Sexta-feira, 18 de Janeiro, 2019
Estudo

Redes sociais perdem terreno como fontes noticiosas

A utilização das redes sociais como fonte de notícias está a abrandar, ou mesmo a cair em vários países, depois de anos de crescimento contínuo. Este desenvolvimento é coerente com o facto de muitas empresas de media estarem a investir na melhoria da qualidade dos seus conteúdos e no acesso por assinaturas pagas. As grandes questões que preocupam os leitores continuam a ser as da verdade ou desinformação a que são expostos. Esta preocupação é maior em países como o Brasil (85%), a Espanha (69%) e os EUA (64%), “onde situações políticas polarizadas se combinam com elevado uso das redes sociais”. O nivel médio de confiança nas notícias mantém-se estável nos 44%, considerados todos os países. São estas as tendências destacadas na apresentação do Digital News Report 2018, elaborado pelo Instituto Reuters e agora disponível.

O Relatório deste ano é baseado num inquérito online junto de 74 mil pessoas, de 37 países, em cinco continentes. Há sinais de esperança para a actividade das empresas noticiosas, segundo a apresentação assinada por Nic Newman. Mesmo “as noções de confiança e qualidade estão a ser incorporadas nos algoritmos de algumas plataformas tecnológicas, que procuram assim responder às exigências políticas e dos consumidores no sentido de garantirem nos seus sistemas a fiabilidade da informação”.

“Muitos dos inquiridos acham que os publishers (75%) e as plataformas (71%) têm a maior responsabilidade na solução do problema das fake news ou notícias menos credíveis. E é assim porque muitas das notícias de que se queixam têm a ver com informação tendenciosa ou menos rigorosa proveniente dos órgãos de comunicação tradicionais [mainstream media, no original], mais do que de notícias totalmente inventadas ou distribuídas por potências estrangeiras.” 

“Há algum desejo público de intervenção governamental no combate às fake news, principalmente na Europa (60%) e na Ásia (63%). Por contraste, só quatro em cada dez americanos (41%) acham que o governo devia fazer mais.” (...) 

“O número médio de pessoas que pagam pelo noticiário online tem subido em muitos países, com um aumento significativo na Noruega (+4 pontos percentuais), na Suécia (+6) e na Finlândia (+4). Estes países têm um número pequeno de empresas editoras, na sua maioria procurando constantemente uma variedade de estratégias de paywall. Mas em mercados mais complexos e fragmentados há ainda muitos publishers que fornecem noticiário online de graça.” 

“O aumento significativo, registado no ano anterior, das assinaturas nos EUA (o chamado Trump Bump), mantém-se, enquanto contribuições [pontuais] e ‘membrasia’ assente em contribuições estão a emergir como alternativas estratégicas significativas na Espanha e no Reino Unido, como também nos Estados Unidos. Estas formas de pagamento estão intimamente relacionadas com convicções políticas e são desproporcionalmente provenientes de jovens.” (...) 

Na classificação por países, Portugal aparece junto dos países mais bem classificados em termos de confiança no jornalismo, mas “o baixo nível de confiança nas redes sociais e suspeitas a respeito da legitimidade dos conteúdos noticiosos online suscitam preocupação sobre durante quanto tempo pode durar esta situação”. 

O capítulo sobre o nosso País, assinado por Ana Pinto Martinho, Gustavo Cardoso e Miguel Paisana, do ISCTE, afirma que o jornalismo online, em Portugal, “é quase tão popular como a televisão, em termos de alcance semanal, embora a ‘monetização’ desse tráfego continue a ser um problema”. 

“Sobre este ponto, uma das mais significativas iniciativas digitais do ano passado foi o aparecimento de uma nova plataforma chamada Nónio, apoiada por seis das maiores marcas de media em Portugal. A plataforma proporciona aos seus utentes o acesso a centenas de websites noticiosos, streams de televisão e serviços de rádio on demand, tudo a partir de uma mesma entrada [login].” (...) “A plataforma Nónio foi financiada por uma dotação de 900 mil euros da Google Digital News Initiative, como parte do seu esforço para apoiar a ‘monetização’ dos publishers.” (...) 

“A confiança no jornalismo, em Portugal, tem sido consistentemente elevada. Mas o Relatório deste ano coloca o País num primeiro lugar repartido com os 62% da amostra que afirmam confiar nele de modo geral. Embora isto seja consistente com estudos prévios, os dados deste ano revelam uma situação com algumas nuances  -  48% afirmam confiança nas notícias que encontram pelos motores de busca, mas apenas 29% dizem acreditar nas que recebem das redes sociais.” 

“Os consumidores portugueses de notícias revelam alto nível de preocupação  por questões como a manipulação, as fake news e jornalismo de má qualidade. Quase metade dizem que encontraram exemplos de mau jornalismo na última semana, e 38% que viram conteúdos que tinham sido manipulados para se conformarem a uma agenda específica.” 

“A análise dos dados, combinando opiniões sobre a manipulação das notícias, as fake news, cobertura de má qualidade, mau jornalismo e confiança em [determinadas] marcas noticiosas, parece mostrar que os portugueses descrêem do ambiente noticioso, mas tendem a confiar em certas marcas específicas de media. O que podia ser considerado uma relação bastante ambígua entre o jornalismo e os consumidores pode ser explicado pela tradicional contradição entre a opinião e a prática dos cidadãos: eles exprimem preocupação a respeito da qualidade do jornalismo, mas mantêm-se fiéis aos seus jornalistas e títulos preferidos, em termos de confiança.” (...)

 

A apresentação e principais conclusões do Relatório (com o link para o texto na íntegra, em PDF), e o destaque sobre Portugal

Connosco
António Martins da Cruz em Janeiro no ciclo de jantares-debate “Portugal: que País vai a votos?” Ver galeria

O próximo orador-convidado do novo ciclo de jantares-debate subordinado ao tema “Portugal: que País vai a votos?” é o embaixador António Martins da Cruz, um observador atento, persistente e ouvido da realidade portuguesa, que aceitou estar connosco.

A conferência está marcada para o próximo dia 24 de Janeiro na Sala da Biblioteca do Grémio Literário, dando continuidade à iniciativa lançada há cinco anos pelo CPI -  Clube Português de Imprensa, em parceria com o CNC – Centro Nacional de Cultura e o próprio Grémio.

Político e diplomata, António Manuel de Mendonça Martins da Cruz nasceu a 28 de Dezembro de 1946, em Lisboa. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, fez ainda estudos de pós-graduação na Universidade de Genebra, na Suíça.

Edição especial de "Charlie Hebdo" no aniversário do atentado Ver galeria

A revista satírica francesa Charlie Hebdo recordou o atentado de 7 de Janeiro de 2015, contra a sua redacção, publicando uma edição especial com a capa acima reproduzida, mostrando a imagem de um cardeal católico e um imã muçulmano soprando a chama de uma vela. Partindo desta imagem, o jornalista Rui Martins sugere que “ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas”.

Segundo afirma, “esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe”:
“Esse novo milénio, profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.”

No Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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