Quinta-feira, 21 de Março, 2019
Estudo

Redes sociais perdem terreno como fontes noticiosas

A utilização das redes sociais como fonte de notícias está a abrandar, ou mesmo a cair em vários países, depois de anos de crescimento contínuo. Este desenvolvimento é coerente com o facto de muitas empresas de media estarem a investir na melhoria da qualidade dos seus conteúdos e no acesso por assinaturas pagas. As grandes questões que preocupam os leitores continuam a ser as da verdade ou desinformação a que são expostos. Esta preocupação é maior em países como o Brasil (85%), a Espanha (69%) e os EUA (64%), “onde situações políticas polarizadas se combinam com elevado uso das redes sociais”. O nivel médio de confiança nas notícias mantém-se estável nos 44%, considerados todos os países. São estas as tendências destacadas na apresentação do Digital News Report 2018, elaborado pelo Instituto Reuters e agora disponível.

O Relatório deste ano é baseado num inquérito online junto de 74 mil pessoas, de 37 países, em cinco continentes. Há sinais de esperança para a actividade das empresas noticiosas, segundo a apresentação assinada por Nic Newman. Mesmo “as noções de confiança e qualidade estão a ser incorporadas nos algoritmos de algumas plataformas tecnológicas, que procuram assim responder às exigências políticas e dos consumidores no sentido de garantirem nos seus sistemas a fiabilidade da informação”.

“Muitos dos inquiridos acham que os publishers (75%) e as plataformas (71%) têm a maior responsabilidade na solução do problema das fake news ou notícias menos credíveis. E é assim porque muitas das notícias de que se queixam têm a ver com informação tendenciosa ou menos rigorosa proveniente dos órgãos de comunicação tradicionais [mainstream media, no original], mais do que de notícias totalmente inventadas ou distribuídas por potências estrangeiras.” 

“Há algum desejo público de intervenção governamental no combate às fake news, principalmente na Europa (60%) e na Ásia (63%). Por contraste, só quatro em cada dez americanos (41%) acham que o governo devia fazer mais.” (...) 

“O número médio de pessoas que pagam pelo noticiário online tem subido em muitos países, com um aumento significativo na Noruega (+4 pontos percentuais), na Suécia (+6) e na Finlândia (+4). Estes países têm um número pequeno de empresas editoras, na sua maioria procurando constantemente uma variedade de estratégias de paywall. Mas em mercados mais complexos e fragmentados há ainda muitos publishers que fornecem noticiário online de graça.” 

“O aumento significativo, registado no ano anterior, das assinaturas nos EUA (o chamado Trump Bump), mantém-se, enquanto contribuições [pontuais] e ‘membrasia’ assente em contribuições estão a emergir como alternativas estratégicas significativas na Espanha e no Reino Unido, como também nos Estados Unidos. Estas formas de pagamento estão intimamente relacionadas com convicções políticas e são desproporcionalmente provenientes de jovens.” (...) 

Na classificação por países, Portugal aparece junto dos países mais bem classificados em termos de confiança no jornalismo, mas “o baixo nível de confiança nas redes sociais e suspeitas a respeito da legitimidade dos conteúdos noticiosos online suscitam preocupação sobre durante quanto tempo pode durar esta situação”. 

O capítulo sobre o nosso País, assinado por Ana Pinto Martinho, Gustavo Cardoso e Miguel Paisana, do ISCTE, afirma que o jornalismo online, em Portugal, “é quase tão popular como a televisão, em termos de alcance semanal, embora a ‘monetização’ desse tráfego continue a ser um problema”. 

“Sobre este ponto, uma das mais significativas iniciativas digitais do ano passado foi o aparecimento de uma nova plataforma chamada Nónio, apoiada por seis das maiores marcas de media em Portugal. A plataforma proporciona aos seus utentes o acesso a centenas de websites noticiosos, streams de televisão e serviços de rádio on demand, tudo a partir de uma mesma entrada [login].” (...) “A plataforma Nónio foi financiada por uma dotação de 900 mil euros da Google Digital News Initiative, como parte do seu esforço para apoiar a ‘monetização’ dos publishers.” (...) 

“A confiança no jornalismo, em Portugal, tem sido consistentemente elevada. Mas o Relatório deste ano coloca o País num primeiro lugar repartido com os 62% da amostra que afirmam confiar nele de modo geral. Embora isto seja consistente com estudos prévios, os dados deste ano revelam uma situação com algumas nuances  -  48% afirmam confiança nas notícias que encontram pelos motores de busca, mas apenas 29% dizem acreditar nas que recebem das redes sociais.” 

“Os consumidores portugueses de notícias revelam alto nível de preocupação  por questões como a manipulação, as fake news e jornalismo de má qualidade. Quase metade dizem que encontraram exemplos de mau jornalismo na última semana, e 38% que viram conteúdos que tinham sido manipulados para se conformarem a uma agenda específica.” 

“A análise dos dados, combinando opiniões sobre a manipulação das notícias, as fake news, cobertura de má qualidade, mau jornalismo e confiança em [determinadas] marcas noticiosas, parece mostrar que os portugueses descrêem do ambiente noticioso, mas tendem a confiar em certas marcas específicas de media. O que podia ser considerado uma relação bastante ambígua entre o jornalismo e os consumidores pode ser explicado pela tradicional contradição entre a opinião e a prática dos cidadãos: eles exprimem preocupação a respeito da qualidade do jornalismo, mas mantêm-se fiéis aos seus jornalistas e títulos preferidos, em termos de confiança.” (...)

 

A apresentação e principais conclusões do Relatório (com o link para o texto na íntegra, em PDF), e o destaque sobre Portugal

Connosco
Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

Quando há leitores menos interessados na independência do jornal Ver galeria

Mais de 33 mil leitores do jornal espanhol eldiario.es  são assinantes, o que significa que pagam 60 euros por ano para ler os mesmos textos que são lidos de graça por oito milhões de pessoas por mês, sem pagarem um cêntimo.

“Supõe-se que o fazem por convicção, por apoio a um projecto digital que pertence exclusivamente a jornalistas, sem grandes empresas ou bancos entre os accionistas. Sem um grupo mediático por detrás.” (...) “Supõe-se que o fazem porque, graças a esse dinheiro, existe uma plataforma mediática independente que tem orgulho na sua independência e que aposta em conteúdos de qualidade.”

No entanto, quando eldiário.es publicou uma revelação embaraçosa para uma ministra do Governo do PSOE, houve quem suspendesse a assinatura, acusando o jornal de estar “a fazer o jogo da direita”.

O que remete para a pergunta que faz o título do artigo sobre uma entrevista que Ignacio Escolar, fundador e director do jornal referido, fez ao jornalista Iñaki Gabilondo: “E se os leitores não quiserem media livres?”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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