Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Estudo

Jornalistas e leitores divergem sobre conceitos de jornalismo

O modo como os jornalistas imaginam o seu público pode ser bastante diferente do modo como este entende o jornalismo. Tudo depende das questões concretas que são postas. Um estudo muito recente, baseado num inquérito a mais de 2000 leitores e a cerca de 1000 jornalistas, nos Estados Unidos, revela que, quanto à importância do rigor e de uma atitude de clareza sobre as fontes de informação, o acordo é muito elevado. Mas a maioria dos jornalistas atribuía aos seus leitores mais ignorância sobre determinadas diferenças do que realmente ficou provado. Tom Rosenstiel, director executivo do American Press Institute (a instituição promotora deste inquérito) declarou, sobre os resultados, que, “mesmo que os leitores não entendam exactamente muitos dos conceitos do jornalismo, são consumidores mais atentos e activos do que os jornalistas pensam”.

Um exemplo é a compreensão, pelo público, das diferenças entre analista e comentador, entre repórter e colunista, entre editorial e notícia, ou entre notícia e press-release. Menos de um terço do público declarou sentir menos familiaridade com qualquer destas distinções. Mas os jornalistas calcularam que seriam 60%, ou mais, em cada caso. 

Como disse Rosenstiel, os jornalistas podem recolher mais confiança “por meio de iniciativas para aumentar a transparência, eliminar o jargão profissional e abrir as notícias à participação do público”. 

Os que responderam ao inquérito desejam que as notícias tenham algum enquadramento e análise (63%). “Mas muitos acham que encontram frequentemente comentário e opinião, que consideram muito menos útil (42%). Em consequência disto, muitos evitam ler ou escutar os conteúdos mais opiniosos que encontram.” (...) 

Segundo o texto que citamos, de Rick Edmonds, analista do Poynter Institute, “as fake news não eram o tema principal deste estudo, mas os jornalistas podem ficar surpreendidos pelas implicações do que ficou revelado”: 

“O público atribui múltiplos significados a esta expressão. Na sua maioria (71%), adoptou [a definição] ‘histórias inventadas provenientes de sites noticiosos que não existem’ como uma forma de fake news. Mas um número substancial também pensa que são ‘jornalistas de meios de comunicação reais a inventarem coisas’ (62%), podendo ainda incluir-se ‘histórias incorrectas ou toscas’ (43%).” 

“Isto sugere que o Presidente Trump e os seus apoiantes tiveram um êxito considerável ao expropriarem o termo do seu sentido original. (E as diferenças entre apoiantes e opositores de Trump, na definição do que são as fake news, não são muito grandes).” 

Rick Edmonds chama a atenção para outras duas conclusões: 

“Mais de metade dos inquiridos revelaram saber o que são fontes anónimas. Mas apenas 35% disseram que mesmo os seus websites favoritos procedem correctamente explicando o uso destas fontes.” 

“E embora muitos achem que o jornalismo, de modo geral, vai por mau caminho, 32% dizem que mantêm a confiança nos seus órgãos de comunicação favoritos mais do que há um ano atrás.” (...) 

O estudo foi realizado pelo Media Insight Project  -  uma iniciativa do American Press Institute, com o Associated Press – NORC Center for Public Affairs Research

 

O estudo citado, no Poynter.org e no American Press Institute - a que pertence a imagem incluída - e mais referências em Media-tics

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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Opinião
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O caso da participação num programa matinal da TVI de um racista, já condenado e tendo cumprido pena de prisão, Mário Machado, suscitou polémica. Ainda bem, porque as questões em causa são importantes. Mas, como é costume, o debate rapidamente derivou para um confronto entre a esquerda indignada por se ter dado tempo de antena a um criminoso fascista e a direita defendendo a liberdade de expressão e a dualidade de...
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