Segunda-feira, 10 de Dezembro, 2018
Colectânea

Combater as "fake news" é fundamental para a democracia

A fiabilidade das fontes e o rigor da verificação constituem dois passos indispensáveis na produção de notícias autênticas, muito mais em tempos de “distribuição deliberada de desinformação e boatos”  - hoje feita por meio da Internet. “Sem fonte não há notícia. Sem ‘checagem’ não há a possibilidade de descobrir ‘o mínimo de verdade’. Leon Sigal (1979) conclui que a notícia não é aquilo que os jornalistas pensam, mas o que as fontes dizem. Notícia sem fonte pode ser notícia? Notícia falsa pode ser notícia? Se é falso é notícia?” 

É este o teor da reflexão do jornalista Edgar Leite, em texto publicado no Observatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

O tema das chamadas fake news preocupa o mundo jornalístico. Segundo o autor que citamos, nunca foi tão importante fazer esta verificação: 

“Aliás, o jornalismo faz-se com ‘checagem’ das fontes, conversas ‘olho no olho’, muitas vezes demoradas, com a confirmação de dados apresentados pela fonte. É simplesmente uma obrigação. Em um mundo cada vez mais veloz em que a Internet exige que a notícia seja publicada ‘imediatamente’, segundos ou minutos após a produção (antigamente era um dia depois, nos casos dos jornais impressos), a prática de esmiuçar, ‘destroçar’ algo que a fonte passou para ser publicado passa despercebida. Uma grande falha pode custar caro.” (…) 

Portanto, se algo que se publica é falso, “pode ser tudo (qualquer nome que se queira dar ao fenómeno), menos notícia”. (…)

O autor que citamos acrescenta: 

“Combater as fake news é fundamental para o bem da democracia, do direito de ‘clarear a cena dos factos’ para que o cidadão possa tirar suas conclusões. É bem verdade que há uma discussão longa sobre imparcialidade (que pode não ser neutralidade) — mas que deixaremos para uma próxima discussão.” 

Mas prossegue advertindo que é preciso “redobrar cuidados para ‘que a dose do remédio não seja tão forte que deixe o paciente ainda mais debilitado do que já está’, havendo uma linha ténue entre o desejo do combate e a possibilidade de um controlo de conteúdos que pode aproximar-se de censura, em alguns casos”. 

Edgar Leite menciona “projectos de lei na Câmara dos Deputados que, se não forem bem avaliados, podem, de alguma maneira, prejudicar, no futuro, a liberdade de expressão”. (…) 

E deixa, na forma de perguntas, as questões de fundo: 

“É importante saber: o que é notícia falsa? Mais importante ainda: quem vai dizer se a notícia é falsa? Vamos transformar o cidadão em juiz ou julgador? Ou vamos atribuir a entidades privadas ou públicas essa responsabilidade? Ou aos órgãos de comunicação?” 

“Quem julga está livre de interesses futuros? Quem julga está isento de motivações económicas e políticas?” (...) 

O seu conselho final ao leitor é que seja também “investigador”, que “duvide dos exageros, do sensacionalismo” e procure identificar as fontes primárias da alegada notícia, em sites noticiosos reconhecidos. 


O artigo citado, na íntegra, no Observatório da Imprensa

 

Connosco
O fascínio pelas imagens de motins como nova cultura dos Media Ver galeria

Um pequeno video das manifestações em Paris, feito na manhã de 2 de Dezembro e colocado no Twitter, mostra umas dezenas de indivíduos de capuz, a correr na rua, com um fogo em segundo plano. Uma legenda diz que os desordeiros [casseurs, no original] põem a polícia em fuga. Três horas depois de ser publicada, a sequência já teve 45 mil visualizações. À tarde, o contador regista 145 mil e no dia seguinte o dobro, sem contar com a sua reprodução nos media. No YouTube, no Reddit e outros meios semelhantes, estes vídeos chegam facilmente aos milhões.

“Este fascínio pelas imagens de motins  - ou de revolta, segundo o ponto de vista -  é agora chamado riot porn  - designando o prazer (um pouco culpado) de ver ou partilhar um certo tipo de imagens, como o food porn, de pratos de comida, ou o sky porn para imagens do céu e de cenas de pôr-de-sol.”

A reflexão é de Emilie Tôn, em L’Express, num trabalho que aborda o voyeurisme da violência nas ruas, em que todos podemos ser protagonistas, mesmo que involuntários, espectadores ou realizadores de documentário, com um telemóvel na mão.

A “missão impossível” dos repórteres árabes de investigação Ver galeria

A auto-confiança com que actuaram os executores de Jamal Khashoggi tem várias razões, e uma delas tem a ver connosco, jornalistas. Quando chegou, finalmente, a admissão do crime, jornalistas por todo o mundo árabe vieram em defesa de Riade. “Eles não sabiam nada  - mas escreveram o que lhes foi dito que escrevessem. E de cada vez que mudava a versão oficial, eles mudavam a sua para se ajustar, sem embaraço ou hesitação.”

“E não estavam sozinhos. Os sauditas tinham uma segunda linha de defesa: um grupo menor, mas não menos influente, de jornalistas do Ocidente, que tinham passado mais de um ano a contar a história de uma Arábia Saudita reformista, acabada de retocar, de ventos de mudança soprando no deserto, com as suas visões e ambições comoventes louvadas por todo o mundo.”

A reflexão é da jornalista jordana Rana Sabbagh, que está à frente da Rede de Jornalismo de Investigação Árabe (membro da Global Investigative Journalism Network) e foi a primeira mulher árabe a dirigir um jornal político no Médio Oriente, o Jordan Times.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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