Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Media

Milionários dos EUA compram jornais com destinos diferentes

Um livro recente, “The Return of the Moguls”, faz uma reflexão oportuna sobre a tendência, nos EUA, no sentido da aquisição de jornais em dificuldades por magnatas com fortuna feita noutras áreas que não a da Imprensa. O autor, Dan Kennedy, partiu para esta obra da observação do que ocorreu numa semana de Agosto de 2013, quando se soube que o financeiro bilionário John Henry (principal detentor do clube Boston Red Sox) estava em processo de compra de The Boston Globe;  que Jeff Bezos, fundador e dono da Amazon, estava a comprar The Washington Post à família Graham;  e, last but not the least, que o jovem empresário Aaron Kushner, que no ano anterior tinha adquirido The Orange County Register, estava a esforçar-se por revigorar a sua edição impressa. O livro faz a leitura comparada dos resultados diferentes destes empreendimentos de três “muito diferentes” proprietários ricos de jornais. Um artigo de J. Botelho Tomé, no site do CPI, conta também estas histórias e refere outros casos semelhantes.

“Nem sempre basta o dinheiro para salvar uma empresa à deriva. Os multimilionários John Henry, Jeff Bezos e Aaron Kushner conseguiram dar um importante impulso económico a três meios de comunicação, mas a sua capacidade de gestão foi o que marcou o rumo destas empresas.” 

Segundo Media-tics, que aqui citamos, “num dos momentos mais críticos em toda a história da Imprensa, os multimilionários levantavam-se como os salvadores da indústria”. (...)

Num artigo de apresentação do seu próprio livro, Dan Kennedy, docente de Jornalismo na Northeastern University em Boston, conta que “todos três apareceram durante os últimos suspiros da era do jornalismo digital grátis”: 

“Durante mais de duas décadas, os empresários dos jornais tinham mantido a esperança de conseguirem fazer a transição para a Internet fornecendo um jornalismo de acesso livre, pago pela publicidade”. 

“Mas em 2013 estava a tornar-se claro que talvez isso nunca viesse a acontecer. A visão de uma abundância de recursos proveniente de publicidade multimédia para os jornais digitais tinha dado lugar à realidade da Craigslist, Google e Facebook.” (...) 

A experiência de Aaron Kushner parece ter sido a mais ambiciosa, à partida, e foi também a que teve uma queda mais brusca. Nos meses seguintes à aquisição de The Orange County Register ele chegou quase a duplicar o número dos jornalistas e expandiu-se, a nível local, com o lançamento de The Long Beach Register e The Los Angeles Register, além de comprar também The Press Enterprise of Riverside

Como resume Media-tics, “os novos diários não funcionaram bem e acabou por fechá-los, enquanto The Orange County Register teve várias vagas de despedimentos; em 2015, Kushner acabou por renunciar às suas funções executivas na Freedom Communications”. Foi criticado por muitos, mas John Tamny, na Forbes, cumprimenta-o por ter tentado e reconhece que “o fracasso traz consigo informação”  - um aviso que pode ser útil a outros. 

Segundo Dan Kennedy, ainda é cedo para fazer o veredicto da experiência de John Henry como proprietário de The Boston Globe. Nem tudo tem corrido bem mas, sendo o diário generalista que cobra mais por uma assinatura digital (30 dólares por mês), está a passar de mais dos 100 mil leitores fiéis nesta primeira metade do ano. 

“Se o jornalismo sustentado pelos leitores é o futuro do negócio dos jornais, então talvez The Globe esteja no caminho da sustentabilidade.” (...) 

Na expressão de Media-tics, Jeff Bezos “é o grande vencedor deste triunvirato”. Isto deve-se, segundo Dan Kennedy, à localização do Post na capital da nação, que Bezos soube aproveitar fazendo dele um jornal digital que concorre directamente com The New York Times, às sinergias com a Amazon e ao facto de ter herdado, com a redacção, uma “talentosa equipa de tecnologia” à qual deu todos os recurso de que precisava. 

O artigo de Media-tics, que cita o de Dan Kennedy em Poynter.org  - cuja imagem, dos três "magnatas", aqui incluímos

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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