Segunda-feira, 25 de Junho, 2018
Memória

Alberto Dines: o jornalismo como "um eterno estado de prontidão"

No tempo que atravessamos, “como imperativo de sobrevivência, ao jornalismo resta reciclar-se”. Mas as questões de fundo desta sua relação com o tempo são mais complexas. À partida, exercemos um ofício “que começa e se esgota a cada novo dia”, que é “um nunca acabar, ou eterno renascer”. Este ritmo do jornal diário foi atropelado pela instantaneidade da Internet, que lhe acrescentou problemas de outra natureza. Mas, se há alguma síntese possível, Alberto Dines resumiu-a numa frase: “O jornalismo é um eterno estado de prontidão.” E é nesse estado que temos de o praticar  - e de o criticar enquando o fazemos. Esta reflexão é de Luiz Egypto, num longo trabalho de evocação e memória do percurso de Alberto Dines como fundador da crítica dos media no Brasil  - no Observatório da Imprensa, com o qual o CPI mantém um acordo de parceria.

O autor que citamos delimita como foco da sua atenção, neste caso, “o Alberto Dines observador da Imprensa, o mestre de ofício dedicado ao exercício perene de observação activa e transformadora do objecto de seu trabalho quotidiano. O profissional crítico convencido de que o simples acto de observar, medir e interpretar um fenómeno, concorre para a modificação desse mesmo fenómeno. A observação dos media, por decorrência, é também uma forma de intervenção no comportamento e nos procedimentos adoptados pelos meios de informação jornalística”. (...)

O despertar de Alberto Dines para esta disciplina necessária deu-se quando esteve em The New York Times, em 1965, e aí encontrou uma publicação interna chamada Winners and Sinners, em que os próprios profissionais da casa faziam uma auto-crítica do material que o jornal produzia. 

De regresso ao Brasil, escreveu “A crise do papel e o papel dos jornais”, onde “apontava a necessidade de a Imprensa se aprimorar diante do avanço avassalador da televisão, defendendo que os jornais só podiam contar com a qualidade do jornalismo que produziam para fazer frente ao poderoso concorrente eletrónico; a convocação era singela: diante de um mercado adverso, a melhor alternativa é investir em um jornalismo melhor, um jornalismo de ponta.” (...) 

Voltou aos EUA, como professor visitante na Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, em Agosto de 1974, quando Richard Nixon renunciava à Presidência para escapar a um processo de impeachment. De novo no Brasil, aproveitou o período de “distensão” anunciado pelo General Ernesto Geisel para tentar lançar a crítica dos media, abrindo a nova secção “Jornal dos Jornais”, na Folha de S. Paulo, com um artigo fundador, intitulado precisamente “A distensão é para todos”. Citamos aqui algumas frases memoráveis: 

“O direito à informação não funciona apenas num sentido, mas tem múltiplas direções: serve aos [meios] para informar ao público e serve ao público para se informar sobre os [meios]. Democracia vale para todos, caso contrário não é democracia.” (...) 

“Espontaneamente a Imprensa se submete à mesma devassa que ela própria provocou na sociedade americana. Porque a Imprensa integra a sociedade, é reflexo dela, não pode esconder-se em santuários que ela própria nega aos poderes políticos e económicos.” (...) 

“A função da crítica responsável é estimular, elevar os padrões. Onde a crítica está vigilante, seja no campo das artes como no das ideias, a qualidade se eleva. Quando a crítica abranda, abre-se o caminho para a estagnação.” 

“Cabe à Imprensa provar em sua própria carne que abrir-se à crítica não é prova de vulnerabilidade, mas de amadurecimento. O que prejudica é o silêncio. É hora, pois, de mostrar que a distensão vai servir a todos e que a liberdade não é propriedade de alguns poucos.” 

Esta disponibilidade, esta “prontidão” da melhor Imprensa para a sua própria crítica, não foi respeitada pela ditadura militar. Em Outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog, director de Jornalismo da TV Cultura de São Paulo, foi morto sob tortura no DOI-Codi  -  Departamento de Operações de Informações  - Centro de Operações de Defesa Interna. 

No domingo seguinte, como conta Luiz Egypto, “Dines dedicou todo o seu espaço a analisar a cobertura jornalística oferecida pela Imprensa brasileira sobre os factos ocorridos naquela semana trágica. ‘Vamos nos ocupar aqui dos aspectos puramente jornalísticos deste episódio que abala o país já há uma semana. Em outras páginas e em outros dias nos ocupamos da morte do jornalista nos seus aspectos morais, legais e políticos’, escreveu Dines, na abertura da coluna”. 

“E o que se segue é um exemplo acabado de media criticism, em que o equilíbrio da análise se sobrepõe à emoção e à raiva. Por essas e outras tantas razões o Jornal dos Jornais marcou época, sobretudo por aplicar à crítica dos media os fundamentos do ofício jornalístico.” (...) 

A longa história do Observatório da Imprensa é contada neste artigo cuja leitura, na íntegra, está acessível, e nenhuma síntese, como esta, pode substituir. Uma última citação, a concluir: 

“Dines defende o jornalismo socialmente necessário, crítico e a serviço do público, exercido sem negligenciar dos fundamentos construídos ainda na era pré-digital, como a isenção, a clareza, a exactidão, a objectividade possível, a fidedignidade, o compromisso com a verdade factual e com o interesse público.” 

“Um [meio] reconhecido pelo rigor com que trata a matéria-prima jornalística e pela probidade em sua relação com as audiências gozará, certamente, de uma inestimável vantagem competitiva no novo mercado nascido sob a égide da revolução digital. Dines e o Observatório sempre estiveram atentos a isso.” (...)

 

O artigo citado, na íntegra, no Observatório da Imprensa

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