Segunda-feira, 16 de Setembro, 2019
Estudo

Redes sociais perdem terreno como fontes noticiosas

A utilização das redes sociais como fonte de notícias está a abrandar, ou mesmo a cair em vários países, depois de anos de crescimento contínuo. Este desenvolvimento é coerente com o facto de muitas empresas de media estarem a investir na melhoria da qualidade dos seus conteúdos e no acesso por assinaturas pagas. As grandes questões que preocupam os leitores continuam a ser as da verdade ou desinformação a que são expostos. Esta preocupação é maior em países como o Brasil (85%), a Espanha (69%) e os EUA (64%), “onde situações políticas polarizadas se combinam com elevado uso das redes sociais”. O nivel médio de confiança nas notícias mantém-se estável nos 44%, considerados todos os países. São estas as tendências destacadas na apresentação do Digital News Report 2018, elaborado pelo Instituto Reuters e agora disponível.

O Relatório deste ano é baseado num inquérito online junto de 74 mil pessoas, de 37 países, em cinco continentes. Há sinais de esperança para a actividade das empresas noticiosas, segundo a apresentação assinada por Nic Newman. Mesmo “as noções de confiança e qualidade estão a ser incorporadas nos algoritmos de algumas plataformas tecnológicas, que procuram assim responder às exigências políticas e dos consumidores no sentido de garantirem nos seus sistemas a fiabilidade da informação”.

“Muitos dos inquiridos acham que os publishers (75%) e as plataformas (71%) têm a maior responsabilidade na solução do problema das fake news ou notícias menos credíveis. E é assim porque muitas das notícias de que se queixam têm a ver com informação tendenciosa ou menos rigorosa proveniente dos órgãos de comunicação tradicionais [mainstream media, no original], mais do que de notícias totalmente inventadas ou distribuídas por potências estrangeiras.” 

“Há algum desejo público de intervenção governamental no combate às fake news, principalmente na Europa (60%) e na Ásia (63%). Por contraste, só quatro em cada dez americanos (41%) acham que o governo devia fazer mais.” (...) 

“O número médio de pessoas que pagam pelo noticiário online tem subido em muitos países, com um aumento significativo na Noruega (+4 pontos percentuais), na Suécia (+6) e na Finlândia (+4). Estes países têm um número pequeno de empresas editoras, na sua maioria procurando constantemente uma variedade de estratégias de paywall. Mas em mercados mais complexos e fragmentados há ainda muitos publishers que fornecem noticiário online de graça.” 

“O aumento significativo, registado no ano anterior, das assinaturas nos EUA (o chamado Trump Bump), mantém-se, enquanto contribuições [pontuais] e ‘membrasia’ assente em contribuições estão a emergir como alternativas estratégicas significativas na Espanha e no Reino Unido, como também nos Estados Unidos. Estas formas de pagamento estão intimamente relacionadas com convicções políticas e são desproporcionalmente provenientes de jovens.” (...) 

Na classificação por países, Portugal aparece junto dos países mais bem classificados em termos de confiança no jornalismo, mas “o baixo nível de confiança nas redes sociais e suspeitas a respeito da legitimidade dos conteúdos noticiosos online suscitam preocupação sobre durante quanto tempo pode durar esta situação”. 

O capítulo sobre o nosso País, assinado por Ana Pinto Martinho, Gustavo Cardoso e Miguel Paisana, do ISCTE, afirma que o jornalismo online, em Portugal, “é quase tão popular como a televisão, em termos de alcance semanal, embora a ‘monetização’ desse tráfego continue a ser um problema”. 

“Sobre este ponto, uma das mais significativas iniciativas digitais do ano passado foi o aparecimento de uma nova plataforma chamada Nónio, apoiada por seis das maiores marcas de media em Portugal. A plataforma proporciona aos seus utentes o acesso a centenas de websites noticiosos, streams de televisão e serviços de rádio on demand, tudo a partir de uma mesma entrada [login].” (...) “A plataforma Nónio foi financiada por uma dotação de 900 mil euros da Google Digital News Initiative, como parte do seu esforço para apoiar a ‘monetização’ dos publishers.” (...) 

“A confiança no jornalismo, em Portugal, tem sido consistentemente elevada. Mas o Relatório deste ano coloca o País num primeiro lugar repartido com os 62% da amostra que afirmam confiar nele de modo geral. Embora isto seja consistente com estudos prévios, os dados deste ano revelam uma situação com algumas nuances  -  48% afirmam confiança nas notícias que encontram pelos motores de busca, mas apenas 29% dizem acreditar nas que recebem das redes sociais.” 

“Os consumidores portugueses de notícias revelam alto nível de preocupação  por questões como a manipulação, as fake news e jornalismo de má qualidade. Quase metade dizem que encontraram exemplos de mau jornalismo na última semana, e 38% que viram conteúdos que tinham sido manipulados para se conformarem a uma agenda específica.” 

“A análise dos dados, combinando opiniões sobre a manipulação das notícias, as fake news, cobertura de má qualidade, mau jornalismo e confiança em [determinadas] marcas noticiosas, parece mostrar que os portugueses descrêem do ambiente noticioso, mas tendem a confiar em certas marcas específicas de media. O que podia ser considerado uma relação bastante ambígua entre o jornalismo e os consumidores pode ser explicado pela tradicional contradição entre a opinião e a prática dos cidadãos: eles exprimem preocupação a respeito da qualidade do jornalismo, mas mantêm-se fiéis aos seus jornalistas e títulos preferidos, em termos de confiança.” (...)

 

A apresentação e principais conclusões do Relatório (com o link para o texto na íntegra, em PDF), e o destaque sobre Portugal

Connosco
Portugal entre os que menos pagam por jornalismo na Internet Ver galeria

“Em Portugal, o número de consumidores de notícias que pagam por jornalismo online baixou 2% em relação ao ano passado. Hoje são apenas 7% o total de leitores pagantes. Se considerarmos apenas os que têm uma assinatura recorrente, o número desce para 5%”, refere João Pedro Pereira, num artigo do jornal Público, intitulado “Quem Paga o Poder”.

O colunista lembra que após a massificação da Internet, ocorrida na década de 90, do século passado, começaram as quebras nas vendas de jornais e revistas. Os números do Instituto Nacional de Estatística, revelam que o número total de exemplares vendidos caiu 40% entre 2011 e 2017.

A grande quebra nas vendas de jornais foi acompanhada da redução, também drástica do segmento da publicidade, que, segundo o mesmo Instituto, caiu 41% entre 2008 e 2017.
O dilema dos conteúdos pagos como resposta à quebra de receitas Ver galeria

 

Num contexto de crise, o conteúdo pago ganha maior relevo, sendo considerado um mal necessário por muitos órgãos de comunicação social.  Mas será que é possível haver qualidade nos textos patrocinados? Esta é a questão levantada por Lívia Souza Vieira, num artigo reproduzido no site do Observatório de Imprensa do Brasil, com a qual o CPI mantém um acordo de parceria.

A professora de jornalismo, cita The  New York Times e a revista The Atlantic, como exemplos de duas publicações de referência, onde esse passo para a qualidade parece ter sido dado.

O primeiro, quando publicou uma peça paga pela Netflix, sobre as particularidades do sistema prisional feminino, integrado numa campanha da série televisiva, “Orange is the new black”, que teve a vantagem de abordar um tema normalmente esquecido pelas agendas.

No segundo caso, salienta-se o facto de a publicação ter revisto e actualizado as regras e procedimentos para publicação de conteúdos pagos.

O Clube


Retomamos este site do Clube num ambiente depressivo para os media portugueses. Os dados da APCT  que inserimos noutro espaço, relativos ao primeiro semestre do ano, confirmam uma tendência decrescente da circulação impressa, afectando a quase totalidade dos jornais.

Pior: na maior parte dos casos a subscrição digital está longe de compensar essas perdas, havendo ainda situações em vias de um desfecho crítico.


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