Quarta-feira, 19 de Setembro, 2018
Media

Milionários dos EUA compram jornais com destinos diferentes

Um livro recente, “The Return of the Moguls”, faz uma reflexão oportuna sobre a tendência, nos EUA, no sentido da aquisição de jornais em dificuldades por magnatas com fortuna feita noutras áreas que não a da Imprensa. O autor, Dan Kennedy, partiu para esta obra da observação do que ocorreu numa semana de Agosto de 2013, quando se soube que o financeiro bilionário John Henry (principal detentor do clube Boston Red Sox) estava em processo de compra de The Boston Globe;  que Jeff Bezos, fundador e dono da Amazon, estava a comprar The Washington Post à família Graham;  e, last but not the least, que o jovem empresário Aaron Kushner, que no ano anterior tinha adquirido The Orange County Register, estava a esforçar-se por revigorar a sua edição impressa. O livro faz a leitura comparada dos resultados diferentes destes empreendimentos de três “muito diferentes” proprietários ricos de jornais. Um artigo de J. Botelho Tomé, no site do CPI, conta também estas histórias e refere outros casos semelhantes.

“Nem sempre basta o dinheiro para salvar uma empresa à deriva. Os multimilionários John Henry, Jeff Bezos e Aaron Kushner conseguiram dar um importante impulso económico a três meios de comunicação, mas a sua capacidade de gestão foi o que marcou o rumo destas empresas.” 

Segundo Media-tics, que aqui citamos, “num dos momentos mais críticos em toda a história da Imprensa, os multimilionários levantavam-se como os salvadores da indústria”. (...)

Num artigo de apresentação do seu próprio livro, Dan Kennedy, docente de Jornalismo na Northeastern University em Boston, conta que “todos três apareceram durante os últimos suspiros da era do jornalismo digital grátis”: 

“Durante mais de duas décadas, os empresários dos jornais tinham mantido a esperança de conseguirem fazer a transição para a Internet fornecendo um jornalismo de acesso livre, pago pela publicidade”. 

“Mas em 2013 estava a tornar-se claro que talvez isso nunca viesse a acontecer. A visão de uma abundância de recursos proveniente de publicidade multimédia para os jornais digitais tinha dado lugar à realidade da Craigslist, Google e Facebook.” (...) 

A experiência de Aaron Kushner parece ter sido a mais ambiciosa, à partida, e foi também a que teve uma queda mais brusca. Nos meses seguintes à aquisição de The Orange County Register ele chegou quase a duplicar o número dos jornalistas e expandiu-se, a nível local, com o lançamento de The Long Beach Register e The Los Angeles Register, além de comprar também The Press Enterprise of Riverside

Como resume Media-tics, “os novos diários não funcionaram bem e acabou por fechá-los, enquanto The Orange County Register teve várias vagas de despedimentos; em 2015, Kushner acabou por renunciar às suas funções executivas na Freedom Communications”. Foi criticado por muitos, mas John Tamny, na Forbes, cumprimenta-o por ter tentado e reconhece que “o fracasso traz consigo informação”  - um aviso que pode ser útil a outros. 

Segundo Dan Kennedy, ainda é cedo para fazer o veredicto da experiência de John Henry como proprietário de The Boston Globe. Nem tudo tem corrido bem mas, sendo o diário generalista que cobra mais por uma assinatura digital (30 dólares por mês), está a passar de mais dos 100 mil leitores fiéis nesta primeira metade do ano. 

“Se o jornalismo sustentado pelos leitores é o futuro do negócio dos jornais, então talvez The Globe esteja no caminho da sustentabilidade.” (...) 

Na expressão de Media-tics, Jeff Bezos “é o grande vencedor deste triunvirato”. Isto deve-se, segundo Dan Kennedy, à localização do Post na capital da nação, que Bezos soube aproveitar fazendo dele um jornal digital que concorre directamente com The New York Times, às sinergias com a Amazon e ao facto de ter herdado, com a redacção, uma “talentosa equipa de tecnologia” à qual deu todos os recurso de que precisava. 

O artigo de Media-tics, que cita o de Dan Kennedy em Poynter.org  - cuja imagem, dos três "magnatas", aqui incluímos

Connosco
Plataformas tecnológicas estão a sentar-se no coração do jornalismo Ver galeria

Na relação difícil que se tem desenvolvido, nestes últimos anos, entre as plataformas tecnológicas e os publishers dos media, a iniciativa foi sempre das primeiras e a intimidade nunca foi tanta como agora, com as plataformas “a tomarem mais decisões deliberadas que afectam o jornalismo e a colocação e distribuição das notícias”. Embora já haja editores a praticarem um “desacoplamento consciente” da sua dependência das plataformas, do lado destas vem um movimento muito claro de se envolverem cada vez mais no “apoio financeiro directo a determinados tipos de jornalismo”. Isto significa que plataformas “movidas pelo lucro” estão a “sentar-se desconfortavelmente no coração do jornalismo e das notícias”.

É esta a reflexão inicial de Emily Bell, directora do Tow Center for Digital Journalism  - que esteve em Lisboa, na cimeira da Global Editors Network -  no texto de apresentação de um relatório sobre o estado das relações entre publishers e plataformas.

Empresas de Media alimentam monstros que as fazem passar fome... Ver galeria

Tanto a Google como o Facebook têm estado a enviar dinheiro para apoio a projectos jornalísticos. Só nestes últimos três anos, as duas empresas juntas já destinaram mais de 500 milhões de dólares a vários programas ou parcerias com os media. Estas mega plataformas contam-se agora entre as maiores financiadoras do jornalismo. A ironia é que foi o desmantelamento da publicidade tradicional, em grande parte cometido por elas, que deixou as empresas jornalísticas neste sufoco de necessidade. O resultado é uma aliança disfuncional. Mesmo os que recebem estes apoios acham que as doações são “dinheiro culpado”, enquanto as gigantes tecnológicas procuram melhorar a imagem e conquistar amigos numa comunidade jornalística que  - sobretudo agora -  parece abertamente hostil.

O Clube

Lançado em Novembro de 2015, este site do Clube Português de Imprensa tem desenvolvido, desde então, um trabalho de acompanhamento das tendências dominantes, quer no mercado de Imprensa, quer nos media audiovisuais em geral e na Internet em particular.

Interessa-nos, também, debater o jornalismo e o modo como é exercido, em Portugal e fora de fronteiras,  cumprindo um objectivo que está na génese desta Associação.


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