Quarta-feira, 16 de Janeiro, 2019
Opinião

O optimismo de Centeno

por Luís Queirós

"A economia da zona Euro cresce há 20 trimestres consecutivos", disse Mário Centeno no Grémio Literário, na palestra, proferida no passado dia 22 de Maio passado, integrada no ciclo que ali decorre subordinado ao tema  "O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções", uma iniciativa do Clube de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e com o Grémio Literário. O Ministro das Finanças de Portugal e presidente do Eurogrupo, grupo informal que integra o Ecofin, o Conselho que coordena, monitoriza e supervisa as políticas económicas, orçamentais e as relações com países terceiros dos 27 estados membros, disse ser um otimista e um defensor do Euro, para ele a peça fundamental da integração.

O essencial do discurso de Mário Centeno consistiu em afirmar os méritos da sua governação e dos bons resultados alcançados com as opções feitas. Resultados expressos na melhoria do deficit, na redução do desemprego (temos mais e melhor emprego!) , na travagem dos fluxos migratórios dos jovens, na afectação de mais recursos à saúde e à educação. Daí que Portugal enfrente hoje o futuro de uma forma muito mais positiva, sendo o equilibrio orçamental conseguido e a consequente redução da dívida, um seguro para o nosso futuro coletivo. Ao  mesmo tempo, e por causa disso, aumentou a auto estima dos portugueses e a melhorou a imagem de Portugal no mundo, país que passou a ser visto como um porto mais seguro.

Confessou-se orgulhoso do seu programa e classificou as suas propostas baseadas num modelo visando o crescimento do rendimento - apresentadas em 2015, ainda no tempo do anterior governo -, como  inovadoras e pioneiras. Três anos depois, já pode avaliar essa trajetória e confirmar a justeza dessas opções. Espera agora que política económica possa ter continuidade, e que através do equilibrio orçamental, do investimento e da excelência do capital humano se crie uma sociedade mais horizontal. Não enjeita reconhecer que para este sucesso também contribuiu uma solução politica inovadora.

A vasta e interessada assistência do Grémio terá saído da sala reconfortada com a serenidade, a confiança e  o otimismo expressos pelo nosso Ministro das Finanças. Eu entendo que "crescimento" é sinónimo de "saúde" de qualquer sistema económico. Mas não partilho inteiramente deste sentimento de euforia. Pois, se a economia europeia (onde se integra a economia portuguesa) cresce de forma regular há cinco anos, Mário Centeno - que se revela um economista da escola do crescimento -,  tem sido, desde que tomou posse, há pouco mais de dois anos e meio, o Ministro das Finanças de um Governo que governa no embalo de uma saudável envolvência económica (à qual não são alheios as baixas taxas de juro, a cotação do petróleo, a expansão da economia digital e o boom do turismo). Ou seja, como economista capaz de enfrentar uma eventual crise (onde lhe competirá diagnosticar as causas e prescrever o tratamento), Centeno ainda não foi posto à prova.

Deixou no ar o aviso de que o crescimento económico desacelera. Estará certamente atento aos sinais de crise que a situação na Itália, o Brexit, a complexidade da situação internacional - em particular no Médio Oriente - prenunciam. Para nós, portugueses, bom seria que o otimismo de Centeno se mantivesse por longo tempo!

 

Connosco
Como os tablóides britânicos condicionaram debate sobre o Brexit Ver galeria

A Imprensa tablóide britânica tem uma longa tradição eurocéptica e eurofóbica, incluindo a promoção de várias “cruzadas” sobre “Euro-mitos” e o uso de títulos muitas vezes grosseiros. Jornais como The Daily Mail, o Sun ou The Daily Express, “foram muito activos a retratar o Reino Unido como vítima da conspiração ‘cosmopolítica’ de Bruxelas que, segundo alguns títulos, iria obrigar o Parlamento a banir as tradicionais cafeteiras ou lâmpadas eléctricas, ou obrigar as senhoras britânicas a devolverem antigos brinquedos sexuais, para se ajustarem às regras da UE”.

O modo como usaram e abusaram do termo “povo” desempenhou um papel crucial no modo como conseguiram “condicionar o debate sobre o referendo do Brexit em torno de dinâmicas tipicamente populistas”. A reflexão é de Franco Zappettini, docente de Comunicação e Media na Universidade de Liverpool, recentemente publicada no Observatório Europeu de Jornalismo.

Será o jornalismo o primeiro ou o segundo "rascunho da História"? Ver galeria

Segundo a citação tornada famosa, o jornalismo é apenas “o primeiro rascunho tosco da História”. Hoje, ultrapassado em velocidade e abundância de material por toda a desinformação que nos chega pela Internet, já nem isso consegue: o “primeiro rascunho”, agora, vem nas redes sociais, cheias de boatos e teorias de conspiração. E os nossos meios de fact-checking não conseguem ganhar a corrida.

“Fazer fact-checking a Donald Trump, por exemplo, é como ligar um detector de mentiras a um artista de stand-up comedy.”
E combater a desinformação pela Internet “é como disparar uma metralhadora contra um bando desordenado de pássaros.”

As imagens citadas são de James Harkin, director do Centre for Investigative Journalism, e a sua sugestão resume-se numa pergunta:

"Por que não tentarmos restaurar a nossa autoridade fazendo menos, mas com mais profundidade e contexto? O resultado seria um tipo mais lento de jornalismo, que assenta na acumulação de detalhes e aponta para as verdades escondidas por baixo. Esta nova abordagem ao jornalismo já está no ar e podemos chamar-lhe segundo rascunho."
O Clube

O Novo Ano não se antevê fácil para os media e para o jornalismo.

Sobram os indicadores pessimistas, nos jornais, com a queda acentuada de  vendas,  e nas televisões, temáticas ou generalistas, com audiências degradadas e uma tendência em ambos os casos para a tabloidização, como forma  já desesperada de fidelização de  leitores e espectadores, atraídos por outras fontes de informação e de entretenimento.


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