Quarta-feira, 26 de Junho, 2019
Jantares-debate

Mário Centeno: “Há sempre alternativas”, mas “os riscos estão sempre presentes”

O exercício de cargos de governo “é uma missão de serviço público” e, portanto, de “representação de escolhas colectivas”, as quais devem ser feitas entre opções bem clarificadas perante a sociedade. Porque “há sempre alternativas”. Mas é também verdade que a alternativa pode significar opções de “regresso a algo por que Portugal já passou”, sabendo que “os riscos estão sempre presentes”. Foi esta a linha de discurso de Mário Centeno, Ministro das Finanças, orador convidado no jantar-debate promovido pelo Clube Português de Imprensa, em parceria com o Centro Nacional de Cultura e o Grémio Literário, sob o tema que tem presidido a esta série - “O estado do Estado: Estado, Sociedade, Opções”.

Tendo iniciado a sua palestra com uma evocação de António Arnaut como exemplo elevado desse espírito de serviço público, Mário Centeno sublinhou que “devemos sempre clarificar as diferentes opções e guiar a escolha pela que melhor traduz o debate que a sociedade faz em seu torno; uma sociedade sem debate destas opções é uma sociedade menor”.

 

E prosseguiu afirmando que “as escolhas que foram feitas têm vindo a permitir o desenvolvimento gradual, mas seguro, do País”: 

 

“Hoje temos, felizmente, mais portugueses com emprego, diria mesmo com melhores empregos e melhores salários; nós quebrámos o maior ciclo, desde a década de 60 do século passado, de emigração em Portugal  - de uma emigração qualificada, que reduzia a dimensão do nosso mercado de trabalho, daqueles que mais poderiam fazer pelo futuro do País. (...) E hoje Portugal enfrenta o futuro, nesta perspectiva, de uma forma muito mais positiva.” (...)

 

Sobre esta matéria, recordou o seguinte:

 

“Muitas vezes, falando com estrangeiros, e em particular do centro da Europa, refiro uma sondagem que passou muito desapercebida em Portugal, em Junho de 2017, em que se perguntou, sobre três eventos, qual o que mais aumentou a auto-estima dos portugueses. Esses três eventos eram: termos ganho o Campeonato da Europa de Futebol, em 2016, termos ganho o concurso da Eurovisão em Maio de 2017, e termos saído do procedimento por défices excessivos, em Abril de 2017.”

 

“E a verdade é que, com quase metade dos votos, o que ganhou foi a saída do procedimento por défices excessivos. (...) Até na ‘sub-amostra’ dos homens a saída do PDE ganhou ao futebol, e isto reflecte a consciência, a importância que a sociedade portuguesa dá hoje às questões de sustentabilidade, do trajecto que tivémos de fazer, das dificuldades que tivémos de enfrentar, e só com critérios de sustentabilidade conseguimos projectar o futuro.” (...)

 

Mário Centeno lembrou ainda que “passámos por um período em que a existência de alternativas era colocada em dúvida, mas não devemos  - e muito menos, seguramente, no âmbito de uma conversa como a que vamos estabelecer aqui -  pôr em causa a existência de alternativas. Há sempre alternativas”.

 

“Mas a alternativa pode significar opções que representem aquilo que eu também referi como sendo o regresso a algo por que Portugal já passou. (...)

“E na verdade, se alguma coisa esta última década e meia mostrou às nossas sociedades  - à sociedade europeia, que está em construção, e bem -  é que os riscos estão sempre presentes. E às vezes são maiores do que aquilo que parecem, principalmente quando (numa atitude porventura normal no comportamento dos homens, que a economia estuda) com alguma complacência nos possamos afastar da definição desses riscos.” (...)

 

É por esse motivo  - prosseguiu -  que “queremos colocar Portugal numa posição de equilíbrio orçamental, que é uma condição essencial para que o Estado, as famílias e as empresas possam enfrentar o futuro com mais confiança”. (...)

 

“É para isso que o Estado é chamado. E o desígnio de governar, de gerir, deve ser exercido com este sentido de equilíbrio  -  porque o Estado deve desempenhar as funções de soberania, que todos sabemos listar, mas também as funções sociais, que elegemos como prioritárias e que são absolutamente essenciais à coesão da sociedade portuguesa nas suas diferentes dimensões.” (...)

 

Tendo sido citada, na apresentação do orador, a sua participação na feitura, em 2015, do programa que acabou por ser a base do Programa do Governo actual, Mário Centeno recordou que esse texto apresentava “de forma muito clara, à sociedade portuguesa, um conjunto de opções e as consequências económicas e financeiras dessas opções”.

 

“Passados três anos, podemos olhar para essas propostas, para essas alternativas, e avaliar se o cenário que então desenhámos está ou não a ser seguido. E a verdade é que temos hoje os indicadores macro-económicos com uma proximidade muito significativa àqueles que na altura propusémos.” (...)

 

“O modelo que propusémos, e as propostas que fizémos, eram de uma economia em que o rendimento crescesse, e que fosse distribuído, quer por empresas, quer por famílias, que permitisse o aumento do investimento, em que o Estado tinha o seu papel nos serviços públicos  -  e, três anos depois, podemos avaliar essa trajectória.” (...)

 

“O carácter pioneiro deste exercício deixa-me, se me é permitido, de certa forma orgulhoso, mas nós sabemos que é necessário fazer opções, continuar a fazê-las de forma responsável, porque é o único caminho que é possível ter para construir um País melhor.”

 

A concluir, Mário Centeno exprimiu o desejo de que este caminho “possa ter continuidade”, sendo sempre debatidas “abertamente todas as opções”:

 

“Foi isso que tentámos fazer, para o bem da democracia em Portugal, é verdade que também a solução governativa foi inovadora, do ponto de vista do seu espectro partidário, e são esses os momentos que robustecem as sociedades e eu gostaria de partilhar convosco a importância que isso tem para o futuro de Portugal.”
Connosco
"Metástases" da desinformação espalham-se pelo mundo Ver galeria

O alastrar da desinformação, potenciado pelas capacidades de contágio “viral” da revolução tecnológica, teve um impacto transformador sobre o jornalismo. Nos Estados Unidos, um dos primeiros factos surpreendentes com que os jornalistas tiveram de lidar, logo após a eleição de Donald Trump, foi a noção de que hackers russos, em “fábricas” de conteúdos, podiam semear desordem no eleitorado americano e desacreditar o jornalismo autêntico.

“Por vezes, os leitores encontravam notícias verdadeiras que Trump procurava desacreditar porque não gostava do modo como o faziam parecer;  outras vezes encontravam a deformação intencional da informação para distorcer a verdade;  em muitas ocasiões, o que encontravam era apenas completo absurdo.”  
E deixou de ser um problema local. As “metástases” da desinformação espalham-se pelo mundo e o jornalismo é arrastado para o caos:

“Vimos isso na Birmânia e no Brasil, no Sri Lanka e na Nova Zelândia, por vezes em campanhas orquestradas que trazem a dedada de agentes estatais, por vezes em manifestos individuais de mentes perturbadas. O resultado é sempre o mesmo: relatos falsos envenenam as plataformas que abrigam o verdadeiro jornalismo. Ninguém na Imprensa está a salvo de ver o seu trabalho, sério e diligente, exposto na enxurrada.”
A reflexão é de Kyle Pope, director da Columbia Journalism Review, em “Todo o jornalismo é global”.

O pesadelo dos jornalistas filipinos perseguidos pelo regime Ver galeria

A luta pela liberdade de Imprensa pode ser uma guerra de resistência entre os carcereiros e os candidatos a presos  - que são todos os jornalistas que tenham a coragem de o ser. Num dos mais recentes episódios em que foi detida, em Fevereiro de 2019, a jornalista filipina Maria Ressa, fundadora do site Rappler, comentou ironicamente à saída do tribunal:

“Esta é a sexta vez que pago fiança, e vou pagar mais do que criminosos condenados. Vou pagar mais do que Imelda Marcos.”

Como conta no artigo “Alvos de Duterte”, que aqui citamos, o Presidente das Filipinas, que “foi o primeiro político do meu país a usar as redes sociais para ganhar umas eleições, conduz uma campanha incansável de desinformação (trolling patriótico) para reduzir os críticos ao silêncio”:

“O seu governo vomita mentiras a tal velocidade que o público já não consegue saber o que é realidade. Mesmo os seus próprios membros ficam confusos.”

“Desde Junho de 2016, quando Rodrigo Duterte se tornou Presidente, houve cerca de 27 mil assassínios decorrentes da sua ‘guerra contra a droga’. Este número vem das Nações Unidas, mas não foi muito divulgado. A polícia mantém a sua própria contagem menor, pressionando os órgãos de informação a publicá-la.”

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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Opinião
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