Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Evocação

Alberto Dines: o jornalismo como "um eterno estado de prontidão"

No tempo que atravessamos, “como imperativo de sobrevivência, ao jornalismo resta reciclar-se”. Mas as questões de fundo desta sua relação com o tempo são mais complexas. À partida, exercemos um ofício “que começa e se esgota a cada novo dia”, que é “um nunca acabar, ou eterno renascer”. Este ritmo do jornal diário foi atropelado pela instantaneidade da Internet, que lhe acrescentou problemas de outra natureza. Mas, se há alguma síntese possível, Alberto Dines resumiu-a numa frase: “O jornalismo é um eterno estado de prontidão.” E é nesse estado que temos de o praticar  - e de o criticar enquando o fazemos. Esta reflexão é de Luiz Egypto, num longo trabalho de evocação e memória do percurso de Alberto Dines como fundador da crítica dos media no Brasil  - no Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

O autor que citamos delimita como foco da sua atenção, neste caso, “o Alberto Dines observador da Imprensa, o mestre de ofício dedicado ao exercício perene de observação activa e transformadora do objecto de seu trabalho quotidiano. O profissional crítico convencido de que o simples acto de observar, medir e interpretar um fenómeno, concorre para a modificação desse mesmo fenómeno. A observação dos media, por decorrência, é também uma forma de intervenção no comportamento e nos procedimentos adoptados pelos meios de informação jornalística”. (...)

O despertar de Alberto Dines para esta disciplina necessária deu-se quando esteve em The New York Times, em 1965, e aí encontrou uma publicação interna chamada Winners and Sinners, em que os próprios profissionais da casa faziam uma auto-crítica do material que o jornal produzia. 

De regresso ao Brasil, escreveu “A crise do papel e o papel dos jornais”, onde “apontava a necessidade de a Imprensa se aprimorar diante do avanço avassalador da televisão, defendendo que os jornais só podiam contar com a qualidade do jornalismo que produziam para fazer frente ao poderoso concorrente eletrónico; a convocação era singela: diante de um mercado adverso, a melhor alternativa é investir em um jornalismo melhor, um jornalismo de ponta.” (...) 

Voltou aos EUA, como professor visitante na Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, em Agosto de 1974, quando Richard Nixon renunciava à Presidência para escapar a um processo de impeachment. De novo no Brasil, aproveitou o período de “distensão” anunciado pelo General Ernesto Geisel para tentar lançar a crítica dos media, abrindo a nova secção “Jornal dos Jornais”, na Folha de S. Paulo, com um artigo fundador, intitulado precisamente “A distensão é para todos”. Citamos aqui algumas frases memoráveis: 

“O direito à informação não funciona apenas num sentido, mas tem múltiplas direções: serve aos [meios] para informar ao público e serve ao público para se informar sobre os [meios]. Democracia vale para todos, caso contrário não é democracia.” (...) 

“Espontaneamente a Imprensa se submete à mesma devassa que ela própria provocou na sociedade americana. Porque a Imprensa integra a sociedade, é reflexo dela, não pode esconder-se em santuários que ela própria nega aos poderes políticos e económicos.” (...) 

“A função da crítica responsável é estimular, elevar os padrões. Onde a crítica está vigilante, seja no campo das artes como no das ideias, a qualidade se eleva. Quando a crítica abranda, abre-se o caminho para a estagnação.” 

“Cabe à Imprensa provar em sua própria carne que abrir-se à crítica não é prova de vulnerabilidade, mas de amadurecimento. O que prejudica é o silêncio. É hora, pois, de mostrar que a distensão vai servir a todos e que a liberdade não é propriedade de alguns poucos.” 

Esta disponibilidade, esta “prontidão” da melhor Imprensa para a sua própria crítica, não foi respeitada pela ditadura militar. Em Outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog, director de Jornalismo da TV Cultura de São Paulo, foi morto sob tortura no DOI-Codi  -  Departamento de Operações de Informações  - Centro de Operações de Defesa Interna. 

No domingo seguinte, como conta Luiz Egypto, “Dines dedicou todo o seu espaço a analisar a cobertura jornalística oferecida pela Imprensa brasileira sobre os factos ocorridos naquela semana trágica. ‘Vamos nos ocupar aqui dos aspectos puramente jornalísticos deste episódio que abala o país já há uma semana. Em outras páginas e em outros dias nos ocupamos da morte do jornalista nos seus aspectos morais, legais e políticos’, escreveu Dines, na abertura da coluna”. 

“E o que se segue é um exemplo acabado de media criticism, em que o equilíbrio da análise se sobrepõe à emoção e à raiva. Por essas e outras tantas razões o Jornal dos Jornais marcou época, sobretudo por aplicar à crítica dos media os fundamentos do ofício jornalístico.” (...) 

A longa história do Observatório da Imprensa é contada neste artigo cuja leitura, na íntegra, está acessível, e nenhuma síntese, como esta, pode substituir. Uma última citação, a concluir: 

“Dines defende o jornalismo socialmente necessário, crítico e a serviço do público, exercido sem negligenciar dos fundamentos construídos ainda na era pré-digital, como a isenção, a clareza, a exactidão, a objectividade possível, a fidedignidade, o compromisso com a verdade factual e com o interesse público.” 

“Um [meio] reconhecido pelo rigor com que trata a matéria-prima jornalística e pela probidade em sua relação com as audiências gozará, certamente, de uma inestimável vantagem competitiva no novo mercado nascido sob a égide da revolução digital. Dines e o Observatório sempre estiveram atentos a isso.” (...)

 

O artigo citado, na íntegra, no Observatório da Imprensa

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
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Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
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