null, 24 de Março, 2019
Media

Milionários dos EUA compram jornais com destinos diferentes

Um livro recente, “The Return of the Moguls”, faz uma reflexão oportuna sobre a tendência, nos EUA, no sentido da aquisição de jornais em dificuldades por magnatas com fortuna feita noutras áreas que não a da Imprensa. O autor, Dan Kennedy, partiu para esta obra da observação do que ocorreu numa semana de Agosto de 2013, quando se soube que o financeiro bilionário John Henry (principal detentor do clube Boston Red Sox) estava em processo de compra de The Boston Globe;  que Jeff Bezos, fundador e dono da Amazon, estava a comprar The Washington Post à família Graham;  e, last but not the least, que o jovem empresário Aaron Kushner, que no ano anterior tinha adquirido The Orange County Register, estava a esforçar-se por revigorar a sua edição impressa. O livro faz a leitura comparada dos resultados diferentes destes empreendimentos de três “muito diferentes” proprietários ricos de jornais. Um artigo de J. Botelho Tomé, no site do CPI, conta também estas histórias e refere outros casos semelhantes.

“Nem sempre basta o dinheiro para salvar uma empresa à deriva. Os multimilionários John Henry, Jeff Bezos e Aaron Kushner conseguiram dar um importante impulso económico a três meios de comunicação, mas a sua capacidade de gestão foi o que marcou o rumo destas empresas.” 

Segundo Media-tics, que aqui citamos, “num dos momentos mais críticos em toda a história da Imprensa, os multimilionários levantavam-se como os salvadores da indústria”. (...)

Num artigo de apresentação do seu próprio livro, Dan Kennedy, docente de Jornalismo na Northeastern University em Boston, conta que “todos três apareceram durante os últimos suspiros da era do jornalismo digital grátis”: 

“Durante mais de duas décadas, os empresários dos jornais tinham mantido a esperança de conseguirem fazer a transição para a Internet fornecendo um jornalismo de acesso livre, pago pela publicidade”. 

“Mas em 2013 estava a tornar-se claro que talvez isso nunca viesse a acontecer. A visão de uma abundância de recursos proveniente de publicidade multimédia para os jornais digitais tinha dado lugar à realidade da Craigslist, Google e Facebook.” (...) 

A experiência de Aaron Kushner parece ter sido a mais ambiciosa, à partida, e foi também a que teve uma queda mais brusca. Nos meses seguintes à aquisição de The Orange County Register ele chegou quase a duplicar o número dos jornalistas e expandiu-se, a nível local, com o lançamento de The Long Beach Register e The Los Angeles Register, além de comprar também The Press Enterprise of Riverside

Como resume Media-tics, “os novos diários não funcionaram bem e acabou por fechá-los, enquanto The Orange County Register teve várias vagas de despedimentos; em 2015, Kushner acabou por renunciar às suas funções executivas na Freedom Communications”. Foi criticado por muitos, mas John Tamny, na Forbes, cumprimenta-o por ter tentado e reconhece que “o fracasso traz consigo informação”  - um aviso que pode ser útil a outros. 

Segundo Dan Kennedy, ainda é cedo para fazer o veredicto da experiência de John Henry como proprietário de The Boston Globe. Nem tudo tem corrido bem mas, sendo o diário generalista que cobra mais por uma assinatura digital (30 dólares por mês), está a passar de mais dos 100 mil leitores fiéis nesta primeira metade do ano. 

“Se o jornalismo sustentado pelos leitores é o futuro do negócio dos jornais, então talvez The Globe esteja no caminho da sustentabilidade.” (...) 

Na expressão de Media-tics, Jeff Bezos “é o grande vencedor deste triunvirato”. Isto deve-se, segundo Dan Kennedy, à localização do Post na capital da nação, que Bezos soube aproveitar fazendo dele um jornal digital que concorre directamente com The New York Times, às sinergias com a Amazon e ao facto de ter herdado, com a redacção, uma “talentosa equipa de tecnologia” à qual deu todos os recurso de que precisava. 

O artigo de Media-tics, que cita o de Dan Kennedy em Poynter.org  - cuja imagem, dos três "magnatas", aqui incluímos

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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