Quarta-feira, 19 de Setembro, 2018
Estudo

Jornalistas e leitores divergem sobre conceitos de jornalismo

O modo como os jornalistas imaginam o seu público pode ser bastante diferente do modo como este entende o jornalismo. Tudo depende das questões concretas que são postas. Um estudo muito recente, baseado num inquérito a mais de 2000 leitores e a cerca de 1000 jornalistas, nos Estados Unidos, revela que, quanto à importância do rigor e de uma atitude de clareza sobre as fontes de informação, o acordo é muito elevado. Mas a maioria dos jornalistas atribuía aos seus leitores mais ignorância sobre determinadas diferenças do que realmente ficou provado. Tom Rosenstiel, director executivo do American Press Institute (a instituição promotora deste inquérito) declarou, sobre os resultados, que, “mesmo que os leitores não entendam exactamente muitos dos conceitos do jornalismo, são consumidores mais atentos e activos do que os jornalistas pensam”.

Um exemplo é a compreensão, pelo público, das diferenças entre analista e comentador, entre repórter e colunista, entre editorial e notícia, ou entre notícia e press-release. Menos de um terço do público declarou sentir menos familiaridade com qualquer destas distinções. Mas os jornalistas calcularam que seriam 60%, ou mais, em cada caso. 

Como disse Rosenstiel, os jornalistas podem recolher mais confiança “por meio de iniciativas para aumentar a transparência, eliminar o jargão profissional e abrir as notícias à participação do público”. 

Os que responderam ao inquérito desejam que as notícias tenham algum enquadramento e análise (63%). “Mas muitos acham que encontram frequentemente comentário e opinião, que consideram muito menos útil (42%). Em consequência disto, muitos evitam ler ou escutar os conteúdos mais opiniosos que encontram.” (...) 

Segundo o texto que citamos, de Rick Edmonds, analista do Poynter Institute, “as fake news não eram o tema principal deste estudo, mas os jornalistas podem ficar surpreendidos pelas implicações do que ficou revelado”: 

“O público atribui múltiplos significados a esta expressão. Na sua maioria (71%), adoptou [a definição] ‘histórias inventadas provenientes de sites noticiosos que não existem’ como uma forma de fake news. Mas um número substancial também pensa que são ‘jornalistas de meios de comunicação reais a inventarem coisas’ (62%), podendo ainda incluir-se ‘histórias incorrectas ou toscas’ (43%).” 

“Isto sugere que o Presidente Trump e os seus apoiantes tiveram um êxito considerável ao expropriarem o termo do seu sentido original. (E as diferenças entre apoiantes e opositores de Trump, na definição do que são as fake news, não são muito grandes).” 

Rick Edmonds chama a atenção para outras duas conclusões: 

“Mais de metade dos inquiridos revelaram saber o que são fontes anónimas. Mas apenas 35% disseram que mesmo os seus websites favoritos procedem correctamente explicando o uso destas fontes.” 

“E embora muitos achem que o jornalismo, de modo geral, vai por mau caminho, 32% dizem que mantêm a confiança nos seus órgãos de comunicação favoritos mais do que há um ano atrás.” (...) 

O estudo foi realizado pelo Media Insight Project  -  uma iniciativa do American Press Institute, com o Associated Press – NORC Center for Public Affairs Research

 

O estudo citado, no Poynter.org e no American Press Institute - a que pertence a imagem incluída - e mais referências em Media-tics

Connosco
Plataformas tecnológicas estão a sentar-se no coração do jornalismo Ver galeria

Na relação difícil que se tem desenvolvido, nestes últimos anos, entre as plataformas tecnológicas e os publishers dos media, a iniciativa foi sempre das primeiras e a intimidade nunca foi tanta como agora, com as plataformas “a tomarem mais decisões deliberadas que afectam o jornalismo e a colocação e distribuição das notícias”. Embora já haja editores a praticarem um “desacoplamento consciente” da sua dependência das plataformas, do lado destas vem um movimento muito claro de se envolverem cada vez mais no “apoio financeiro directo a determinados tipos de jornalismo”. Isto significa que plataformas “movidas pelo lucro” estão a “sentar-se desconfortavelmente no coração do jornalismo e das notícias”.

É esta a reflexão inicial de Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism  - que esteve em Lisboa, na cimeira da Global Editors Network -  no texto de apresentação de um relatório sobre o estado das relações entre publishers e plataformas.

Empresas de Media alimentam monstros que as fazem passar fome... Ver galeria

Tanto a Google como o Facebook têm estado a enviar dinheiro para apoio a projectos jornalísticos. Só nestes últimos três anos, as duas empresas juntas já destinaram mais de 500 milhões de dólares a vários programas ou parcerias com os media. Estas mega plataformas contam-se agora entre as maiores financiadoras do jornalismo. A ironia é que foi o desmantelamento da publicidade tradicional, em grande parte cometido por elas, que deixou as empresas jornalísticas neste sufoco de necessidade. O resultado é uma aliança disfuncional. Mesmo os que recebem estes apoios acham que as doações são “dinheiro culpado”, enquanto as gigantes tecnológicas procuram melhorar a imagem e conquistar amigos numa comunidade jornalística que  - sobretudo agora -  parece abertamente hostil.

O Clube

Lançado em Novembro de 2015, este site do Clube Português de Imprensa tem desenvolvido, desde então, um trabalho de acompanhamento das tendências dominantes, quer no mercado de Imprensa, quer nos media audiovisuais em geral e na Internet em particular.

Interessa-nos, também, debater o jornalismo e o modo como é exercido, em Portugal e fora de fronteiras,  cumprindo um objectivo que está na génese desta Associação.


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