Terça-feira, 21 de Agosto, 2018
Memória

Alberto Dines, maestro das redacções e fundador do Observatório

Alberto Dines, sem cujo trabalho pioneiro de crítica dos media no Brasil não existiria o Observatório da Imprensa, dedicou grande parte dos seus 60 anos nesta profissão a criar “condições e oportunidades para se fazer jornalismo com método e para se reflectir o jornalismo com método”. Como disse ele mesmo, no princípio deste século, “as grandes empresas de media brasileiras não querem que o seu poder seja enfrentado por um contrapoder, mesmo que social ou público”. Agora que nos deixou, a sua obra é reconhecida pelos seus pares, que, como Carlos Castilho, apontam que “a observação crítica da Imprensa viria a transformar-se numa necessidade inadiável e insubstituível na era das fake news”. Numerosos testemunhos, reunidos pela equipa do site sob o título “Maestro das redacções”, tomam o espaço principal do Observatório da Imprensa do Brasil  - com o qual o CPI mantém um acordo de parceria, celebrado precisamente com Alberto Dines.

“O Observatório da Imprensa é, assim, caso único de um espaço de reflexão que, embora tenha nascido numa universidade, não é acadêmico. O então reitor da Unicamp, Carlos Vogt, lembra no seu artigo “Ao Dines, com Carinho” as circunstâncias que deram origem ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e ao Observatório da Imprensa durante um encontro entre ele, Dines e Norma Couri em Portugal, no início dos anos 1990.” (...) 

Por seu lado, Norma Couri observa a relevância de um espaço como o portal do Observatório da Imprensa no contexto do excesso de informação da sociedade contemporânea. “O site é esse questionador, esse fazer pensar, essa pausa nas redes sociais, essa releitura e essa recolocação do leitor no lugar de crítico e filtro daquilo que deglute sem mastigar nos media”. (...) 

A constituição de uma voz social única de crítica dos media no Brasil, a partir de Alberto Dines, pode ser observada na selecção de textos da sua autoria que fazem parte do ebook  “Observatório da Imprensa, uma antologia da crítica de media no Brasil de 1996 a 2018”. 

“Pode-se ver ali o exercício da parresía, o dizer verdadeiro na tradição do pensamento grego, tão raro diante dos interesses em jogo em torno do jornalismo.” (...) 

Num depoimento recente a Norma Couri, também publicado nesta edição, Dines explica que a escolha do nome do Observatório da Imprensa teve como inspiração o físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976), criador da mecânica quântica. “Ele dizia que, ao observar um fenómeno, você interfere no fenómeno. Ao observar a Imprensa, você interfere nela, sem mandar, sem controlar”. E completa: “Preocupa perceber que a crítica dos media desenvolveu-se no Brasil, mas ganhou um certo viés ideológico.” 

“Como disse Luiz Egypto, entre os semeadores e os coveiros, Dines alista-se no primeiro grupo. Foi um maestro das redações que nos ensinou a fugir dos saberes estabilizados e da auto-complacência. Por essas e outras, Dines é uma voz que fará muita falta ao jornalismo e à sociedade brasileira. E sua trajectória é um convite a prosseguirmos.” (...)

 

Mais depoimentos no Observatório da Imprensa, e "Um tributo a Alberto Dines", de Rogério Christofoletti, no ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística

Connosco
O perigo instrumentalizar a Rede para uma "guerra digital" Ver galeria

A relação entre os poderes instituídos e o novo poder das redes sociais passou por diversas fases. Houve um tempo em que alguns governos temeram a voz do povo na Internet, e fenómenos como as Primaveras Árabes, que derrubaram regimes instalados, levaram ao bloqueio destas plataformas. “Mas agora muitos governos descobriram que é mais útil intoxicar nas redes sociais do que proibi-las. E os trolls encarregam-se do resto.”

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“Ou seja, é preciso parar de pensar exclusivamente como jornalista e incorporar a lógica dos negócios.”

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