null, 24 de Março, 2019
Memória

Livro de memórias de Pedro Rolo Duarte sem ser autobiografia

Pedro Rolo Duarte, que nos deixou em Novembro de 2017, deixou também um conjunto de textos agora reunidos e publicados em livro. O título, “Não Respire”, vai direito a um tema incontornável, que o autor assume e é continuado logo abaixo, na mesma capa: “Tudo começou cedo demais (e quando dei por isso era tarde)”.
O Observador, que publica excertos de momentos marcantes da sua vida, explica que “a autobiografia póstuma do jornalista, que a editora Manuscrito acabou de publicar, fala naturalmente da doença, mas não só”. O primeiro desses excertos é “o vício do tabaco”. Mas as 296 páginas “estão repletas de histórias de uma vida cheia. Nelas, Rolo Duarte recordou os melhores tempos de uma carreira com mais de 30 anos (a fundação d’O Independente, do DNA), os amigos, as paixões e os vícios. Sempre com grande saudade mas sem uma ponta de pessimismo.”

A recolha feita pelo Observador condensa sobretudo os textos que descrevem as melhores experiências profissionais descritas na autobiografia, como o nascimento d’O Independente, a revista Kapa e o suplemento DNA

Correcção imposta pela leitura do autor: 

“À medida que vou relendo estas «notas» e as «ordeno» sem qualquer ordem, tenho mais certezas sobre a escolha que fiz. Textos soltos, tempos que andam para a frente e para trás, nexos que encontro e provavelmente mais ninguém encontra. Assim, clara e humildemente, assumo que não estou a escrever uma autobiografia e que me apetece apenas partilhar ideias e episódios que a memória ainda regista e gostaria de ver impressos. Fica de fora pelo menos uma dose de histórias igual à que publico — dos tempos do Sete ao Correio da Manhã Rádio, da Visão aos projectos paralelos em que me envolvi. Quem sabe um segundo volume? Haja tempo.” (...) 

Sobre o suplemento DNA, no Diário de Notícias, “o produto editorial que sempre quis fazer”, Pedro Rolo Duarte afirma: 

“O DNA durou dez anos, ganhou todos os prémios que havia para ganhar, no domínio do jornalismo, da fotografia, do design. A insuspeita norte-americana SND (Society for News Design) escreveu, no livro de premiados da sua 20.ª edição, relativa a 1998, que o DNA poderia figurar na galeria do «melhor do século», sublinhando o destaque dado à fotografia, à tipografia e à gama de cor. Nesse ano, o suplemento venceu diversas categorias e teve medalha de ouro na mais relevante: overall magazine design.” (…) 

“As vendas do jornal, no dia do suplemento, ajudaram. Os prémios revelação consecutivos do Clube dos Jornalistas solidificaram toda aquela soma de sorte, intuição e sentido de oportunidade que, por uma vez, consegui juntar… Dei-me conta, anos mais tarde, de que tinha pensado, concebido e produzido, do primeiro ao último dia, o produto editorial que sempre tinha querido fazer e nunca julguei possível desenvolver.”  (…) 

O último excerto é sobre “o que é realmente importante”. Citamos: 

“O que é importante, realmente? A importância existe? No passado, essa medida da relevância era-nos dada, dia a dia, pelos jornais. Houve um tempo em que os principais diários britânicos ocupavam a sua primeira página com notícias «importantes». Se não havia em número suficiente, uma parte dessa primeira página ficava em branco… (…) O mais importante é o que mais nos diz respeito. Hoje.”

 

A recolha aqui citada, no Observador

Connosco
O jornalismo entre os "apóstolos da certeza" e a "política da dúvida" Ver galeria

Há uma grande diferença entre um jornalismo “de elite” e aquele que vive dependente do clickbait. Há uma grande diferença, temporal, entre o que se faz hoje e o que se fazia há poucos anos  - tratando-se de tecnologia digital, “o que aconteceu há cinco anos é história”. E há uma grande diferença entre entender o que está a acontecer aos jornalistas e entender o que os jornalistas acham que lhes está a acontecer.

A reflexão inicial é de C.W. Anderson, que se define como um etnógrafo dedicado a estudar o modo como o jornalismo está a mudar com o tempo. Foi co-autor, com Emily Bell e Clay Shirky, do Relatório do Jornalismo Pós-Industrial, em 2012, na Universidade de Columbia. O seu trabalho mais recente é Apóstolos da Certeza: Jornalismo de Dados e a Política da Dúvida, livro em que analisa como a ideia de jornalismo de dados mudou ao longo do tempo.

Cidadão dos EUA, C.W. Anderson é hoje professor na Escola de Jornalismo da Universidade de Leeds, no Reino Unido. A entrevista que aqui citamos foi publicada no Farol Jornalismo, do Medium, e reproduzida no Obervatório da Imprensa do Brasil, com o qual mantemos um acordo de parceria.

Onde os jornalistas revelam uma relação de amor-e-ódio com gravadores Ver galeria

Há jornalistas que fazem questão de dizer que nunca gravaram uma entrevista. Há os que não dispensam o seu gravador de som. Há os que gravam e “filmam” com o telemóvel, explicando que só o vídeo acrescenta a expressão facial.

Há os que são mesmo opostos ao uso do gravador, e explicam porquê. E há os que decidem em que casos se deve levar um gravador  - cuja simples presença pode alterar a disponibilidade do entrevistado.

Há os que se gabam da sua velocidade de escrita e memória do que foi dito, e há os que consideram os que fazem isto como desleixados ou demasiado confiantes. E, finalmente, há situações em que, até por lei [por exemplo nos EUA], não se pode gravar nem filmar nem fotografar.

Matthew Kassel, um freelancer com obra publicada em The New York Times e The Wall Street Journal, interessou-se por esta questão e reuniu os depoimentos de 18 jornalistas sobre os vários lados da questão.

O Clube


Lançado em Novembro de 2015, este site tem vindo a conquistar uma audiência crescente, traduzida no número de visitantes e de sessões e do tempo médio despendido. É reconfortante e  encorajador, para um projecto concebido para ser um espaço de informação e de reflexão sobre os problemas que se colocam, de uma forma cada vez mais aguda, ao jornalismo e aos  media.

Observa-se , aliás, ressalvadas as excepções , que a problemática dos media , desde a precariedade  dos seus quadros às incertezas do futuro -  quer no plano tecnológico  quer no editorial - , raramente  constitui  tema de debate  nas páginas dos jornais, e menos ainda nas  suas versões  online ou nos audiovisuais. É um assunto quase tabú.


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