhol de sucesso em tempo de crise Ver galeria

No decorrer de uma década, e em plena crise económica e do jornalismo,  a Spainmedia ocupou o seu lugar de editora de revistas internacionais na área designada por  lifestyle  - trazendo para o mercado espanhol a versão local de marcas como a Esquire e a Forbes, entre outras.  A história do seu êxito neste espaço é também a de um jornalista, Andrés Rodríguez, que se torna um director editorial bem sucedido  -  e é essa, naturalmente, a primeira pergunta da entrevista que lhe é feita por Media-tics.

A sua resposta é que foi na base de “paixão, entusiasmo e inconsciência”, e muito por tentativa e erro. Logo acrescenta:

“Aprendi, também, a dirigir recursos humanos  - e que, se não formos rentáveis, fechamos mais tarde ou mais cedo. Os media podem sobreviver algum tempo sem rentabilidade mas, por fim, impõe-se a conta dos resultados.”

Reconhece que aprendeu muito na Prisa, mas ficou frustrado com a fronteira marcada entre o sector jornalístico e o financeiro e publicitário. Como explica,  “pensava que para fazer a minha revista eu tinha que poder vender, ter alianças, mas na Prisa isso não podia ser feito por um jornalista”:

“Se alguma coisa corria bem, resultava do êxito do jornalista e do gestor; se corria mal, era resultado do jornalista. Eu queria ser responsável pelo que fizesse mal.”

"Jornalismo de soluções" como mito ou alternativa Ver galeria

Muitos chegam ao jornalismo com o sonho de fazer reportagem que comunique “impacto, conhecimento e inspiração”. Mas quando encontram o espaço ocupado principalmente por notícias negativas, sem caminho de saída, desanimam e chegam a desistir da profissão.

A jornalista argentina Liza Gross conta que passou por isto, tendo deixado o jornalismo “porque estava esgotada a todos os níveis, não só pelo modelo económico como também pelo modo como nós, jornalistas, estávamos a fazer o nosso trabalho”.

O rumo que seguiu levou-a à rede Solutions Journalism Network [Red de Periodismo de Soluciones  nos países de língua espanhola], cujos métodos promove, no sentido de alterar a imagem clássica do jornalista, que deixa de ser apenas o watchdog (“cão de guarda”) que vigia os poderes e denuncia o que está mal, para se tornar o “cão-piloto” capaz de de fazer “a cobertura rigorosa e baseada na evidência de respostas a problemas sociais”.

A reflexão é desenvolvida em dois textos que aqui citamos, da FNPI – Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, que trabalha em parceria com a Red de Periodismo de Soluciones  para dar formação nesta nova disciplina.

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