Quinta-feira, 13 de Dezembro, 2018
Evocação

Alberto Dines, maestro das redacções e fundador do Observatório

Alberto Dines, sem cujo trabalho pioneiro de crítica dos media no Brasil não existiria o Observatório da Imprensa, dedicou grande parte dos seus 60 anos nesta profissão a criar “condições e oportunidades para se fazer jornalismo com método e para se reflectir o jornalismo com método”. Como disse ele mesmo, no princípio deste século, “as grandes empresas de media brasileiras não querem que o seu poder seja enfrentado por um contrapoder, mesmo que social ou público”. Agora que nos deixou, a sua obra é reconhecida pelos seus pares, que, como Carlos Castilho, apontam que “a observação crítica da Imprensa viria a transformar-se numa necessidade inadiável e insubstituível na era das fake news”. Numerosos testemunhos, reunidos pela equipa do site sob o título “Maestro das redacções”, tomam o espaço principal do Observatório da Imprensa do Brasil  - com o qual o CPI mantém um acordo de parceria, celebrado precisamente com Alberto Dines.

“O Observatório da Imprensa é, assim, caso único de um espaço de reflexão que, embora tenha nascido numa universidade, não é acadêmico. O então reitor da Unicamp, Carlos Vogt, lembra no seu artigo “Ao Dines, com Carinho” as circunstâncias que deram origem ao Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e ao Observatório da Imprensa durante um encontro entre ele, Dines e Norma Couri em Portugal, no início dos anos 1990.” (...) 

Por seu lado, Norma Couri observa a relevância de um espaço como o portal do Observatório da Imprensa no contexto do excesso de informação da sociedade contemporânea. “O site é esse questionador, esse fazer pensar, essa pausa nas redes sociais, essa releitura e essa recolocação do leitor no lugar de crítico e filtro daquilo que deglute sem mastigar nos media”. (...) 

A constituição de uma voz social única de crítica dos media no Brasil, a partir de Alberto Dines, pode ser observada na selecção de textos da sua autoria que fazem parte do ebook  “Observatório da Imprensa, uma antologia da crítica de media no Brasil de 1996 a 2018”. 

“Pode-se ver ali o exercício da parresía, o dizer verdadeiro na tradição do pensamento grego, tão raro diante dos interesses em jogo em torno do jornalismo.” (...) 

Num depoimento recente a Norma Couri, também publicado nesta edição, Dines explica que a escolha do nome do Observatório da Imprensa teve como inspiração o físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976), criador da mecânica quântica. “Ele dizia que, ao observar um fenómeno, você interfere no fenómeno. Ao observar a Imprensa, você interfere nela, sem mandar, sem controlar”. E completa: “Preocupa perceber que a crítica dos media desenvolveu-se no Brasil, mas ganhou um certo viés ideológico.” 

“Como disse Luiz Egypto, entre os semeadores e os coveiros, Dines alista-se no primeiro grupo. Foi um maestro das redações que nos ensinou a fugir dos saberes estabilizados e da auto-complacência. Por essas e outras, Dines é uma voz que fará muita falta ao jornalismo e à sociedade brasileira. E sua trajectória é um convite a prosseguirmos.” (...)

 

Mais depoimentos no Observatório da Imprensa, e "Um tributo a Alberto Dines", de Rogério Christofoletti, no ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística

Connosco
Redes sociais destronam jornais como fonte de informação nos EUA Ver galeria

A fronteira foi passada para o lado das redes sociais. Segundo os dados mais recentes do Pew Research Center, 20% dos leitores dos EUA procuram agora, “regularmente”, informação nas redes sociais, e só 16% nos jornais impressos. Os números estavam equilibrados em 2017 e, no ano anterior, os 20% continuavam do lado dos jornais em papel, com 18% nas redes sociais.

As causas são conhecidas. A Imprensa norte-americana não está de boa saúde, e o fecho sucessivo de diários e semanários locais, nos últimos anos, criou autênticos “desertos mediáticos” em vários territórios. Por seu lado, os grandes jornais reforçaram a sua componente digital, o que também se sente no estudo aqui citado: 33% dos leitores visitam regularmente esses sites, quando eram 28% em 2016.

A televisão continua, com quase metade do universo consultado (49%), a ocupar o primeiro lugar entre os meios de informação nos Estados Unidos. As estações locais são as mais procuradas (37%), à frente das redes por cabo (30%) e dos noticiários das grandes cadeias nacionais (25%).

Porque querem os milionários comprar jornais em vez de canais de TV Ver galeria

Por que motivo é que alguns milionários que fizeram as maiores fortunas do mundo se põem a comprar jornais e revistas à beira da falência e sem modelo de negócio rentável? Por que não compram antes canais de televisão, que têm melhor saúde financeira? A pergunta é do jornalista Miguel Ángel Ossorio Vega, que apresenta meia dúzia de exemplos recentes, com Jeff Bezos à cabeça: em 2013, o fundador e proprietário da Amazon pagou 190 milhões de dólares por The Washington Post, um jornal em papel.

A moda pegou e seguiram-se outros: Marc Benioff, fundador da Salesforce, comprou a revista Time; Craig Newmark, fundador da Craiglist, tem doado grandes somas a várias iniciativas na área do jornalismo, entre elas a ProPublica e o Poynter Institute, bem como à Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque; Patrick Soon-Shiong comprou Los Angeles Times.

O autor desta reflexão lembra que os meios tradicionais continuam a ser mais influentes do que os digitais, salvo honrosas excepções, e segue esta pista citando as três componentes da estratificação social, de Max Weber, que expõe as diferenças entre os conceitos de riqueza, prestígio e poder.

O Clube

Foi em Novembro de 2015 que o Clube Português de Imprensa criou este site, consagrado à informação das suas actividades e à divulgação da actualidade relacionada com o que está a acontecer, em Portugal e no mundo, ao jornalismo e aos   jornalistas.

Temos dedicado , também, um espaço significativo às grandes questões em debate sobre a evolução do espaço mediático, designadamente,  em termos éticos e deontológicos,  a par da  transformação das redes sociais em fontes primárias de informação, sobretudo  por parte das camadas mais jovens.


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Opinião
O Presidente Marcelo é um dos poucos políticos portugueses com legitimidade para colocar a questão dos apoios do estado à produção jornalística porque ele é produtor e produto do sistema mediático.A sua biografia confunde-se com a liberdade de imprensa e a pergunta que Marcelo faz é, para ele, uma questão de consciência presidencial.Dito isto, pergunto:O que diríamos nós se fosse Donald Trump a...
Perante a bem conhecida e infelizmente bem real crise da comunicação social o Presidente da República questionou, há dias, se o Estado não tem a obrigação de intervir. Para Marcelo Rebelo de Sousa há uma "situação de emergência", que já constitui um problema democrático e de regime. A crise está longe de ser apenas portuguesa: é mundial. E tem sobretudo a ver com o facto de cada vez mais...
Há, na ideia de uma comunicação social estatizada ou ajudada pelo governo, uma contradição incontornável: como pode a imprensa depender da entidade que mais se queixa da imprensa? Uma parte da comunicação social portuguesa – televisão, rádio, imprensa escrita — é deficitária, está endividada e admite “problemas de tesouraria”. Mas acima desse, há outro problema, mais grave:...
O jornalismo estará a render-se à subjetividade, rainha e senhora de certas redes sociais. As ‘fake news’ e o futuro dos media foram dos temas mais falados na edição de 2018, da Web Summit. Usadas como arma de arremesso político e de intoxicação, as notícias falsas são uma praga. Invadem o espaço público, distorcem os factos, desviam a atenção, comprometem a reflexão. E pelo caminho...
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